Sorrow...
1 I - Inglaterra - Arthur Kirkland 4 de Julho
Notas iniciais

England — Arthur Kirkland
Apenas uma manhã qualquer de início de inverno. A garoa caía pelas ruas e o céu nublado, tipicamente inglês. Algumas pessoas com guardas-chuva e outras com bolsas ou casacos cobrindo a cabeça. Era só uma garoa, porém, congelante. Tudo dentro dos padrões, tudo ocorria como era para ocorrer. Nada de catástrofes, enchentes ou nevascas, apenas a gelada garoa.
Inglaterra, ou melhor, Arthur, apreciava a paisagem cinza da janela do apartamento e se orgulhava do que via. Era ele nas ruas, nas gotículas de água, nos tijolos e cimento dos prédios, nas águas do Tâmisa, era tudo ele e ao mesmo tempo, não. Ele era a representação de tudo o que a Inglaterra havia se tornado. Aos poucos, o passado invadia sua mente, conforme se lembrava de que dia era.
4 de julho. Independência dos EUA.
Nenhum britânico parecia ter problemas com essa data, menos Arthur. A falta que o pequeno Alfred lhe fazia era enorme, e mesmo séculos tendo passado, a tristeza não dava sinais de ir embora, muito pelo contrário, só aumentava conforme as tão felizes lembranças permaneciam circulando em sua cabeça. Os anos que, com cuidado e carinho, cuidou daquela colônia que era tão querida e dava sinais que seria muito próspera. A "infância" de Alfred passou rápido, ele queria ser independente, andar com as próprias pernas, mandar em si mesmo. Já se achava adulto e capaz, Arthur sabia dessas capacidades mas não queria deixá-lo ir, queria continuar cuidando dele e iludindo a si mesmo, pois sabia que uma hora ou outra a separação seria inevitável e que precisaria lidar com isso.
Mas que pai tem coragem de admitir? Que tipo pai concorda com isso e então simplesmente se conforma? Mesmo sendo um país, tecnicamente imortal, um resto de humanidade ainda permanecia no coração de Arthur, e o instinto paternal "apitava". Não, não queria deixar Alfred ir embora, não queria se desapegar daquele raio de sol que havia surgido em sua natureza chuvosa e nublada, ele sabia que não poderia suportar.
Mas, o dia chegou. Chuva, frio e desapego. Não conseguia acreditar. Alfred, ou melhor, América, era como areia. Não importa o quanto tente, ela escorrerá por seus dedos e não pode ser contida ou segurada. Mesmo que tente recolhe-la, nunca conseguirá recupera-la por completo, sempre alguns grãos iram faltar, sempre virão outros que não faziam parte do punhado inicial. A terrível realidade.
A garoa se transformou em chuva e logo se tornaria tempestade. O barulho das gotas na janela seria a trilha sonora perfeita para aquela manhã. Arthur apreciava a “melodia” enquanto se dirigia ao seu quarto. Algumas doses de whisky, uma carta que jamais seria enviada e um ato que para alguns seria decisivo eram um ritual que Arthur seguia desde aquele dia.
Lápis e papel em mãos, começou a escrever.
“Querido Alfred,
Você está em clima de comemoração, deve estar sorrindo, bebendo e se divertindo, com amigos e com seu povo.
Quando olho para trás e vejo o que se tornou, um sentimento de orgulho cresce no meu peito, e me sinto feliz por ter contribuído para a sua grandeza, para a sua importância, para tudo o que você se tornou. Me sinto como se eu fosse verdadeiramente seu pai nesse momento, mas sei que não sou nada mais que um homem (ou país, como preferir) que teve a honra de te criar, de ter cuidado de você, de ter de dado o conhecimento que precisava para prosperar e enriquecer.
Mas ao mesmo tempo que fico feliz, um sentimento terrível me abala. A tristeza combinada com a saudade de você e dos velhos tempos… não existe alguma palavra que possa descrever a intensidade com que eu sinto isso. Lágrimas escorriam sem controle, minha fraqueza é exposta, mas tenho a sorte de ninguém, e muito menos você, ter notado que, na verdade, eu sou o mais fraco de todos, que essa máscara já se tornou parte de mim. Eu sei que ninguém nunca irá saber, e também não quero. Não há quem me ajude e não é como se eu quisesse ser ajudado.
Tentei procurar a mesma felicidade em outros. Achei que tendo Sealand do meu lado as coisas se tornariam mais fáceis, eu abandonaria a mágoa e o passado, acharia alguém para direcionar minha atenção e cuidado, não dizem que as coisas ficam mais fácies e felizes com crianças? Haha. Achei que finalmente seguiria em frente, que agora eu poderia ser feliz de verdade. Apenas continuei a iludir a mim mesmo, qualquer um sabe que ninguém pode substituir ninguém, e as coisas pioraram, sabe?
Mesmo aos meus maiores inimigos não desejo esse sentimento. É algo duro demais, pesado demais para ser carregado, ainda mais por uma pessoa só. A falta de amigos com quem contar se mostra muito pior quando essa tão… solitária data chega.
Bom, é isso. Pode me julgar por desperdiçar papel e grafite, mas você se você soubesse da existência dessa carta, saberia também que ela jamais será entregue, afinal, sou eu, não é?
Meu querido e pequeno Alfred, por mais que eu saiba que é impossível, por mais que eu tenha certeza que meu maior e mais oculto sonho nunca irá se realizar, ainda espero pelo dia em que te terei novamente, o dia que poderei chama-lo novamente de filho, o dia em que poderei ser feliz de novo.
Com carinho,
Arthur Kirkland”
Carta escrita e colocada em um envelope. Arthur ainda ficou alguns minutos pensando se talvez, dessa vez, deveria envia-la. Não. E após um pesado suspiro, jogou-a na lareira.
Se pudesse, choraria pelo resto do dia ou até não aguentar e adormecer, então, voltaria à sua vidinha normal. Mas não dava, não haviam mais lágrimas a serem choradas, já havia algum tempo que ele não chorava. Porém o encurralante sentimento ainda permanecia firme e forte. Com a mão trêmula, pegou a pistola que guardava embaixo da cama.
Com um forte trovão, o barulho do tiro foi abafado. O corpo tombou por causa do impacto e a arma saltou de sua mão, Arthur fechou os olhos e permaneceu no chão.
Após algum tempo, finalmente levantou. A arma de um lado e a bala, intacta do outro. Nada de sangue, nada de sujeira. Passou a mão na cabeça. Nenhum ferimento, cicatriz, nada. Como não era uma ferida em seu país, não era uma ferida de batalha, era como se nunca tivesse ocorrido. Devolveu a arma ao seu devido lugar e voltou para a sala, onde no armário de bebidas, haviam duas garrafas do melhor whisky esperando por ele.
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