4 Sophia.

Esperei todos os alunos saírem para recolher meu material, eu tinha prometido ao Pedro que daria uma resposta no final das aulas, e agora estou parada nessa sala sozinha como uma covarde, com medo de enfrentar o que vai vir pela frente. Eu queria namorar o Pedro, disso eu tinha certeza, eu senti meu corpo inteiro tremer quando ele me beijou delicadamente, foi tão bom, meu coração acelerou de um jeito anormal, meu dia não ficava completo quando eu não via ele, contava os minutos para ver aqueles olhos azuis...

—Vamos lá Sophi, você consegue.

Caminhei com passos decididos pelos corredores, respirando fundo várias vezes, minhas mãos tremiam e suavam, vi Pedro de longe e apressei o passo. Estava quase chegando perto dele quando uma mão grande pegou meu braço e me arrastou para dentro de uma das salas do fundamental I. Olhei dentro daqueles olhos castanhos....Fernando.

—O que você quer?

—Te impedir de fazer uma burrada!

—Do que você está falando?

—Do Pedro. Não quero que você aceite namorar com ele entendeu? Eu não deixo.

—Você é ridículo, eu nunca pedi a sua permissão pra nada e eu não quero saber a sua opinião sobre isso. Sabe por que? Porque eu não me importo com o que você pensa. E a minha vida não é da sua conta.

Me virei para ir embora, mas Fernando me prendeu na parede, colocando toda a força de seu corpo contra o meu.

—O que você está fazendo?

—Fica comigo Sophi, eu quero você, quero seu corpo, sua boca.....eu quero você toda pra mim.

Ele começou a passar a mão por todo meu corpo, estava beijando meu pescoço e fazendo força, não me dando chance de escapar.

—Me solta Fernando!

—Não, você é minha entendeu?

—Socorro! Socorro!- eu socava, chutava e tentava morder, mas nada adiantava, Fernando era muito forte. Comecei a me esgoelar, a pedir socorro mas ninguém aparecia. Fecho os olhos não querendo imaginar o que Fernando faria comigo. Ouço um barulho estranho, o meu agressor não está mais me pretendo na parede, quando me dou conta ele está no chão. Pedro está dando um soco em seu rosto e gritando com ele. Os dois começam a brigar e eu demoro alguns segundos para reagir. — Parem! Parem! Por favor! Fernando vai embora daqui!


—Um dia eu acabo com você Pedro!

—Pode vir! Eu não tenho medo de você!

Fernando saiu da sala dando uma última olhada em mim.Caio de joelhos no chão e começo a chorar, com raiva dele, não acreditando no que poderia ter acontecido.

—Sophi ele já foi. Eu estou aqui. Não vou deixar ninguém fazer mal para você.

Pedro se senta perto de mim, me abraça e acaricia meus cabelos, afirmando de que nunca mais vai deixar o Fernando tocar em mim. Eu levanto minha cabeça e encaro aquele olho azul, que é a única coisa nesse mundo que pode me acalmar agora.

—Obrigada. Eu não sei o que eu faria sem você.

—Está tudo bem.

—Sabe aquilo que você me perguntou mais cedo?

—Não precisa me responder agora.

—Mas eu quero te responder. Eu aceito namorar com você.

—O que? Sério? Você quer? Você quer namorar comigo? Eu, Pedro?

—Sim. — respondi dando um pequeno sorriso

—Sério Sophi?

—Sério.

Nos aproximamos e selamos essa união com um beijo, não tímido e rápido como o primeiro, mas sim um apaixonado e demorado. Parecia que meu coração iria explodir, eu nunca estive tão feliz.

—Vamos, eu te levo até sua casa.

Pedro me ajudou a levantar e caminhamos em direção a minha rua abraçados conversamos sobre o tempo, sobre a escola sobre Ângela e Caio. Não mencionamos o nome de Fernando. Preferi fazer o caminho contrário, para não passar na frente da casa dele.

—Eu te vejo amanhã?

—Claro. Qualquer coisa me liga. Eu venho correndo.

Damos um último beijo e entro em casa. Como de costume ela estava vazia, não estava com fome então fui direto para o meu quarto. Liguei o computador afim de me distrair, porque seu parasse para pensar um minuto aquelas imagens iriam invadir meus pensamentos e eu acabaria chorando e.... melhor eu parar.

A tela do computador piscou, uma nova notificação, Ângela havia me mandado uma mensagem no chat.


Sophi!

Oi!

Você não vai acreditar!

O que aconteceu??????

A escola vai organizar uma festa!

OMG!!!!!!

Vai ser daqui algumas semanas. Para começar com a primavera, já que esse vai ser o tema. Não é demais?

Super!!!!! Finalmente alguma coisa naquela escola! Hahaha.

Você pode convidar o Pedro hmmmmmm.......

Para!

Por que não?

Tem razão, agora que nós somos um casal...

Sério? Conte-me tudo e não me esconda nada!

Depois eu te conto. Você vai participar da decoração?

Claro! Eu preciso ir agora. Mas depois você vai me contar essa história de direito!

Pode deixar!

Ângela sempre adorou essas coisas, mexer com decoração e organização, com certeza vai ficar lindo! É difícil nossa escola ter algum evento realmente animador. Pedro com certeza iria adorar! Já estava começando a pensar em que roupa eu iria, sapato, maquiagem quando meu celular tocou. Quando vi o identificador de chamadas apareceu o nome de Pedro.

—Oi Pedro.

—Oi Sophi. Como você está? Sobre hoje mais cedo?

—Tentando não pensar naquele momento. — mordi o lábio lembrando do olhar enlouquecido de Fernando — Então... eu queria falar com você.

—Eu também queria falar com você. Mas pode falar primeiro.

—Não, tudo bem. Você pode falar primeiro.

—Vai ter uma festa na escola daqui algumas semanas, a Ângela acabou de me dizer. E eu queria saber meio que tipo se você queria ir comigo?


Dava pra perceber que ele estava nervoso e com vergonha, achei aquilo tão fofo, aposto que do outro lado da linha aquele rosto pálido estava vermelho agora.

—Claro! Você não vai acreditar! Eu também estava quase te ligando para perguntar se você queria ir a festa comigo.

—Você sabe o que se usa nesse tipo de festa? Porque eu não sei nada.

—Deixa tudo comigo ta bom? A Ângela tem muita coisa para organizar e quando estiver perto do dia vou ter uma idéia do que vamos vestir.

—Você fica linda com qualquer coisa que vestir....até sem vestir.

Agora foi a minha vez de ficar vermelha e muda do outro lado da linha. Eu não conhecia esse lado do Pedro.

Outro barulho dessa vez foi meu computador, outra mensagem.

—Pedro eu tenho que ir agora. Cinema amanhã?

—Claro! Eu vou ver o que está passando de bom. E Sophi...

—Oi...

—Nada. Beijos.

—Beijos.

Sentei na minha cadeira com as bochechas ainda pegando fogo, abri o chat achando que era Ângela já pirando com a decoração da festa, mas vejo que é Vera. Minha professora de música.

Oi Sophi! Será que você poderia da ruma passadinha aqui na escola? Tenho uma surpresa pra você!

Claro! Já estou indo!

Levantei da cadeira e desci as escadas correndo, a escola de música não ficava longe de minha casa, na verdade ficava no final da rua. Vera é minha professora a sete anos, me ensinou a tocar violão e a cantar. Até hoje na verdade. Ela era a melhor pessoa que eu conhecia! Tinha uma pegada meio Rock'n Roll, cabelos ruivos, olhos castanhos escuros e uma personalidade muito forte. Desci a rua correndo, sem nem parar para pensar em fazer o caminho inverso para não passar em frente a casa do Fernando. Cheguei lá em menos de cinco minutos, meu novo tempo recorde. Toquei a campainha e Ver apareceu, com seu sorriso que encantava a todos, ela não era velha, estava nos seus trinta e poucos anos. Sua camiseta dos Beatles se ajustava perfeitamente em seu corpo seguida por uma calça jeans preta.

—Oi Sophi! Que saudade! Nunca mais veio visitar os pobres.

—Você que esqueceu de mim.

—Vamos entre! Tenho que te contar uma coisa.


Eu adorava aquele lugar, cresci ali praticamente. Não era muito grande, tinha uma sala espaçosa e um estúdio no fundo, onde as bandas ensaiavam, me joguei no sofá branco que estava perto de mim.

—Que saudades daqui...

—Com você está Sophi?

—Estou bem. Estou namorando....

—Com o Pedro? Aquele menino que você me disse?

—Esse mesmo. Ele me faz tão bem. Cadê a Lulu?

—Eu sabia... Vou pega-la.

Lulu foi o nome que eu dei para o violão que eu costumava tocar em minhas aulas. Ele era tão bonito, tinha um efeito degrade indo do preto para um tom amadeirado.

—Ela está aqui.

—Você está cuidando muito bem dela não é?

—Não deixo ninguém tocar nela. Eu te fiz uma promessa lembra.

Eu brinquei com algumas notas antes de falar:

—Então...o que você queria falar comigo?

—Sabe o festival que você participava todos os anos?

—Sim — eu disse em tom de tristeza — mas esse ano eu não vou participar, já que não tenho mais aulas aqui...

—Garota você me deve uma.

—Do que você está falando?

—O comitê me perguntou se você iria se apresentar esse ano de novo, mas eu disse que não, porque você não tinha mais aulas comigo. Ficaram tão chateados e disseram que você não poderia ficar de fora, já que estava se apresentando sete anos seguidos. Então eu conversei com eles e abriram uma exceção para você! Vai poder se apresentar!

—Sério? Eu não acredito!

—Vai ser só daqui alguns meses, mas eu não iria agüentar guardar segredo por tanto tempo! Agora escolha uma música, ensaie bastante e cuide dessa voz!

—Pode deixar!

—Eu achei que você ficaria mais animada....

—Eu estou... mas acontece uma coisa hoje na escola e eu não estou conseguindo esquecê-la.


—O que aconteceu?

Segui enfrente e contei tudo pra ela, todos os detalhes, como Fernando queria forçar a barra comigo, quando Pedro apareceu para me salvar e todo o resto. Quando terminei estava com os olhos cheios d'água.

—Sophi esse cara é um idiota! Escuta, ele nunca mais vai tocar em você, eu nem conheço esse Pedro pessoalmente mas ele já ganhou pontos comigo por ter dado uma surra no Fernando. — ela olhou o relógio e suspirou — Eu tenho um compromisso agora, com o pessoal do festival, mas se você quiser que eu fique com você....

—Não, vai lá. Mas eu posso ficar aqui por um momento? Um tempinho?

—Claro! Você sabe onde as chaves ficam, apenas tranque tudo ok?

—Ok.

Observei Vera sair, esperei ouvir o barulho do portão, ela passando a chave para trancá-lo. Só aí comecei a chorar, me permiti ser fraca, coloquei para fora tudo o que estava guardando dentro do peito, toda dor e decepção, o choque, a culpa, a raiva. Quando percebi meus olhos estavam se fechando, eu estava adormecendo, sendo levada pelo mundo do sono, eu queria ficar naquele lugar para sempre.