Sorien

2 Capítulo 1


Capítulo 1

Acordei assustado e não conseguia distinguir o que sonhei do que realmente vi ontem. Será que tudo não passara de um sonho? A dor que sentia em minha perna direita respondeu a pergunta. Levantei a cabeça e notei que havia um curativo em minha perna, alguém estava naquela casa junto comigo.

O frio estava chegando, senti uma brisa da manhã carregada pela umidade do orvalho que entrava pelo buraco no telhado. Ter passado a noite toda tomando aquela friagem me traria consequências em breve.

Tentei me levantar, mas a dor era insuportável. Murmurei um xingamento e quando me sentei ouvi passos que vinham do cômodo ao lado. Não sabia o que esperar, mas ao mesmo tempo em que sentia medo, estava apreensivo. A porta se abriu à minha frente e uma senhora com cerca de 40 anos trazia duas tigelas, uma delas soltava fumaça de cima e a outra me era um mistério.

A mulher se aproximou da minha perna que tinha um curativo e o tirou. Assustei-me ao ver o dano da queda, vários cortes percorriam-na e com certeza eu a quebrara.

– Como... Você sobreviveu à queda? – A voz da senhora era calma, porém mostrava medo.

– Eu também não sei – Realmente não sabia como meus outros ossos saíram ilesos do impacto de cair de três andares de altura – Muito obrigado por ter me ajudado, peço desculpas pelo dano que causei em sua casa.

– Não se preocupe, eu não moro aqui – Ela entregou-me a tigela que saia fumaça e nela havia uma sopa carregada de ingredientes – Moro na casa ao lado, me assustei quando ouvi o barulho do telhado quebrando durante a noite e vim verificar o que ocorrera. Quando te vi, reparei no estado de sua perna e corri para buscar um curativo, sabia que não iria ser de muita ajuda no momento, mas que de manhã eu poderia cuidar melhor disso.

Tomei a sopa rapidamente enquanto a mulher retirava um pequeno frasco do bolso de seu avental. Só agora havia reparado na beleza da mulher que se encontrava na minha frente, apesar da idade, era bela e mostrava firmeza em sua postura. Tinha cabelos vermelhos e olhos acinzentados, típico dos povos do norte.

– Me desculpe, a senhora me salvou e sequer perguntei o seu nome.

– Alice. Por favor, não me chame de senhora – Ela sorriu – Sinto-me mais velha do que já sou. Posso saber o seu nome?

– Sorien.

– Vejo que também não é daqui, mas, suas características não são dos povos Tundrianos. De onde você é?

Enquanto perguntava, ela colocou um pouco das ervas contidas no frasco dentro da tigela com água, que no mesmo instante adquiriu uma cor amarelada.

– Sou de Askundra, mas moro em Tundriá desde pequeno. O que são essas ervas?

– Ervas de regeneração, elas fazem suas células trabalharem mais rapidamente e regenerarem partes danificadas em poucos minutos.

– Isso não é muito caro? Eu não tenho dinheiro para compensar por isso.

– Não se preocupe, o importante é que sua perna melhore.

– Obrigado – Não conseguia acreditar como ela podia confiar em mim mesmo tendo acabado de me conhecer.

Alice jogou o liquido amarelo em minha perna, uma sensação de formigamento passou por todo o meu corpo e senti um calor me invadindo. Os cortes começaram a se fechar e cicatrizar e aos poucos o osso quebrado foi voltando ao seu lugar. O mais estranho era o fato de enquanto tudo isso ocorria, eu não sentia nada, o formigamento ocultava qualquer dor que eu pudesse sentir.

– Descanse um pouco, acredito que agora você já pode se levantar e vir deitar na cama – Alice me ajudou a levantar do chão e a me levar para o outro cômodo.

Deitei-me na cama e senti minhas costas relaxarem, a noite no chão duro havia acabado com ela.

Quando me levantei novamente senti que o dia já esquentara um pouco e que minha perna não doía mais. Sai da cama e fui em direção à porta do quarto. Ainda estava meio zonzo por ter dormido tanto tempo, a porta à minha frente parecia estar rodando de um lado para o outro, como se brincasse comigo.

Entrei no que parecia ser o cômodo de recepção da casa, procurei por Alice, mas ela não estava mais lá. Vi que havia deixado um bilhete em cima da mesa da cozinha, sua caligrafia era muito bonita e fluida.

“Sorien, preciso ir à Cidade para comprar alguns mantimentos, voltarei até o entardecer de amanhã. Deixei o resto da sopa para você dentro do caldeirão”.

Fiquei feliz pela preocupação da senhora, mas sabia que essa felicidade não duraria muito. Por um momento, flashs da noite passada passaram em minha mente. Eu ainda não estava completamente a salvo, precisava sair daquele lugar logo para me proteger daquelas criaturas.

Levei um pouco da sopa comigo e tomei meu caminho de volta para os subúrbios do oeste. O entardecer não demoraria muito a chegar, mas eu estaria em meu esconderijo antes da noite cair.

Cheguei ao meu esconderijo que nada mais era do que uma pequena casa nas favelas. Entrei e coloquei fogo na lamparina que ficava na mesa ao lado da porta. Talvez aquilo tivesse sido um erro. Senti uma presença dentro da casa e quando levantei a cabeça, estava sentado sobre meu sofá, um homem de cabelos cumpridos, loiro e notei em sua cintura um coldre contendo duas armas, as mesmas da noite passada.