Sono Te Hanasanaide
60 Especial de Natal - Parte 3
Arigatou sakende ta koto shitte ta yo
Obrigado, com todo meu coração, até o fim
Namida wo koraete egao de sayonara
Foi doloroso segurar as lágrimas e dizer adeus
Setsunai yo ne
Com um sorriso
Sono te Hanasanaide
Especiais
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Parte III
Havia uma quantidade absurda de pessoas que Wolfram não conhecia para onde quer que ele olhasse. E, mesmo que ele conhecesse toda aquela gente, ainda assim, não iria querer estar ali.
Era o primeiro evento social em que Wolfram foi permitido comparecer — a tão esperada festa de Natal da Família Real de Shin Makoku. Todo o salão principal havia sido decorado de vermelho, verde e dourado, com azevinhos, luzes, velas e laços. Havia um pinheiro iluminado na parte superior do lugar, que quase chegava ao teto. Sua mãe havia feito um emocionado discurso sobre o sentimento das festas de final de ano, a união da família e a compaixão entre as pessoas algum tempo antes, e, no momento, uma música calma se espalhava pelo local. As pessoas se dividiam em pequenos grupos, conversando, comendo e bebendo, rindo e se divertindo.
Wolfram não via sentido em tudo aquilo, e nem no motivo pelo qual havia sido convidado. Sua mãe o colocara em um terno branco com gravata no pescoço, e ele mal conseguia se mover usando aquilo. Estava sentado na mesma cadeira, próximo à parede, há mais de meia hora, e ninguém parecia notá-lo ali. Na verdade, já havia se cansado de estar em meio aos adultos, que o tratavam como se ele fosse algo raro e precioso. Sentia-se um animal em extinção no zoológico, com tantos desconhecidos observando-o e fazendo comentários sobre como ele estava bonito, e como havia crescido. Ele nem conhecia aquelas pessoas, como é que elas poderiam saber alguma coisa sobre ele?
Depois de fazer como sua mãe havia pedido, e tocado “I Wish You a Merry Christmas” e “Let’s Snow” no piano para todos, ele pensou que poderia ir para o seu quarto, mas não deixaram. Tudo o que ele queria era acordar no dia seguinte para abrir os seus presentes, mas tinha que ficar mais tempo naquela festa chata e sem nada para fazer.
— Wolfram? — Ele ergueu os olhos e viu seu irmão se aproximando, sorridente como sempre. Conrad abaixou-se até a altura dele, apoiado em um dos joelhos. — O que houve? Não está gostando da festa?
— Eu não posso ir para o meu quarto?
— Receio que não… Sabe, nós somos os anfitriões da festa, não podemos sair e deixar os convidados sozinhos, certo? E ainda é bem cedo, então você vai ter que ficar mais um pouco aqui até poder ir dormir. Muitas pessoas vieram até aqui para vê-lo, sabia?
— Já me falaram isso. Mas eu não quero ver nenhum deles. Nem sei quem são! — Wolfram resmungou, impaciente.
— Você é um príncipe, Wolfram. Não foi você quem disse que iria se tornar um ótimo rei? — Conrad argumentou, vendo o semblante do garotinho se contorcer, sem conseguir replicar a isso.
— … Foi.
— Então? Essas pessoas que estão aqui também querem saber quem será o futuro rei delas. E, além disso, eventos sociais são uma parte importante do papel de “ser rei”. Então, é bom que você se acostume desde agora, pois terá que ir a muitas festas como essa durante muito tempo.
— Eu sei disso… É só que… — Não precisou terminar a frase, pois Conrad sorriu como se entendesse exatamente o que ele queria dizer. Afagou os cabelos loiros do irmão, e ele baixou os olhos, desanimado.
Wolfram até que gostava do Natal, quando, no dia seguinte à tradicional festa da família real, sua mãe e seus irmãos se reuniam para celebrar de verdade, somente eles. E ele abria seus presentes. Todos sorriam e pareciam muito felizes. Gwendal sempre dava a ele algum animalzinho que ele mesmo fizera, e Wolfram já tinha uma coleção deles. Sua mãe escolhia alguma roupa muito pomposa para dar para ele, que acabava tendo que usá-la no mesmo dia. E Conrad sempre acertava exatamente o que ele queria. No ano anterior, ganhara um estojo de materiais de pintura.
Mas ele não gostava de festas como essa. Não gostava desse Natal.
— Eu sei que você pode não estar achando tão divertido, mas vamos tentar um pouquinho, pode ser?
Wolfram não podia negar um pedido do seu irmão mais velho dessa forma, por mais que quissese discutir, bater o pé, e dizer que não aguentava mais ficar ali. Ergueu-se, olhando para ele e esperando que dissesse o que ele deveria fazer para comportar-se de maneira apropriada.
— Depois disso eu posso ir para o meu quarto?
— Pode. — Conrad sorriu. — Mas, até lá, você tem que sorrir e cumprimentar as pessoas com simpatia, está certo? Eu vou te apresentar para um garotinho da sua idade, e você pode brincar com ele, o que acha?
— Eu não quero brincar com ninguém. — Wolfram voltou a fechar o rosto, cruzando os braços. — Eu já tive muito trabalho para escapar da Elizabeth, não quero conhecer nenhuma criança.
— Ah, eu sei. — Conrad riu. — Mas imaginei que você iria querer conversar com ele. Ele veio passar as férias com o tio, que é meu amigo, e ele veio do Japão.
Wolfram ergueu os olhos no mesmo instante, o interesse renovado.
— Japão? — Essa era uma palavra mágica para ele. Desde o ano anterior, quando conheceu aquele garoto no parque, sempre que ouvia alguma coisa relacionada a esse país, corria para ver, mesmo que não fosse nada demais. Sentia falta do único amigo que já havia feito até então, e a única coisa que sabia era que ele estava agora em algum lugar do outro lado do mundo. Ele havia checado no globo terrestre da biblioteca. Era longe demais.
Wolfram seguiu Conrad até o outro lado da festa, onde um homem grande e ruivo bebia algo de uma taça, conversando e rindo com outras pessoas. Logo atrás dele, próximo à sacada, um garotinho que parecia ser mais alto do que Wolfram estava escorado na porta e prestava mais atenção em um video game portátil do que em qualquer coisa ao seu redor.
— E aí, Conrad! — O ruivo alto saudou assim que os viu se aproximar. — Então esse é o seu irmãozinho? Não parece nada com você. — Ele sorriu para Wolfram. O loiro se encolheu ligeiramente, como sempre fazia ao conhecer pessoas novas, por reflexo. — Ah, você é tímido… — Ele comentou, assentindo. — Assim como o meu sobrinho, vocês vão se dar bem, eu acho. Esse aqui é o Benjamin. — Ele apontou para o garotinho logo atrás, que ergueu os olhos do jogo ao ouvir seu nome.
— Se apresente, Wolf. — Conrad incentivou, colocando a mão no ombro do menino. Ele hesitou, juntando as mãos e desviando o olhar.
— Olá. Eu sou Wolfram. — Ele disse em voz baixa, querendo acabar logo com aquilo. O garoto sorriu fracamente, parecendo tão desconfortável quanto ele diante da situação. Isso tranquilizou Wolfram, em parte. Ele não suportava outras crianças, principalmente quando elas eram agitadas e barulhentas. Claro, com uma única exceção.
— Meu nome é Benjamin. Pode me chamar de Ben, se quiser. — Ele deu de ombros, sorrindo despreocupado. O garoto era ruivo assim como o homem, e os seus cabelos bagunçados não combinavam muito bem com a roupa formal que vestia, mas ele parecia bem mesmo assim. — Deve ser muito legal morar em um castelo. Tudo aqui parece cenário de um jogo! — Ele exclamou, admirado.
— É, é legal, sim… — Wolfram concordou, embora não sentisse isso de verdade. O lugar era grande demais, e as paredes tinham eco. Durante a noite, era um pouco assustador. Ainda mais quando ele estava sozinho. — Hm… Meu irmão disse que você veio do Japão, é verdade? — Ele mudou de assunto, tentando disfarçar a sua curiosidade observando a noite calma que se instalava do lado de fora.
Era inverno no país, mas nunca ficava tão frio a ponto de ter que ficar trancado dentro de casa, exceto nos dias em que nevava, e, para a decepção de Wolfram, esses eram bem raros. Ele gostaria de poder patinar no gelo mais vezes, se o clima permitisse, mas naquele ano não havia feito frio o suficiente para o lago congelar.
— É, eu nasci lá. — Benjamin respondeu, dando uma pausa no seu jogo por um instante. — Meus pais são agentes de turismo, e viajam bastante. Eu vim para cá para passar as férias com o tio Yozak.
— E… Como é lá? No Japão? — O interesse de Wolfram era evidente, por mais que ele quisesse esconder isso. A verdade era que ele queria muito saber como era o lugar onde Yuri morava, já que ele falava de lá com tanto orgulho.
— Ahn… Acho que é bem diferente daqui. — Ele ponderou por um segundo, e voltou a falar. — As pessoas são todas bem parecidas, e eles são gentis e educados. As ruas estão sempre tão cheias de gente que não dá pra ver a calçada… Mas, na primavera, a rua fica toda florida com as cerejeiras. E no inverno nós comemos nabe, em um kotatsu…
— Em um o quê?
— É como uma mesa, com um cobertor, que se aquece. É muito bom de usar no inverno.
Por mais que tentasse, Wolfram não conseguia imaginar como seria uma mesa-cobertor. Imaginava se Yuri teria uma dessas em casa. Talvez ele estivesse usando uma como essa nesse exato instante.
— Lá faz muito frio? — Ele indagou, ainda preso à imagem mental de Yuri em uma “mesa-cobertor” — seja lá o que isso fosse.
— Mais do que aqui, mas depende da região. Onde eu moro faz frio, mas em outros lugares não é tanto…
Wolfram percebeu que não sabia exatamente de que lugar Yuri vinha, além do fato de que ficava no Japão. Poderia ser qualquer lugar do país. Como ele iria encontrá-lo dessa forma…? Ainda se soubesse como fazer para entrar em contato com ele… Se soubesse o seu endereço, e pudesse mandar cartas… Ele deveria ter pensado nisso daquela vez. Deveria ter sido mais inteligente. Deviam existir milhares de “Yuris” no Japão, como ele o encontraria, se não sabia nem mesmo o seu sobrenome?
— Eu quero ir para o Japão algum dia… — Ele comentou sem querer. Por mais que não tivesse nenhuma informação que o levasse até Yuri, não se importaria de procurar onde quer que fosse, até encontrá-lo. Talvez ele fosse fazer exatamente isso, no futuro. Não era uma ideia ruim.
— Por quê? — Benjamin indagou, e Wolfram lembrou que não estava sozinho ali. Pensou por alguns instantes.
— Porque tem uma pessoa lá que eu quero muito ver. — Respondeu, baixando os olhos. — Ele prometeu que voltaria para me ver, mas isso já faz muito tempo…
— Bom, se ele prometeu, então acho que você pode esperar por ele, não é? — O ruivo ponderou. — Quer dizer… Já imaginou se você sai procurando por ele, e aí ele vem pra cá e não te encontra?
Wolfram fitou Benjamin, com o semblante de alguém que percebe alguma coisa pela primeira vez.
— Ele… Ele não quebraria a nossa promessa… Eu tenho certeza. — Wolfram repetiu, um pouco mais convicto.
— É isso aí. Se você já esperou um tempo, pode esperar mais um pouco, certo? — Ele sorriu, e Wolfram assentiu. De certa forma, se sentia um pouco mais animado com aquela perspectiva. — Eu acho que vou procurar alguma coisa pra comer. Você quer também?
— Não, obrigado. Vou ficar aqui.
Benjamin saiu, e Wolfram caminhou até a sacada. O vento estava mais frio ali fora do que ele imaginara, mas ele não sentiu vontade de voltar para o calor do lado de dentro. De repente, a memória de Yuri, ainda que vaga, havia o deixado com muitas coisas para pensar.
Já fazia mais de um ano desde que eles se encontraram pela última vez. Ele sabia que deveria confiar que Yuri voltaria, assim como ele havia dito, mas era difícil não pensar no quanto queria vê-lo, principalmente quando se sentia só. Havia tantas coisas sobre as quais gostaria de conversar com ele. Coisas que queria mostrar a ele. Coisas que sabia que somente ele poderia entender.
Wolfram nunca teve muitos amigos — ou melhor, nunca havia tido nenhum, antes de Yuri. Ele era um príncipe, e é claro que as pessoas tinham tendência a querer aproximar-se dele, mas ele sempre as afastou de qualquer maneira. Havia aprendido há muito tempo que quem quer que fosse a entrar na sua vida, sempre acabaria por se afastar algum dia.
Fossem os tutores que davam aulas a ele, os filhos dos empregados que o convidavam para brincar, ou as criadas que cuidavam dele desde que era pequeno, quando sua mãe estivesse ocupada. Qualquer uma dessas pessoas poderia sumir da sua vista sem aviso algum, a qualquer instante. Elas nunca estavam ali porque queriam, afinal.
Ele já havia ouvido uma vez, sem querer, a conversa entre duas criadas, que comentavam como era difícil lidar com aquele príncipe mimado, cheio de manias e vontades, que ele era. Elas diziam que preferiam ter qualquer outra tarefa, a não ser essa. Wolfram entendia que não havia ninguém que estivesse ali para ele, além da sua própria família.
E Yuri. Ele havia aparecido de repente, e, pela primeira vez, Wolfram soube como era ser aceito por alguém sem o peso de um título nas suas costas. Yuri não sabia nada sobre ele, e, mesmo quando soube, não se importou. Ele apenas ofereceu um sorriso, estendendo a mão para segurar a sua. E não a soltou. Ele prometeu que eles se veriam novamente. Wolfram queria tanto acreditar.
Ele sentiu lágrimas teimosas querendo forçar a passagem, e mordeu os lábios para tentar refreá-las. Não podia deixar que ninguém o visse chorar. Ele se segurou e se recuperou, disfarçando, como estava acostumado a fazer.
Ninguém precisava saber.
❆
— Será que ele já acordou?
— Claro que não, ainda é cedo.
— Vamos esperar então…
— Mas eu quero ver logo o rostinho dele quando ver!
— É melhor esperar ele acordar e deixar embaixo da árvore, como sempre fizemos.
Aquele barulho de conversa do lado de fora da porta fez Wolfram se revirar na cama, e despertar. As vozes foram se afastando. Ele demorou alguns segundos para situar-se. Não lembrava de ter ido para a cama sozinho na noite anterior. Será que havia caído no sono durante a festa, e alguém o trouxera? Ahh, que humilhação! Só esperava que ninguém tivesse visto isso.
Sentou-se na cama, esfregando os olhos e se acostumando aos poucos à luminosidade tênue que atravessava a cortina. Aos poucos, uma constatação se formava na sua mente, e ele então percebeu: era Natal. Ou, pelo menos, para ele, era agora que o Natal começava de verdade.
Ele pulou da cama, saindo com os pés descalços mesmo, para fora do quarto. Não havia mais ninguém no corredor, e ele correu desajeitadamente, ainda com o cabelo em completa desordem e a camisola laranja-claro que usava para dormir.
Quando enfim chegou ao topo da escadaria que dava acesso à sala principal, viu sua mãe e seus irmãos reunidos próximos à árvore de Natal. Se apressou em descer os degraus, ouvindo um “não corra na escada” de Conrad.
Logo ao se aproximar, percebeu uma caixa razoavelmente grande que esperava por ele logo ao pé da árvore, e parecia destoar do resto dos presentes que estavam ali. Aquele devia ser o seu presente, ele tinha certeza. Olhou para Gwendal e Conrad, como se pedisse permissão para prosseguir, e então para sua mãe, que parecia observá-lo com expectativa.
— Este é o seu, querido. — Ela disse, parecendo mais empolgada do que ele próprio. — Esse ano nós decidimos qual seria o seu presente juntos!
— Espero que goste. — Gwendal também sorriu, bagunçando ainda mais os cabelos loiros com a mão.
— Está bem. — Wolfram ajoelhou-se em frente a caixa, estendendo a mão para abrir a tampa. A caixa se moveu. Ele sobressaltou, olhando surpreso para os outros, que apenas riram. O que raios havia ali dentro?
Wolfram abriu enfim a caixa com um movimento único, e seus olhos arregalaram-se ao finalmente perceber qual era o seu presente. Olhos azuis amendoados o fitaram de volta, inclinando a pequena cabeça com curiosidade, e então, logo depois, subindo pela borda da caixa para tentar alcançá-lo. Um cachorro!
Wolfram se apressou em tirá-lo da caixa. Era maior do que ele esperava, e um tanto pesado também, mas seu pêlo amarelo-claro era macio e cheirava bem. Ele se agitou nos seus braços, e se movia de um lado para o outro.
— Como será o nome dela, querido? — Cecilie indagou.
— É uma menina? — Ele ponderou por alguns segundos, enquanto a filhote começava a cheirá-lo, pensando em um nome que combinasse com ela. — Liesel! — Ele respondeu de repente. Parecia perfeito.
Liesel pareceu gostar do seu novo nome. Ergueu-se no colo dele, lambendo seu rosto como um cumprimento. Wolfram riu, e, enquanto ele continuava a acariciar e brincar com o cachorrinho, Gwendal, Conrad e Cecilie se entreolharam, sorrindo. Já fazia algum tempo desde que haviam ouvido a risada de Wolfram daquela forma, então haviam mesmo acertado no presente ideal. O que Wolfram precisava naquele momento não era algo que podia ser comprado com dinheiro, afinal. Ele só precisava de um amigo sincero.
E, de fato, Liesel se tornou a melhor companheira que Wolfram podia querer. Ela cresceu rápido, mas era leal e disciplinada. Se Wolfram fosse cavalgar, ela o acompanharia. Se ele preferisse ler um livro na biblioteca, ela ficaria deitada aos seus pés tranquilamente. E ela sempre ouvia tudo o que ele tinha a dizer. Wolfram não podia deixar de pensar que algum dia, iria adorar apresentar Liesel para Yuri. Imaginava se ele iria gostar de conhecê-la. Yuri chegou a mencionar uma vez, ele tinha certeza, que adorava cachorros. Ele certamente não teria mudado tanto assim, Wolfram pensou…
E não podia estar mais correto.
❆
Olhando à sua frente, ele via Yuri. E Liesel. Correndo pelo pátio da sua casa no Japão, sem parar. Yuri corria adiante, desafiando Liesel a pegá-lo, e, quando ela conseguia, ele então partia para cima dela, perseguindo-a até o outro lado. Ele riu alto, quando ela o empurrou para o chão, atacando-o com sua arma suprema — as lambidas.
Wolfram também riu, ao ouvir o pedido de socorro do seu namorado, e correu para lá. Não precisou falar nada, pois, logo ao se aproximar, Liesel deu espaço para ele, olhando-o como se dissesse “Hey Mestre, não quer atacá-lo também?”.
— Muito bem, Liesel. — Ele se agachou para parabenizá-la, acariciando a cabeça da husky, que abanava o rabo com energia em resposta.
— Por que você está elogiando ela? Ela me atacou! — Yuri reclamou, limpando o rosto com a base da camiseta.
— Ela só te atacou porque você a provocou primeiro. — Wolfram replicou, defendendo sua cadela, que já havia se encaminhado de volta para dentro da casa. — E, também, porque você é um alvo ridiculamente fácil.
— Fácil? Você acha que eu sou um alvo fácil? — Yuri parecia ultrajado. — É claro que não! — Wolfram revirou os olhos, descrente. — Se eu sou um alvo fácil, isso faz de você o quê?
— Hm? Do que está falando, é claro que eu não seria capturado tão rápido quanto você. — Wolfram afirmou, erguendo o queixo de maneira presunçosa. Yuri sorriu de canto. Sorriu de um jeito que fez Wolfram estremecer. Ele não gostava quando Yuri sorria daquele jeito.
Mentira, ele adorava. Mas jamais admitiria, é claro.
Yuri se inclinou lentamente para o seu lado, exatamente da mesma maneira que Liesel fazia quando estava brincando e tinha uma presa em vista. Testando Wolfram, para saber até onde poderia ir. Ele não deixaria que isso acontecesse tão fácil assim. Fingiu não perceber a intenção de Yuri, e desviou da investida dele, começando a erguer-se, e, sem esperar pela reação do outro, saiu correndo para o lado oposto.
O moreno soltou uma interjeição de surpresa, mas, sem demora, tomou impulso para seguí-lo. Wolfram corria tão rápido quanto possível, no entanto, Yuri foi mais ágil. Ele geralmente era, aliás. Puxou Wolfram pelo braço e o impeliu para baixo, até que ele caísse sentado sobre a grama. Com isso, foi fácil inclinar-se e ficar por cima dele, usando seu peso para impedir que ele escapasse. Wolfram tentou se desvencilhar, e com ainda mais veemência, ao perceber as intenções ocultas do outro. Ele vinha com as mãos prontas para atacar, na sua direção.
Cócegas. Maldito. Wolfram gargalhou em alto e bom som, enquanto tentava chutar e empurrar Yuri, sem sucesso. Riu até perder o fôlego, até o seu rosto doer e o seu peito se aquecer pelo esforço. Yuri diminuiu o ritmo, e as risadas de ambos foram diminuindo também, gradualmente, até se tornar um ofegar silencioso, uma tentativa cadenciada de recuperar o ar.
Wolfram deitou na grama, e olhou para cima. Yuri bloqueava sua visão, e os raios de sol brilhavam ao redor dele. Ele ainda tinha resquícios da risada anterior na sua expressão. Wolfram ergueu as mãos, repousando cada uma de um lado do rosto de Yuri, e acariciando de leve, absorvendo com o olhar cada pequeno detalhe contido naquela imagem.
— O que foi? — Yuri percebeu a maneira como Wolfram o fitava. Ele balançou a cabeça de leve, sorrindo fracamente.
— Nada...
Ele não conseguia evitar. A felicidade que crescia dentro dele estava se tornando grande demais para ficar confinada, e disfarçar isso seria apenas teimosia. Ele havia conseguido. Yuri estava exatamente ali, na sua frente, ao alcance das suas mãos. Podia vê-lo, podia senti-lo. Ele era real, e não mais uma lembrança distante da sua infância.
Wolfram não estava mais sozinho, e nunca mais estaria.
O seu desejo de Natal daquela época havia sido realizado, enfim.
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