Notas iniciais
Consegui terminar este capítulo antes da hora. Pretendia adicioná-lo nessa sexta-feira, e manter essa rotina semanal. Mas felizmente, fui produtiva, e adiei. Aliás, enquanto escrevia, escutei essa música aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0ycj2SwFG3w Além de ser lindíssima, me inspira bastante! ♥ Sem mais delongas, aproveitem, e boa leitura.

Herne Bay, 9 de Julho de 1921.

Mal pude dormir tranquilamente naquela noite anterior. A forte balbúrdia remoendo em minha mente esvaía todo o sono que antes havia. Aquilo tudo me intrigara extremamente na madrugada inteira. Até se passara em minha cabeça a ideia de apanhar uma lanterna e descer em direção ao terraço para checar o que havia acontecido, todavia, não quis transmitir a imagem de uma hóspede petiz que mal sabe seguir as regras impostas e incomodar os outros causando um alvoroço. Optei por manter os fatos em anônimo até o nascer do Sol, quando pudesse me locomover livremente pelo Resort e contatar os outros, informando-os devidamente.

Dito e feito. Com a primeira melodia do galo soar, levantei-me e realizei a higiene matutina diária. Troquei de vestimentas, passando a usar uma casual roupa diurna, tal qual era composta de um vestido sem mangas cor de creme feito de um tecido fino, sapatos brancos de baixo salto, e um pequeno chapéu redondo adornado com um laço de cetim. Brevemente arrumei meu cabelo, deslizando as cerdas da escova sob os cachos de minhas madeixas castanhas. Abruptamente parando o caminho até a porta, recordei-me do papel no qual continha a mensagem enviada à mim pela janela. Voltei até a escrivaninha, e assim apanhando este para levar comigo, destranquei a porta, deixando o cômodo agora completamente vazio.

Notei proximamente a mim uma jovem moça carregando um grande cesto com lençóis, roupas de cama, e fronhas brancas, parecendo estar perdida de algum modo. Vez ou outra lia as placas dos dormitórios alheios, inspecionando-os brevemente. Ali notando minha presença, andou em minha direção, e parou-me, tornando a falar.

“Bom dia, senhorita. Pode me informar onde é o seu quarto para que eu possa arrumá-lo? Por algum engano, não me foi mandada a lista dos números dos dormitórios e seus respectivos hóspedes.”

“Oh, sim. Certamente.”—Respondi, a guiando até meu dormitório próprio, de número vinte e quatro.

“Agradeço, senhorita.”—Revirou em seu bolso uma grande quantidade de chaves com números indicados nestas. Enfim achando uma com o número vinte e quatro gravado, retirou-a, destrancando a fechadura.

Fiquei no batente da porta por alguns segundos, tomando coragem para perguntar algo a ela. Quando tive o suficiente desta, me aproximei, com a curiosidade falando mais alto do que tudo.

“Posso lhe fazer uma pergunta?”

“Mas é claro, senhorita.”

“Escute… Você ouviu algum movimento estranho no terraço ontem à noite?”

Continuou a tarefa, dobrando alguns lençóis, e parou por um momento, aparentando pensar um pouco mais sobre o assunto.

“O que quer dizer com isto? Que tipo de movimento, especificamente?”—Questionou, me encarando com um semblante confuso na face.

“Não sei explicar exatamente… Talvez de uma pessoa somente. Duas, no máximo.”

Subitamente, esta ficara nervosa. Não pude deixar de reparar, principalmente, em suas mãos, que tremiam ao arrumar a cama. Tentava disfarçar, mas não conseguía. Fora denunciada por seus gestos.

“Lamento, senhorita. Mas não vi. Pode apenas ter sido um pardal. Costumam fazer seus ninhos nas árvores daqui no verão.”—Sugeriu, gaguejando.

“Entendo. Bem, agradeço. Imaginação fértil, sabe? Estou bem mais tranquila agora do que antes. Tenha um bom dia.”—Menti, me despedindo.

De jeito nenhum. Eu não estava nem um pouco tranquila, ainda mais depois disto. Deixei de prolongar o assunto ainda mais, pois sabia que não era nem um pouco confiável. Como eu não iria perceber o jeito que agiu depois que citei o acontecimento de ontem à noite? Fora um completo fracasso tentar esconder aquilo de mim. Podia enganar aos outros, todavia, a mim, não.

A propósito, como raios ela sabia que o barulho era originado de uma árvore? Em momento algum eu havia dito sobre os barulhos dos galhos de árvore batucando na janela. A única coisa que havia a informado sobre era referente aos sons no terraço. Eu perguntara sobre isto à ela, e não especifiquei quais eram.

Céus, isto tudo não me cheira nada bem. Há algo nada agradável acontecendo aqui, e não irei me aquietar até descobrir tudo. Tenho o completo conhecimento de que são minhas férias, e a intenção de permanecer em um Resort como este era descansar e aproveitar o máximo. Contudo, a mensagem misteriosa me atraía mais que tudo.

Preciso tirar à limpo tudo isto, e o mais breve possível.

Digo, após o café da manhã, sem dúvidas. Nenhuma grande mente pode pensar brilhantemente sem o estômago devidamente alimentado, certamente.

******

Após o desjejum com os outros hóspedes, recorri à primeira pessoa que veio em minha mente: Mr. Field, que agora, se encontrava sentado na beira da piscina molhando os pés. As mangas de sua camisa estavam dobradas na altura dos cotovelos, assim como a barra de suas calças, para desta forma evitar contato com a água.

Mr. Field fora o único que testemunhara, juntamente de mim, a súbita mudança de humor do motorista, Mr. Wells, e seu aviso a nós, que assegurava que toda a cautela era necessária.

“Olá, Mr. Field.”

Este virara a cabeça em minha direção, levantando o olhar diretamente a mim. Com um sorriso, me cumprimentara.

“Saudações, Miss Hewitt.”—Deu alguns tapinhas no espaço ao seu lado, me convidando para me sentar ao seu lado. Aceitando o convite, retirei os sapatos, e mergulhei a ponta de meus pés na água fresca. Tremi no primeiro momento em que senti a temperatura levemente fria, mas logo me acostumei. “Dormiu bem?”

“Para ser sincera, não muito…”

“O que houve?”

“É uma longa história, pode-se dizer. Para começar, Mr. Field, se recorda do aviso incompleto de Mr. Wells?”

“Sim, me lembro perfeitamente.”

“Pois bem. Ontem à noite, quando estava prestes a adormecer, escutei batidas em minha janela. Batuques feitos com galhos de árvore, especificamente.”—Contei a ele.

“Que peculiar. E o que aconteceu em seguida, Miss Hewitt?”

“Em seguida, notei que as batidas, na verdade, se tratavam de uma mensagem via Código Morse. Escrevi em um papel as respectivas letras e fui formando uma frase coerente. Porém, o resto da mensagem foi interrompida, e não consegui finalizar a frase.”—Mostrei a ele o tal papel com a mensagem que carregava comigo, e este analisava letra por letra, assemelhando-se à um cientista com uma importantíssima pesquisa em progresso.

“Isto é...Deveras curioso, Miss Hewitt. Um notável mistério ígneo! Cuidado com Mr., não é? Interessante. Foi muito inteligente de sua parte traduzir e anotar o que a mensagem dizia, preciso ressaltar. Estou certo de que outrem se apavoraria com as batidas e entraria em modo irracional no momento. É um dom magnífico saber a linguagem do Código Morse e ter todo este autocontrole.”

Assenti, lisonjeada. De fato, no passado, recebi inúmeras críticas dos outros por ter o desejo de aprender Código Morse. ‘Ah, menina! Isto não é algo que lhe dá um bom futuro! Ocupe seu tempo com atividades produtivas. Faça aulas de culinária ou economia doméstica!’—Era um dos ditos por meus parentes. Mas não lhes dei ouvidos, e segui o que realmente gostaria de fazer. Ora, não é tão inútil assim. Presenciei a prova viva.

Depois da conversa tensa sobre os acontecimentos misteriosos e perigos subliminares presentes no Resort, Mr. Field e eu acalmamos a conversa, deixando de lado todas as preocupações, debatendo sobre assuntos casuais do cotidiano. Mantivemos uma conversa agradável por um longínquo tempo, com as cômicas piadas de Mr. Field animando o ambiente ao redor e me fazendo esquecer os problemas.

Um aviso de Mrs. Gardiner nos fez interromper a conversa, e atentamente dirigimos a atenção à ela.

“Mr. Field, Miss Hewitt, lamento profundamente cortar o assunto de ambos, mas preciso que se reúnam com outros no salão principal para uma breve reunião referente a um ocorrido.

Concordamos sem relutância. Calçamos nossos sapatos repousados perto da borda da piscina e arrumamos nossas vestes. Seguimos a senhora pelos corredores, virando e contornando diversos caminhos já não tão conhecidos por mim. Por fim, adentramos uma grande porta com madeira reforçada, e lá se encontrava o salão principal. Todos se encontravam sentados nas cadeiras, uns cochichando, outros esperando ansiosamente nossa chegada. Quando enfim escolhemos dentre as cadeiras em qual sentaríamos, nos acomodamos, aguardando um dos proprietários se manisfestarem primeiramente. Mr. Gardiner fora o dito cujo, erguendo-se de seu assento melancolicamente.

Pelo baixo ânimo, presumo que não seja algo bom, pensei.

“Senhores, senhoras, e senhoritas aqui presentes: Agradeço pela compreensão de se reunirem. Infelizmente, estou aqui para vos dar uma lamentável notícia, que pode ser de um imenso choque para alguns. Nosso respeitável e memorável funcionário, Mr. Wilson Wells, falecera na madrugada deste sábado. Contarei o relato de dois de nossos funcionários sobre a tragédia. A arrumadeira Miss George notara que este estava atrasado para seu trabalho, assim, decidira chamá-lo em seus aposentos. Não obtia nenhuma resposta. Desconfiou do que poderia ter acontecido ao ouvir sons de água caindo, provocado pelo chuveiro ligado. Pediu a um de nossos jardineiros, Mr. Dodd, para que a ajudasse a abrir a porta de entrada, que permanecia trancada. Nenhum dos dois conseguiram, nem mesmo com uso de força. Foi então que Miss George tivera a ideia de investigar pela janela do banheiro. Usando a escada, Mr. Dodd subiu até a janela do banheiro na procura de Mr. Wilson. Graças a Miss George, Mr. Dodd não caíra brutalmente no chão. Este apavorou-se quando viu o falecido no chão do recinto, pálido, com ambos os olhos fechados, e taciturno. Contou tudo à Miss George, que correu para avisar a mim. Com uma chave reserva, abri a porta da frente dos aposentos de Mr. Wilson, e o avistei na mesma posição dita no mesmo cômodo. O corpo estava gélido e incólume, sem ferimentos visíveis.”—Fez uma pausa, e após um breve suspiro, continuou. “Até o momento, não existem suspeitas de assassinato, tampouco suicídio. A teoria atual, é de que a morte seja provocada por causas naturais. Por favor, não há necessidade alguma para se preocuparem ou espalharem elucubrações desconexas por aí. Enfim... Descanse em paz, Mr. Wells.”

Um silêncio constrangedor tomava conta do recinto no momento. Todos pareciam chocados com o acontecimento. Certamente, uns mais chocados que outros. Mas a surpresa fora inesperada para todos os hóspedes presentes. Miss Coates, não podendo aguentar toda a pressão, era ajudada por Mr. Hyde e Miss Burgess, que abanavam-na com leques improvisados e pouco a pouco davam-lhe um gole d’água.

No momento, após me distanciar de toda a atmosfera de luto, eu refletia sobre o depoimento, e me recusara completamente a acreditar que Mr. Wells falecera por causas naturais. Era um homem com aproximadamente sessenta anos de idade, todavia, isto não era um motivo para a morte tão suspeita e repentina. Possuía uma índole saudável, e aparentava estar desprovido de quaisquer doenças. Era impossível ocorrer uma morte desta forma! A menos que… Fosse algo planejado!

Mas quem faria algo tão cruel assim? E por quê?

Um pensamento percorrera minha mente, e eu ligara os fatos. Quando eu e Mr. Field chegamos aqui, Mr. Wells pareceu temer algo, e nos tentara dizer algo. Um aviso, em especial. Entretanto, com a chegada de Miss Hargreaves, não se tinha mais sinal deste, nem mesmo procurando de cima à baixo. No final da noite deste dia, ele novamente tentara transmitir uma mensagem. Desta vez, via Código Morse, utilizando galhos de árvore para fazer os batuques na janela de meu quarto. Dizia o mesmo de antes: ‘Cuidado’. Todavia, acrescentara algo a mais na mensagem. ‘Com Mr.’ Mal teve tempo de terminar, e fora abruptamente interrompido.

Mas quem seria este Mr. do qual devemos ter cautela?

Este Mr., certamente tem uma mente fria, calculista e perigosa, chegando até a assassinar Mr. Wells apenas por tentar nos avisar sobre. E ainda conseguiu cobrir todos os vestígios, para implantar em nossa mente a ideia de que o falecido morrera somente devido a causas naturais.

Quem sabe do que mais este criminoso é capaz? Não pode andar livremente pelas ruas sem ser reconhecido, ademais não é justo permitir que este saia imune. Este pode se esconder em um disfarce extremamente bem planejado, a ponto de enganar todos a seu redor. Agora, sinto que todos correm perigo neste local. Não me sinto mais segura de forma alguma. Isso tudo é muito suspeito! Não ficarei mais quieta até a máscara do assassino cair descaradamente.

Direcionei meu olhar à Mr. Field, sentado ao meu lado. Provavelmente lera minha mente, pois rapidamente assentiu com a cabeça e tornou a falar com o corpo inclinado em minha direção e a mão cobrindo parte de minha orelha esquerda, em um tom tão baixo que somente nós éramos capazes de ouvir.

“Miss Hewitt, esse papo furado de ‘causas naturais’ também não lhe convenceu, não é?”

“Não, Mr. Field. Suspeito de muitas coisas. Creio que existem muitas mentiras ditas e verdades escondidas nesse caso. Tenho uma sensação nada agradável.”—Respondi, mantendo o tom de cochicho.

“Digo o mesmo, Miss Hewitt. A situação não está nem um pouco transparente, e eu já desconfiara desde ontem, quando chegávamos neste local. De fato, em parte fico aliviado, pois agora possuo conhecimento de que não sou o único que pensa desta forma aqui.”

“Tenho o mesmo pensamento. É ótimo saber que não estou ficando paranoica ou criando histórias fictícias sobre tudo o que vem acontecendo.”

“Miss Hewitt, se não for inconveniente, me encontre no jardim hoje, às oito horas e cinquenta minutos da noite, para podermos discutir um pouco mais sobre isto. Até mais.”—Disse, e rapidamente se juntou aos outros hóspedes deixando o salão principal, que foram dispensados da reunião. Após isso, o perdi de vista na multidão de pessoas que gesticulavam e papeavam freneticamente pelos corredores do Resort.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.