Sono Te Hanasanaide
14 Capítulo XIV
Konna ni mo kanjittetemo
Eu estou me sentindo dessa forma
Doushite darou tsutawaranaiya ne
Mas por que eu não fui capaz de dizer?
Donna fuuni hanaseba ii
De que maneira eu deveria dizer isso a ele...
Tsuki wo mireba marui na to
A lua que eu vejo é redonda
Yume wa sameru to sabishiiko
É meio triste acordar de um sonho
Konna ni mo kanjittetemo
Estou me sentindo dessa forma
Doushite darou tsutawaranaiya ne
Mas por que eu não fui capaz de dizer?
Donna fuuni hanaseba ii
De que maneira eu deveria dizer isso a ele...
Capítulo 14
As escadas da escola estavam tomadas pelos alunos que queriam mais do que tudo se apressar para suas casas, ou para seus clubes. As conversas altas e uniformes faziam a trilha sonora, e outra vez, Wolfram bufou, cansado de todas aquelas pessoas, de todo aquele barulho. Mais do que nunca, sentia falta das suas aulas particulares, onde só havia ele, e a música clássica como fundo. Que ideia mais absurda da sua mãe, colocá-lo naquele tipo de ambiente para “fazer amigos”. Ele já tinha Yuri! Não precisava de nenhum daqueles plebeus insolentes.
— Ei, vamos logo, Wolf! – No meio de toda aquela gente, Yuri ainda estava ao seu lado. – Não fica viajando aí… — Ele balançou a palma da mão na frente do rosto do loiro. — Nós temos que ir logo para casa…
— Você não tem treino de baseball hoje? – Wolfram indagou de volta, começando a andar na direção das escadas, como se não soubesse de cor o horário de Yuri, e o fato de que ele não teria atividades no clube hoje.
— Não, hoje não… — Yuri continuou a descer as escadas. – Sabe, eu estava lembrando, tive um sonho muito estranho essa noite. Não só essa noite, mas ele vem se repetindo com muita frequência na verdade…
— Parece algum distúrbio do sono, você devia procurar um especialista. – Wolfram virou a cara, sem dar ao assunto nenhuma importância. Não gostava de caminhar e falar ao mesmo tempo. – O que você vê nesse sonho?
— Ah, bem… — Yuri corou, coçando o lado da bochecha. – Eu não vejo nada na verdade. É como se eu estivesse de olhos fechados… Mas, eu s-sinto… Etto… — Ele se aproximou de Wolfram, para que somente ele ouvisse. – Eu sinto como se alguém… me beijasse…
— Q-que? – Wolfram engasgou, agarrando-se ao corrimão da escada. Yuri ainda o encarava, sem entender o motivo para tamanho susto. – Isso é loucura, você deve ter ficado assim depois de tanto levar bolas de baseball na cabeça! – Ele disfarçou rapidamente, ainda que estivesse trêmulo por dentro, com apenas o indício de que Yuri pudesse lembrar algo daquele fatídico episódio.
— Hm… Pois eu acho que isso é um aviso do destino! – Yuri bradou, muito seguro. – Pode ser um sinal… de que a minha predestinada está em algum lugar por aí?
— Predestinada? – Wolfram desdenhou. – Que piada. Como se alguma garota por aí quisesse ter o destino amarrado a um fracote como você!
— Não zombe do destino! Eu tenho certeza de que tem alguma garota que gostaria de ficar comigo… — Yuri continuou a caminhar, ainda meio sonhador, e não viu a expressão dividida de Wolfram, entre a irritação e o pesar. Ele encarava Yuri com tanto furor que poderia abrir um buraco na sua cabeça.
— Ei… Você não vai buscar a sua prima…? – Wolfram disse de repente, parecendo meio alarmado, ao ver Yuri passar direto pelo andar do primeiro ano.
— O que? – Aquela pergunta repentina e a mudança brusca de assunto deixaram Yuri desarmado. Desde quando Wolfram se preocupava com sua prima? Ele tinha certeza de que o loiro mal sabia o nome dela direito… Aquilo era tão inconcebível que Yuri nem conseguia raciocinar. – E-ela vai começar a trabalhar naquela loja hoje, então… bem…
— Entendo… — Wolfram franziu o cenho, e continuou a acompanhar Yuri. – Ela vai sozinha?
— Sim… — Yuri respondeu, ainda surpreso com aquela repentina atenção.
Ele não sabia sobre as ameaças que a garota vinha sofrendo, já que ela preferia manter isso em segredo. Depois do que aconteceu no banheiro, Miyako recebia muitas cartas anônimas com ameaças, tinha seus pertences roubados, e seus sapatos internos já haviam ido parar na piscina da escola. O único que sabia sobre isso era Wolfram — ainda que por acaso — e ele tentava, de alguma forma, fazer com que a garota passasse menos tempo sozinha, sempre que possível. Não que ele se importasse com o bem estar dela diretamente… mas sabia que Yuri gostava muito da prima, e era nisso que ele pensava, inconscientemente. Sem falar que, por algum motivo, sentia que o que acontecia com ela era em parte, sua culpa.
— Ei, você quer ir tomar um milk-shake? – Yuri ia dizendo, despreocupadamente. – Tem um lugar aqui perto muito bom… E tem de cereja, que você gosta…
— Espera aí… Como você sabe que eu gosto de cereja? – Wolfram arqueou uma sobrancelha, sem conseguir impedir seu rosto de esquentar rapidamente, esquecendo completamente das preocupações anteriores.
— Você disse, uma vez… — Yuri deu de ombros, sem notar o quanto aquele simples detalhe era importante para Wolfram. Apenas o fato de saber que Yuri se lembrava de coisas pequenas como aquela, já faziam o coração do loiro dar loopings, completamente fora de controle. Claro que ele não gostava nem um pouco daquele descontrole, mas… de vez em quando, não fazia mal apreciar a sensação.
— Vamos logo então, fracote, ou vai ficar muito tarde!
— Eeeei, você! – Uma voz aguda cortou o ar, e logo a dona dela apareceu, do topo da escada, correndo na direção dos dois. Wolfram a reconheceu imediatamente, pois era aquela que vinha ameaçando Miyako durante todo esse tempo, e instintivamente, se colocou em uma posição defensiva, encarando a garota seriamente. Mas, ao contrário do que ele pensou, ela nem mesmo olhou na sua direção. Saltitante, se precipitou para cima de Yuri, até chegar bem perto dele, balançando os cabelos tingidos no ar. – Você é Shibuya Yuri, Harajuku Furi, correto? – Ela nem deu tempo para o garoto gaguejar sua resposta, pois foi logo se aproximando ainda mais, sufocando-o com o perfume enjoativamente doce. – Você quer sair comigo?
— O quê?! – O grito surpreso de Yuri foi encoberto por um muito mais alto, de Wolfram. A única vontade que ele tinha era de agarrar Yuri pelo braço, e arrastá-lo para longe daquela garota, que certamente tinha algum plano em mente.
— Nee, senpai… Eu acho você muito legal, e sempre assisto os seus jogos… — Ela precipitou-se, projetando os lábios cobertos de gloss cor-de-rosa na direção de Yuri, e evidenciando ainda mais a camisa que estava muito mais aberta do que deveria. – Eu gosto de você! Então… Você quer sair comigo?
Yuri bagunçou os cabelos da nuca, olhando para Wolfram como se pedisse algum apoio. O loiro nem conseguia disfarçar sua fúria, com os punhos cerrados, e os olhos soltando faíscas. Como aquela garota cretina ousava…
— E-eu acho que… B-bem, eu não estou saindo com ninguém, então… acho que sim…
— Ótimo! – Ela comemorou rapidamente, e logo depois, lançou um olhar longo e cheio de significados para Wolfram, sorrindo de canto, cantando vitória. Que intenção ela tinha, ao fazer isso, ele não sabia dizer, mas era evidente que nada de bom podia sair disso.
— Wolfram! – Yuri veio animado para o lado do amigo, assim que a garota deu as costas para eles e continuou a descer as escadas. – Eu tenho um encontro! Eu disse, era o aviso que o sonho queria me dar! Era isso!!
— Bom pra você, fracote imbecil! – Wolfram também deu as costas à ele, ofendido, desejando atirar aquele idiota escada abaixo, apenas para ver se a mente dele começava a funcionar direito.
— Ei, onde você está indo? Espera por mim! A gente não ia tomar milk-shake?
— Faça isso com a sua namorada!
~
A campainha da casa tocou, e Yuri foi o primeiro a atender, afinal, já estava se preparando para sair.
— Wolfram? O que você está fazendo aqui? – A pergunta saiu automaticamente. – Você sabe, hoje eu vou… naquele lugar…
— O encontro? – Wolfram deixava bem claro no seu tom de voz o quanto desaprovava aquilo.
— Sssshhhh, não fala em voz alta! – Yuri sussurrou, olhando ao redor, para verificar sem ninguém tinha ouvido. – Se a minha mãe ou o Shori ouvem sobre isso, eles vão fazer um escândalo… Agora, vamos logo sair daqui, eu vou encontrar a Mariko-san na estação…
— Eu vou ficar. Vim para falar com a sua prima. – Wolfram respondeu, tirando os sapatos e entrando na casa.
— O quê? – Yuri estancou, sem conseguir colocar o seu choque em palavras.
— É isso que você ouviu. Agora, vá logo para a Marina… — O loiro virou o rosto.
— Mariko!
— Que seja. Vá logo, e me deixe em paz… — Ele bufou. Não era o que ele queria dizer. Absolutamente não. Ele queria agarrar o braço de Yuri, prendê-lo em algum lugar, e não deixa-lo sair de lá nunca mais. Era um desejo egoísta, afinal, o que ele podia fazer para impedir Yuri de ir? A sua incapacidade de agir deixava-o absolutamente irritado consigo mesmo. Fechou a porta na cara de Yuri, mesmo que a casa fosse dele e isso não fizesse muito sentido, apenas para não ter que olhar para aquele semblante confuso e perdido por mais tempo.
— Ara, Wolfram-kun! Que surpresa! – Miko avistou Wolfram na entrada, e correu ao seu encontro. – Yu-chan acabou de sair, eu acho… Você quer tomar um chá?
— Agora não, obrigado, Senhora Shibuya. – Wolfram olhava direto para o chão ao falar, o que não era muito típico nele. – A Miyako está?
— Ela está no quarto, bem… — Miko respondeu, sem entender muito bem. Wolfram fez uma pequena mesura, por educação, e seguiu direto até onde ele sabia que ficava o quarto de Miyako.
Entrou direto, sem nem bater.
— W-Wolfram-kun…? — Miyako caiu da cama com o susto, onde ela estava lendo um mangá de cabeça para baixo. – O que você está fazendo aqui?
— Não sei! – Ele respondeu com um resmungo, cruzando os braços. – Eu não aguentei ficar em casa, pensando…
— No Yuri com aquela garota, não é? – Miyako completou a frase, porque sabia que Wolfram não seria capaz de admitir uma coisa como aquela. – Eu também não consegui pensar em nada para impedir isso de acontecer… Tentei falar para o Onii-chan que aquela garota era má, mas ele não me ouviu… E eu não quero contar o que aconteceu para ele, e-então… — Ela baixou a cabeça. – Não tem nada que a gente possa fazer, não é? Eu não consigo imaginar o que aquela garota está pensando…
— Certo, eu não quero mais pensar nisso. – Wolfram bufou, andando de um lado para o outro. – Não importa. Aquele idiota pode fazer o que bem entender, e ficar tão feliz quanto quiser, com aquela…
— Então, por que você veio até aqui, Wolfram-kun? – Como sempre, Miyako tocou no exato ponto de Wolfram, que reagiu quase que imediatamente.
— N-não é como se eu quisesse impedir ele de ir, ou algo assim!! – Ele se apressou em gritar. – Ele pode fazer o que bem entender! Eu não estava pesando em uma maneira de fazê-lo ficar! E-eu…
— Está tudo bem, Wolfram-kun! – Miyako ergueu-se do chão, andando até o loiro. – Você gosta do Onii-chan, então é normal sentir ciúmes… E ainda mais, quando você sabe que aquela garota não deve estar pensando em nada bom…
— Não fale essas coisas, garota! – Wolfram andou pelo quarto, visivelmente perturbado. – Eu não quero mais pensar naquele fracote!! Minha cabeça fica toda… bagunçada! – Ele reclamou, nervoso, passando a mão nos cabelos ondulados. Miyako reprimiu uma reação, sabendo que Wolfram ficaria ainda mais furioso com qualquer comentário seu. Ele parou, em frente à estante de Miyako, e começou a dar uma olhada nos títulos, mais para tentar se distrair do que por interesse. – Posso olhar…? – Ele indagou, mesmo que já estivesse retirando um dos mangás da prateleira sem esperar por resposta.
— C-cuidado… — Miyako tentou avisar, temendo que ele pudesse ter pegado logo um dos seus mangás mais… pesados, mas ainda, intimamente, um pouco animada com a possibilidade.
Wolfram folheou o volume, com pouca atenção, até que seus olhos captaram qualquer coisa de diferente. Seu rosto se coloriu por inteiro, e ele fechou o livro no mesmo segundo.
— O q-que é isso? É assim que… a-acontece? – Ele balbuciou, sem jeito, olhando para Miyako como se ela fosse um tipo de alienígena. Apesar de tudo, não queria demonstrar a sua evidente inexperiência, mas a surpresa foi inevitável. Mais do que tudo, ele tentava não imaginar qualquer situação como aquela retratada do livro.
— Quer dizer que você gosta do Onii-chan, mas não sabe nem mesmo disso?! – Miyako parecia genuinamente indignada com essa situação.
— Eu não gosto daquele fracote, quantas vezes tenho que repetir isso?! – A vergonha deu lugar à irritação, quando ele gritou novamente.
— Pode repetir o quanto quiser, porque eu não acredito em você. – Miyako deu de ombros. – Ei, você quer ler algum desses? Eu empresto pra você…
— Deixa isso para outro dia… — Wolfram voltou a folhear o livro, e agora, estava em uma parte menos perturbadora. Porém, as palavras daquela página pareciam saltar para os seus olhos, praticamente gritando em seu ouvido. “Eu não posso deixa-lo sozinho”, era o que estava escrito, e Wolfram sentiu quase como se aquelas palavras fossem para ele. Jogou o mangá sobre a cama, encarando Miyako com tanto furor que ela chegou a se assustar. – Chega! Eu não vou mais ficar parado aqui… Eu não aguento isso!
— Wolfram-kun…! – Miyako sorriu, surpreendida. – O que você vai fazer?
— Eu não sei! – Ele gritou, segurando a garota pelo pulso e a arrastando corredor a fora, com a sua determinação se tornando quase palpável.
— Waaa… Isso é tão emocionante!
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