Sono Te Hanasanaide

61 Especial de Natal - Parte 4


Aa Kaze ga jikan to tomo ni nagareru

E o tempo passou tão suavemente quanto o vento

Ureshikutte tanoshikutte

Era tão feliz, tão divertido

Bouken mo iroiro shita ne

Tivemos muitas aventuras

Futari no himitsu no kichi no naka

Dentro de nossa base secreta



Sono te Hanasanaide

Especiais



Parte IV

Yuri cantarolava baixinho. Jingle Bell, Jingle Bell. Jingle all the way. O resto da letra da música ele não sabia de cor, mas a melodia estava se repetindo sem parar na sua cabeça. Claro que isso só podia ser porque ele estava ouvindo músicas natalinas há horas já, desde manhã cedo. Sua mãe ficava incontrolável nessa época do ano.

Sua casa estava bem cheia. Parentes, amigos, gente que ele conhecia desde que nasceu, e gente que nunca havia visto na vida. Havia decoração de Natal para onde quer que se olhasse naquela casa, e ele nem sabia de onde havia saído tudo aquilo. Até no banheiro, havia uma guirlanda na porta e um Papai Noel segurando o papel higiênico! A casa estava toda iluminada com luzinhas coloridas, e se destacava de uma maneira incrível na rua. Dava para vê-la há duas quadras de distância, cintilando intensamente. Ainda mais porque nenhuma das casas ao redor tinha qualquer decoração aparente.

Aquele tipo de festa, reunindo tantas pessoas para comemorar o Natal, havia se tornado uma tradição na casa dos Shibuya, mas não era algo comum. Pelo menos, não no Japão, onde eles estavam agora. Mas desde que moraram em Boston, alguns anos atrás, Miko havia ficado maravilhada com a maneira ocidental de se comemorar a data. A ceia, a decoração, a troca de presentes, a espera pelo Papai Noel, tudo isso era incrível demais para se desperdiçar, aos olhos dela. Então, ela incorporou a comemoração à família, e ninguém tinha permissão para escapar.

Seu pai passou por ele, vestido de Papai Noel, com uma barriga falsa e tudo. Até mesmo Shori usava um gorro de Natal sem nem prestar atenção. Yuri teve vontade de rir. A sua mãe era capaz de fazer tudo o que queria mesmo. Não que ele não achasse divertido, também. Estava aguardando ansioso pelo equipamento de baseball que havia pedido de presente neste ano.

Estava com fome. Já era tarde, e não havia sinal do jantar ainda. Talvez, se conseguisse chegar até a cozinha sem ser notado, pudesse conseguir beliscar alguma coisa antes da ceia.

Avançou por entre as pessoas, querendo chegar até a comida, e sendo interrompido ocasionalmente para ouvir “Como você cresceu, Yuri! Já é um rapaz!”, “Como vai a escola?” e “Já arrumou uma namoradinha?”. Essa última em particular o incomodava. Ele só tinha oito anos, por que iria querer uma namorada? Ele nem conversava com as meninas da sua sala, para começar — elas eram todas chatas.

Logo que conseguiu chegar até o outro lado da sala, sentiu algo puxando-o pela camisa. Olhou para trás e não viu ninguém, mas só precisou baixar um pouco o olhar para notar a garotinha que o encarava fixamente, abraçada a um coelho de pelúcia. Era sua prima, Miyako.

— E-eu não quero ficar sozinha… Posso ficar com o Onii-chan? — Ela indagou, sem soltar a barra da sua camisa.

— Ahn… Pode ser. Você não estava brincando com as outras meninas? — Ele olhou para o lado de fora, vendo algumas outras crianças, a maioria seus primos mais novos, correndo de um lado para o outro.

— Elas foram brincar lá fora com os meninos. A Miya não gosta de correr. — Ela respondeu, soltando-o e abraçando seu coelho com as duas mãos.

— Tá bem. Só espera aqui um pouquinho… — Ele seguiu até a cozinha, furtivamente. Deu oi para a sua tia, que saía de lá na mesma hora em que ele entrava, e, segundos depois, voltou com dois biscoitos confeitados em forma de pinheiro de Natal. Entregou um para Miyako, que sorriu ao recebê-lo, e os dois correram de volta à sala, para não serem vistos por ninguém.

Se acomodaram no chão mesmo, no espaço pequeno entre dois sofás, próximo a parede. Era melhor, se não queriam ser vistos, e Miyako não gostava de estar ao redor de tantas pessoas, apesar de ter nascido em uma família com tendência a ser barulhenta e agitada. Yuri já estava acostumado a isso, mais do que ela pelo menos, mas também preferia o sossego algumas vezes.

— Você não parece animada, mesmo sendo Natal… — Ele apontou, logo depois de terminar de comer.

— É que não tem nada pra fazer… — Ela respondeu, em voz baixa. — A Miya não gosta das mesmas brincadeiras que as outras meninas.

— Ah, então você está entediada? — Yuri indagou. Miyako confirmou com um pequeno aceno.

— A mamãe não deixou a Miya trazer nenhum livro, nem nada. — Ela reclamou, parecendo incomodada. — Disse pra Miya conversar com as meninas. Mas a Miya não quer conversar com elas…

— Você gosta de livros?

— Sim! A Miya gosta muito de ler! — Ela afirmou, parecendo ligeiramente mais animada, só de tocar no assunto. — Os livros que têm princesas, e reinos mágicos e castelos enormes!

— Hm… Lembra quando a gente foi naquele lugar nas férias, que tinha um castelo grande?

— Eu lembro sim! Mas o tio disse que não dava pra chegar perto do castelo. A Miya queria ver. Será que lá também tinha um Rei, e uma Rainha… e uma princesa?

— Eu não sei… Mas eu sei que tinha um Príncipe.

— Mesmo? — Os olhos da garotinha cintilaram, enquanto ela se inclinava na direção de Yuri, ávida por mais informações. Miyako era um tantinho intimidante quando estava empolgada como agora, mesmo que esses eventos em especial fossem raros. — E como você sabe disso?

— Bem, eu conheci ele… — Yuri respondeu, vendo a expressão de Miyako tornar-se mais e mais admirada, enquanto ela parecia se dar conta de algo.

— Hey… Espera… O príncipe… era aquele menino bonito que estava com o Onii-chan na viagem? No parque? Era ele?

— É, era ele. — Yuri confirmou, ainda que contra a vontade. Não gostava muito da ideia de dividir as suas lembranças daquele dia de maneira descuidada. Tinha a impressão de que elas iriam se esvair, se ele as contasse para alguém. E, além disso, Wolfram nunca disse que ele poderia sair por aí dizendo que ele era um príncipe, e, embora ele não parecesse fazer questão de esconder isso, também não era uma informação que devesse ser espalhada a esmo.

— Você devia ter contado isso pra Miya antes, Nii-chan! — Ela se agitou, dando um tapa não muito forte no ombro do primo. — E como foi que vocês se conheceram então? Se ele é um príncipe?

— Ah… Por que você quer saber? Nem tem tanta graça assim… — Yuri deu de ombros, mas Miyako era insistente quando queria, e continuou a encará-lo, com os olhos enormes por trás dos óculos.

— A Miya já disse que adora histórias. Histórias com príncipes! Conta pra Miya uma história. Por favor, Onii-chan… — Ela continuou a cutucar o ombro dele, de maneira constante, até que ele desistisse, rolando os olhos para cima. Apesar de tudo, não se incomodava de partilhar a sua história com a prima. De todas as pessoas, ela provavelmente era quem entenderia melhor, afinal.

— Tá bem, eu conto. — Ele suspirou, sentindo-se derrotado diante do enorme sorriso da menina, que parecia bastante com o dele próprio quando vencia em algum jogo, se ele parasse para observar. — Naquele dia em que a gente foi passear no parque-

— Não, não! Você está contando errado, Onii-chan. Não é assim que se conta uma história! — Miyako protestou veementemente, com o dedo indicador para cima, falando como se ela fosse uma grande especialista. — Você tem que começar com “Era uma vez…”

— Sério isso? — Yuri não queria fazer isso, mas sabia que uma vez que colocava uma ideia na cabeça, dificilmente Miyako desistiria dela. Nesse ponto também, eles eram parecidos. — Ah, tá bom. Então, an… Era uma vez…

em uma terra muito, muito distante, um jovem príncipe. Ele tinha os cabelos dourados, e os olhos mais lindos do Reino. Era muito bonito, como um anjo. Como uma pintura. Como a pintura de um anjo. Ele era mesmo muito bonito, sim.

Porém, ele quase não sorria. Ele tinha que ficar o dia inteiro trancado no castelo, estudando para um dia ser Rei, e não tinha amigos para brincar. Então ele ficava apenas olhando pela janela do seu castelo, emburrado e entediado, sem ter nada de divertido para fazer.

Até que um dia, o príncipe cansou disso. Resolveu que ia ir embora daquele lugar chato, e fazer as coisas que tivesse vontade. Ele fugiu do castelo sem que ninguém o visse, e correu para longe.

Só parou de correr algum tempo depois, quando já não sabia mais onde estava. Não conhecia nenhum lugar ao seu redor, e havia apenas uma floresta à sua frente. Uma floresta toda pintada de vermelho, laranja e amarelo, que parecia brilhar ao sol, como se fosse feita de ouro. Então, ele resolveu se esconder na floresta. Talvez até pudesse viver lá, para sempre.

Algum tempo depois, ele cansou de caminhar, e começou a se sentir solitário. Começou a sentir falta da sua casa, e triste por ter deixado sua família para trás. Mas ele ainda não queria voltar. Não queria ter que repetir todos os dias as lições tediosas, ouvindo sempre os mesmos discursos, e sendo cobrado tanto por coisas que nem entendia direito. Era melhor ficar ali, e se esconder de tudo, afinal.

Repentinamente, ele ouviu barulho de passos, quebrando as folhas secas. Alguém se aproximava, vindo de dentro da floresta.

— Tem alguém aí? — Ele perguntou, amedrontado. Claro, essa foi uma pergunta estúpida. Se alguém estivesse ali para lhe fazer mal, jamais responderia a isso. E, para a sua surpresa, de dentro da floresta, saiu um garoto. Ele devia ter mais ou menos a sua idade, mas sua aparência era bastante incomum. A começar pelos cabelos, muito negros e lisos, como as penas de um corvo. Seus olhos também. E ele trazia consigo uma espada. Era um samurai, valoroso e imponente…

Hey… Onii-chan, esse não é você!

— Você que pediu para eu contar uma história! Estou deixando as coisas mais emocionantes.

— Mas estava indo tão bem até agora…

— Shh, não atrapalha! O que eu estava falando? Ah, sim…

… valoroso e imponente. O samurai era um aventureiro, e viajava para conhecer terras distantes, lutar contra monstros, e proteger quem estivesse precisando. O príncipe jamais havia visto alguém assim. E o samurai, depois de percebê-lo ali, logo se aproximou.

Estendeu a mão para o príncipe, e, com um sorriso, perguntou o que ele fazia ali. A verdade era que a figura solitária e vulnerável do garoto loiro chamou sua atenção. Ele parecia tão triste que era praticamente impossível ignorá-lo. Ia contra a natureza do samurai, negar ajuda a quem precisasse. E, mesmo que o príncipe não tivesse pedido por nada, o samurai ainda assim sentia que ele precisava de muita ajuda naquele momento.

O samurai levou o príncipe para conhecer a floresta, que era muito maior do que ele havia imaginado. Era engraçado como, apesar de estudar tanto e saber de tantas coisas, o príncipe não conhecia nada de verdade. Nunca havia corrido até se cansar, ou construído castelos de areia. Nunca havia escalado árvores, nadado no rio ou observado as nuvens para saber que formato elas tinham. E o samurai tentou mostrar isso tudo a ele.

Queria mostrar a ele o mundo.

Já estava quase entardecendo, e as cores da floresta alaranjada se confundiam com as do céu, no mesmo tom. Os dois já estavam exaustos de correr pela clareira sem parar, e deitados na grama, viam as cores das nuvens mudando aos poucos. O samurai havia conseguido fazer o príncipe sorrir. Isso para ele já bastava. Tinha decidido que iria proteger aquele sorriso a qualquer custo, a partir de então.

O samurai ergueu os olhos…

— Ele estava olhando para o príncipe, não estava? — Miya observou.

— O que? — Yuri chegou a se perder na sua narrativa, com aquela observação.

— Se ele não estava olhando para o céu nessa hora, então ele devia estar olhando para o príncipe!

— Por que está dizendo isso?

— Porque o príncipe era tão lindo, é claro que o samurai não podia fazer nada além de ficar olhando para ele. É assim que acontece nos livros.

— Tá bom, tá bom… Se você diz.

… quando viu uma sombra negra ao longe, que se aproximava velozmente, e parecia vir na sua direção.

— Não…!

O príncipe sobressaltou, ao ver a criatura no céu, e se ergueu do chão. O samurai viu o medo em seus olhos, e, sem hesitar, segurou a sua mão, levando-o para longe, para algum lugar seguro, onde a criatura que sobrevoava o local agora não os encontrasse.

Pois foi só naquele momento que o samurai percebeu que aquilo que se aproximava não era nada além de um enorme dragão castanho, que cuspia fogo, e parecia estar procurando exatamente pelo príncipe.

Os dois se embrenharam pela mata, que não era tão densa quanto seria necessário, mas que podia ocultá-los da vista imediata do dragão. O príncipe não conseguia correr tão rápido quanto ele, e tropeçava por vezes na raiz das árvores, mas o samurai jamais o deixava para trás. E não soltaria a sua mão por nada.

Até que, enfim, ele encontrou o que buscava. A maior árvore da floresta, um carvalho centenário com raízes mais altas do que as suas cabeças. No seu tronco, havia uma abertura para a parte oca que poderia abrigá-los. O samurai conduziu o príncipe até lá, devagar, escalando o solo íngreme que levava até a parte mais oculta da árvore.

Escondidos ali, eles ouviram o rugir do dragão, e o ruído alto das suas asas próximo. Ele devia estar pousando na floresta, para procurá-los. O príncipe se encolheu, amedrontado.

— Ele… Ele veio me buscar…

— Ele não vai pegar você! — O samurai empunhou sua espada, pronto para sair dali e lutar contra a fera para proteger o seu amigo.

Heey, ele vai lutar com o dragão? — Miyako indagou, de repente.

— Bem, acho que vai, nee? É isso o que os heróis tem que fazer…

— O samurai nunca ia conseguir derrotar o dragão sozinho. E se o dragão veio buscar o príncipe para levar ele para casa, ele não é ruim, não é? — Ela argumentou. Yuri ponderou por alguns instantes. Realmente, o dragão não era ruim. Ele só estava querendo colocar um pouco mais de ação na história.

— Ok… Talvez você esteja certa.

O príncipe, percebendo as suas intenções, segurou-o pelo braço. O samurai notou que ele parecia prestes a chorar, e voltou a sentar-se.

— Não vá, por favor! — O príncipe implorou. — Se você for até lá, ele vai machucá-lo!

— Eu não me importo. Tenho que proteger você! — O samurai insistiu, percebendo que o príncipe não o soltaria.

— Não! Ele só está querendo me levar de volta para casa. Se eu for com ele, ele não vai fazer nada contra você. — O príncipe finalmente começou a chorar. Seus olhos brilhavam com as lágrimas, como duas esmeraldas, e o seu rosto ficou todo vermelho, enquanto ele tentava esconder-se com a mão livre.

— Então ele não é ruim? — O samurai indagou, e o príncipe negou com um balançar de cabeça.

— Eu só… n-não quero voltar para casa. Eu não quero ir embora daqui! — O príncipe soluçou. — Eu quero ficar aqui… c-com você! — Ele soltou o braço do samurai para, em vão, tentar segurar as lágrimas, que não queriam obedecer-lhe.

— Hey, não chore, por favor… — O samurai ergueu a mão, afagando os cabelos dourados do príncipe, tentando acalmá-lo. — Eu estou aqui com você, não estou?

— Mas eu tenho tanto medo…

O samurai não entendia. Do que o príncipe tinha tanto medo? Ele queria ajudar, mas não sabia o que poderia fazer naquela situação. O príncipe ainda chorava, e o dragão estava cada vez mais perto.

Então, ele se lembrou de um encanto antigo, uma magia que aprendera com a sua mãe. Tinha certeza de que funcionaria. Afastou os cabelos da testa do príncipe, e o encarou, decidido. Um encantamento para acabar com o medo. Ele só tinha que tentar…

Espera, Onii-chan! Eu acho que entendi!

— O que? — Yuri chegou a levar um susto ao ouvir a voz de Miya. Esteve tão concentrado na história que não percebeu o tempo passando. Não sabia que contar histórias podia ser tão distrativo. Ou, talvez, fosse porque havia misturado demais as cenas com as suas lembranças, e já não conseguia mais distinguir o que havia sido real, e o que não havia.

— Esse encantamento, eu acho que conheço! É o que a tia faz, quando acontece alguma coisa ruim, não é?

— Ahn… Talvez? — Inesperadamente, Yuri se sentiu embaraçado. Até agora, havia pensado naquilo que tinha feito para Wolfram como algo natural, mas, de repente, sentiu-se constrangido pelo ato. Ele havia beijado seu amigo…

— Então o samurai beijou o príncipe! — Miyako exclamou em voz alta, surpresa. Yuri segurou-a, antes que ela acabasse se empolgando demais e espalhando o ocorrido para toda a casa.

— Na testa. — Ele se apressou em acrescentar, sentindo o rosto queimar. — E já que você sabe o que aconteceu, eu vou continuar…

— Está tudo bem agora? — Depois de terminar o seu encanto, o samurai indagou, fitando o príncipe que o encarava, surpreso.

— S-sim… Eu acho que sim. — Ele se atrapalhou ao responder, embaraçado.

— Bem, então… Acho que você realmente deveria ir ver o dragão. E voltar com ele, para casa.

— O que? Mas eu não quero!

— Sua família deve estar preocupada. E você é um príncipe, não é mesmo? Você precisa estar lá, para um dia se tornar um grande rei. As pessoas precisam de você.

— E você vem comigo? — O príncipe segurou o samurai pela manga, suplicante. O samurai não sustentou o olhar dele por muito tempo.

— Eu não posso. Preciso voltar para a minha casa, também. Meu país fica muito longe daqui.

— Então nós não vamos nos ver nunca mais? — Os olhos do príncipe voltaram a cintilar, como se ele estivesse prestes a chorar novamente. O samurai não sabia o que responder.

— Claro que vamos! — Ele não tinha tanta certeza, mas precisava animar o príncipe. Era muito melhor quando ele sorria.

Relutante, o príncipe assentiu. Ele sabia, lá no fundo, que não havia alternativa. Porém, aqueles momentos preciosos junto ao pequeno samurai, aquela pequena chama de alegria em meio a sua vida apagada, ele jamais esqueceria.

— Algum dia, príncipe, eu irei voltar e nós vamos nos ver de novo! É uma promessa.

— Eu irei esperar. — O príncipe finalmente sorriu, embora não fosse um sorriso feliz, como antes. E então ele saiu do espaço oculto entre a árvore, indo em direção ao Dragão, que o esperava pacientemente.

E eles nunca mais se viram.

— Não, Onii-chan!! Você pretende terminar a história assim??

— Ahn… Acho que sim. — Ele murmurou, incerto. Contar aquela história havia conseguido deixá-lo um tanto desanimado no fim das contas. Seria muito bom ver o seu Príncipe de novo, e a pequena constatação de que talvez isso não fosse possível era triste.

— Não, não, histórias não acabam assim! Elas terminam só quando você chega no “viveram felizes para sempre”! E o Príncipe e o Samurai não chegaram lá!

— Mas eu não sei como vai ser o felizes-para-sempre deles! Eles não tem um, eu acho. — Yuri afirmou, sem muita motivação. Miyako se ajeitou, no chão, sentando de maneira mais reta.

— Então é só nós darmos um para eles. Olha só…

O Pequeno Príncipe voltou para o castelo, e continuou os seus estudos. Porém, a partir de então, ele já não ficava mais tão triste por estar sozinho, ou desanimado por ter que estudar, porque, no fundo do seu coração, ele ainda guardava as valiosas memórias do Samurai que conheceu, e que iluminou toda a sua vida. Tinha esperança de que o encontraria novamente, e isso era suficiente para motivá-lo a se esforçar nos seus afazeres todos os dias. Quando eles se encontrassem de novo, ele poderia mostrar todas as coisas que havia aprendido, e como era bom no que fazia.

Anos se passaram, e o Príncipe se tornou um rapaz. No entanto, o Samurai nunca retornou. O Príncipe, apesar disso, nunca cansou de esperar, e sempre que tinha tempo livre entre as suas obrigações, pegava o seu cavalo branco e se dirigia à Floresta Dourada. Podia ficar por horas, sentado no mesmo lugar onde eles se encontraram pela primeira vez.

Não que estivesse esperando — ele ainda tinha esperanças, mas elas eram tênues, e realistas — mas ele apreciava a quietude do local, o aroma das árvores, o ruído dos pequenos animais e do farfalhar das folhas quando o vento passava. E as lembranças daquele dia inesquecível sempre retornavam com mais facilidade, quando ele estava ali.

Repentinamente, ele ouviu um ruído. Um ruído familiar, e seu coração acelerou com a perspectiva. Tinha medo de estar sendo traído pelas falsas expectativas novamente, como sempre acontecia, então, não ousou olhar para a direção da trilha que se abria em meio ao bosque. O barulho de passos se aproximando, e ele sentia a presença de alguém.

Quando se deu conta, havia uma mão sendo oferecida na sua direção, e o mesmo sorriso de anos atrás iluminava um rosto ligeiramente mais velho.

— Desculpe a demora. — O Samurai sorriu ainda mais, esperando pela reação do Príncipe, que continuava paralisado à sua frente, e não havia aceitado a mão que ele estendia. Ele se preocupou. E se o Príncipe estivesse com raiva dele, depois de tantos anos de espera?

O Samurai fitou o garoto, percebendo que lágrimas se juntavam na borda dos olhos dele, transformando seus orbes em duas jóias brilhantes mais uma vez. O Príncipe não aceitou a mão que ele oferecia para ajudá-lo a se erguer. Pelo contrário, tomou impulso por si só, e se jogou nos braços do Samurai, quase derrubando aos dois. Abraçou-o tão forte quanto podia, para garantir que fosse real, e que não se esvaíria das suas mãos como fumaça, assim como aconteciam nos seus pesadelos, noite após noite.

E ele era real, e estava ali, pois o Príncipe podia sentir o seu abraço sendo retribuído com igual entusiasmo, enquanto o Samurai praticamente o erguia do chão.

Miya-chan, você tá exagerando…

— Não tô não!

E então, ao se afastar ligeiramente, o Samurai mirou o rosto do Príncipe, e o acariciou, sorrindo ternamente. Queria tanto ter vindo antes, mas os perigos no caminho atrasaram seu retorno. E tudo o que ele sabia agora era que jamais iria desejar deixar aquela pessoa para trás.

Mais uma vez, segurou o belo rosto do Príncipe, fechando os olhos e se inclinando para perto, selando o encantamento que afastava o medo novamente…

Você fez ele beijar a testa do príncipe de novo? Não tinha necessidade! — Yuri reclamou, o rosto inteiramente vermelho agora. Miyako riu baixinho.

— Bobo, dessa vez não foi na testa.

— O que?? — Ele se exaltou, completamente perturbado.

— Uma história de conto de fadas tem que ter um beijo no final, senão não fica certo!

— E-eu nunca vi uma história com dois garotos! — Yuri argumentou, ainda tentando mudar a ideia da menina, sem muito sucesso pelo visto, já que ela continuava a sorrir triunfantemente.

— Eu também não… — Ela admitiu, aquiescendo. — Mas deve existir alguma, em algum lugar. De qualquer maneira, ficou muito melhor com esse final.

— Então acaba assim?

— Acho que sim. Depois disso, o Príncipe levou o Samurai para o Castelo dele, e apresentou para todo mundo. — Miyako prosseguiu, empolgando-se ainda mais. — E ele se tornou o… Ahn… Responsável por proteger o Reino de monstros, lutando ao lado do Dragão Mágico, e de todos os outros guardas.

— Hm… Legal, gostei disso. — Yuri assentiu em aprovação, dando chance para Miyako continuar.

— E aí, depois, ele e o Príncipe se casaram!

— Você tá louca?? Eles não podem se casar! São garotos! — Ele se exaltou novamente, e Miyako riu da cara engraçada que o primo fazia.

— Eu vi na televisão que em outros países meninos podem se casar. Então, no reino do Príncipe, eles podem.

— Mas por quê? — Yuri ainda não entendia a necessidade da prima de colocar romance no meio da história toda. Estava muito boa sem tudo aquilo, ele pensava.

— Bem, é um conto de fadas. No final tem que ter casamento. — Ela parecia muito certa da sua decisão, ajeitando os óculos que estavam sempre escorregando pelo seu nariz, quando ela se movia demais, como agora.

— Quem disse?

— Todos os livros de contos de fadas, ué! — Ela deu de ombros. — Além disso, o Príncipe e o Samurai gostavam um do outro, não gostavam?

— Bem, acho que sim? — Ele murmurou, em voz baixa.

— Muito?

— Argh, tá bem! Muito. — Ele desistiu, revirando os olhos para a insistência da garotinha. Ela comemorou rapidamente.

— Então! As pessoas se casam quando elas se gostam muito! Foi o que a minha mãe disse.

— Tá certo, então a história vai acabar assim. Feliz agora?

— Claro! Então, o Príncipe e o Samurai se casaram e viveram felizes para sempre! É um final perfeito.

Yuri pareceu remoer aquela conclusão por mais alguns segundos, antes de voltar a fitar a prima, inseguro.

— Nee, Miya-chan… Você acha que o Príncipe e o Samurai vão voltar a se encontrar mesmo? — Ele mordeu o lábio, envergonhado por ter feito a pergunta.

Miyako deu um tapinha na sua cabeça, bagunçando seu cabelo e sorrindo brilhantemente, otimista.

— Claro que sim! — Ela bradou, confiante. — Eles estão destinados a se encontrar de novo! É assim que funciona.

— Ah… Entendi… — Yuri respondeu, um pouco aliviado depois disso.

— E se o Onii-chan não encontrar o seu príncipe, então a Miya casa com o Onii-chan, tá bom? Pro Onii-chan não se sentir sozinho… — Ela afirmou, ainda dando batidinhas na cabeça do primo, como se sentisse pena dele.

— Eu não preciso disso! — Ele protestou. — E, além disso… E-eu estou falando do Samurai, não de mim!

— Claro, claro… — Ela não discutiu, e sorriu como se soubesse de tudo. Yuri virou o rosto para o lado, teimoso. — A Miya vai lá ver se a comida tá pronta, tá? Já volto.

Sozinho, agora, Yuri voltou a pensar na história de antes. Abraçou os joelhos, e repousou a cabeça sobre eles. Esperava que Miyako estivesse certa, naquela parte, pelo menos. O Samurai vai encontrar o Príncipe, e eles vão viver juntos, felizes para sempre.

Afinal… O Príncipe havia sido, também, o seu primeiro amigo.



— O que houve? Você está calado demais. No que está pensando?

Desconfiado… Yuri sorriu com o pensamento. Seu namorado era mesmo muito desconfiado. Até mesmo o silêncio era suspeito para ele. Os dois estavam deitados na cama de Wolfram, e a única luz no espaço era proveniente da televisão que ele mantinha oculta atrás de um painel camuflado na parede que Yuri só descobriu que existia há poucas semanas.

Wolfram era muito injusto por não ter mostrado isso a ele antes. Se bem que… Havia aquela tela enorme na sala de vídeo, quando eles queriam ver filmes. E, quando estavam sozinhos no quarto de Wolfram, a última coisa em que eles pensavam em fazer era assistir televisão.

Ele riu baixinho do pensamento que cruzou sua mente, e Wolfram ergueu de vez a cabeça do peito de Yuri, onde esteve deitado por horas, para encará-lo diretamente.

— O que foi? — Yuri indagou, inocente. Wolfram bufou.

— O que é tão engraçado? Anda, fala no que você estava pensando antes. — Ele exigiu. Seu semblante era irritado, mas Yuri sabia que não era sério. E aquela ruguinha que se formava entre as sobrancelhas de Wolfram naquela tentativa de fazer cara feia (como se fosse possível realizar essa façanha) era adorável. O biquinho que a acompanhava também, era simplesmente irresistível.

— Bom… — Yuri não se conteve, e ergueu a mão, passando o polegar na testa de Wolfram, aliviando sua expressão. — Primeiro, eu estava lembrando de uma história…

— Uma história? — Wolfram estranhou. — De um livro?

— Algo assim. Era uma história de Conto de Fadas, que eu e a Miya-chan inventamos num Natal muito tempo atrás, quando a gente não tinha nada pra fazer. — Ele contou, e Wolfram voltou a deitar sobre Yuri, aparentemente satisfeito com a resposta.

— E sobre o que era?

Wolfram só perguntou porque gostava de ouvir o som da voz de Yuri, quando estavam próximos assim um do outro. Ela parecia sair de dentro de si, era uma sensação boa. E, além disso, o filme na televisão já não estava mais prendendo muito a sua atenção. Era sobre uma criatura verde que odiava o Natal. Lembrava a ele a época em que ele também não gostava do Natal. Ou das festas de Natal, pelo menos. Ele tinha a impressão de que teria se tornado verde também, se não tivesse encontrado o que procurava naquele tempo.

— Era sobre um Príncipe, eu acho… E um Samurai. — Yuri continuou a falar, e Wolfram se acomodou melhor em seus braços, aquecido e confortável. — Um Príncipe teimoso e mimado. — Wolfram ergueu os olhos, apenas o suficiente para uma encarada rápida, censurando-o em silêncio. — E um Samurai que demorava demais para voltar…

— Mas ele voltava, não? — Wolfram indagou, distraindo-se, enquanto brincava com os dedos de Yuri, erguendo um e outro; Yuri girou a mão, e entrelaçou seus dedos nos deles, segurando firme.

— É, ele voltava. — Yuri sorriu. — Eu só lembrei disso, e fiquei feliz, por ter colocado um final bom na história.

— Como foi o final? — Wolfram inclinou o rosto, repousando o queixo no peito de Yuri dessa vez. Os olhos dele pareciam mais como esmeraldas do que nunca.

— “Eles viveram felizes para sempre”. É assim que os finais tem que ser, não é?

— Hm… Não me parece muito realista. — Wolfram ponderou por alguns segundos, e então se ergueu completamente, soltando a mão que segurava. Logo depois, sem hesitar, descansou todo o seu corpo acima do de Yuri, cuidadosamente, deslizando até encontrar seu rosto na mesma altura do dele. — Mas eu gosto desse final.

Uniu seus lábios, sem dar à Yuri a chance de se mover primeiro, e roubando assim todo o seu fôlego.

— Você não queria ver esse filme, hoje? — Yuri indagou tolamente, no espaço até outro beijo, surpreso pelo ataque inesperado.

— Não importa… — Wolfram desviou sua atenção dos lábios de Yuri, e voltou-se para seu pescoço, arrancando dele uma pequena interjeição de sobressalto. Seu Príncipe Mimado estava ousado, esta noite. Ele não podia deixá-lo ter todo o trabalho sozinho, então.

Girou o corpo, colocando Wolfram abaixo de si. Sorriu ao ver os olhos dele brilharem de expectativa, e, mesmo com a luz tênue da televisão, notou que a sua pele clara ganhava cor. Tinha seu Príncipe todo para si, e não se demorou em aproveitar a oportunidade que surgia tão de repente. Isso era praticamente um Presente de Natal.

Yuri tinha que admitir. “Viveram felizes para sempre” podia não ser tão real, mas era o melhor final que ele poderia alcançar. E, naquele momento, sentindo Wolfram tão próximo de si, ele não tinha dúvidas de que era sim, possível, ser feliz para sempre ao lado dele.

Notas finais
Olá, pessoas! Como foi o Natal? Comeram muito? Foram bons meninos e ganharam presentinho do Papai Noel?? Eu sei que eu gastei um monte, foi-se o tempo que eu só esperava ganhar presentes, agora tenho que dar também .-. mas valeu a pena~ e engordei uns três quilos no mínimo, certamente o/ mas foi bom.... Enfim, cá está a última parte dos especiais de Natal. Se saiu antes da meia-noite (cinco minutos!), não conta como atraso, nee?? Até porque só é amanhã quando eu durmo u-u (e tivemos um pequeno atraso técnico na revisão do capítulo por causa do episódio final de Owari no Seraph que abalou algumas estruturas [nossa editora tem um fraco pelo Ferid que desestabilizou ela por certo período de tempo cofcof]) Espero sinceramente que tenham gostado desse presentinho, que foi preparado com muito carinho hehe E semana que vem, voltamos para a nossa programação normal, com o capítulo 57 pelo qual todos estavam esperando o/ Como semana que vem já vai ser Ano novo, desejo à todo mundo que estiver lendo um ano maravilhoso, melhor do que esse que tá acabando, e que todos vocês consigam realizar seus desejos e sejam felizes, comam muito, leiam muito, arrumem namoradinhos e tudo mais o que precisarem-quiserem-desejarem XD E, é claro, continuem acompanhando a história no ano que vem, também~ Conto com vocês, e até lá o/ [Edit da Editora: Realmente, sinto muito pelo quase atraso, culpa minha, eu assumo. Ferid Bathory e Crowley Eusford me desestruturaram completamente por algumas horas. Não assistam Owari no Seraph. É sofrimento de graça. Ç_Ç Um Feliz Natal {atrasado, mas okey} e um ótimo ano novo para todos vocês! o/]