Sorien
3 Capítulo 2
Capítulo 2
– Não tenha medo Sorien, não estou aqui para te machucar – O homem se levantou do sofá, retirou um envelope do bolso do sobretudo e entregou-me.
– O que é isso? E como você sabe o meu nome? – Minha voz estava tremula e parecia que a qualquer momento eu podia ceder e desmaiar ali mesmo.
– Isso é uma carta para você, fui mandado para te guiar até a nossa base. Você tem algo que nós queremos – Sua voz era grave e séria, mas ao mesmo tempo passava uma sensação de segurança.
– Como assim? Não faz sentido, eu sou apenas um caçador de trabalhos, o que eu posso ter que interessem a vocês? E... Quem são vocês?
– Não tenho tempo para explicar tudo agora, peço para que leia esta carta o mais rápido possível e estarei te esperando do lado de fora. Sairemos em breve.
– Posso ao menos saber o seu nome?
– Haltrus, líder da divisão de caça e pesquisa – Ele disse e fechou a porta atrás de si.
Não entendia como e nem porque tudo aquilo estava acontecendo, nada fazia sentido e eu sentia medo, o que havia naquela carta?
Abri o envelope que fora selado com cera e retirei uma folha de dentro, era de um papel diferente, encontrado apenas nos mais ricos mercados de Hítria. A caligrafia era corrida, porém bela, fora escrito com uma pena, o que mostrava poder aquisitivo, já que até mesmo coisas simples como as penas de animais só eram utilizadas para escrever por pessoas de alto requinte e influência.
“Sorien, meu filho, muita coisa vem acontecendo em sua vida e eu não pude acompanha-lo nisso tudo. Gostaria de pedir desculpas por ter feito sua mãe inventar a historia de que eu havia morrido, quero poder explicar tudo com mais precisão quando você vier até nós, mas as coisas não estão correndo bem como parecem, o mundo prospera em sua superfície, mas a escuridão corre em suas veias. Experimentos que não foram bem sucedidos formaram bandos e vagueiam pelas noites em busca de vingança.
Precisamos de sua ajuda. Pode não parecer ainda, mas você tem algo muito importante para eliminar essa raça. Venha até nós e eu poderei te explicar tudo.
Novamente peço desculpas por ter demorado tanto para entrar em contato com você.
Seu pai, Estorn”.
Eu não estava conseguindo absorver tudo aquilo, não era possível que meu pai realmente estivesse vivo, eu estava presente em seu enterro, eu vi o caixão dele sendo enterrado. Aquilo não passava de uma mentira pra me atrair para o que quer que fosse aquela armadilha.
Não, eu não podia simplesmente sair e seguir o cara que me esperava do lado de fora, eu precisava fugir, nenhum lugar era realmente confiável.
“A janela nos fundos, ele não poderá te ver lá”, meus pensamentos me guiavam melhor que meu próprio corpo, que foi em direção à janela e saltou para fora de casa.
Estava escuro. Tundriá parecia assustadora à noite, ainda mais nas favelas do oeste, em que sons asquerosos percorriam as ruas vazias pelo medo dos moradores em ser mortos a qualquer momento por um usurpador.
Eu tinha uma vantagem, conhecia as favelas e todas as suas entradas e saídas secretas. Sorrateiramente fui em direção a uma viela entre dois barracos, sabia que por ali eu podia me esgueirar e encontrar uma passagem subterrânea que me levaria diretamente para fora do subúrbio. O buraco ficava escondido por um latão e era usado por muitos para fugir dos cobradores de impostos. Alcancei-o e desci as escadas que me levavam para o subterrâneo.
Não havia iluminação naqueles tuneis mas meus olhos já estava acostumados com a escuridão, andei sem fazer ruídos pelo caminho que havia por lá, porém ao chegar num certo ponto, senti uma irritação percorrendo meu corpo e espirrei, “Porra, eu sabia” – pensei comigo mesmo.
Sons de algo se rastejando começaram a preencher o grande corredor às minhas costas. Um arrepio correu todo o meu corpo e reconheci o que estava vindo em minha direção, mais uma daquelas criaturas.
Comecei a correr, mas sabia que elas eram mais rápidas e eu não iria muito longe. Mais a frente havia um pedaço de ferro que eu poderia usar para tentar parar a criatura, mas ainda assim não seria o suficiente para matá-la. Ela estava cada vez mais perto de mim e eu entrei em pânico, agarrei o pedaço de ferro que havia na parede e ao virar-me para acertar sua cabeça, senti novamente como se meus pensamentos falassem mais alto que meus atos, queria que aquele pedaço de ferro pudesse cortar qualquer coisa e no mesmo instante o ferro brilhou em minhas mãos, em sua ponta forjou-se uma lâmina muito afiada que acertou a criatura e arrancou sua cabeça.
Não estava acreditando naquilo, não era possível, o ferro não podia simplesmente moldar em minhas mãos. Como forma de provar isso para mim mesmo tentei novamente pensar no ferro se tornado algo para eu usar, mas nada aconteceu.
– Agora você vai acreditar em mim e me seguir? – Haltrus apareceu do outro lado do corredor segurando uma lamparina acesa – Não temos muito tempo até outra dessas criaturas aparecerem.
– Como isso aconteceu?
– Te explicarei tudo no caminho.
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