Sono Te Hanasanaide
27 Capítulo XXVII
Futarikiri no kouen kaerimichi no shiteiseki
O parque parece reservado só para nós no nosso caminho para casa
Itsumo yori hashaideru kimi wo mitsume kiitemita
Eu estou te observando, você esta sempre de bom humor, eu te pergunto:
"Moshimo ashita sekai ga naku nattara dou suru?"
Se o mundo fosse acabar amanhã, o que você faria?
Kimi wa nani mo iwazu ni boku no ude wo gyutto shita ne
Você não diz nada, mas segura minha mão
Nee kocchi wo muiteite
Ei, vire pra esse lado
Kuchibiru ga chikasugite doki doki tomaranai
Nossos lábios estão tão próximos, meu coração esta pulando
Donna kimi mo donna toki mo uketomeru kara
Não importa como você é, não importa quando, eu vou te aceitar
Moshimo kokoro ga kizutsuite namida koboreru toki wa
Mesmo quando você estiver de coração partido e chorando
Sekaijuu wo teki ni shitemo kimi wo mamoru yo
Mesmo se eu tiver que ir contra o mundo, eu vou te proteger
Capítulo 27
O céu estava limpo, e o sol brilhava lá em cima, aquecendo o frio inverno do Japão. Yuri caminhava pela rua, sentindo que pisava nas nuvens, e mais de uma vez Miyako teve que o segurar ou ele seria atropelado, ao atravessar a rua distraído. Ela segurava bem firme no braço do primo, apenas para garantir que ele não fosse sair flutuando por aí. Sabia muito bem o motivo daquela felicidade toda, sem ele nem precisar dizer. E isso a deixava feliz também.
— Agora que o Onii-chan está comprometido, tem que tomar mais cuidado com aquela Mariko! Se o Wolfram-kun vê você conversando com ela de novo, vai ficar furioso! – Ela ia dizendo, toda animada, no caminho.
— Mas eu nem falo com a Mariko e… espera… — Yuri parou de caminhar, e olhou para a prima com a face pálida. — C-c-como você sabe? E-eu ainda não c-contei p-para ninguém!
— Ráa! – Ela saltitou, alegremente, sorrindo triunfante. – Você saiu arrastando o Wolfram-kun da casa daquele jeito tãaaao doki-doki, e então, quando voltou, estava sorrindo de um jeito muito idiota, e nem lembrou mais da carta, então, é claro que a Miya percebeu que alguma coisa tinha acontecido! E agora mesmo, você acabou de admitir! – Ela continuou rindo, e Yuri se sentiu patético de repente, por continuar sendo tão patético.
— P-por favor, Miya-chan, não saia espalhando isso por aí… — Ele pediu, vendo que não poderia negar aquilo nem que quisesse, já que Miyako não daria ouvidos à ele, de qualquer maneira.
— Por que, Yuri-nii-chan? Você demorou tanto, as pessoas já devem estar impacientes esperando algum movimento seu, de qualquer forma! Não vai ser surpresa para ninguém! – Ela exclamou, empolgada com a ideia.
— Eu não sei de quem você está falando… – Ele franziu os olhos. – Mas eu não quero que ninguém fique sabendo… por enquanto. – Ele virou o rosto e coçou a bochecha, embaraçado. – Não até nós… falarmos com os nossos pais, sabe?
— Waa, onii-chan, que maduro! Kakkoii! ~ — Miyako cantarolou, ainda mais animada. – A Miya não vai contar para ninguém, pode deixar! Ahhh, isso é tão bom, o Yuri-nii-chan finalmente fez alguma coisa certa!
— Isso foi um elogio? – Ele resmungou, arqueando a sobrancelha, mas então riu. – Tá, eu fico feliz que você tenha gostado da notícia… — Ele bagunçou os cabelos da prima, afagando sua cabeça. – E estou feliz por ter tomado essa decisão…
— Você quase estragou tudo, Onii-chan! Se tivesse deixado a Miya cuidar de tudo desde o começo… Vocês teriam ficado juntos muito antes!
— Ah, isso não importa… Eu… Eu estou apenas satisfeito que tenha dado tudo certo, no fim… – Ele suspirou, parecendo somente aliviado. Quando ia imaginar, na sua mente limitada e insegura, que algum dia na sua vida pacata de estudante do colegial, iria acabar namorando alguém como Wolfram? Ele era lindo, era popular, podia escolher qualquer garota que quisesse! Mas era com Yuri que ele estava. Isso não parecia surreal demais para ser verdade?
Qualquer uma ficaria lisonjeada de estar ao lado de um príncipe, literalmente, como Wolfram. Bem, ele certamente tinha uma personalidade difícil, e nem todo mundo conseguiria lidar com ele tão facilmente… Mas Yuri gostava disso. Mesmo quando Wolfram era egoísta e exagerado, quando era preguiçoso e reclamava de tudo e todos ao seu redor, até nessas situações, Yuri pensava que tinha apenas sorte demais por ter o conhecido, e que deveria ter sido um verdadeiro milagre, os dois estarem juntos, afinal de contas.
— E agora, o que vocês vão fazer, hein? – Miyako indagou, o tom de voz agudo que ela sempre tinha quando se empolgava demais com qualquer assunto. Yuri desejou ter conseguido manter o segredo por mais algum tempo, e assim ele e Wolfram poderiam ter evitado toda a invasão livre de privacidade que ela certamente imporia aos dois, pelo menos por mais um pouco. Mas a pergunta inconveniente de Miyako o pegou de surpresa.
— Eu… eu não sei… — Ele a fitou, assustado, ao chegar àquela conclusão. – Eu realmente… não sei o que fazer agora… Miyako! Miyako, o que as pessoas fazem quando começam a namorar? Eu não faço ideia!! – Totalmente em pânico, Yuri chegou a quase gritar, no meio da rua. Miyako rapidamente se colocou no modo “expert” e ajeitou os óculos, com emoção.
— Como você é tolinho, Nii-chan… — Ela riu, dando nas costas do primo um tapa um tanto mais forte do que uma garotinha do seu tamanho deveria ser capaz de dar. – É claro que eu sei! Depois da confissão…vem o primeiro encontro!
— Encontro… É claro, encontro! – Ele deu um tapa na própria testa, sentindo-se idiota por não ter pensado nisso antes. – Mas… Onde eu devo levar o Wolf? Ele me mataria se a gente acabasse indo para outro jogo de baseball…
— E aquário está completamente vetado, não é? – Miyako riu.
— Vai me jogar isso na cara pro resto da vida, é? – Ele colocou as mãos no bolso, irritado. Se estava dizendo tudo aquilo tão abertamente para Miyako, era porque precisava de ajuda, não de críticas.
— Vou sim! Você tem que se lembrar, para não cometer o mesmo erro duas vezes. – Miyako anunciou, cheia de si, e Yuri perdeu os argumentos, sem nada que pudesse apagar do seu histórico aquele terrível erro.
— Tá, você quer me ajudar ou não? – Ele desistiu de tentar parecer a vítima, e decidiu abertamente demonstrar seu desespero, que era grande ao ponto de precisar implorar ajuda para a sua prima mais nova e fujoshi.
— Claro que quero! – Ela grudou-se no braço do primo mais uma vez, animadíssima com a ideia de planejar o primeiro encontro dos dois. Claro que, se tivesse acesso ao plano por inteiro, poderia segui-los depois sem problemas, e presenciar o que poderia ser uma linda cena, que ela esperou muito tempo para poder ver. Mas essa era apenas uma das suas motivações. – Etto, deixe-me pensar… Por que não o parque de diversões?
— Não é… muito comum? Não sei se o Wolf gosta dessas coisas… — Yuri resmungou, e Miyako conteu um gritinho entusiasmado, ao ver o garoto tão preocupado assim com os gostos do namorado. – Ele gosta de quadros… Eu posso levá-lo ao museu!
— Isso não seria chato? Quero dizer, Wolfram-kun pode até gostar, mas você… Yuri-nii-chan não é do tipo que gosta de arte, é? – Ela balançou a cabeça, ponderadamente.
— Pra falar a verdade, eu não vejo nada de interessante nisso… Mas… o Wolf gosta. E se ele estiver feliz, então eu acho que está tudo bem… — Ele coçou o rosto, desviando o olhar para o lado, embaraçado por dizer aquelas coisas em voz alta.
— Kyaaaaaaa! — Ela soltou um gritinho agudo, que Yuri já conhecia bem. – Vocês dois são tãaaao fofos!!! – Ela chacoalhava o braço de Yuri de um lado para o outro, sem conseguir se conter. — Ah, eu não vou aguentar isso não!!!
Levou algum tempo para Yuri conseguir acalmar Miyako, e logo eles já estavam na escola. Ela foi conduzida até a sua própria sala, ainda empolgada demais para conseguir controlar plenamente seus impulsos, o que fez Yuri pensar que deveria tomar mais cuidado com o que falava perto dela.
Subindo as escadas para o seu andar, Yuri ainda estava pensativo, imaginando diferentes cenários para um encontro com Wolfram. Exatamente quando pensou se Wolfram iria gostar de ir ao cinema, talvez, e estava tentando raciocinar sobre que tipo de filme ele gostaria de ver, alguma coisa se pendurou em seu pescoço, impedindo-o de continuar a caminhar. Tarde demais, ele percebeu que a “coisa” em questão era Mariko, que exibia um animado sorriso para ele.
— Adivinha só, Yuri-kun! Meu irmão conseguiu ingressos para o show que vai acontecer daqui uma semana… na área VIP! Você vai querer ir comigo, não vaaaai? — A garota arrastou a voz, exibindo o seu mais convencido sorriso para Yuri.
— Não, eu não vou querer… Espera, você disse show? – A atenção dele foi pega em um milésimo de segundo, quando ele pensou que talvez Wolfram pudesse gostar de ir a um show com ele. Não com os ingressos de Mariko, evidentemente, mas ainda, era uma boa ideia para um encontro, provavelmente. – Show do quê?
Mariko, percebendo que havia conseguido captar algum interesse do garoto, sorriu ainda mais abertamente. Soltou Yuri, tirando dois ingressos sabe-se lá de onde, para exibi-los na frente do rosto dele.
— Uma banda de rock, Shido. Você deve conhecer, eles até cantaram a abertura daquele anime…
— Ah, eu sei! – Yuri rapidamente se animou. – Você acha que o Wolf ia gostar? – Ele perguntou tolamente, deixando a garota confusa.
— Wolf? Você diz o Príncipe? – Ela arqueou uma sobrancelha, perdida naquela mudança brusca de assunto.
— Hm. Deixa pra lá. – Yuri percebeu repentinamente com quem estava conversando, e o quanto isso poderia ser complicado, e apenas resolveu dar as costas. – Eu… já tenho outra pessoa para levar ao show, sinto muito, não posso acompanha-la. Convide outra pessoa.
— Ei, espera aí, Yuri-kun! – Mariko pulou novamente no pescoço do garoto, impedindo-o de seguir para a sala de aula. – Você está saindo com outra pessoa? É isso? Você está me largando?
— Para te largar, eu teria que ter tido alguma coisa com você, e nós nunca tivemos nada um com o outro. – Yuri respondeu, de uma forma que pretendia ser simples, mas que só dificultou ainda mais as coisas.
— Mas você me beijou! – Mariko exclamou, um pouco mais alto do que deveria ser uma conversa entre duas pessoas, e Yuri se desesperou.
— Pare de falar essas coisas alto, garota! – Ele a afastou pelos ombros, nervoso. – Foi você quem fez aquilo daquela vez, eu nem mesmo…
— Ah, você rejeita uma garota, depois de ter tomado o primeiro beijo dela! Nunca imaginei que você seria assim, Yuri-kun!! – A essa altura, todos já observavam a cena do corredor, alguns comentando entre si, enquanto outros apenas assistiam atentamente.
— Eu nunca fiz isso! De qualquer forma, duvido que aquele tenha sido mesmo o seu primeiro. – Yuri se apressou em dizer, aflito. – Eu não quero sair com você, já disse isso. Eu tenho outra pessoa, que eu amo, e com quem eu estou agora! – Ele bradou com ainda mais firmeza, fazendo Mariko ofegar. Da outra vez, ela pensou que Yuri havia dito que gostava de alguém apenas para evitá-la, mas agora ele parecia muito resoluto nessa sentença, e ainda, a encarava de uma forma tão séria e segura que não dava margem para dúvidas. Ah, ele parecia ainda mais atraente quando fazia aquele tipo de expressão…
— Yuri… — A voz cortou o ar, e aumentou ainda mais os burburinhos entre os alunos que estavam ali apenas assistindo, sem nada mais útil para fazer. Yuri ergueu os olhos, e seu coração acelerou.
— Wolf! – Ele exclamou, com um sorriso imediatamente tomando lugar em sua face antes que ele pudesse pensar sobre o assunto. Rapidamente, Mariko foi varrida da sua mente, e só havia espaço para realizar o fato de que Wolfram estava ali, caminhando na sua direção.
— O que está acontecendo? – Wolfram reparou bem no fato de que Mariko ainda estava bem perto de Yuri, com seu uniforme curto e justo demais exibindo as pernas longas de aranha, e o cabelo loiro tingido tocando de forma casual o ombro de Yuri, como se ela estivesse despreocupadamente escorada ali.
— Bom dia, Wolfram, querido…. – Mariko sorriu maliciosamente. — Tem planos para o fim de semana que vem?
— Tenho. Ficar o mais longe possível de você. – Ele respondeu de uma só vez, puxando Yuri para longe dela, e colocando-se protetoramente à frente dele. Encarou Mariko, esperando que aquilo fosse dica suficiente para os dois neurônios dela processarem a informação de que ela não era bem vinda ali.
— Ai, eu tenho que ir para a aula… bye bye~ — Ela abanou, animadinha demais para alguém que havia acabado de ser expulsa do local, e enquanto todos se dispersavam, sem nada mais para ser visto ali, Yuri inclinou-se na direção de Wolfram.
— Desculpa, Wolf… Ela apareceu de repente e eu…
— Eu sei. Eu… ouvi o que você disse… — Wolfram desviou o olhar, com o rosto tingindo-se de um avermelhado tênue. – Sobre… já ter alguém… que a-ama… e tudo mais…
— Ah, que bom! – Yuri suspirou, aliviado, aninhando-se discretamente em Wolfram enquanto andavam para dentro da sala. – Eu… estava com saudades…
— N-não fique chegando tão perto assim na escola, idiota! – Wolfram sibilou, censurando-o, enquanto apressava-se para acomodar-se em seu lugar. – Apenas… tente ficar longe dessa garota…
— Hai! – Yuri riu, achando aquele vermelho no rosto de Wolf apenas muito fofo, e logo depois, Gunter entrou em sala de aula, e a agitação da turma teve fim, dando lugar a um extenso e maçante estudo dos rios da região.
Algumas horas depois, o horário do almoço chegou. Yuri sugeriu que eles fossem almoçar no telhado, tanto para evitar uma visita indesejada de Mariko, quanto para aproveitar algum tempo longe de olhares curiosos. Wolfram não queria, de início, mas acabou sendo arrastado para lá de qualquer maneira. Os dois se acomodaram na sombra perto da parede, e o lugar estava vazio (o que já era previsível, considerando que era proibido ir até lá, e todos sabiam muito bem disso, mas a porta estava aberta mesmo assim).
Yuri abriu seu obento, e Wolfram desempacotou um rocambole de carne, típico da sua terra natal, e pegou garfo e faca para começar a comer. Logo que ele veio para a escola, as pessoas, e Yuri também, costumavam estranhar que o garoto trouxesse sempre comidas diferentes e ocidentais, mas rapidamente todos se acostumaram, e ver o loiro almoçando um prato requintado que provavelmente poderia estar no menu de algum restaurante caríssimo tornou-se apenas parte da rotina.
— Esse eu nunca tinha visto você trazer, parece bom… — Yuri espiou a comida do outro por cima do ombro.
— Sim, é bom. – Wolfram não deu atenção ao comentário, e continuou a comer. Como a tentativa de ser sutil não apresentou resultados, Yuri resolveu optar logo pela abordagem mais aberta.
— Hm… Sabe, Wolf… — Ele varreu com o olhar o chão, parecendo insinuar alguma coisa. – Eu sempre vejo nos doramas, e nos mangás… Os casais… Eles alimentam um ao outro… Entende? – Ele arriscou, baixando a voz até quase um sussurro, enquanto disfarçava o embaraço, com o rosto corado, fazendo um meio biquinho contrariado.
— Você está querendo que eu dê comida na sua boca, é isso mesmo? — Indignado, a voz de Wolfram aumentou algumas oitavas. Yuri confirmou com um aceno de cabeça, sem nenhuma hesitação, parecendo mais um cachorrinho querendo ser alimentado do que qualquer outra coisa. – S-seu fracote insolente… — Irritado, o loiro resmungou, com o rosto queimando em brasas. – A-acho que não tenho escolha, então… Abra a boca! – Ele ordenou, e Yuri sorriu alegremente, preparando-se. Aproximou-se de Wolfram, e de olhos bem fechados, abriu os lábios.
Wolfram serviu uma garfada com o bolo de carne, e Yuri aceitou com satisfação. Depois de mastigar e engolir rapidamente, seus olhos abriram diretamente em Wolfram, deixando-o desconcertado por um segundo.
— Isso é ótimo! – Ele exclamou, sorrindo. Wolfram voltou a comer, sem conseguir encontrar nada bom o bastante para dizer. Fazendo aquele tipo de coisa… Eles realmente pareceriam com um casal? – Ahh, eu realmente gosto do vento aqui de cima… Nós podemos vir almoçar todos os dias aqui, não é? Assim vamos evitar também as visitas inesperadas da Mariko-san…
— Isso me lembra… — O tom de voz de Wolfram fez Yuri engolir em seco, ao perceber que havia tocado sem querer em um assunto problemático. – O que você estava falando com aquela garota mais cedo?
— Não seja tão duro comigo, Wolf! – Yuri balbuciou, aproximando-se ainda mais de Wolfram, até quase escorar a cabeça em seu ombro. – Ela estava me convidando para sair, de novo… Mas eu rejeitei ela, você viu!
— Não importa, você deveria ter saído de perto assim que a visse, ao invés de deixá-la ficar abraçada em você por tanto tempo! – Wolfram ainda estava irritado, e tentava não se deixar levar pela aproximação repentina de Yuri, e nem pela carinha de cão abandonado que ele sabia fazer tão bem.
— Você sabe que eu não suporto aquela garota… — Yuri continuou argumentando, enquanto ia abraçando Wolfram lentamente, testando aos poucos até onde poderia ir. Deitou sobre o ombro dele, descansando seu peso cuidadosamente, e Wolfram ofegou, ao senti-lo abraçando-o. – Eu só não quis ser muito rude, enxotando ela logo de cara…
— Aquela garota é espaçosa, você sabe muito bem o que acontece se você der corda para ela. Da última vez, ela beijou você, não foi? – Wolfram lembrou, a contragosto, cerrando os lábios em uma linha fina de desgosto apenas em recordar esse fato.
— E eu não gostei de ter beijado ela! – Yuri se apressou em dizer, erguendo o rosto para encarar Wolfram nos olhos. – Você sabe, eu daria qualquer coisa para que aquilo nunca tivesse acontecido. E então, o meu primeiro beijo não teria sido com ela, e sim com você, naquela noite que eu fiquei na sua casa… — Ele disse, com o rosto corando furiosamente. Seus olhos hesitaram, movendo-se de um lado para o outro, enquanto ele mordia os lábios nervosamente. Wolfram arquejou, mal acreditando que estava mesmo ouvindo aquelas palavras de Yuri.
— Isso é mesmo tão importante assim? O seu primeiro beijo? – Ele indagou, incrédulo, vendo Yuri ficar ainda mais embaraçado.
— B-bem, eu sei que isso parece algo que uma garota falaria, mas… Acho que sim… — Yuri hesitou, passando a mão pela nuca, como sempre fazia quando estava nervoso. – Eu preferiria que fosse você, afinal de contas… — Ele admitiu, sorrindo sem graça, e Wolfram sentiu seu coração dar um solavanco. Droga, falar essas coisas já era golpe baixo! Porém… Ele sabia, aquilo não era bem verdade… E ele não podia deixar que Yuri continuasse acreditando que fosse.
— Escute bem, fracote, eu tenho algo para contar. — Ele resolveu revelar seu segredo, e acabar de vez com aquele mal-entendido de Yuri. – Preste atenção, eu não vou repetir. O seu primeiro beijo não foi com aquela garota irritante.
— Se você está falando da garota do meu sonho, então não conta, porque foi um sonho! – Yuri argumentou tolamente, sem entender onde Wolfram queria chegar.
— Não, seu idiota! Seu primeiro beijo foi comigo! – Ele falou de uma vez, quase perdendo a paciência.
— Eh? – A cara de Yuri nesse momento era impagável.
— Ah, eu tenho que explicar tudo para você?! – Wolfram revirou os olhos. – Naquela noite em que eu dormi na sua casa! Você estava dormindo e… E… — Só então o loiro pareceu se dar conta da revelação constrangedora que estava prestes a fazer, mas agora não havia caminho de volta, e ele teria que ir até o fim com isso. Respirou fundo, tornando a olhar para o lado oposto, e continuou. – Eu roubei um beijo seu, enquanto você dormia. Foi isso.
— Você… fez mesmo isso? – Yuri não conseguia acreditar, mas Wolfram confirmou com um aceno de cabeça, sem olhar para ele. – Aquela noite… foi a primeira vez que eu sonhei com a Garota Predestinada… Então… Então você era a garota dos meus sonhos?
— Se me chamar de garota mais uma vez, eu atiro você daqui de cima. — Wolfram sibilou, franzindo os olhos ameaçadoramente, mas isso não pareceu afetar de todo Yuri.
— Ah, eu estou feliz agora! – Ele jogou-se por cima de Wolfram, abraçando-o com força. – Então era você o tempo todo, e eu nem percebi!
— Isso porque você é um fracote sem esperança! – Wolfram resmungou, completamente sufocado no abraço desajeitado do outro. – Mas não é como se eu não estivesse acostumado com isso, de qualquer forma…
— E você já gostava de mim mesmo naquela época, até roubou um beijo meu… — Ele continuou a divagar, despreocupadamente, um tanto contente com aquela constatação.
— Quer parar de ficar repetindo isso? Eu já contei a verdade, então está tudo ótimo! – Wolfram bradou, impaciente. – Vamos terminar logo de almoçar para voltar para a aula!
— Não ainda… Nós não podemos só ficar aqui desse jeito mesmo? – Ele sugeriu, trazendo Wolfram para ainda mais perto, e acariciando com o rosto os cabelos macios dele, aspirando seu perfume. – Eu não quero voltar para lá…
— Quando o sinal tocar, nós temos que ir… — Ele murmurou, deitando a cabeça no peito de Yuri. Podia ouvir o coração dele, naquela posição, e ele estava batendo tão rápido quanto o seu próprio. Era um pouco estranho… mas deixava Wolfram feliz.
— Só quando o sinal tocar… — Yuri sorriu pra si mesmo, gostando da sensação de ter Wolfram em seus braços daquela maneira. Ele havia relaxado um pouco, e já não tentava mais se desvencilhar. – Wolf… Está tudo bem se eu beijar você quando eu quiser?
— Q-que pergunta mais indecente é essa?? – Wolfram ergueu-se de joelhos subitamente, indignado. – Primeiro você faz isso sem nem pedir permissão, e agora fica todo hesitante outra vez? Decida-se de uma vez, fracote! E de qualquer maneira… Nós estamos namorando agora, não é? Você não deveria perguntar uma coisa óbvia como essa… — Ele virou o rosto, incomodado. Yuri sorriu, inclinando a cabeça para o lado, e seu coração acelerou mais uma vez, sentindo que estava quase transbordando daquele sentimento cheio e confortável, de afeição e carinho. Acariciou de leve as bochechas ruborizadas de Wolfram, e delicadamente, fez com que ele olhasse na sua direção.
— Então eu vou fazer isso sempre que sentir vontade, sem pedir antes… Tudo bem? – Ele indagou, vendo os olhos verde-esmeralda de Wolfram arregalarem-se, e então desviarem mais uma vez para o lado, com o rosto colorindo-se ainda mais.
— D-desde que não seja em algum lugar inapropriado… Ou na frente das pessoas…
— E eu posso fazer isso agora mesmo? – Ele baixou a voz, erguendo a cabeça para aproximar-se ainda mais de Wolfram. – Não tem ninguém aqui agora, afinal…
— Hm. – Ele resmungou em resposta, apenas, e fechou os olhos, esperando. Yuri entendeu a resposta, e começou a se aproximar, num misto de ansiedade e exultação. O corpo todo de Wolfram tremia pela expectativa, e ele sentia cada toque, por mais leve que fosse, queimar em sua pele. Yuri cuidadosamente o fez abaixar-se, até estar novamente no mesmo nível que ele, e impeliu-se para frente, segurando com uma das mãos o seu rosto, enquanto com a outra se apoiava no chão.
Wolfram cerrou com ainda mais força os olhos, sentindo a respiração cálida do moreno fazer cócegas na sua face, e então uma pressão leve sobre seus lábios. Yuri também tremia, enquanto movia seus lábios contra os de Wolfram, esperando estar fazendo tudo da maneira certa. Sentando novamente no chão, ele abraçou Wolfram pela cintura, e o trouxe para mais perto, usando a parede atrás de si como apoio. Passando a língua pelos lábios macios, ele pediu passagem, e o loiro permitiu, agarrando-se ao pescoço dele enquanto sentia-o aprofundar o beijo.
Lentamente, Wolfram se afastou, e Yuri suspirou de pesar por causa disso, aquiescendo. Sorriu para si mesmo ao reparar no rosto afogueado de Wolfram, e fez uma nota mental de que teria que fazê-lo ficar dessa maneira mais vezes. Adorava vê-lo sem reação, todo corado, perturbado por qualquer ação pequena que ele fizesse. Era quando ele parecia mais lindo…
— Você precisa se esforçar mais em rejeitar aquela garota… — Wolfram voltou a dizer, como se a conversa anterior não tivesse sido interrompida, enquanto apoiava-se no ombro de Yuri com os braços, para se manter em um nível elevado. – Eu tenho certeza de que ela não vai desistir tão facilmente…
— Mas ela era afim de você também, pelo que eu me lembro. Você também deveria tomar cuidado, então! – Yuri resmungou, tentando escapar daquele sermão, que pelo jeito, demoraria a acabar.
— Só que eu rejeitei ela apropriadamente, e ignoro tudo o que ela diz, não fico dando atenção que nem você faz! Não tem por que ficar sendo educado! Apenas chute ela para longe de uma vez, seu fracote trapaceiro! – Wolfram bradou, empurrando Yuri contra a parede e tomando impulso para se afastar dele.
— Trapaceiro? M-mas eu nem fiz nada…
— Exatamente! Não fez nada para fazê-la ficar longe de você! – Ele cruzou os braços, sentindo a irritação queimando em suas veias, da mesma forma que o toque de Yuri foi capaz de fazer segundos antes. Era inacreditável que aquele garoto idiota pudesse causar tantas reações adversas.
— Hey, Wolf… Você… Será que você está… com ciúmes de mim…? — Yuri aproximou-se cuidadosamente, de joelhos sobre o piso, e tentando enxergar melhor a expressão que Wolfram fazia, e que tentava a todo custo esconder dele.
— E s-se eu estiver, hein? Você tem algum problema com isso? – Wolfram resmungou, ainda mais furioso, com uma veia latejando na sua testa. Inesperadamente, Yuri riu, e isso o deixou ainda mais raivoso. – Olha aqui, se você esta achando isso engraçado…
— Não, não é engraçado… — Yuri o interrompeu, passando de leve os dedos pela pele macia do rosto de Wolfram, observando-a ganhar ainda mais cor gradualmente. Ele paralisou, sem palavras, com os lábios entreabertos entre o caminho de dizer alguma coisa. – Eu só acho isso muito, muito… fofo…
— N-não diga que eu sou fofo!! E-eu sou um garoto, isso não é divertido! – Wolfram tentou se livrar, mas Yuri o cercou ainda mais, trazendo-o para próximo, até quase roçar seus narizes.
— Mas você é mesmo fofo, eu não posso fazer nada. Um adorável Wolf-chan… — Acariciando o rosto dele com o seu próprio, ele continuou rindo.
— Pare de dizer essas coisas, miserável!! – Wolfram tentou se afastar mais uma vez, mas acabou caindo de costas no chão, ao perder o equilíbrio. Yuri caiu por cima dele, parando de rir subitamente, sem saber o que fazer. Seus olhos se encontraram mais uma vez, e eles perderam a linha de raciocínio no mesmo segundo. Sem pensar no que estava fazendo, Wolfram ergueu a mão, passando de leve pelo rosto de Yuri, e pelos seus cabelos. O moreno sorriu, inclinando-se para se aproximar mais ainda, outra vez.
Um ruído arrastando e longo, e os dois congelaram, sentindo o temor de terem sido pegos no flagra. Afastaram-se imediatamente, pretendendo que nada estava acontecendo, e então fitaram a porta entreaberta. Lá estava Miyako, em uma posição comprometedora de quem estava espionando, e a meio caminho de fechar a porta novamente.
— D-d-d-desculpa, eu não queria interromper nada!!! Na verdade, eu não estava espiando, eu não vi nada! – Ela começou a gritar, desesperada, na dúvida entre levantar e sair correndo ou apenas deitar ali e chorar. – A Miya estava procurando o Yuri-nii-chan!!! Só isso! Podem continuar, eu vou sair!!
— Não, não, espera, Miya-chan! – Yuri levantou-se e foi de encontro a ela, enquanto Wolfram apenas ficou lá atrás, juntando os lanches que estavam esquecidos ao lado. – O que você queria?
— É que a Mariko ficou falando umas coisas durante as aulas, parece que ela tem um plano ou qualquer coisa assim… Ela está atrás do Nii-chan e do Wolfram-kun nesse momento, então a Miya achou que deveria avisar… Mas, mas… quando eu vim procurar vocês aqui, ouvi as vozes e… E…
— E resolveu nos assistir escondida, não é? – Wolfram completou a frase, arqueando uma sobrancelha, e Miyako assentiu, sem outra opção a não ser admitir a verdade, enquanto ajeitava os óculos nervosamente. – Hunf, tanto faz. Eu sabia que isso eventualmente aconteceria.
— O-obrigado por avisar, Miya-chan… — Yuri riu, sem graça, bagunçando os cabelos. Como Wolfram não parecia dar importância para o fato de que Miyako já sabia sobre eles, ele resolveu relevar o assunto também. – Nós vamos tomar cuidado para não cruzar com a Mariko-san, então…
— Ela vai ficar esperando vocês no portão, na hora da saída. – Miyako continuou, preocupada. – E também, colocou as amigas dela para vigiar vocês dois, até lá. Ela quer que o Nii-chan saia com ela de qualquer maneira! Até mesmo o irmão dela, ela obrigou a ajudá-la!
— Como você sabe de tudo isso? – Wolfram indagou, incrédulo.
— Eu… tenho ouvidos bons… — Ela corou em confessar que andava ouvindo conversas alheias, mesmo que por uma boa causa.
— Ela tem um irmão, é? – Desatento, Yuri prestava atenção no que era desnecessário. – Sempre pensei que ela fosse filha única…
— E por que motivo você se interessaria pela família daquela garota, hein? – Wolfram inquiriu, desafiando.
— Não é isso! – Yuri já se apressou em se defender. – É só que… Eu pensei que ela não tivesse irmãos, já que é tão mimada e tudo mais… Se bem que ter irmãos não tem relação com ser mimado, em alguns casos. – Ele deliberadamente encarou Wolfram, que fingiu não entender a indireta.
— O irmão dela estuda aqui na escola, no segundo ano… — Miyako prosseguiu, um tantinho mais animada do que devia com as brigas de casal. – Eu não sei o que ela está planejando fazer com ajuda dele, de qualquer forma… Mas achei que deveriam saber!
— Bem, quer dizer que a Mariko-san vai ficar insistindo até eu aceitar sair com ela? – Yuri não podia deixar de se sentir com o ego inflado, apesar da situação ser desagradável. Tinha um namorado lindo como Wolfram, e ainda uma garota popular correndo atrás dele. Nunca na vida tinha sido tão sortudo. Mas o olhar furioso de Wolfram na sua direção o fez engolir em seco e esquecer rapidamente os pensamentos estúpidos.
— Então, que seja, ela quer vencer o Yuri pelo cansaço, é isso? Insistindo dessa forma irritante, o que ela pretende ganhar com isso? – Wolfram reclamou em voz alta, posicionando-se logo ao lado de Yuri. – Nós temos que arrumar uma maneira de colocar essa garota no seu devido lugar… Eu vou lá falar com ela!
— Não, espera, Wolf! – Yuri o segurou pela mão, impedindo-o de avançar. – Vamos pensar em alguma coisa agora, para não ter que ficar aguentando ela por mais tempo. Mas não aja sem pensar, isso só vai piorar as coisas…
— Eu não aceito um conselho desses vindo logo de você. – Wolfram franziu os olhos, desconfiado, mas ainda assim, voltou a ficar ao lado dele, acalmando-se ao menos um pouco. Yuri deu de ombros, desajeitado, sabendo muito bem que não era a pessoa mais indicada para falar sobre “agir por impulso”.
— Te~hee… Kawaii… — Eles ouviram um ruído quase inumano, e ao olharem novamente para Miyako, ela se retorcia no mesmo lugar, com as mãos nas bochechas e um brilho estranho no olhar. – Vocês… ainda estão de mãos dadas… Aaahh, que foooofo!!!!
— Por que é que vocês dois insistem em usar essa palavra…? — Wolfram resmungou, irritado, mas não soltou a mão de Yuri mesmo assim.
Ele sorriu. Apesar de tudo… estava sendo divertido. E ele estava, enfim… feliz. Olhando para o rosto irritado de Wolfram, que tentava fazer Miyako parar de balbuciar coisas desconexas, e para as mãos juntas deles, ele teve novamente certeza do que estava fazendo. Nossa, isso demorou muito tempo… Mas nunca na sua vida ele se sentiu tão confiante. Estava no lugar certo, na época certa, com a pessoa certa. Foi um tiro no escuro. Porém, ele teve a sorte de acertar direto no alvo. E não se importava com o quanto Mariko insistisse, criasse planos e inventasse coisas… Ele não cederia para ela. Já tinha tudo o que precisava bem ali. O que mais poderia querer?
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