Sorteio Fatal
2 Capítulo 1
Herne Bay, 8 de Julho de 1921.
Quando chegamos ao estacionamento do Resort Gardiner, em Herne Bay, Mr. Field despertava de seu longo cochilo enquanto nos movíamos pela estrada afora, murmurando algo como ‘já chegamos?’ ao motorista, que afirmara positivamente. Este descera do carro, abrindo a porta para ambos de nós, fazendo um simpático cumprimento com a cabeça e dirigindo-se à nossas bagagens, que permaneciam cautelosamente guardadas no interior do veículo.
Dei uma olhada ao redor do Resort. As paredes eram formadas por milhares de pedras claras, unidas umas às outras perfeitamente, de forma que assemelhavam-se a uma verdadeira obra de arte. O chão no qual pisávamos era feito somente de areia branca, em lados aleatórios com pequenos montes formando, e outros descobrindo o verdadeiro solo do terreno, tal qual era uma rocha negra. Particularmente, em minha franca opinião, eram um tanto quanto exageradas as quantidades de janelas presentes no recinto. Contei mais de vinte janelas em apenas um cômodo. Não fui apta de entender o motivo da superabundância destas no lugar, todavia, também não desprezarei, de forma alguma. Preferências são pessoais. Afinal, quem sou eu para julgar o peculiar senso de decoração de Mr. e Mrs. Gardiner, que são os que dispõem de todo o gerenciamento, comando e posse do local, não é mesmo?
“Miss Hewitt?”—Chamou a mim o motorista, carregando nas mãos duas malas.”Aqui está sua bagagem, senhorita. Aproveite a estadia.”—Disse, entregando-me minha mala, logo após, entregando a mala de Mr. Field.
“Obrigada, Senhor…?”
“Wells. Wilson Wells.”—Completou.
“Agradeço pelo serviço e cordialidade, Mr. Wells. Aqui está uma gorjeta.”—Abri minha bolsa de mão, retirando de minha carteira duas libras e dando-as a ele.
“Não há de quê, Miss Hewitt. É sempre um prazer atender os clientes com todo o respeito e carisma. Muitíssimo obrigado.”—Ressaltou, tomando o dinheiro e guardando-o no bolso. Subitamente, notei sua expressão facial mudar. Seu rosto emanava pavor, medo, como se visse um temível vulto passar por mim. Estremeci levemente, temendo que este vira algo sinistro e ficasse sem palavras para dizer qualquer coisa que fosse. Me virei, procurando por sinal de perigo, mas falhei em encontrar. Não se via um movimento sequer no estacionamento, além da leve brisa marítima soprando calmamente.
“Algo de errado, senhor?”—Questionou Mr. Field, que, assim como eu, permanecia estupefato pela repentina mudança de humor de Mr. Wells.
Este aproximou-se de nós, arregalando os olhos com a respiração pesada, ora ou outra checando todos os cantos do lugar com os olhos inquietos.
“Vocês...Oh, jovens! Quão jovens são, isto sou capaz de notar, sim! Peço-lhes humildemente, por favor! Vos suplico. Guardem na cabeça.”—Fez um gesto com o dedo indicador, apontando para a própria cabeça.”Sejam cautelosos. Muito cuidado deverão ter!”
“O que quer dizer, Mr. Wells? Com o quê devemos ter cuidado?”—Indaguei, com a mente atordoada pelos dizeres do homem.
“Cuidado com…”—A fala fora interrompida por barulhos de passos, vindos do lado traseiro da cerca que separava o estacionamento do resto do Resort. O pequeno portão da cerca de madeira fora aberto, revelando uma jovem moça com um semblante animado estampado em sua face. A mesma possuía pequeninos olhos castanhos com longos cílios os adornando, lábios róseos semelhantes aos de uma boneca de porcelana, um queixo acentuado, contrastando com seu formato de rosto consideravelmente fino, negros cachos arranjados em um corte que deixava toda a extensão do pescoço à mostra, todavia, cobria as orelhas. Ademais, vestia em seu corpo esguio um belo vestido branco com franjas decorando o final, cômicos sapatos amarelos com fivelas douradas e um simples colar rubi.
“Desculpem-me se atrapalhei algo, mas... Vocês são Mr. Field e Miss Hewitt, os vencedores do sorteio em Londres?”
Ambos assentimos afirmando que sim no mesmo instante.
“Que ótimo! Estava à procura de vocês.”—Dirigiu-se à nós, nos cumprimentando alegremente.”É um prazer os conhecer. Me chamo Hollie Hargreaves. Vim aqui avisá-los de que estão os esperando na recepção.”
“O prazer é todo nosso, Miss Hargreaves.”—Respondeu Mr. Field, e lancei um sorriso à moça.”Certamente, lamento pela demora. Miss Hewitt, você vem?”
“Só me deem um minutinho. Oh, não precisam me esperar, não. Fiquem à vontade para entrarem. Em pouco tempo entrarei.”
“Tudo bem, Miss Hewitt.”—Pronunciaram-se em uníssono. Caminharam juntos até o portão, adentrando o cercado, desaparecendo de minha vista.
Tornei a me virar na tentativa de conversar novamente com o motorista que nos conduzira até aqui, com a pulga atrás da orelha em relação a seus misteriosos avisos, e perguntar com o quê deveríamos ter cautela em específico. Fui para espaços paralelos no estacionamento, andei em círculos e dei inúmeras voltas, mas não obtive nem um sinal de vida sequer do homem. Decorrente de minha falha em o buscar, obviamente fiquei frustada. Onde havia se metido? Não é possível estar aqui em um minuto, e em outro, desaparecer como vapor! Que havia acontecido com o senhor? Que significado tinha seu aviso? Ora, não posso me sentir culpada! A curiosidade é uma característica naturalmente humana e todos têm, independentemente de quem seja o indivíduo.
Aceitando a cruel derrota, me direcionei ao outro lado da cerca, que encontrava-se aberta, indo até a recepção do Resort. Temo perder noites de sono devido a esse mistério todo, infelizmente não solucionado.
A curiosidade matou o gato, e presumo que irá me matar também, inclusive não sendo um felino.
******
Quando mencionam a palavra ‘sorteio’, penso em uma competição, com um prêmio distribuído para, no máximo, dois vencedores. Tive este mesmo pensamento nesta competição promovida pelo Resort Gardiner. Estava crente de que apenas eu e Mr. Field íamos aproveitar a estadia no recinto durante os tais oito dias.
Me deparar com mais quinze ganhadores do sorteio foi deveras inesperado. Dentre estes quinze, está Miss Hargreaves, que se apresentara mais cedo. Não que eu esteja insatisfeita com a situação, de forma alguma. É até agradável ter mais companhia durante estes oito dias do que permanecer em um local vazio, com pouquíssimo movimento. Mas devo confessar que fora uma tremenda surpresa, tanto como para mim quanto para Mr. Field, que inclusive, chegara a mencionar os folhetos espalhados em Londres, dizendo sobre apenas dois vencedores. A própria Mrs. Gardiner, proprietária do Resort, negou, explicando a todos que o sorteio se tratava de, ao total, dezessete vencedores em diversas cidades do Reino Unido. O folheto apenas mostrava os ganhadores locais, sem informar os de outras cidades distintas.
A propósito, falando de Mrs. Gardiner, esta exalava simpatia e ternura. Fora excepcionalmente atenciosa conosco, e se expressava de forma doce, com gestos calmos. Seus cabelos eram unicamente claros, presos em um coque cuidadosamente elaborado, com tranças e grampos entrelaçados. As orbes cor de mel embelezavam sua face, a dando um ar aristocrático, juntamente com a pinta em sua maçã do rosto saliente, presente no lado esquerdo.
Após o tour guiado pelo Resort, decidimos subir. O relógio marcava dezesseis horas e cinquenta e nove minutos quando me encontrei no segundo andar do Resort. Fora determinado a nós que os rapazes ficariam em estadia na ala leste, enquanto as moças, permaneceriam na ala oeste. Cada pessoa teria sua própria suíte, tendo cada um as chaves em mãos até o último dia. Todos nós poderíamos andar livremente pelo local do amanhecer até as exatas dez horas e trinta minutos da noite, tal qual os portões principais seriam trancados e as luzes dos corredores apagadas. Dois ou três não se contentaram com as regras no começo, mas após longos minutos com questionamentos e respostas, aceitaram os termos.
Retirei a chave de meu respectivo quarto de minha bolsa, e a introduzi na fechadura. Ao adentrar no cômodo, notei um pequeno papel repousando sob a escrivaninha. Por curiosidade, peguei-o em minhas mãos, e me pus a analisar e ler este. Dizia:
Resort Gardiner
Horários:
8h00-9h30: Desjejum
12h30-13h30: Almoço
17h00-17h30:Chá da Tarde
19h30-20h30: Jantar
Me dei conta do tempo, e logo associei que era hora do chá da tarde. Depositei o bilhete em minha cama, e mal analisei o quarto, novamente abrindo a porta e trancando-a, rumo a sala de jantar exterior.
Chegando nesta, lá estavam oito de nós, além de Mrs. Gardiner. Mr. Field, dialogando confortavelmente com Miss Hargreaves e Mr. Wyatt, Miss North e Brennan compartilhando e retocando as maquiagens, Mr. Austin e Miss Rowe rindo juntos de algum assunto ou piada em especial e Miss Newman bebendo seu chá quietamente, sem olhar para o lado ou papear com os outros ali presentes. Senti um bocado de pena por ela por estar tão deslocada dos outros. Optei por me acomodar em uma cadeira posta próxima a ela e iniciar uma conversa.
“Olá, Miss Newman, boa tarde.”
Esta levantou o olhar e o direcionou a mim, abrindo um sorriso e colocando a xícara sob o pires de cerâmica na mesa.
“Miss Hewitt! Olá! Uma boa tarde a você, igualmente.”-Saudou-me.
Emma Newman certamente era tímida, mas aparentava ter um ótimo caráter. Sendo a moça do local com o maior comprimento das madeixas, a ruiva chamava atenção. Sardas espalhadas por seu rosto a deixavam mais jovem do que realmente era, contrastando o rosto redondo. Usava um vestido verde-acinzentado com mangas curtas deveras discreto e calçava sapatos parecidos com os meus: pretos e com salto quadrado baixo.
“O clima está maravilhoso, não acha?”-Perguntei, mantendo o assunto vivo.
“Certamente, Miss Hewitt. Está admirável.”
Progressivamente chegavam os outros. Respectivamente, compareciam em ordem Miss Coates, Miss Burgess, Mr. Leach, Miss Hartley, Mr. Sharpe, Mr. Hyde, Miss Owen, e, por fim, Mr. Graham.
Com todos sentados à mesa, falavam uns com outros, bebericando um gole de chá das xícaras e rindo. Minutos depois, Mr. Gardiner aparecera, apresentando-se para nós e passando a sentar juntamente da esposa. Não hesitava em falar conosco, abertamente dizendo sobre todas as infinitas regalias que o Resort oferecia. Contou algumas histórias engraçadas de seu passado, e a maioria pareceu se divertir muito. Ao término do chá da tarde, as serventes foram dispensadas por Mrs. Gardiner, que levantou-se e sugeriu que déssemos uma volta para melhor conhecimento e exploração do lugar. Fomos cada um em diferentes direções, decidindo para onde ir primeiro. Meu primeiro destino fora o jardim, já que minha busca era de um lugar pacífico.
******
Quando todos terminaram de jantar, eram oito horas e vinte minutos da noite. Fora uma refeição digna da realeza: Purê de batatas, ervilhas ao molho agridoce, milho na espiga com manteiga, feijões verdes apimentados, salada de peixes frescos com azeitonas e vinagre balsâmico, abóbora com frutos do mar, queijos e pães diversos, peru assado, vinho branco e salada de frutas. Após o jantar, alguns subiam para suas suítes, outros iam até o exterior. Encaixei-me no grupo dos que subiram para o segundo andar, pois meu propósito era desfazer a mala e banhar-me devidamente sem pressa nenhuma.
Destranquei a já familiar porta, entrando no cômodo. Tirei com zelo cada peça de roupa que coloquei na mala, as acomodando no guarda-roupa colossal próximo à escrivaninha. Lembravam até uma criança perdida em uma multidão. O objeto guardava cem peças de roupas variadas facilmente, sem ao menos dobrá-las. Se nossos quartos têm coisas deste tipo, inimagináveis para muitos, os dos proprietários devem ser o triplo de tudo isto, sem um pingo de dúvidas.
Pus a mala em um canto próximo a penteadeira, e me dirigi até o banheiro. Fiquei pasma no mesmo segundo em que adentrei. As paredes eram de piso de mármore branco polido, extremamente brilhante, com alguns adornos dourados. O chão era incrivelmente liso, e até refletia meu próprio reflexo. Em meu lado direito, estava pendurado um espelho que aparentava ser uma relíquia, com aspecto romântico. A banheira era o sonho de consumo de muitos, incluindo eu. Possuía dois metros de comprimento, e um metro de largura, com profundidade adequada para todos. Dentro de uma prateleira, viam-se sais de banho, a maioria nunca vistos por mim anteriormente, alinhados perfeitamente. Mal pensei duas vezes e corri para a banheira, abrindo a torneira e despejando água quente na banheira.
Com a banheira cheia, banhei-me com capricho com sais de banho de erva-doce e margaridas do campo. Sequei meu corpo e envolvi meu cabelo com presilhas e grampos, para poder dormir confortavelmente. Logo depois de escovar meus dentes, vesti minha camisola longa.
Aproveitei o tempo livre e li algumas páginas de um livro iniciado há alguns dias atrás. Chamava-se Entre Máscaras e Disfarces. Um livro interessante, de fato. Sempre tive algo em especial com livros de mistério. É incrível como os autores sempre conseguem narrar os pensamentos dos personagens e criar uma personalidade única para cada um deles. Alguns, nunca me esqueço. Palavras tornam-se histórias espetaculares e nos fazem sempre querer mais e mais, como continuações. Nos livros de mistério, os criadores das tramas são audaciosos, de fato, e sabem esconder muito bem quem era o verdadeiro criminoso em todo o tempo. Em todas as vezes que li livros com a categoria de mistério, me surpreendi com a revelação do autor do crime. Quem menos esperamos, é o culpado, no final das contas.
Vendo a hora no relógio, fechei o livro, guardando-o na estante. As luzes já estavam apagadas e os portões fechados. Certifiquei-me de que a porta do meu quarto estava fechada, e com a confirmação de que realmente estava, me deitei na cama, enrolando meus braços nos macios lençóis.
Prestes a adormecer, abruptamente fui despertada com batidas secas e agudas de galhos de árvore na janela. Esperei um ou dois minutos até que parassem, mas isto não aconteceu.
A intensidade aumentava, e me preocupava ainda mais.
Repentinamente, me dei conta de que as batidas não eram quaisquer, tampouco aleatórias. Formavam um padrão.
Oh, agora posso notar! Tudo faz sentido! As batidas, na verdade, são Código Morse. Querem transmitir algum significado!
Levantei-me, indo até a escrivaninha e apanhando um pedaço de papel e caneta. Conforme as batidas na janela avançavam, fui anotando o que cada uma significava, assim procurando formar uma frase coerente.
c, a, u, t, e, l, a, c, o, m, m, r.
O resto do padrão fora interrompido por um baque surdo, e nada mais fora ouvido por mim. Reparei que o galho sumira da janela, e o único som que prevalecia era a minha própria respiração.
Pouco a pouco, fui desenvolvendo em minha mente o significado da mensagem.
Cautela…Com...Mr...
Um momento! Cautela! Hoje, quando eu e Mr. Field chegamos aqui no Resort, o motorista, Mr. Wells, tentara nos avisar de algo! Pedia para nós termos cautela, cuidado!
Oh não! Era Mr. Wells fazendo estes sons e me enviando o recado todo este tempo.
Abri a janela, sentindo a brisa marítima em minha face, e procurei por Mr. Wells abaixo de mim.
Contudo, não avistava-se uma alma viva sequer.
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