You're just too good to be true

Você é apenas tão bom para ser verdade

Can't keep my eyes off you

Não posso tirar meus olhos de você

You feel like heaven to touch

Tocar você é como o paraíso

I wanna hold you so much

Eu quero te abraçar tanto

[...]

I love you baby, and if it's quite alright

Eu amo você, baby, e se estiver tudo bem

I need you baby to warm the lonely nights

Preciso de você, baby, para aquecer as noites solitárias

I love you baby, trust in me when I say

Eu amo você, baby, acredite quando eu digo

Oh pretty baby, don't bring me down I pray

Oh, meu querido, não me deixe mal, eu peço

Oh pretty baby, now that I found you, stay

Oh, meu querido, agora que te encontrei, fique

And let me love you baby, let me love you

E deixe-me amar você, baby, deixe-me amar você



Capítulo 57

De: Natsume-san

Assunto: [Sem assunto]

O cabelo dele é tão lindoo!!!!!!

Ok, chega de falar sobre isso, eu vou surtar ((((;゜Д゜)))

Como está a festa?? ヽ(○´∀`)ノ♪

A música alta fazia as pessoas ao redor se agitarem, e, apesar de ouvir vozes conversando animadamente ao redor, Miyako não prestava muita atenção agora. Geralmente não gostava de lugares tão cheios e barulhentos, mas não podia negar que estava se divertindo.

Estava conversando por mensagens, com o celular quase grudado no rosto para enxergar sem os óculos. Depois de rir lendo a narrativa de como Natsume havia acabado a noite encontrando-se com o modelo de quem era fã, ela agora contava à amiga sobre como a cerimônia do casamento havia sido incrivelmente bela. Julia havia sido conduzida até o altar pelo seu irmão. Seu noivo a aguardava com tanta expectativa que, quando a viu, deixou escapar o sorriso mais espontâneo que poderia, algo que parecia inesperado vindo de alguém como ele. Com sorte, o fotógrafo teria registrado aquele momento.

Os votos de Suzanna Julia e Adalbert foram tão bonitos que ela teve que se segurar muito para não chorar, e acabar estragando a maquiagem que Natsume tivera tanto trabalho para fazer. Podia jurar ter visto Wolfram disfarçar, escondendo o rosto por alguns segundos do outro lado.

Após o fim da cerimônia, eles cumprimentaram os convidados. Julia estava deslumbrante e sorria tão abertamente que ninguém poderia negar que era o dia mais feliz da vida dela. E, embora Miyako não conhecesse o noivo dela pessoalmente, ele parecia ser bastante sério, mas olhava para ela de uma maneira tão terna, quase boba, que a garota não podia evitar sorrir com aquela visão.

O jantar foi servido, e, como esperado, estava delicioso. Wolfram aproveitou para apresentar aos outros as comidas típicas do seu país, com uma nota de orgulho na voz. E, enquanto isso, o altar utilizado para a cerimônia foi desmontado, dando lugar a uma ampla e iluminada pista de dança ao ar livre. O casal dançou a primeira valsa, e, depois, todos foram convidados a se juntar a eles. A música passou a ser mais agitada, e, enfim, a festa teve início.

Enquanto Miyako tentava resumir todos os acontecimentos nas mensagens, percebeu uma movimentação ao seu lado, e o conteúdo da troca de palavras chamou sua atenção.

— Vamos lá, Wolf… Só uma música, o que custa?

— Já disse que não. Você nem sabe dançar, por que está insistindo tanto?

— Porque eu to com vontade… E é divertido. — Yuri insistiu. Miyako notou que Wolfram desviava o olhar para longe. Provavelmente porque, se olhasse para o rosto de Yuri, acabaria cedendo, ela podia apostar. — E nós estamos em uma festa, não sei se percebeu… Todo mundo está dançando, olha lá! Até o Gwendal-san!

— Ele foi arrastado pela Anissina, não conta. — Wolfram cruzou os braços e as pernas ao mesmo tempo, demonstrando que não se moveria daquela cadeira em hipótese alguma.

— Nada me impede de te arrastar também, sabe? — Yuri desafiou.

— Você não ousaria… — Wolfram finalmente o encarou, seriamente. Os dois sustentaram o olhar firme um do outro por mais alguns segundos, mas Wolfram sobressaltou imediatamente, perdendo toda a sua pose, quando Yuri ergueu as mãos e passou os dedos pelos cabelos dele.

— Por favor… Só uma música…

— … Argh. — Wolfram tinha um vinco entre as sobrancelhas, e trazia uma expressão de profunda tortura. — Certo. Uma música. Só.

— Perfeito! — Yuri não perdeu tempo, segurando a mão de Wolfram e o conduzindo diretamente para onde as outras pessoas se moviam ao som do que parecia ser uma música antiga, que Miyako pensava já ter ouvido antes, mas que parecia diferente no arranjo ao vivo da banda que tocava na festa.



Para: Natsume-san

Assunto: [Sem assunto]

Yuri-nii-chan tirou o Wolfram-kun pra dançar!! (*≧▽≦)ノシ))



De: Natsume-san

Assunto: [Sem assunto]

OMFGAASHJSKA TIRA FOTOS DISSO PELO AMOR DE DEUS!!!!

Mesmo se Natsume não tivesse pedido, Miyako já estava com a câmera do celular a postos, tirando tantas fotos quanto podia da cena. Por sorte os dois não haviam ido para muito longe, e ela tinha um ângulo privilegiado para registrar aquele momento — em que Yuri, apesar de ter sido aquele a convidar Wolfram para dançar, se atrapalhou todo com as mãos, sem saber onde colocá-las.

Wolfram suspirou, exasperado, e segurou ambas as mãos dele, colocando uma em sua cintura e segurando firme a outra, enquanto repousava a sua própria no ombro de Yuri. Os dois se aproximaram, enquanto se moviam no ritmo da música. E Yuri exibia um lindo sorriso.

Miyako havia acabado de enviar as fotos para Natsume quando percebeu que alguém se acomodava na cadeira antes ocupada por Yuri, bem à sua frente. Ela não estava enxergando perfeitamente bem, já que havia sido obrigada a tirar os óculos para a festa, mas jamais teria confundido aqueles cabelos ruivos, afinal.

— Não quer dançar? — Benjamin indagou com um sorriso. Ele havia acompanhado seu tio minutos antes, para conhecer alguns amigos dele que estavam na festa, e agora retornava para a mesa.

— Ah, eu não sei dançar. — Miya riu, sem graça. — Prefiro só ficar olhando…

— Mas você está sem óculos. Vai ter que chegar mais perto para poder olhar bem, não é? — Ben sorriu de canto, aproximando-se de Miyako, e, ao segurar sua mão, ergueu-a de pé. Ela sentiu seu coração falhar, e, agora de perto, podia vê-lo com exatidão, o que só piorava a sua situação. — Eu te ensino a dançar.

Miyako não tinha como recusar um pedido desses. Repousou o celular na mesa, e, ainda sem saber bem como proceder, deixou que Benjamin a conduzisse para o centro da pista também.

Yuri percebeu quando a prima também foi tirada para dançar, e riu para si mesmo ao notar que ela precisava esticar o braço para poder apoiá-lo no ombro de Benjamin, ou teria que ficar na ponta dos pés. Wolfram o encarou feio, provavelmente interpretando errado o motivo do riso.

— Do que está rindo? Sua mão está indo muito para baixo, fracote… — Ele rosnou, e Yuri se apressou em corrigir, deslizando a mão de volta para a cintura do seu par. — Você realmente nunca dançou com ninguém antes?

— A dança ao redor da fogueira depois do Festival durante o Ginásio conta? Porque, além disso, eu nunca dancei mesmo… — Ele ponderou. Mesmo que Wolfram estivesse na posição de quem deveria estar sendo conduzido, era ele que ditava o compasso, e levava Yuri para o centro da pista, enquanto giravam lentamente. — Por quê? Eu estou indo muito mal?

— Não pisou no meu pé nenhuma vez, então, acho que não tanto… — Wolfram resmungou, sem querer admitir que ele era até bom nisso, ou, pelo menos, melhor do que imaginava. Sentiu-se estremecer quando Yuri o segurou mais firmemente, aproximando o rosto do seu como se fosse o mais natural a se fazer.

— Acho que eu gostei disso de dançar… A gente devia fazer isso mais vezes. — Ele comentou, sua respiração soprando na orelha de Wolfram, e fazendo ele perder a concentração de vez. Pisou no pé de Yuri, mas ele não reclamou, e continuou a rodá-lo lentamente. Afastou-se ligeiramente para fitá-lo, e seus rostos estavam bem mais próximos agora. — Tenho a impressão de que já ouvi essa música antes. Não lembro onde…

— É uma música conhecida, pode ter sido em qualquer lugar. — Wolfram respondeu, tentando não parecer tão desconcertado quanto se sentia por dentro. A maneira como Yuri podia fazê-lo perder a linha de racícinio sem nenhum esforço o irritava, às vezes. Ele fazia isso sem nem perceber.

— Acho que foi em algum filme... Ah, eu não consigo lembrar mesmo. — Ele lamentou para si mesmo, e voltou a fitar Wolfram com aquele sorriso de sempre. — Mas é uma música bonita…

— Acho que já está terminando. — Wolfram comentou.

— Que pena… — Ele o apertou mais contra si. — Eu poderia dançar com você para sempre…

Yuri percebeu quando Wolfram corou ligeiramente, e desviou o olhar. Os últimos acordes da música soavam, e ele apertou o loiro contra si com mais vontade, sentindo que o coração dele acelerava. Sorriu para si mesmo, com satisfação. Era ótimo saber que, mesmo depois de tanto tempo, ainda conseguia reações espontâneas como aquela com um simples comentário.

A música acabou, e os dois finalmente se afastaram. Yuri não soltou a mão de Wolfram quando ele recuou para conduzí-los de volta ao seu lugar. Repentinamente, porém, o loiro estancou, parecendo perceber algo ao longe, e esbravejou algum xingamento baixinho, na sua língua natal.

— O que houve? — Yuri estranhou. Os dois retornaram à mesa, antes de Wolfram começar a responder. Assim que sentaram-se novamente, ele se inclinou na sua direção, para falar discretamente.

— Naquela mesa do outro lado, para onde a minha mãe está indo… Não olhe agora! — Ele segurou o rosto de Yuri a tempo de evitar que ele fosse indiscreto. — O meu tio, Stoffel, está aqui. E ele está com Elizabeth. Eu não tinha percebido isso. Por que eles estão aqui?

— Eu não sabia que você tinha outro tio… — Yuri comentou, dando ligeira atenção ao assunto, e ainda tentando espiar com o canto do olho o lado para onde Wolfram indicou.

— Ele é irmão da minha mãe. E… — Wolfram hesitou, enrugando a testa e olhando para baixo. Seus ombros ficaram tensos, de repente. — É culpa dele. O golpe de estado, e a queda da monarquia. Nosso exílio. Ele estava como Regente, porque minha mãe não estava conseguindo manter-se, e… ele estragou tudo. Achou que poderia mandar em todos e fazer o que quisesse. Tentou tomar o poder à força, e o parlamento, descontente com as ações que ele vinha realizando, tomou a decisão…

Yuri não entendia nada de política. Não conseguia mensurar o impacto dos fatos que Wolfram narrava, nem as transformações que aquilo acarretava em todo um país. A única coisa que podia perceber agora — e na qual ele podia intervir — era o fato de que aquele assunto era um tópico sensível para Wolfram. E ele parecia estar contendo toda a raiva que sentia, dentro de si, naquele instante. Sua expressão era de dor, e isso era algo que Yuri não conseguia aguentar.

Segurou a mão que Wolfram apertava em punho sobre a mesa, e a trouxe para perto de si, aliviando a tensão contida nos nós dos seus dedos, acariciando lentamente. O loiro o fitou, lembrando de onde se encontrava, e que talvez estivesse trazendo preocupações desnecessárias à Yuri. Abriu a boca para pedir desculpas, mas sentiu a mão de Yuri gentilmente afagar seu rosto, e trazê-lo para perto.

Suas cadeiras estavam próximas o bastante para que Yuri abraçasse Wolfram sem dificuldade. Repousou a cabeça dele no seu ombro, e envolveu seus ombros com os braços, aconchegando-o e confortando-o. Não precisou dizer nada para que Wolfram entendesse, e se acalmasse.

Havia encontrado o lugar ao qual pertencia, e, agora, faria de tudo para protegê-lo, e não perdê-lo mais uma vez. Rodeou os braços ao redor de Yuri também, sentindo o rosto dele apoiado no topo da sua cabeça. Era incrível como eles conseguiam encaixar-se um no outro daquela forma tão perfeita, sem esforço nenhum.

— Obrigado, Yuri… — Ele murmurou, minutos depois. Não havia mais nada a dizer.

— Não foi nada. — Yuri encostou os lábios nos cabelos de Wolfram, e sorriu. — Eu estou aqui para isso, não é?

Wolfram não pôde evitar um sorriso também, ao erguer o rosto e fitá-lo. Sentia-se tão bem agora, não iria permitir nenhum outro pensamento desagradável que fosse estragar a sua noite. Nem que, para isso, fosse necessário eliminar de vez da sua mente a existência de Stoffel e de Elizabeth...

— Espera… — Ele se deu conta de um pequeno detalhe, repentinamente. — Por que você não parece surpreso com o fato de Elizabeth estar aqui? Nem eu sabia que ela viria! — Wolfram o encarou diretamente, atônito.

— Bem, talvez… Eu tenha visto ela… de longe…? — Yuri riu, sem graça, não conseguindo sustentar o olhar inquiridor do outro, e ergueu a cabeça, bagunçando a parte de trás dos cabelos.

— … Yuri. Você me convidou para dançar só para poder se exibir para ela? — Wolfram baixou a voz até um sussurro incrédulo. Não podia acreditar que o seu namorado, sempre tão desprendido e despreocupado, fosse dar sinais de possessividade infantil como aquele, logo agora. Esse era o seu papel na relação, até onde ele estava ciente. Não, não — ele devia ter entendido errado.

— Claro que não! Eu te convidei pra dançar porque eu quis! — Como esperado, Wolfram havia entendido errado, é claro. — Eu só vi ela depois. Quem sabe, talvez, eu tenha te abraçado mais apertado pra mostrar pra ela que estamos muito bem juntos...? E que ela não tem chance nenhuma. Só pra reforçar a ideia, entende? Ela ficava olhando demais pra você...

— Yuri… Eu não acredito… Você ficou a encarando? — Wolfram o fitava, sério, e segurou o máximo que pôde, mas uma risada soprada escapou, deixando Yuri mais aliviado sobre o assunto anterior.

Elizabeth devia estar furiosa agora. Wolfram nem ousava olhar para saber, mas, se ela já estava incomodada o suficiente para não comparecer à pequena reunião que sua mãe organizara para comemorar seu aniversário dias antes, então ele realmente não queria saber como ela estava agora. Yuri riu também, por ver que Wolfram não havia se incomodado com sua pequena ceninha. Como se o loiro fosse alguém para falar alguma coisa, aliás.

— Um pouco. Talvez? — Ele continuou a rir, vendo Wolfram revirar os olhos. Voltou a se ajeitar na cadeira, inclinando-se na direção dele. — Mas e esse seu tio? Por que ele está aqui? — Não pôde evitar a curiosidade.

— Bem, ele mora nos Estados Unidos conduzindo uma filial da empresa da família, e não está mais diretamente ligado ao governo como antigamente, é claro. Deve ter negócios com o noivo, por isso foi convidado. — Wolfram ponderou, levantando hipóteses. — Não é estranho ele estar aqui, meu país não é grande, todos se conhecem — Ele deu de ombros. — Elizabeth é sobrinha de um grande amigo dele, Raven. Junto com meu tio Valtrana, ele era um entusiasta da ideia de que eu me casasse com Elizabeth, e assumisse o trono um dia. Eles pensam muito nessa ideia arcaica de linhagem e herdeiros, ainda. — Ele suspirou, como se apenas falar sobre o assunto já o cansasse por inteiro.

— Ah… Então esse é outro tio seu que me odeia, estou certo? — Dessa vez, Yuri não se limitou, e olhou bem para a mesa em que via Cheri apoiada, de pé, rindo com uma taça de champagne na mão. O homem sentado ao seu lado não parecia muito satisfeito, ela provavelmente estava provocando-o. Era um homem de meia-idade, com cabelos ainda loiros, penteados para trás, e uma barba espessa. Agora trazia uma expressão de descontentamento intenso, mas ele lembrava um pouco aqueles atores de filmes americanos de quem a sua mãe era fã.

— Provavelmente, mas não quero pensar sobre isso agora. — Wolfram cortou o assunto rapidamente, segurando a mão de Yuri para chamar sua atenção para outro tópico. — Suzanna Julia está daquele outro lado. Você não queria ir conversar com ela?

— Acho que ela não está muito ocupada agora, não é? Vamos lá! — Yuri se ergueu, animado, e seguiu na direção onde estava a noiva, logo mais a frente. Ainda segurava a mão de Wolfram, no caminho. — Ela está muito bonita, não é? Digo, mais do que já era…

— É porque ela está ao lado da pessoa que ama. — Wolfram disse sem pensar, aceitando uma taça que um garçom que passava por eles oferecia. — Isso deixa as pessoas mais resplandescentes aos olhos dos outros.

— Você deve saber bastante sobre isso, não é? — Yuri provocou, piscando um dos olhos para Wolfram, que apenas disfarçou, provando a bebida que acabara de pegar.

— Hmm, isso é doce... É bom. — O loiro comentou para si mesmo, ignorando a risadinha satisfeita do outro.

— Julia-san! — Yuri já se foi se anunciando ao se aproximar, e Julia ergueu o rosto assim que ouviu a sua voz. Soltou o braço do seu marido, depois de trocar algumas palavras com ele, e dirigiu-se aos dois jovens com um enorme sorriso para recepcioná-los.

— Yuri, e Wolfram! — Ela exclamou, juntando as mãos em sinal de admiração. — Eu sabia que vocês viriam! Como vocês estão?

— Hehe, nós estamos bem. — Yuri foi quem respondeu pelos dois, ligeiramente nervoso. Aquela sensação que Julia era capaz de transmitir, de que podia enxergar através dele, nunca deixaria de intimidá-lo.

— E você cumpriu a sua parte do acordo, Yuri? — Ela indagou, inquisitória.

— Acordo? — Wolfram arqueou uma sobrancelha, olhando direto para Yuri.

— Ah, Wolfram, querido, Yuri não contou à você? — Julia parecia achar a situação muito divertida, realmente. — Nós nos encontramos há alguns meses, e conversamos um pouco...

— Bem, isso ele contou. — Wolfram voltou-se à mulher, dessa vez sorrindo discretamente, de maneira grata.

— Então. Quanto eu o convidei para o meu casamento, disse que ele só poderia vir diante de uma hipótese. Que estivesse namorando você. — Ela sorriu de um jeito tão terno que Wolfram sentiu o rosto aquecer de novo. Yuri se remexeu, subitamente desconfortável. Não queria que Wolfram pensasse que ele era o tipo de idiota que precisava de chantagens para agir de uma vez.

— Tenho que agradecer à você, Lady von Win… digo, von Grantz. — Wolfram tentou manter-se impassível — Por ter conseguido a proeza de entender a mente confusa de Yuri, e colocado algum bom senso dentro dela. Isso foi... de muita ajuda. — Ele não sabia bem o que dizer. Era complicado agradecer à alguém por ter auxiliado no seu relacionamento sem parecer idiota. — Obrigado, mesmo…

— Não precisa me agradecer, Wolfram. Eu fiz isso pelos meus próprios motivos egoístas, também. Queria muito que vocês dois se dessem bem. E, além disso — Ela sorriu, conspiratória. -, tenho certeza de que você teria alcançado esse objetivo sozinho, de qualquer maneira. Yuri não aguentaria resistir tanto tempo a você. — Ela escondeu uma risada com a mão, delicadamente. Yuri não conseguia nem se irritar com o fato de ela estar evidentemente debochando dele.

— Vocês ficam falando como se eu não estivesse aqui. — Ele reclamou, apenas. Wolfram revirou os olhos, porque, no fundo, concordava com Julia, e ela apenas riu mais uma vez.

— Ah, eu estou apenas muito feliz por vocês terem conseguido finalmente alinhar os seus sentimentos dessa forma. Deixem-me ver vocês direito, agora… — Ela se aproximou, erguendo as mãos, e repousando cada uma no rosto de um deles, e acariciando de leve. — Sim, sim… Vocês parecem muito bem. É tanta sorte, encontrar o amor de uma vida ainda tão jovens. — Ela sorriu, sonhadora, soltando seus rostos, e buscando encontrar as mãos dos dois. Com alegre surpresa, descobriu que elas já estavam unidas.

— Eu sei disso. — Yuri disse em tom de orgulho. — Eu tive mesmo muita sorte.

Wolfram apenas corou, sem saber o que dizer. Quando Yuri era assertivo daquela forma, ele sempre ficava um tanto perdido.

— Então? — O sorriso de Julia se abriu de maneira sugestiva. — Eu tenho meu palpite, mas vocês já decidiram sobre a questão do travesseiro?

— O que?! — Yuri sobressaltou, praticamente gritando, quando entendeu a pergunta que Julia havia feito há tanto tempo.

— Que travesseiro? — Wolfram já não recordava daquilo, e muito menos entendia a questão, então apenas olhou de um para o outro, enquanto Julia ria com vontade.

— Ah, que bonitinhos… — Ela afagou a cabeça de ambos os garotos. — É por isso que eu adoro vocês!

— Julia, estão nos chamando para tirar fotos… — Adalbert apareceu de repente, acenando com a cabeça discretamente para ambos em um comprimento rápido.

— Está bem. — Ela sorriu de maneira terna, e inclinou a cabeça para os dois. — Eu vou indo. Aproveitem a festa. E juízo! — Ela lembrou. — Temos quartos vagos para os convidados, se precisarem de algum tempo a sós.

Dessa vez, Wolfram entendeu. Ficou gaguejando uma resposta desconexa, indignado. Yuri também não conseguiu responder, porque a noiva saiu saltitando ao lado do seu marido, enquanto acenava para os dois.

— Eu tinha esquecido de como ela podia ser… — Wolfram deixou a frase no ar, não encontrando um adjetivo que resumisse aquela qualidade em especial que Julia possuía. Yuri também não saberia explicar.

— Só espero que ela não conheça a Miya-chan…

Um arrepio passou pelos dois, só de imaginar que encontro perigoso seria esse. Um risco que corriam, naquela noite.

A música agora era um pouco mais agitada, e havia várias pessoas na pista de dança. Inclusive sua mãe, Yuri percebeu, com um pequeno suspiro doloroso, e tentou não olhar muito para aquela direção. Havia coisas nessa vida que não precisavam ser vistas.

Os dois foram voltando para a sua mesa. Wolfram terminou a sua taça sem nem notar, e, assim que outro garçom passou por ele, substituiu por uma cheia. Miyako e Benjamin já haviam retornado também, e a garota tinha o rosto afogueado pelo exercício — ela não era uma pessoa atlética, e já havia dançado duas músicas inteiras. Apesar disso, ria junto à Ben, enquanto eles conversavam, completamente alheios ao seu redor.

— Yu-chan! — O chamado repentino surpreendeu aos dois. Yuri olhou para trás, e viu seu irmão se aproximar, com um sorriso alegre no rosto. Ele provavelmente já havia bebido um pouquinho, mas nem precisava disso para se animar rapidamente. Era nessas horas que o lado “Hamano Jennifer” aflorava, e Shori se permitia ser um pouco mais solto em público, ao menos em comemorações como aquela. Ele estava próximo à Bob, seu chefe, que Yuri já conhecia, e mais dois outros homens que pareciam ser empresários também.

Shori ainda sorria, quando puxou Yuri pelo ombro e o trouxe para perto dos outros. Automaticamente, Wolfram o acompanhou.

— Este aqui é o meu irmãozinho, de quem eu estava falando há pouco! — Shori anunciou, com orgulho sobressaindo na voz. Yuri não sabia se procurava algum lugar para enterrar o rosto ou se saía correndo, mas acabou apenas sorrindo sem jeito, preso ao braço de Shori.

— Ele estava se gabando de você, rapaz. — Um dos homens, um senhor de meia-idade de aparência cordial, sorriu enquanto falava com Yuri. — Disse que você é catcher do seu time de baseball.

— E capitão! — Shori acrescentou, e os homens riram.

— Eu costumava ir a jogos com meu filho quando morei na América. Vimos os San Francisco Giants. — O outro homem comentou, aleatoriamente. — Você pretende seguir carreira profissional, menino?

— Eu não tenho certeza, mas pretendo jogar durante a Universidade. — Yuri respondeu, vendo os homens assentirem em aprovação.

— Se você for tão bom quanto seu irmão gosta de espalhar... — Bob sorriu, dando um amigável toque nas costas de Yuri. — Com certeza se sairá bem. Ah, e você é o filho de Lady Cecilie, não é mesmo? — O empresário incluiu Wolfram, que até aquele momento se manteve quieto e concentrado na sua bebida, na conversa.

— Sim. — Ele respondeu, surpreso. — Conhece minha mãe?

— Temos negócios em comum. — Bob era muito acostumado à interagir em festas, falar sobre contatos e networking. Wolfram conhecia aquele padrão de conversa, mas Yuri não sabia o que estava fazendo ali. — Ela está deslumbrante esta noite. E você se parece muito com ela, se me permite dizer.

— Obrigado. — Wolfram sorriu. Sempre que as pessoas o comparavam com a sua mãe, ele interpretava como um elogio. Geralmente o era.

— O Senhor Bielefeld é seu amigo, Shibuya-kun? — O senhor mais velho indagou, curioso com aquela inesperada relação. Yuri se preparou para responder, mas, inesperadamente, seu irmão se pronunciou à sua frente.

— Namorado. Senhor Bielefeld é namorado do meu irmão. — Não havia qualquer entonação de desagrado ou ironia na sua voz. Shori afirmou com segurança, vendo a expressão dos dois desconhecidos que não estavam cientes desse detalhe se alterar desconfortavelmente. Bob, que provavelmente já sabia, apenas inclinou a cabeça em um menear de concordância, sorrindo compreensivamente.

Yuri olhou para Wolfram, que também parecia espantado com aquela pequena demonstração de aceitação — era a primeira vez que Shori ousava confirmar aquele fato em voz alta. Normalmente, ele se limitava a negar a verdade, fingir que o relacionamento de Wolfram e Yuri não existia, e que não passava de amizade. Yuri nunca disse nada sobre isso, mas Wolfram imaginava que fosse algo que o entristecia, no fundo.

No entanto, aparentemente, ele havia superado sozinho os seus ciúmes fraternais, e agora dava provas de que, ao menos, reconhecia Wolfram como seu namorado. Já era mais do que ele podia esperar. Wolfram discretamente segurou a mão de Yuri e sorriu para Shori, quando ele fitou a ambos, ligeiramente ansioso.

— Então… É, acho que vamos indo, Shori. — Yuri murmurou, sem jeito, depois de sentir a mudança de atmosfera gerada depois da pequena (e agradável, para ele) surpresa de Shori. Poderiam conversar sobre isso mais tarde, quem sabe.

— Ah, claro. — Shori enfim sorriu. — Diga à mamãe que eu volto daqui a pouco para conversar com ela.

— Nem se incomode. — Yuri voltou-se a ele, e apontou na direção da pista central. — Ela está dançando.

— Argh… — O suspiro de desanimação seguido de uma careta incrédula de Shori foi exatamente igual à reação de Yuri minutos atrás, Wolfram percebeu, curiosamente.

— Até outro dia, jovens. — Bob acenou, alegremente. Yuri acenou de volta, e Wolfram assentiu com a cabeça solenemente, antes de dar as costas, e voltarem para o seu lugar ali perto.

— O seu irmão, ele… — Wolfram não completou a frase, vendo Yuri acenar afirmativamente, com energia, entendendo exatamente o que ele pretendia falar.

— Sim, eu sei! Eu nunca imaginei que ele fosse fazer isso!

— Isso foi completamente inesperado. Você está feliz, não é, Yuri? — Wolfram não precisava de confirmação para constatar esse fato. Mesmo que não anunciasse abertamente, a aprovação do irmão mais velho era importante para ele.

Yuri riu, apoiando o braço no ombro de Wolfram em um meio abraço.

— Com certeza!



Os dois continuaram ali na mesa, apesar de Yuri ter feito uma tentativa de levar Wolfram para dançar mais uma vez, que foi categoricamente negada. Conversaram com Miyako e Benjamin, que também preferiam ficar por ali, e os garçons estavam sempre passando por perto, com petiscos e mais bebidas. Tiraram muitas fotos, inclusive junto com Suzanna Julia, que os arrastou sem pedir permissão para chamar a fotógrafa do casamento e registar aquele momento. Já haviam perdido a noção da hora, apesar de estarem ao ar livre, vendo a lua alta no céu. Surpreendentemente, não sentiam sono algum.

— Então, ela disse que eu não tinha colocado leite de soja nenhum no café, e ameaçou nunca mais voltar…

— Podia ir mesmo, não ia fazer falta. — Benjamin resmungou. Sempre que algum cliente era rude com Miyako, ele se irritava. Ela pedia para ele não se preocupar; era até bom que estivesse na maior parte do tempo atendendo na livraria, ou acabaria intervindo nessas situações o tempo todo.

— Você não pode falar assim, Ben-kun, ela era uma cliente! — Miyako rebateu, embora falasse de maneira tão suave que não parecia uma reprensão.

— Mas o que você fez? — Yuri indagou, curioso.

— Eu fiz como as outras meninas me ensinaram. Pedi desculpas, disse que traria outro café pare ela, e ofereci um cupom de desconto. Ela se acalmou, e tudo ficou bem.

— Ah, que bom. — Yuri sorriu, contente em ver o progresso da sua prima. Em outros tempos, Miyako teria começado a chorar no exato instante que outra pessoa gritasse com ela. — Acho que clientes chatos aparecem em todo lugar… — Ele começaria a contar alguns casos que Hori, ou até ele próprio, já havia protagonizado, que eram bem engraçados até, mas se refreou. Citar seu trabalho na confeitaria não teria sido uma boa ideia. Ele fitou Wolfram de canto, e o viu bem quieto do seu lado, bebericando da taça e fitando as pessoas ao redor distraidamente. Melhor não arriscar.

— É o que acontece quando a clientela começa a aumentar. Ultimamente, temos tido mais visitas do que o usual, nos horários de pico, ficamos lotados. — Benjamin contou, e Miyako confirmou silenciosamente o que ele dizia.

— Yozak-san disse que talvez seja a hora de investir em promoções, para conquistar clientes fiéis. — Ela continuou. — Isso também atraíria outros públicos…

Yuri não pôde deixar de pensar que, falando daquela maneira, Benjamin e Miyako pareciam um jovem casal de proprietários, cheios de sonhos e planos para seu estabelecimento. Mas… Ainda era muito cedo para Miyako se casar, ele pensou consigo mesmo.

— Promoções seriam legais, mas já pensaram em.. AH! — Yuri deu um pulo na cadeira, de olhos arregalados. Havia sentido algo deslizar pela sua perna, de baixo para cima, e então, todo o caminho de volta. Lenta e provocativamente.

— O que houve, Onii-chan? — Miyako indagou, preocupada.

— N-nada. — Ele tentou se manter imóvel, sem esboçar qualquer reação. Um movimento em falso, e eles perceberiam. O toque suave na perna, que causava arrepios pelo resto do corpo, não se intimidou com o fato de que poderia ser notado a qualquer segundo. — E-eu ia dizer, que tal cosplay?

— Cosplay?

— É. Como forma de a-aTRAIR! — Ele deu outro pulo, e voltou a encarar Miyako e Benjamin como se nada tivesse acontecido. Outro toque, dessa vez na parte de cima da sua perna. — Clientes. — Yuri sentia o olhar intrigado de Miyako em cima de si. Ela logo perceberia tudo. Precisava distraí-la. — Qual cosplay você colocaria no Ben-kun, Miya-chan?

— Q-qual cosplay? — Ela pareceu surpresa pela pergunta direcionada a si. Benjamin sorria na sua direção.

— Agora fiquei curioso. Que cosplay você gostaria que eu fizesse, Miya-chii? — Ele se inclinou na direção dela, atento e brincalhão. Miyako se atrapalhou, sem saber se olhava para ele ou tentava responder.

— E-eu não sei… Hmm.. — Não era como se ela nunca tivesse pensado nisso antes. — Você é alto, então... Sebastian? — Ela arriscou. — A-alguém de Shingeki ou… de Free? Não, não, de Free não!

— Ah, vamos lá, qual personagem? Nós poderíamos fazer um cosplay de casal, também.

— C-casal…? — Miyako pareceu mergulhar em um mar de possibilidades inexploradas, e tanto ela quanto Benjamin se distraíram um com o outro rapidamente, assim como esperado.

Yuri olhou imediatamente na direção de Wolfram, esperando que ele se retratasse pelo comportamento inadequado, para dizer o mínimo. Ainda sentia o pé dele roçando no seu tornozelo, e ele havia acabado de afastar a mão da parte de cima da sua perna, apenas para inclinar-se confortavelmente, com o cotovelo apoiado sobre a mesa, e o rosto, que se encontrava ligeiramente ruborizado, na mão. Os dedos da outra mão encostavam-se de leve na base da taça, em movimentos despercebidos. Encarava Yuri abertamente, como se pudesse despí-lo com aquele olhar, com um sorriso despontando, brincando nos lábios.

Yuri engoliu em seco. O que diabos estava acontecendo ali?

Com a atenção de Yuri voltada para si, Wolfram prosseguiu. Com seu pé ainda se movendo em um caminho tortuoso na panturrilha de Yuri, e sem exibir nenhuma mudança na sua expressão de provocação, ele baixou a mão. A toalha da mesa cobria suas ações, e ele fitava Yuri como se estivesse desafiando-o a esboçar qualquer reação na frente dos outros.

Sua mão deslizou para a perna do moreno, de uma maneira tão suave que era quase como se não estivesse lá. Yuri mordeu o lábio, tentando olhar para o outro lado e pensar em qualquer outra coisa. Tirar a mão de Wolfram à força não parecia uma opção, e ele não queria arriscar que qualquer um visse o que acontecia.

— O que você acha, Onii-chan? — Miyako indagou, animada.

— Que?

Yuuri sentiu aquela mão prosseguindo para a parte interna da sua perna.

— Da ideia que eu dei? — Miyako repetiu, sem entender. — Seria como em um Festival Escolar!

— O Festival da escola de vocês não está chegando? — Ben indagou para os dois.

— Não sei... É uma boa ideia, eu… acho… Ahn… É. — Yuri estremeceu. Podia sentir a risada silenciosa de Wolfram ao seu lado. No que diabos ele estava pensando?

Miyako já havia começado a falar sobre outro assunto, felizmente, se empolgando ainda mais rápido, e Yuri só poderia agradecer aos céus por ela não ter percebido nada ainda. Wolfram prosseguiu com sua atividade, silencioso como se nada estivesse acontecendo, e percorreu o caminho pela perna de Yuri, pressionando aqui e ali, chegando cada vez mais perto. Cada vez… mais… perto!

— Gah! — Yuri segurou a mão de Wolfram no ato, antes que ele o colocasse em uma posição ainda mais comprometedora, um caminho sem volta. Benjamin e Miyako pararam de conversar, notando o movimento repentino, e o fitaram ao mesmo tempo, confusos.

Wolfram, por outro lado, não parecia nem um pouco arrependido por ter sido pego no flagra, e deixou que Yuri ficasse segurando sua mão. Soltou apenas uma risadinha descarada.

… Risadinha? Wolfram não dava risadinhas.

— Vamos dançar, Yuri! — Ele anunciou subitamente, colocando-se de pé, e trazendo Yuri, que ainda segurava sua mão, junto consigo. Yuri não teve tempo de responder qualquer coisa, visto que Wolfram saiu marchando na direção da pista de dança, decidido.

— Espera, Wolfram! — Ele tentou segurá-lo, mas o loiro girou para ficar de frente para ele, puxando-o com ambas as mãos pelos ombros, encaixando-o contra si. Abraçou seu pescoço, apoiando o rosto ali também, não sem antes absorver profundamente o perfume de Yuri. — W-Wolfram? — Yuri quase perdeu o equilíbrio com aquela atitude inesperada.

— Cale a boca e me abrace, fracote. — Ele exigiu, e Yuri se viu sem alternativa a não ser acatar. Até entender exatamente o que estava acontecendo ali, não sabia como deveria agir. Segurou a cintura de Wolfram com ambas as mãos, e sentiu ele se acomodar em seus braços, encostando-se contra ele de uma maneira nada natural, como se houvesse alguma maneira de ficar ainda mais próximos do que já estavam.

— Será que você pode me dizer o que está acontecendo? — Yuri pediu, em voz baixa. Wolfram resmungou alguma coisa ininteligível, e ergueu o rosto, roçando contra o seu. Yuri estremeceu da cabeça aos pés, ao sentir os dentes dele mordiscando de leve o lóbulo da sua orelha.

— Me obrigue. — Ele sussurrou, com a voz quase soprada, fazendo a pele de Yuri formigar e aquecer-se em reação. Okay, isso não parecia nada promissor.

Wolfram deitou a cabeça em seu ombro, com mais uma risada abafada, e Yuri notou que as pernas dele não tinham sustentação alguma, enquanto ele parecia cambalear somente, fora do ritmo da música, na qual Yuri não estava nem prestando atenção. Era uma sorte que estivessem no meio da pista com outras pessoas dançando, e não se destacavam tanto.

De longe, Conrad notou aquela inesperada sucessão de fatos. Wolfram guiando Yuri para dançarem, muito embora ele parecesse relutante. Cheri, que estava próximo a ele, logo relevou o assunto.

— Eles só estão se divertindo, você não precisa se preocupar com isso. — Ela disse, enquanto apertava sua face com os dedos em pinça. — Você devia fazer o mesmo, Conrad. Ainda não o vi dançar com ninguém.

Conrad resolveu não levar em conta a sua mãe, que já havia desviado a atenção e continuou a observar. Notou que a maneira como Wolfram se movimentava, parecendo insistir para que Yuri se movesse junto com ele, não parecia muito firme.

— Ele não parece muito bem. — Gwendal surgiu ao seu lado, de testa franzida, mirando a mesma direção que ele. Anissina havia dado um tempo para ele, encontrando algumas pessoas que pareciam partilhar do seu interesse científico para conversar, e ele também havia percebido o comportamento do irmão.

— Eu vou lá ver. — Conrad afirmou, tomando em seguida o caminho por entre as mesas para chegar até a deles.

Yuri, enquanto isso, tentava conduzir Wolfram para saírem do meio da pista, mas ele relutava, praticamente ignorando-o. Então, ele decidiu mudar de estratégia.

— É melhor nós voltarmos para a mesa, Wolf… — Sugeriu, acariciando a cabeça de Wolfram para chamar sua atenção. Ele ergueu os olhos na sua direção, contrariado.

— Não quero. Você queria dançar, vamos dançar, então! — Embora continuasse a dizer isso, Wolfram nem mesmo se movia do lugar. — Hey, você está girando rápido demais, Yuri…

— Eu nem me mexi! — Yuri começou a ficar realmente preocupado. O rosto de Wolfram estava ainda mais corado, e ele franzia os olhos para tentar focar a visão, como se estivesse tonto. Nem percebeu quando o namorado começou a conduzi-lo de volta para a mesa, embora o loiro tropeçasse nos próprios pés pelo caminho.

Yuri estava alarmado com aquele comportamento distoante do normal, e tratou de segurá-lo firme, enquanto erguia o rosto, procurando por alguém que pudesse ajudar. Logo localizou Conrad próximo à sua mesa, e já ficou um pouco mais aliviado. Levou Wolfram até lá, acomodando-o na mesma cadeira de antes.

— O que houve? — Miyako indagou, vendo os dois retornarem rápido demais, ainda mais depois daquelas atitudes estranhas de antes.

— Acho que o Wolfram não está bem… — Yuri respondeu.

— Besteira! Eu estou ótimo. — Ele protestou, cruzando os braços.

— Não acho… — Conrad ponderou. Já havia visto esse padrão antes, uma única vez. Só precisou erguer a taça que o garoto usava antes, e já sentiu o aroma que provava que a sua suposição estava correta. Durante seu aniversário de 16 anos, antes de virem morar no Japão, Wolfram havia provado bebidas pela primeira vez. Não havia ficado descontrolado nem nada do tipo, mas ficou um tanto alterado, e perdeu a consciência logo em seguida.

— O que o Wolfram tem, Conrad? — Yuri o encarou, aflito. Ele ainda não havia percebido a causa daquela situação.

— Álcool no sangue, é isso o que ele tem. — Conrad entoou, sem muita surpresa. Não sabia o que mais dizer. Viu o semblante de choque de Yuri, o que era compreensível, afinal, ele jamais imaginaria ver o namorado naquele estado, ainda mais por causa de bebidas álcoolicas. Ele ainda procurava alguma explicação nisso tudo. — Ele presumivelmente nem percebeu o que estava tomando, esse tempo todo… Era um drink suave, então ele deve ter bebido vários, para chegar a esse ponto.

— Eu não percebi nada… — Yuri admitiu, sentindo-se em parte culpado por isso. Se tivesse prestado atenção, teria percebido que Wolfram estava fora do normal, e que estava pegando bebidas demais.

— Não foi sua culpa. Ele… — Conrad olhou para o lado, e estancou. — Onde está o Wolfram?

Yuri olhou para a cadeira, agora vazia, e se desesperou. Por que Wolfram continuava a supreendê-lo daquela forma, mesmo depois de tanto tempo ao lado dele, Yuri jamais entenderia. Seu pobre coração não aguentaria muito mais disso de maneira saudável, certamente.

Conrad e Yuri procuraram ao redor, e até Miyako e Benjamin, que até aquele momento apenas ouviam à conversa dos dois, olhavam para os lados. Não foi difícil localiza-lo, afinal, ele não estava longe. Logo mais a frente, havia atacado um garçom que passava por aquele lado, e não o deixava seguir em frente sem que tivesse sua vontade atendida.

— Eu não quero esse daqui! — Ele bradou, batendo uma taça que acabara de esvaziar na bandeja. — Eu disse que quero outro daqueles drinks de antes! — Ele insistia, deixando o homem sem saber o que fazer.

— Desculpe, senhor, eu…

— Aquele que era vermelhinho! E doce! Você sabe! — Ele resmungou, frustrado.

— Wolfram! — Yuri e Conrad enfim se aproximaram, e o moreno tomou a dianteira, puxando-o pelos ombros para longe de qualquer sinal de bebida, enquanto Conrad se desculpava com o garçom. — Vamos voltar…

— Não quero! — Wolfram discutiu. Não parecia contente de ter sido tirado de onde estava sem conseguir o drink que queria, e não apreciava receber ordens. Ele tentou desvencilhar do abraço de Yuri na sua cintura, mas não estava com controle total dos seus movimentos para conseguir qualquer coisa.

— Apenas fique perto de mim. — Yuri pediu, acomodando-o na cadeira mais uma vez. Wolfram não encontrou argumentos para negar aquele pedido simples, então apenas aquiesceu, projetando o lábio inferior enquanto desviava o olhar. Lá estava, o biquinho do príncipe mimado. Se não estivesse tão preocupado com Wolfram, Yuri teria rido.

— O que faremos agora, Onii-chan? — Miya indagou, tentando acompanhar a sequência de eventos.

— Se ele está mesmo bêbado, o melhor a fazer é garantir que ele não faça besteiras das quais vai se arrepender amanhã. — Benjamin sugeriu, mas recebeu um olhar fuzilante do loiro em resposta.

— Bêbado? Quem aqui está bêbado? — Ele reclamou, em uma voz mais alta do que o usual. — Eu estou ótimo, não vê? Você não acha que eu estou ótimo, Yuri? Fale para ele! — Wolfram deu um tapa no braço de Yuri, reforçando a ordem.

— Ahn… O Wolf está bem… — Ele disse, forçadamente, notando o olhar insistente do outro. Ele pareceu aprovar sua resposta, e assentiu em silêncio.

— Aqui, Wolfram. — Conrad voltou, entregando ao irmão um copo de água gelada. Havia conseguido isso com o garçom a quem Wolfram estava incomodando. — Tome um pouco, vai ajudar.

— Ajudar no quê? Eu não preciso de água. — Ele resmungou. — Por que estão fazendo isso comigo, afinal? Eu não fiz nada.

— Ainda. — Conrad quase riu, quando Wolfram o imitou parcamente, irônico, repetindo o que ele dizia, e revirando os olhos o máximo que as órbitas permitiam. Queria manter uma postura firme, mas era difícil quando ele agia como quando era criança. — Apenas tome um pouco de água, para se acalmar e pensar com mais clareza.

— Não quero! — Ele cruzou os braços, virando o corpo inteiro de costas para Conrad, recusando-se a pegar o copo.

— Não faça birra, Wolf. — Yuri pediu, com voz suave, mas inflexível. O rosto de Wolfram se contorceu ao ouvir a voz de Yuri, e ele relaxou ligeiramente, soltando os braços, ao menos. Se tinha uma coisa que Yuri sabia fazer, era lidar com a personalidade de Wolfram — salvo algumas exceções. — Você não estava um pouco tonto antes?

— É… Mas já passou. — Ele mentiu, hesitante.

— Então beba um pouco de água e você vai se sentir bem melhor. — Yuri pegou o copo de Conrad e estendeu para o loiro. Ele franziu os olhos para Conrad e para Yuri, mas segurou entre as duas mãos o copo e baixou o olhar, os joelhos juntos e os ombros caídos. Tomou um pouco da água, obedientemente, e voltou a fitar Yuri. Parecia uma criança, que sabia que havia feito algo de errado, apesar de não ter certeza ainda sobre o quê exatamente.

Como Wolfram se aquietou, Yuri voltou-se para Conrad. Precisavam discutir o que fazer com o garoto naquele estado. Se alguém o visse, e a notícia de que o príncipe exilado em Tokyo havia sido visto embriagado em uma festa se espalhasse, todos eles teriam problemas. Era o tipo de notícia que seria aumentada e distorcida para gerar mídia, e ninguém queria isso. E, mesmo sem esse fato, se a escola ficasse sabendo que um dos seus alunos estava nessa situação, ele seria, no mínimo, punido seriamente.

Além disso, Yuri já estava bem assustado. Primeiro, porque ver Wolfram em um estado alterado como esse já era inesperado, e ainda mais por ele ter bebido. Ele nunca havia visto ninguém bêbado de verdade. Adolescentes da idade deles não faziam isso no Japão! E o fato de Conrad tratar isso com tanta naturalidade era desconcertante. Yuri não sabia exatamente como as coisas aconteciam no país deles, e provavelmente os costumes eram diferentes dali, mas ele gostaria de saber o que deveria fazer naquele momento.

— Nós temos que levar ele para casa… — Ele supôs, depois de alguns momentos deliberando.

— Não queremos fazer nenhum escândalo na festa de casamento de Julia, e nossa mãe não vai querer ir embora tão cedo daqui. — Conrad ponderou. — Se obrigarmos Wolfram a sair, ele não vai fazer isso quieto, pode ter certeza.

— Mas… O que nós fazemos então? Deixar ele aqui e ficar o vigiando também não é uma opção. Ele vai acabar fazendo alguma besteira! — Yuri lembrava bem das besteiras que Wolfram havia tentado fazer antes, e não sabia o quanto aguentaria se tivesse que passar por aquilo durante a noite inteira.

— Vocês dois! — Wolfram chamou, com a voz elevada e um tanto arrastada. Parecia sonolento, mas seus olhos estavam bem despertos e direcionados para eles. — Parem de falar como se eu não estivesse aqui! Eu estou ouvindo tudo!

— Desculpa, Wolf… Eu só… Eu queria que você ficasse bem.

— Eu vou ficar bem… Se você estiver aqui comigo… — Wolfram projetou-se na direção dele, provocativo. Yuri sentiu o rosto aquecer, ouvindo as risadas de Conrad, Miyako, e até de Benjamin, diante da declaração tão aberta do outro.

— Está bem, Yuri… — Conrad, apesar de estar achando a situação engraçada, não podia deixar de se solidarizar com Yuri, percebendo o quanto ele estava perdido. — Eu vou ver se consigo resolver isso… Cuide do Wolfram por enquanto.

— Certo. — Ele assentiu, ainda que sem muita certeza de nada, e se acomodou no lugar ao lado de Wolfram, como antes. — Wolf… — Ele chamou, cuidando o tom de voz para não parecer rude — Tem certeza de que não quer ir para casa?

— Claro que não! A festa mal começou. — Wolfram replicou, começando a se irritar com aquela insistência toda. — Você está louco para que eu vá embora, não é?

— O que? Claro que não!

— E aí você pode sair por aí livre, dançando e flertando com todo mundo, trapaceiro miserável? — Wolfram cutucou Yuri na costela, onde doía mais, fazendo ele se contorcer em cima da cadeira. — Eu não vou a lugar algum!

— De onde você tira a ideia de que eu vou fazer alguma coisa como isso? — Yuri indagou, certo de que jamais havia dado nenhum motivo para Wolfram desconfiar dele. Ok… Talvez alguns, mas, em sua defesa, tudo havia sido ampliado pela imaginação fértil de Wolfram, nada concreto.

Porém, a expressão de Wolfram alterou-se rapidamente — como vinha acontecendo com cada vez mais frequência naquela noite, aliás — e ele se inclinou na direção de Yuri, recostando a cabeça no seu ombro como um gatinho manhoso.

— Você é tão lindo que as pessoas não conseguiriam evitar… — Ele murmurou. Certo, ele definitivamente estava fora de si. Yuri, lindo, que piada. Apesar disso, Yuri tentou disfarçar o rubor que sentia subir pelo seu rosto, e deixou que o loiro se acomodasse em seu ombro, mais confortável. Se somente Wolfram pensasse dessa forma era suficiente para ele.

Minutos depois, Conrad retornou à mesa, com o semblante de quem tinha todas as soluções em mãos. Na verdade, ele só tinha consigo um pequeno cartão. E o alcançou para Yuri.

— Aqui está. — Conrad sorriu, e, vendo a expressão confusa do garoto, prosseguiu: — Falei com Julia, e ela disse para levar Wolfram para um dos quartos do hotel. Ela reservou alguns com essa finalidade, aliás, então ele pode ficar durante toda a noite. Esse cartão é a “chave” da porta.

— Ah, entendi. — Ele percebeu o número impresso no cartão, e começou a se levantar, trazendo Wolfram consigo. Ele pareceu ficar um pouco tonto por se erguer tão rápido, então Yuri tratou de segurá-lo firme pela cintura. Podia ter quase certeza que, já há alguns minutos, ouvia o ruído de uma câmera de celular trabalhando ferozmente atrás de si, mas resolveu ignorar.

— Eu não quero ir pra casa… — Wolfram protestou, apesar da tontura. Tudo girava…

— Nós não vamos para casa. — Yuri afirmou, abraçando-o, e começando a andar junto com ele. Wolfram pareceu aceitar essa resposta. Se alguém os observasse agora, não conseguiria perceber com facilidade que Wolfram estava sendo completamente carregado por ele. Era sorte que ele não fosse muito pesado.

— Ah, quase ia me esquecendo. — Conrad os fez parar, e virar para trás. — Julia mandou um recado.

— Recado?

— “Aproveitem bem o quarto!”

O calor no rosto de Yuri subiu, e ele ignorou Conrad — que trazia no rosto um sorriso muito parecido com a da pessoa que enviou a mensagem — voltando a caminhar por entre as mesas, tendo como objetivo a enorme porta que dava acesso ao hall de entrada. Wolfram soprou em sua orelha, rindo ao vê-lo sobressaltar com o arrepio causado, como se ele realmente precisasse de mais provocação externa para se sentir pressionado.

Algo dizia a ele que aquela seria uma longa, longa noite.



Notas finais
Ooi pessoas o/ 2016 começando com atualização~ agora, enfim, retornamos à nossa programação normal, de volta ao casamento da Suzanna Julia. Espero que estejam gostado da festa hehe mesmo que esteja dando errado pra algumas pessoas - Yuri, no caso. Mas a festa tá sóo começando~ particularmente eu gosto muito desse capítulo. E de como o Wolfram ficou nele kkkkkkkkkkkkkkkkk A propósito, a música que Yuri e Wolfram dançam, acho que vocês devem conhecer? Mas essa versão que eles dançaram, era ao vivo, com a banda do casamento, e eu imaginei ela mais como a desse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=-V9J0OAKHVA Ok, acho que era isso.... Feliz ano novo (de novo) pra vocês, e continuem acompanhando Sono te esse ano também o/ até o próximo~