3 Fernando

Uma hora depois e eu não agüentava mais aquela aula e aquele professor, precisava sair dali para respirar um pouco.

—Senhor Duarte? Será que posso ir ao banheiro?

—Vai Fernando, mas não demore, sim?

—Obrigado.

Sai da sala tão rápido que quando me dei conta eu já estava perto dos bebedouros, não queria realmente ir ao banheiro, queria apenas dar o fora daquela sala. A escola era grande, com duas bibliotecas, sala de informática, várias salas, cantina, um pátio enorme e um espaço com árvores e flores, onde os alunos ficavam no intervalo ou matavam aula.

—Fernando!

Virei a cabeça para ver quem chamou meu nome, dei de cara com Caio, que para variar, estava comendo, ele veio em minha direção e sorria de forma esquisita.

—O que foi Caio?

—Faz tanto tempo que a gente não se vê! Nem conversa....

—Pois é você e a Sophia estão amiguinhos agora do Pedro. Sabe que ele não é uma boa companhia.

—Não é verdade, ele é um cara muito legal.

—Avisa para a Sophi que ele não presta! Eu nem sei o que eu faria se visse os dois juntos.

—Que coisa não é? Mas a Sophi e você não tem mais nada a ver... ela está feliz, está seguindo a vida dela...E o Pedro faz bem pra ela.

—Ninguém além de mim pode fazer bem pra Sophi. Agora com licença.

—Aonde você vai?

—Vou aonde não te interessa. O que você tem?

—Nada...eu só quero conversar com você.

—Olha eu estou afim de matar aula e você não está deixando. — comecei a andar em direção as árvores quando Caio me segurou. — Aí garoto o que você quer de mim?

—Por que você não vai matar aula lá no outro pátio?


—Porque a sala do diretor fica em frente a ele. Ninguém vai me ver ali. Agora me da licença.

—Fernando, espera.

— O que foi?

—A sophi e o Pedro estão perto das árvores, então não vai lá, por favor.

—O que eles estão fazendo lá?

Antes de ouvir a resposta eu corri para fora e confirmei o que Caio disse. Sophia e Pedro estavam sentados de baixo de uma cerejeira rindo, como se nada de errado estivesse acontecendo, um dos braços dele estava envolta de Sophi, ela sorria, parecia estar se divertindo. Ela encostou a cabeça no ombro dele, suas mãos se entrelaçaram, como se já tivessem feito isso muitas vezes, e se duvidar já fizeram. Uma raiva cresceu dentro de mim, uma sensação estranha no estômago, uma náusea, tive vontade de ir lá e socar a cara do Pedro. Mas esperei mais um tempo, para ver o que iria acontecer. Eles estavam conversando, chegando cada vez mais perto um do outro, ele olhava para Sophi com cara de apaixonado, prestando muita atenção em cada detalhe do rosto dela, como se quisesse memorizar cada centímetro. Ele se curva, fala alguma coisa no ouvido dela e depois disso Sophi ficou com uma expressão confusão, como se estivesse em dúvida, ela respondeu alguma coisa de volta, depois deu um sorriso tímido, o mesmo que ela me dava quando eu acariciava seu rosto e dizia que ela era a menina mais linda desse mundo. Que saudade desse sorriso.

Depois disso eu não acreditei no que eu vi, Pedro se inclinou e deu um beijo em Sophi, não uma beijão, mas um beijinho discreto na boca dela, depois disso estendeu uma rosa, Sophi falou mais alguma coisa e depois se levantou, sorrindo apenas como uma apaixonada pode sorrir, cheirando a flor admirando-a. Fechei os olhos e imaginei os dois namorando, Pedro ir almoçar com ela e seus pais, ele atirando pedrinhas na janela dela na calada da noite, ele abraçando-a, ela escrevendo as mais lindas músicas de amor para ele, guardo até hoje as músicas que Sophi escreveu pra mim. Só de pensar que ela vai escrever e dedicar os mais lindos versos de amor para outra pessoa, ainda mais para o Pedro, eu fico com raiva.

Ele fica sozinho por um minuto, olho para um lado e pro outro para ver se tinha alguém por perto. Atravesso o pátio e fico parado na frente dele. Ele demora um pouco para me perceber.

—Fernando?

—É esse é o meu nome.

—O que você quer comigo?

—Fica longe da Sophia.

—Não.

—Não?

—Você é surdo? Não vou ficar longe da Sophi!


—Ela nem gosta de você. Nós temos uma história muito grande e não é qualquer garoto idiota que vai acabar com isso.

—Em que mundo você vive Fernando? Eu não te entendo!

—Você não tem que entender, tem apenas que se afastar da Sophi.

—Eu não vou fazer isso!

—E quem disse que ela vai te querer? Acha mesmo que tem alguma chance com ela?

—Por que eu não teria?

—Do que está falando?

—Eu estou falando que acabei de pedi-la em namoro e ela me respondeu que iria pensar no assunto. Se eu não tivesse nenhuma chance com ela já teria recebido um não como resposta. Mas se ela pediu um tempo para pensar, significa que ela sente alguma coisa por mim, por menor que seja, e isso já é o suficiente.

—Ela está brincando com você, está te segurando, quer te usar para fazer ciúmes pra mim.

—Você acha mesmo que a Sophi é esse tipo de pessoa? Acha mesmo que ela brincaria com os meus sentimentos? Você não a conhece , eu duvido dos seus sentimentos por ela. Virou questão de honra não é?

—Você não sabe de nada da minha história com ela...

—A Sophi me contou tudo! Como você teve coragem de trair ela?

—Foi um erro, ta bom? Todo mundo erra e eu já pedi desculpas.

—Pedir desculpas não vai apagar o que você fez. Nunca fui com a sua cara, e agora eu tenho mais raiva de você do que nunca. Saia da minha vida e saia da vida de Sophi.

—Você acha mesmo que eu vou fazer isso? Acha mesmo que vou deixar você ganhar?

—Isso não é uma competição! A Sophi não é um prêmio! Entende isso de uma vez!

—Eu estou te avisando Pedro, se eu te ver perto dela mais uma vez, eu quebro a sua cara.

—Pode vir, eu não tenho medo de você.

—Está avisado.

O sinal tocou nos interrompendo, o pátio começou a lotar de alunos e professores, não tinha mais condições de discutir ali, dei uma última olhada em Pedro, querendo fuzilá-lo, mas me contentei apenas em dar um encontrão nele enquanto eu caminhava para a cantina, com mais raiva do que nunca.