Sono Te Hanasanaide
28 Capítulo XXVIII
saa sa susumou ikutsumono kakehashi
Venha, vamos seguir em frente por qualquer número de pontes
itsumademo issho dakara koibito no you ni
Sempre estaremos juntos, como amantes
natsu no hizashi atsuku temo hanarezu iru ne
Mesmo se os raios do sol de verão sejam quentes, nós não nos separaremos
kitto sakini soudai na keshiki ga matsu yo
Eu tenho certeza que, logo em frente, uma magnífica paisagem nos aguarda
sonotoki wa tamatte ita sono kimochi zenbu kiite yaru
Quando aquela hora chegar, eu vou te perguntar sobre todos os seus sentimentos guardados
atashi mo motteru kimi ni mo kikasu tappuri kikasu
Eu os tenho também. Eu vou contar a você sobre eles, também.
Capítulo 28
— Ela está lá mesmo…
— Nos últimos dias conseguimos escapar pela lateral, mas hoje ela parece mais motivada ainda.
— Essa garota não cansa? Eu vou lá, falar pra ela umas verdades…
— Não, espera Wolf!
Yuri segurou Wolfram pelo braço, impedindo-o de avançar escada abaixo. Eles e Miyako estavam na escadaria da escola, e a aula havia terminado há algum tempo. Espiando pela janela, eles conseguiam ver Mariko lá embaixo, junto com seu exército de seguidoras, apenas esperando por Yuri e Wolfram.
Eles tentaram ignorar ao máximo as investidas dela, e até estavam conseguindo escapar bem, mas, como resposta direta, Miyako havia ganhado um banho no vaso sanitário do banheiro feminino no outro dia. Claro que Mariko não fizera isso diretamente, mas não havia dúvidas sobre a procedência daquela ideia horrível. Parte do plano dela envolvia fazer Miyako ficar tão amedrontada que acabaria por empurrar Yuri para ela, provavelmente. Claro que a pequena Shibuya não cedeu, e agora, estava mais determinada do que nunca para afastar de vez aquela garota da vida do seu primo.
— O que você pretende falar para ela? – Yuri indagou, voltando a puxar Wolfram para espiarem pela janela. As pessoas que desciam as escadas olhavam desconfiadas para o trio agachado no cantinho, mas resolviam apenas ignorar.
— Ora, vou lá dizer pra aquela loira de farmácia estúpida que você tem dono! E que se ela não parar de importunar a sua prima, eu mesmo vou tratar de tirar a água oxigenada da cabeça dela, pessoalmente! – Wolfram bradou furiosamente, enquanto Miyako ria, como sempre, das coisas que ele dizia.
— Você não pode bater nela, é uma garota! – Yuri disse, perdendo a conta de quantas vezes já havia usado aquele mesmo argumento.
— É por você ser tão mole que ela fica correndo atrás de você, fracote! – Wolfram cruzou os braços, erguendo-se de pé mais uma vez.
— Mas se nós continuarmos evitando ela, ela só vai fazer mais mal pra Miya-chan… Eu não posso deixar isso acontecer… — Yuri levantou também, e Wolfram abrandou. Miyako se apressou em dizer um “não precisam se preocupar comigo”, mas foi perfeitamente ignorada.
— Bem, se for ver por esse lado, realmente… — Ele suspirou. – Não tem jeito… Nós não podemos reclamar dela para a diretoria dessa escola, já que a família dela é tão importante assim, e você não quer que eu cuide disso do meu jeito… O que sugere que façamos, então?
— E se nós… conversarmos direitinho com ela, e pedirmos para ela parar de incomodar? – Yuri riu sem graça, esperando que sua ingênua ideia surtisse algum efeito.
— Você é idiota?
— Então vamos enfrentá-la diretamente! Eu já disse várias vezes que não quero nada com ela, mas… E se eu contar que já sou comprometido, ou algo assim, será que ela não desiste? – Yuri tentou mais uma vez, uma sugestão pacífica.
— Acho difícil… Garotas do tipo dela não se importam com compromissos nem nada assim, elas só querem ganhar. — Wolfram suspirou, quase desistindo. – Sabe, eu tenho contatos, nós podemos apenas…
— Não, Wolf! Essa ideia de novo não…
— Que ideia? – Miyako indagou, meio perdida na conversa.
— Nada que você deva ouvir… — Yuri desconversou. – Vamos embora logo… A escola fecha, e nós ficamos pra trás. Logo hoje, que é o único dia que não tenho treino, e posso ir embora com você… — Ele sorriu para Wolfram, que corou como um tomate, enquanto Miyako comemorava ao fundo. A garota ficava sempre tão feliz e animada ao redor daqueles dois, que Mariko e suas investidas nem passavam pela sua cabecinha alegre.
Os três desceram para o pátio, tomando o cuidado de prestar atenção para ver se Mariko não surgiria do nada ao virar a esquina, como ela costumava fazer, mas ela não apareceu. Yuri relaxou um pouco, e se aproximou de Wolfram discretamente, pousando o braço no ombro dele de maneira natural e relaxada, como costumavam fazer amigos próximos. Miyako já ficou toda animada, observando-os de mais atrás.
— Hey, Wolf… — O moreno falou baixo para que Miyako não o ouvisse e desse um ataque bem ali. Eles não precisavam que ela anunciasse para Mariko e o mundo todo onde é que eles estavam. – Você não quer ir lá em casa? Vamos jogar videogame…
— E-eu já pedi para não sussurrar no meu ouvido… — Wolfram respondeu, fracamente, com as pernas estremecendo somente por aquela pequena aproximação. Yuri riu da tentativa pouco convincente de Wolfram de afastá-lo. – Eu posso ir… mas eu não sei jogar!
— Eu ensino você…
— Ah! – Miyako soltou uma interjeição, fazendo os dois garotos acordarem do seu próprio mundinho por um segundo. Yuri soltou Wolfram, para olhar para trás. – O Ben-kun já chegou… — Ela sorriu para eles, preparando-se para correr na direção do garoto, que eles logo notaram parado na entrada, mas então ela parou de súbito, com o rosto lívido.
— O que houve, Miya-chan? – Yuri indagou, ao vê-la empalidecer.
— Tem… uma garota conversando com ele. Ela é… loira… e bonita… — A garota murmurou com voz fraca, e logo ele notou que as mãos dela também tremiam.
— Não é a Mariko, é? – Wolfram se colocou mais a frente, querendo enxergar lá no portão. Quando ele localizou o ruivo, lá na frente, inevitavelmente reconheceu a garota que estava com ele. – Yuri… — Ele puxou o garoto pelo braço, chamando sua atenção. – É a Elizabeth.
— O quê? – Ele falou um pouco mais alto do que pretendia, e virou o pescoço para aquela direção tão rápido que quase o torceu. Lá estava a loira que ele vira pela janela da casa de Wolfram, e ela parecia aflita, falando sem parar enquanto Benjamin apenas sorria educado como sempre, tentando acalmá-la.
— Aquela imitação de Sailor Moon é a noiva do Wolfram-kun? – Miyako indignou-se, com voz aguda e irritada. Logo seu rosto apreensivo passou para raivoso, e ela corou de irritação. Parecia pronta para correr até lá e arrancar a garota de perto de Benjamin pelos cabelos, e Yuri duvidaria que ela era capaz de fazer mesmo isso sendo tão pequena e retraída, se não soubesse que a prima também tinha o sangue de Hamano Jennifer em suas veias.
— Eu vou lá falar com ela… — Wolfram respirou fundo e seguiu naquela direção. Yuri correu para acompanhá-lo, e Miyako, sem alternativa, fez o mesmo.
— Wolfram! – A garota exclamou extasiada, assim que o viu se aproximar, e pulou no seu pescoço. Yuri virou o rosto, não querendo ficar com ciúmes de uma garota… Mas isso era praticamente impossível, quando ela se esfregava com tanta displicência no seu namorado…
— Miya-chan. — Ben sorriu para a garota ao vê-la, e caminhou na direção dela. – Eu estava aqui esperando por você, e essa garota pediu informações sobre o Wolfram-san, então eu… Espera, você está bem? – Ele indagou, preocupado, ao notar o semblante ainda fechado da garota que era sempre tão sorridente, mas que agora encarava com furor a loira pendurada em Wolfram.
— Não, eu não estou! Vamos embora daqui, Ben-kun!
Ela puxou o ruivo pelo braço, querendo sair dali com ele o mais rápido possível. Como Benjamin era consideravelmente mais alto do que ela, a cena era um tanto inesperada. Mas Miyako queria sair dali rápido, antes que perdesse o controle — e, além do mais, Yuri precisava lidar com certos assuntos por si só. Os dois sumiram, e Elizabeth continuava tagarelando no ouvido de Wolfram sem parar.
— … e então, eu pedi para o Senhor Valtrana, e ele permitiu que eu ficasse aqui e terminasse meus estudos no Japão!
Essa frase foi o que libertou Yuri do seu estado de meditação profunda, onde ele tentava por tudo não ficar irritado e fazer uma cena constrangedora na frente da escola. Ele se aproximou, intrigado.
— Você vai estudar aqui? – Ele perguntou, com a voz incrédula. Seus olhos pareciam implorar por uma resposta negativa.
— Aqui nessa escola pública e cheia de plebeus? – A garota riu, finalmente soltando Wolfram, e parecendo reparar na presença de Yuri somente agora. Como medida adicional, Yuri segurou Wolfram pelo braço e o fez ficar mais longe da garota, quase que imperceptivelmente. – Claro que não! – Ela riu. – Não sei como o Wolfram aguenta estar nesse lugar o tempo todo, mas eu vou para uma escola interna só para garotas, aqui na cidade mesmo. Então, eu poderei sair sempre nos finais de semana e ver você, Wolfy!
— Bem, se foi meu tio quem permitiu, eu não posso fazer nada… — Wolfram soltou o ar, olhando para Yuri com pesar. Aquilo com certeza não estava previsto, e parecia que o tio dele estava mais do que decidido a concretizar aquele noivado estúpido de uma forma ou de outra. – Acho melhor você voltar para casa logo, está escurecendo.
— O quê? Eu pensei que você fosse voltar comigo… — Ela ofegou, fazendo um biquinho que pretendia ser persuasivo.
— Eu tenho planos. – Wolfram foi sucinto, já pronto para tomar o rumo da casa de Yuri.
— Cancele! Eu vim todo esse caminho só para ver você, Wolfram! – Ela bateu o pé, insistente. – Vamos voltar para casa juntos!
— Não, volte sozinha.
— Mas eu não sei o caminho!
— Está tudo bem, Wolf… É melhor ir com ela, antes que seu tio encrenque ainda mais com você… — Yuri sorriu para o loiro, passando a mão discretamente pelo ombro dele, antes de se afastar de uma vez. — Você pode ir pra minha casa outro dia, quando quiser…
Wolfram assentiu, nada contente com aquela resolução. Mas Elizabeth ignorou perfeitamente tudo isso e voltou a agarrar-se nele como se não fosse nada, fazendo Yuri trincar os dentes inconscientemente.
— Vamos passar em algum lugar antes, Wolfram? Eu quero conhecer a cidade…
— Não. Para casa. – Ele respondeu secamente, lançando um último olhar de despedida para Yuri antes de seguir seu caminho, claramente contrariado.
— Eu ligo para você, mais tarde… — Yuri disse, conformado. Queria poder tirar Elizabeth dali, levar Wolfram consigo para longe, e não ter que aguentar nada disso. Só que não era assim tão simples. Fazia muito tempo que ele não se sentia tão irritado, e não sabia como lidar bem com isso.
— Yuri-kun! Yuri-kun!! – Mariko, que havia saído do seu posto de observação apenas para encontrar o irmão, gritou quando o viu, mas Yuri estava tão atordoado pelos seus pensamentos que nem a ouviu. – Ele… me ignorou… Você viu isso? Ele passou direto por mim!
— Aquele é o garoto que você estava falando sobre…? – O garoto ao lado de Mariko indagou, olhando naquela direção. Seu nome era Matsumoto Masaki, e ele era irmão mais velho de Mariko. Era bem mais alto do que ela, com cabelos loiros arrumados em um corte moderno, com pontas que chegavam até pouco acima do ombro. Suas orelhas eram cobertas por brincos e piercings, e seus olhos castanho-claros tinham um ar malicioso, claramente indicando que ele não era um adolescente comum. Trabalhava como modelo desde que tinha 14 anos, e isso construíra sua personalidade de uma forma não muito agradável. Nada muito distante da sua irmã, afinal. — Shibuya Yuri, não é? – Ele continuou, observando Yuri até ele virar a esquina.
— Sim… como você sabe? – Mariko ergueu os olhos surpresos.
— Lembra quando eu fiz aulas de baseball, antes de começar como modelo? Ah, você não deve lembrar, era pequena ainda… Bem, eu fiz aulas de baseball com seu namoradinho, Yuri. É isso.
— Você conhece ele! Por que nunca me contou? – Os olhos de Mariko brilharam de admiração.
— Como eu ia saber que você se interessaria por um tipo comum desses? – Ele desconversou, virando-se para seguir seu caminho. – E se eu fosse você, desistiria logo desses seus planos malucos de conquistar o Shibuya ou o Príncipe…
— E como é que você sabe quem eu quero conquistar?!
— É óbvio. O garoto mais falado dessa escola, príncipe de verdade… Você tem uns padrões bem óbvios de escolha, embora eu ainda não entenda essa fixação pelo Shibuya, mas tanto faz. — Masaki ponderou, desinteressado, colocando as mãos no bolso e seguindo seu caminho. – Você só devia ir em frente e partir pra outra, escute o que eu digo.
— Então me fala mais dele! Como ele era quando você fez aulas com ele? – Mariko nem se ligou nas observações do irmão, estava mais interessada em si mesma para perceber qualquer coisa.
— Bem, ele era um ano mais novo do que eu… Não lembro direito, faz muito tempo. Mas eu acho que recordo de algo como o Shibuya ficando irritado por causa de algo injusto que o técnico fez, por colocar o sobrinho dele como apanhador ao invés de alguém que realmente jogava bem… E então, ele se irritou, gritou, bateu no técnico, foi um desastre. Depois disso ele foi expulso. Por isso que eu estou dizendo, fique longe desse garoto.
— Ah, Yuri-kun já era tão cheio de ideais mesmo nessa época, ele é sempre tão corajoso! – Mariko suspirou, emocionada, levando as mãos ao rosto corado. Já estava fantasiando sozinha, e nem ouvia mais o irmão. Masaki revirou os olhos, desistindo de alertá-la; ela que continuasse fazendo o que bem entendia. Ia quebrar a cara de qualquer jeito. E que não viesse chorando para ele, depois.
~
Yuri espreguiçou-se, girando o corpo para trás, como fazia a cada intervalo, para conversar com Wolfram. Deitou a cabeça entre os braços, na classe dele, e ergueu uma das mãos, alcançando os cachos que caiam perto dos olhos, entrelaçando-os entre seus dedos lentamente. Wolfram poderia muito bem xingá-lo, dizer para não agir daquela forma na frente das pessoas, chutar a cadeira dele como sempre fazia… Mas a verdade é que gostava de ser mimado, e gostava da atenção que Yuri dispensava para ele. Nesse ponto, a opinião de meros desconhecidos que o rodeavam era insignificante.
— Você não me contou o que aconteceu ontem, quando voltou para casa com a sua… noiva? – Yuri fez uma careta para a palavra, mas não parou de fitar Wolfram com interesse. Ele era tão lindo, Yuri nunca cansaria de observá-lo. O loiro inclinou a cabeça para frente, apoiando o queixo no braço enquanto suspirava pesadamente.
— Elizabeth não é minha noiva. Apenas fomos para casa, e quando chegamos lá, eu fui para meu quarto. Não é porque ela está na minha casa que eu devo passar o tempo todo com ela, apesar de ser isso o que meu tio pretende que eu faça. – Ele revirou os olhos. – Bem, de qualquer maneira, ela estará indo embora no início da semana que vem. Irá para essa escola particular de garotas, e, como é um internato, ela raramente vai poder sair, então pelo menos não terei que aguentá-la todos os dias. E você? Aquela Mariko surgiu de algum buraco tentando agarrá-lo e levá-lo para o submundo para tomar sua alma? – Ele indagou, não parecendo nem um pouco interessado em saber o que Mariko fazia ou deixava de fazer.
— Não, nem vi ela hoje, ainda bem – Yuri largou os braços, parecendo cansado só de lembrar. – Ah, mas não quero pensar nisso. – Ele ergueu os olhos, e admirou Wolfram por alguns segundos. Ele olhava distraidamente pela janela, ainda com o rosto inclinado. Se Yuri erguesse a cabeça apenas um pouco, poderia beijá-lo. E, droga, ele queria fazer isso! Mas na sala de aula, com todos ali, seria impossível. Ainda mais quando a aula estava prestes a recomeçar. E ainda havia um bom tempo até a hora do almoço, quando poderiam ficar a sós. Yuri sentia que não podia mais esperar tanto tempo. – Acho que tenho inveja daquela garota… — Ele comentou mais para si mesmo, com um muxoxo contrariado.
— De que garota? Mariko? – Wolfram arqueou a sobrancelha, sem entender o ponto daquele comentário aleatório.
— Elizabeth… É esse o nome dela, não é? – Yuri passou os dedos pelo braço erguido de Wolfram, absorto na sua linha de pensamentos. — Deve ser muito legal, morar na sua casa, e poder ver você o tempo todo. Aposto que é por isso que ela está sempre toda animada, rindo e abraçando você. Se eu pudesse, também ficaria abraçando você toda hora…
— P-pare de falar besteira, fracote…. – Wolfram balbuciou, constrangido.
— Wolfram… Que aula tempos depois dessa? – Yuri indagou de repente, e Wolfram não entendeu a mudança súbita de assunto.
— Inglês... Por quê?
— Você é ótimo em inglês, não precisa participar da aula, não é?
— Que história é essa?
Yuri não respondeu. Juntou suas coisas todas pra dentro da mochila, e então catou os livros de Wolfram e empurrou para dentro da pasta dele. Pegando as duas bagagens, ele olhou ao redor, certificando-se de que ninguém prestava atenção na movimentação dos dois. O professor não tardaria a aparecer. Se ele queria fazer algo, era agora o momento.
— Vem comigo! – Sem pedir permissão, Yuri agarrou Wolfram pelo braço, e o arrastou para fora da classe, correndo com ele a reboque corredor adiante, virando bruscamente para subir as escadas.
— O que está fazendo, Yuri? – Wolfram queria saber, mas Yuri continuou subindo até o quinto andar, e parou ao lado da escada que levava ao último, antes do telhado.
Yuri deixou as duas mochilas com Wolfram, e tateou a parte de madeira, que ficava no espaço entre a escada e o lance abaixo, enquanto o outro apenas o fitava, intrigado. Ele havia finalmente ficado maluco, ou estava apenas testando a habilidade de Wolfram de reagir a situações estranhas?
Quando encontrou o que procurava, ele sorriu. Era uma imperceptível abertura, que quando arrastada, revelava um pequeno espaço, uma salinha escondida embaixo da escada, que provavelmente deveria servir de depósito do zelador ou algo assim. Yuri sorriu ainda mais, e virou-se para Wolfram.
— Eu encontrei esse lugar quando estava no primeiro ano, e fugia dos veteranos do baseball que queriam fazer o trote com os calouros. Eles nunca me encontraram. – Ele contou, com orgulho. Entrou no espaço, procurando por algo, e logo encontrou. Uma cordinha suspensa no “teto”, que ele puxou e acendeu a lâmpada. Esticou o braço na direção de Wolfram, então, convidando-o a entrar. – Venha…
Wolfram tomou impulso e subiu no esconderijo. Yuri fechou a porta logo depois. O lugar tinha as mesmas dimensões da escadaria acima, e nenhum dos dois conseguia ficar de pé ali, embora alguém pequeno como Miyako, por exemplo, poderia talvez conseguir. Não havia nada ali também, embora o lugar parecesse bastante limpo, se tivesse apenas algumas almofadas ou quem sabe uma luz um pouco melhor, seria um cômodo perfeito. Ninguém os encontraria ali, e dificilmente seriam ouvidos do lado de fora, já que o quinto andar servia apenas para sala de alguns clubes e o laboratório de química.
— É um bom lugar… — Wolfram disse apenas, ainda analisando com cuidado o lugar.
— Eu só queria ficar sozinho com você, pelo menos um pouco… — Yuri confessou, sorrindo como quem se desculpa. Ele se aproximou, agachado, até estar bem perto de Wolfram, tão próximo que podia senti-lo estremecer. – Ainda estou com ciúmes daquela garota, sabia?
— Porque você é um fracote…
Wolfram sentiu seu coração dar um pequeno salto dentro do peito. Ainda não estava acostumado com coisas como Yuri admitir que sentisse ciúme dele, e talvez ainda levasse algum tempo até ele ter plena certeza de que não era um sonho… Mas ele não pensava que isso era algo ruim. Queria apreciar cada um desses pequenos momentos, senti-los plenamente, gravá-los em sua memória e nunca mais esquecê-los.
Com a luz fraca da lâmpada tremendo, Yuri sentiu seu coração também acelerar. Só agora havia se dado conta de que realmente estava sozinho com Wolfram, em um lugar apertado e pouco iluminado, sem chance de alguém atrapalhá-los ou de espioná-los. Não havia pensado nisso quando levou Wolfram ali, só queria matar a aula… Mas agora, parando para analisar a situação em que se encontrava, havia sido uma boa ideia. Naquele recanto afastado do mundo exterior, onde só havia eles dois, Wolfram e Yuri poderiam aproveitar o tempo juntos, como nunca conseguiam.
Yuri acariciou a face macia de Wolfram com o polegar, segurando-a. Ele não relutou. Fechou os olhos e inclinou o rosto, aproximando-o de Yuri, selando seus lábios. Os dois garotos sentiram choques elétricos passando de um para outro, quando enfim se tocaram. Yuri envolveu Wolfram pela cintura, aprofundando o beijo cada vez mais, enquanto ele acariciava seus cabelos escuros com os dedos ágeis, buscando de alguma forma aproximar ainda mais seus rostos.
Nenhum dos dois pensava em Mariko, Elizabeth, ou quem quer que fosse. Todos os problemas foram varridos das suas mentes, e eles só se concentravam um no outro, com todo o tempo do mundo ao seu dispor. Yuri era inesperadamente bom naquilo, e Wolfram já estava sem fôlego. Ele se afastou, e Yuri sorriu, depositando um beijo singelo e carinhoso na sua testa, da mesma forma que fizera quando eles eram apenas crianças. O loiro sentiu algo aquecendo-se dentro de si, com somente esse gesto.
— Viu, Wolf... Eu amo você… — Ele sussurrou, abraçando Wolfram longamente, fazendo-o quase derreter. Esperou tanto para ouvir aquelas palavras na voz de Yuri, e, cada vez que ouvia, ficava absolutamente sem reação. A felicidade em seu coração era tão intensa que ele mal podia acreditar. Yuri, então, se ajeitou para deitar a cabeça nas pernas que Wolfram mantinha cruzadas. – Posso dormir aqui? Eu tô com sono, não dormi quase nada noite passada…
— Não dormiu por quê? Ficou jogando de madrugada de novo? – Wolfram queria soar natural, mas depois de tudo, só conseguiu que sua voz saísse aguda e estranha. O cabelo cheio de pontas de Yuri fazia cócegas na sua perna, mesmo através do tecido da calça.
— Na verdade… Eu fiquei pensando em você, e não consegui dormir. — Ele admitiu, corando levemente, e Wolfram desviou o olhar, embaraçado. – Pensando melhor… Acho que não daria muito certo se eu morasse com você, assim como a Elizabeth…
— Por quê? – Ele voltou a olhar para Yuri, que o fitava sonhadoramente.
— Eu iria querer escapar para o seu quarto todas as noites, quando quisesse te ver. Seria ruim, não é? – Ele riu, sem graça, e Wolfram corou um pouco mais. A ideia não parecia exatamente “ruim” para ele, mas com certeza não era coerente. Ele resolveu que não deveria pensar demais nisso, ou acabaria imaginando mais do que devia.
— Você é mesmo um fracote trapaceiro sem esperança… — Murmurou, passando a mão pelos cabelos negros. – Pode dormir, eu acordo você quando chegar a hora. – Ele aquiesceu, cerrando os olhos com altivez. Abriu a sua mochila, e tirou de lá um grosso livro, com aparência antiga, que muito provavelmente pertencia à sua própria biblioteca. Abriu-o, e começou a ler, ainda com Yuri deitado em suas pernas.
O moreno se ajeitou, e rapidamente, havia pegado no sono. Parecia mesmo cansado, e, sem reparar, Wolfram acariciava lentamente os cabelos rebeldes, enquanto lia. De repente, desviou o livro para o canto, espiando-o dormir. Ele ainda tinha aquele sorriso tolo no rosto, mas parecia profundamente desacordado. Wolfram inclinou-se, roubando outro beijo adormecido, sem que ele notasse.
— Eu também amo você, fracote…
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