Kanashimitaku nai

Não quero me lamentar

Namida ni nureru koto naku

Sem meu rosto estar molhado com lágrimas

Tohou ni kureru koto naku

E sem vestígios

Donkan datte waratte ne

Você irá rir disso porque você é um bobo

Tanoshii koto dake oshiete ne

Tudo o que posso te ensinar é como se divertir

Mitai kao ga aru no

Há um rosto que quero ver

Kikitai koe ga aru no me ga sametara

Há uma voz que quero ouvir

Yorokobi wo narashite

Quando acordo

Ohayou

Ouço o agradável

Kyou mo yoroshiku onegai itashimasu

"Bom dia" e "Tenha um ótimo dia"



Capítulo 59

Sons altos de coisas sendo derrubadas no chão fizeram Yuri abrir os olhos em um rompante. Vinham da cozinha, muito provavelmente. Ele precisou de alguns segundos, passado o susto, para se situar e encontrar sua consciência, enterrada no torpor do sono pesado.

Sua visão foi aos poucos se focando, até que ele pudesse distinguir o teto do seu quarto. A luz que invadia as frestas da janela indicavam que era dia, e parecia forte demais para ainda ser manhã. Yuri tentou se sentar, desorientado. Que dia era hoje? Ele tinha aula, e treino de baseball, não poderia ter dormido durante o dia inteiro. Seu celular nem havia despertado.

Passou a mão pelo rosto amassado e pelos cabelos em completa desordem, tentando abrir um pouco mais os olhos, incomodados pela pouca luminosidade que invadia o local. Olhou no relógio de pulso ao lado da cama. Era três horas da tarde? Como assim? Imagens desconexas da noite anterior começaram a fazer sentido na sua mente atribulada, e Yuri voltou a deitar para trás. A festa de casamento, Wolfram, a noite em claro. Ele havia dormido durante toda a manhã e parte da tarde, e ainda era domingo.

Ainda tonto de sono, ele se levantou, indo direto ao banheiro e lavando o rosto com água gelada. Era por causa disso que não gostava de dormir durante o dia. Acordava pior do que estava antes.

Dirigindo-se à cozinha, logo encontrou a fonte dos barulhos que haviam o despertado em primeiro lugar. Miyako estava no chão, juntando as panelas que ela obviamente havia derrubado ao tentar fazer alguma coisa ali, colocando-as de volta no armário com cuidado para não fazer mais barulho ainda.

— Precisa de ajuda com alguma coisa aí?

— Ah! — Ela virou o rosto, surpreendida. — Eu te acordei, Onii-chan? Desculpa. Eu só estava procurando a chaleira para fazer um chá…

— Não é aquela ali no canto? — Ele apontou para o lado oposto, onde o objeto repousava genuinamente, em cima do balcão.

— Essa mesma… — Ela suspirou, terminando de recolher as panelas, e dirigindo-se ao outro lado. Yuri se aproximou e sentou na mesa da cozinha, observando distraído enquanto a prima andava de um lado para o outro preparando as folhas para o chá. Ela precisou de quatro tentativas para conseguir ligar o fogão, e quase esqueceu de colocar água na chaleira, mas fora isso estava indo bem.

Miyako escolheu duas xícaras, e sentou ao lado dele, esperando a água esquentar. Fitou-o por alguns segundos, escolhendo bem as palavras, antes de se pronunciar.

— Onii-chan… Tem algo errado? — Ela fitou Yuri de canto, analisando-o disfarçadamente, enquanto passava o dedo pela alça da xícara sobre a mesa.

— O quê? — Ele foi pego de surpresa pela questão, esquecendo que antes de dormir, Miyako estava ávida por saber o que havia ocorrido. Agora, porém, ela parecia mais preocupada do que curiosa e agitada como antes.

— Não sei… Você chegou de manhã e foi direto dormir, isso não é muito… comum. Então eu estranhei. — Ela parecia ter pensado nisso por algum tempo. — Aconteceu alguma coisa?

— Hm… Mais ou menos. — Ele levou a mão à cabeça e bagunçou os cabelos, suspirando. Não queria falar sobre aquilo que o afligia logo com sua prima, de todas as pessoas, apesar dela parecer muito disposta a ajudar. Não era um assunto que ele poderia falar com outra pessoa, na verdade, não importando quem fosse. Só dizia respeito a ele mesmo e Wolfram, afinal. — Acho que eu preciso conversar com o Wolfram, mesmo… — Ele chegou à conclusão óbvia sozinho dessa vez, e Miyako sorriu, solidária, ao notar que seu primo havia amadurecido ao menos um pouco, e já conseguia pensar em como lidar com seus problemas sozinho.

— Então não demore demais, ou as coisas podem ficar piores. — Ela sugeriu. A chaleira começou a fazer barulho, e ela sobressaltou, correndo para checar a água quente.

Bem, Yuri já sabia disso. Não permitiria que mal-entendidos o atrapalhassem novamente, então era melhor resolver tudo de uma vez, e conversar diretamente com Wolfram. Mas era tão difícil pensar em encará-lo depois de tudo o que havia acontecido naquela noite…

— Nii-chan? Você está mesmo bem?

— O quê?

— Estava fazendo uma cara meio… Ahn… Estranha. Seu rosto está corando. — Miyako preencheu a caneca próxima a Yuri com o líquido fumegante. Ela tinha uma expressão genuinamente curiosa no rosto. Por um breve segundo Yuri podia jurar que ela vira através dos seus pensamentos, e essa ideia era assustadora.

Ele chacoalhou a cabeça, tentando se livrar daquelas imagens mentais. Era melhor deixar as lembranças da noite no hotel de lado em sua mente, ao menos por enquanto, até que pudesse se concentrar no que havia ao seu redor.

— O que é aquilo? — Ele notou uma pilha de papéis, que pareciam correspondências, no meio da mesa. Uma delas se destacava, porque não parecia ser propaganda ou contas a pagar. Era mais como uma carta. Yuri nunca havia recebido uma carta de verdade antes, até onde lembrava.

— Aaah! Sim, eu tinha me esquecido disso! — Miyako se ergueu, e puxou o envelope branco, escrito à mão, entregando-o para Yuri. — É uma carta para você, Nii-chan. Do Murata-kun…

— De quem?? — Yuri soltou a caneca, e tratou de ler o que havia no envelope. No destinatário estava o seu nome, escrito de maneira ocidental. O nome de Murata, da mesma forma, constava no remetente, junto com um endereço localizado na… — Nova Zelândia? O que o Murata está fazendo na Nova Zelândia?

— Você não se lembra, Nii-chan? — Miyako estranhou. — Murata-kun foi fazer um intercâmbio para estudar inglês, dois meses atrás. Ele passou meses se preparando para a prova de admissão, por isso parou de vir aqui, não é?

— Ahn… é? — Yuri passou a mão na nuca, com um sorriso sem graça. Seu único amigo de tantos anos estava fora do país e ele não se lembrava disso. Tantas coisas estavam acontecendo nos últimos tempos que era difícil prestar atenção em tudo. Pelo menos Miyako não era o tipo de pessoa que ficaria julgando o quanto ele era um péssimo e negligente amigo. — Deixa eu ver o que ele mandou…

Dentro do envelope havia uma carta, e algumas fotos, onde apareciam montanhas e lagos cristalinos, com Murata em roupas de alpinismo, sorrindo e acenando para a câmera. Em outra foto, ele estava em uma cidade de hobbits, com tocas como as dos filmes, que Miyako achou “muito fofas”. Na terceira, ele estava no meio de vários homens com mais do dobro do seu tamanho. Todos tinham marcas desenhadas pelo corpo, e estava sem camisa. Olhavam para câmera com os olhos esbugalhados e as línguas de fora. Murata, magro, pálido e mirrado no meio deles, parecia completamente fora de lugar.

Na carta, ele citou como o país era lindo, a comida era ótima, e as tribos maori eram muito legais. Ele ficaria pelo resto do ano na Nova Zelândia, e voltaria para fazer a faculdade no Japão, mas estava com vontade de viajar ainda mais, e conhecer muitos outros países. Perguntou sobre o time de baseball, e como estava o dia a dia de Yuri.

Ele se sentiu um pouco culpado por não ter entrado em contato com o seu, bem… Único amigo? Mas isso não durou muito. Porque é claro que Murata também não perdeu a oportunidade de provocá-lo, perguntando sobre como andava Wolfram e o namoro.

“Vocês dois já avançaram muito? Ora, que pergunta, é claro que já... Só não se esqueçam de que vocês ainda são colegiais, não se empolguem com ousadias demais! Foco no vestibular, e não somente no seu príncipe, ok?~”

Mesmo sem intenção, estando longe e alheio ao que se passava ali, Murata havia conseguido atingir exatamente o assunto que o afligia, e espezinhar, assim como faria se estivesse por perto, certamente. E pensar que Yuri quase sentiu saudades dele.

De qualquer forma, Yuri tomou a decisão de não esperar mais. Conversaria com Wolfram naquele exato momento, e resolveria esse assunto antes que se tornasse mais um empecilho entre eles. Mais um mal-entendido que causasse problemas para os dois era a última coisa que ele precisava no momento.



Depois dos incentivos de Miyako e da indireta provocação de Murata, Yuri se sentia pronto para ter essa conversa. Ele andava confiante pela rua, certo de que estava resolvendo seus problemas de forma madura, orgulhoso de si mesmo por essa atitude. Talvez nem tanto. Ok, ele estava com medo. E com vergonha. Ah, isso ia ser tão difícil e constrangedor que ele poderia morrer antes de conseguir falar qualquer coisa!

Ele não poderia simplesmente bater na porta da casa de Wolfram, dar oi para os irmãos dele como se nada estivesse acontecendo, e então falar para ele “Então, Wolf, eu sei que você não se lembra de nada, mas nós fizemos umas coisas naquele quarto de hotel, e você disse que… que…”. Ele não conseguia nem completar a frase mentalmente, quanto mais falar sobre isso olhando para Wolfram!

Se ao menos ele tivesse uma desculpa para aparecer por lá. Uma forma de minimizar o trauma, acalmar Wolfram que já deveria estar bastante perturbado por aquela situação, antes de resolver o problema de vez. Uma oferta de paz — embora eles não tivessem brigado. O que poderia distrair Wolfram suficientemente para que conversar com ele fosse uma tarefa menos embaraçosa…?

A resposta veio em um rompante, e em forma de duas palavras estrangeiras. Little Shimaron. Não havia nada melhor para facilitar uma visita complicada, do que levar um presente consigo. E Wolfram amava doces.

Yuri mudou sua rota no mesmo instante, sentindo novamente aquela confiança sem fundamento que acompanhava cada tomada de decisão. Não pensaria em como faria para falar com Wolfram, ao menos por enquanto. Ele ainda devia estar sentindo os efeitos da noite anterior, inclusive, e Yuri precisaria ser ainda mais cuidadoso ao lidar com seu namorado. Pensando melhor… Cuidar de Wolfram seria uma prioridade mais importante do que tirar a limpo as suas dúvidas. Não que ele estivesse pensando em fugir daquela conversa, mas talvez adiá-la? Ou amenizá-la, pelo menos.

Ah. Planejar nunca foi o forte de Yuri. Muito menos agir conforme uma estratégia pré-estabelecida. Ele se dava melhor com improvisos. Quando enfim chegou em frente à confeitaria na qual trabalhou por algumas semanas, Yuri já havia decidido: falaria com Wolfram, de maneira sincera e sem hesitar, como devia ser.



~



Hori estava embalando encomendas, virada de costas para a entrada, apressada. Do lado oposto e escorado no balcão, Shuuhei esperava para poder fazer as entregas do dia, batucando com os dedos na madeira do móvel, enquanto cantarolava uma musiquinha que ele havia ouvido em algum comercial de TV, talvez. É, ele estava trabalhando em um domingo. Por quê? Ele nem precisava de dinheiro tanto assim. E Natsume vivia implicando sobre isso, porque ela queria fazer maratonas de Call of Duty ou de Tera Online e não podia, quando ele passava os finais de semana trabalhando. Mas os seus outros jogos não se compravam sozinhos. Nem os livros que ela vivia pegando emprestado e nunca mais devolvia, ou os lanchinhos que ela estava sempre comendo às suas custas. Então ela não devia nem estar reclamando. Quando ele sentiu o celular vibrar mais uma vez no bolso do seu uniforme, e tinha certeza de que era outra mensagem dela, resolveu ignorar. Provavelmente se arrependeria disso mais tarde. Mas isso era um problema com o qual o seu “eu” de duas horas no futuro teria que lidar.

A sineta acima da porta tocou, quando ela foi aberta, e Shuuhei ergueu a cabeça automaticamente, pronto para proferir a usual frase de recepção ao cliente, quando percebeu que quem adentrava o local era, inesperadamente, Shibuya Yuri. Ele parecia um tanto mais perdido do que o normal, quase indo na direção da entrada dos funcionários por hábito, mas percebendo isso há tempo, e chegando até o balcão. Era meio inesperado vê-lo ali tão cedo, depois de toda a confusão que algumas poucas semanas de trabalho nesta mesma confeitaria haviam causado na vida do pobre rapaz, e que Shuuhei havia acompanhado razoavelmente de perto, mesmo que essa não fosse exatamente sua vontade.

— Asahina-kun, tudo bem? — Ele cumprimentou com um aceno de mão, simpático como sempre.

Yuri era legal, apesar das poucas vezes que haviam conversado durante o tempo em que trabalharam juntos — e Shuuhei o ajudara em mais de uma ocasião, inclusive mantendo o segredo sobre seu trabalho, e salvando o namorado dele ocasionalmente. Além disso, Yuri era primo da mais nova melhor amiga de infância de Natsume, então, eles ainda topariam um com o outro muitas vezes por aí, aparentemente.

— E aí, Shibuya. — Ele respondeu, sorrindo de volta. — Como foi a festa ontem?

Por um breve momento Yuri pareceu estranhar o fato de um colega com quem ele não falava tão frequentemente assim saber da sua vida, e Shuuhei até pensou em explicar sobre isso, mas ele logo perceberia por si só que nada do que fizesse era segredo absoluto se Natsume estivesse próxima o bastante. Era melhor ele se acostumar com isso de uma vez.

— Foi divertido. — Yuri optou por ser sucinto. Talvez “divertido” não fosse a palavra correta para abranger a quantidade de coisas que ocorreram naquela única noite, mas Yuri não conhecia Shuuhei tão bem assim para ser tão sincero logo de cara. Apesar de acreditar que o episódio envolvendo Wolfram e bebidas não fosse ser segredo por muito tempo, também. Apesar disso, Shuuhei o fitou intrigado, como se esperasse pelo resto da frase, e ele percebeu que deveria estar fazendo uma expressão muito estranha naquele momento.

— Yuri-kun! — Por sorte, Hori voltou para a frente do balcão naquele exato momento, e a atmosfera esquisita se dissipou rapidamente. — Resolveu voltar atrás e trabalhar aqui de novo? — Ela sorria amplamente ao vê-lo.

— Ahn, ainda não, Hori-san. — Yuri sorriu. — Hoje eu vim como cliente, mesmo. Preciso de um bolo para dar de presente…

— Para o seu namorado, acertei? — Ela o interrompeu, com um olhar sagaz. Yuri corou ligeiramente com o sorriso matreiro da mulher mais velha. — Você andou fazendo besteira e quer usar comida como maneira de fazer as pazes, ou isso é só um agrado?

— É só um presente mesmo. Ele gosta bastante de doces, e…

— E gosta principalmente dos bolos de nozes, ou então de chocolate e de morango. Eu sei, você vivia falando sobre isso quando trabalhava aqui. — Ela já se adiantou, olhando nas opções que haviam prontas no balcão, quais mais combinavam com o paladar exigente do namorado de Yuri. — E você, Shuuhei-kun, não tem entregas pra fazer?

— Eu já vou. O Yamada-san da cozinha disse pra esperar que ele tem mais algum pedido de última hora pra eu levar… — Shuuhei respondeu, voltando a fitar Yuri. Ele parecia estranhamente… distraído. Ou preocupado. Shuuhei não sabia identificar, mas podia dizer com certeza que normal, o garoto não estava. Não custava nada observar mais um pouquinho, afinal. — E como está o Wolfram? — Ele arriscou perguntar, vendo como Yuri sobressaltou ao ouvir o nome dele, e desviou o olhar logo depois.

— Está bem. Um pouco cansado… da festa. Acho. — Ele estava visivelmente desconfortável, então na certa havia acontecido algo nessa festa para deixá-lo assim. O instinto de Shuuhei nunca o deixou na mão. — E o trabalho, aqui, como anda? — Ele obviamente resolveu desviar o assunto de uma vez, para algo mais leve.

— Ahn… — Shuuhei pensou por alguns segundos antes de responder. — Ninguém foi contratado depois que você saiu, então estamos com alguns problemas de pessoal. Por isso, volta e meia a Hori resolve me escravizar- digo, me pede para ajudar aqui na frente. Ou então eu ajudo na cozinha. Na verdade, acho que eu deveria pedir um aumento…

— Sinto muito, Asahina-kun, mas a resposta seria não.

A voz veio da direção da entrada, por onde uma figura loira adentrara, sorrindo na direção do único cliente que estava próximo ao balcão — no caso, Yuri. Era Sara, evidentemente, e ele estava exatamente como nos pôsteres espalhados pelo quarto de Natsume — parecendo ser alguém vindo de outra realidade, quase um ser místico; com suas roupas ambíguas de marcas que Shuuhei nem sonhava conhecer, óculos escuros enormes no rosto fino, e os cabelos presos em uma trança minuciosamente desalinhada que pendia pelo ombro.

— Yuri! Eu não esperava ver você por aqui. Que surpresa! — Ele se aproximou, repousando a mão no ombro do garoto. Como sempre, seu sorriso parecia acolhedor e simpático. Shuuhei parecia ser a única pessoa ali que não suportava aqueles sorrisos, e revirou os olhos discretamente, com a chegada do seu chefe, sem que ninguém parecesse perceber.

— Só passei para fazer uma visitinha, já estava indo… — Yuri respondeu, sorrindo de volta. Shuuhei gostaria de acrescentar que Sara também devia estar fazendo uma “visitinha”, já que desde que Yuri parara de trabalhar ali, ele também havia deixado de comparecer todos os dias no estabelecimento, mas resolveu sabiamente permanecer no seu incomum e observador silêncio. Até porque, poderia ser potencialmente arriscado fazer comentários espertinhos na frente do seu chefe.

— Que sorte a minha, então. Estava de passagem por aqui justamente porque acabei de sair de uma sessão de fotos. — Ele passou a mão pelos cabelos que escapavam da trança, e afastou os óculos até a ponta do nariz, para olhar diretamente para Yuri, com notável interesse. — E você?

— Eu estava… a caminho da casa do Wolfram. — Yuri respondeu. A breve hesitação nas suas palavras, que não podia ter levado mais do que um segundo, não passou despercebida aos ouvidos do estrangeiro. Ele sorriu infimamente. — Ele não está se sentindo muito bem, então eu pensei em levar um presente para ele. Ele adora doces.

— Ah, entendo. Faz tanto tempo desde que você esteve aqui, não quer sentar e conversar um pouco? Podemos tomar um chá, ou um café. — Enquanto falava, ele já ia conduzindo Yuri delicadamente pelo pulso, para uma das mesas vagas próximas ao balcão.

— Não sei… Eu nem escolhi ainda… — Yuri voltou o olhar para o balcão, indeciso.

— Tenho certeza de que Hori pode fazer a escolha perfeita para você. — Ele acenou com a mão para ela, recebendo um “vou fazer um arranjo especial para o Yuri-kun” em resposta. Enquanto isso, já ocupava o lugar na mesa, e Yuri não via outra alternativa a não ser acompanhá-lo.

— Na verdade, eu queria ir logo para lá, conversar com o Wolfram… — Ele baixou o olhar, passando a mão pelos cabelos em um claro sinal de inquietação.

— Conversar? Aconteceu algo? — Sara se inclinou sobre a mesa, denotando preocupação, e Yuri se surpreendeu com o interesse repentino que ele demonstrava. Era sempre bom saber que havia alguém empenhado em saber dos seus problemas, e ajudar-lhe com eles. Ele já sentia-se mais reconfortado com essa intenção.

— Hm… Bem, não exatamente. Na verdade, pode ser só coisa da minha cabeça, eu não sei bem o que fazer agora… — Yuri suspirou. Era raro ver aquela postura tão derrotada em alguém que costumava esbanjar vivacidade e otimismo. Somente Wolfram era capaz de causar em Yuri todos os extremos de emoções daquela forma. — Não existe um problema de verdade entre nós, ainda, mas sempre que eu deixo as coisas do jeito que estão, elas pioram. Eu acho que devo conversar com o Wolf o quanto antes, e resolver esse assunto de uma vez, sabe?

— Bem… — Sara tirou os óculos, fitando o pequeno vaso de flores à sua frente como se pensasse profundamente em alguma questão, embora não houvessem sinais de qualquer ruga ou marca de expressão em seu rosto tranquilo. Juntou as mãos sobre a mesa, e ergueu os olhos âmbares novamente para Yuri. — Se não há problema algum agora, talvez seja melhor se acalmar, antes de tomar qualquer decisão precipitada, não? Quero dizer, você e Wolfram-kun acabaram de se reconciliar após um desentendimento, correto?

— Sim… — A voz de Yuri era um breve suspiro. Ele não havia pensado por esse lado, e parecia acuado e perdido. Sara sorriu brevemente, como se sentisse muito por ele, antes de prosseguir.

— Então… Essa é só a minha opinião, veja bem, mas eu acredito que o relacionamento entre vocês ainda possa estar… fragilizado, depois deste abalo. Se você trouxer mais problemas à tona, isso não deixaria Wolfram em uma situação onde ele se irritaria, ou se magoaria, novamente? Você poderia esperar, para ver até onde pode ir, antes de discutir com ele sobre qualquer outra dificuldade…

O semblante de Sara era lamentoso, e Yuri entendia que lá no fundo, ele devia estar certo sobre o que dizia.

— É que… Esse assunto não é exatamente um problema, assim. — Yuri não sabia como explicar em palavras, mas não podia simplesmente contar a alguém o que havia acontecido na realidade. De jeito nenhum! — É mais uma… dúvida, que eu tenho. Mas o Wolfram pode não querer ouvir sobre isso, quero dizer… Argh, é complicado...

— Se você não puder me contar o que te aflige, eu entendo, mas não sei se posso te ajudar sem saber de nada… — Sara pronunciou cuidadosamente cada palavra, vendo Yuri balançar a cabeça em negação, veementemente.

— Me desculpe, Sara, mas eu não posso mesmo contar. Mas só de me ouvir, já ajuda bastante, obrigado… — Ele tentou soar mais aliviado, embora não fosse, desde o início, muito bom em disfarçar o que quer que fosse.

O loiro sorriu, compreensivo, e estendeu a mão sobre a pequena mesa de madeira que os separava, até alcançar a mão de Yuri, fechada em punho, e segurá-la calmamente, como se pudesse, com o gesto, transmitir toda a tranquilidade que demonstrava.

— Eu estou aqui para o que precisar, Yuri. Sabe disso, não é mesmo? Eu sou seu amigo, afinal, e é para isso que servem os amigos. — O sorriso dele aumentou, enquanto ele inclinava a cabeça de leve para o lado, fazendo com que a trança platinada deslizasse sobre seu ombro direito. — Nee?

Yuri assentiu, muito embora estivesse com mais dúvidas do que certezas na sua cabeça, agora. Antes, estava muito certo de que conversar e resolver logo o assunto era a melhor solução, mas depois de ouvir Sara e pensar mais sobre o assunto, já não sabia mais como lidar com aquilo. A última coisa que ele queria era ter outro desentendimento que acabasse de maneira trágica com o seu namoro. Talvez fosse melhor esperar para ver como Wolfram se comportaria dali para frente, afinal.

Afastado dali, Shuuhei assistia discretamente a conversa entre o inusitado par formado pelo seu chefe estrangeiro super-modelo e o japonês comum que Shibuya era (sem ofensas). Não que duvidasse que os dois pudessem ser amigos, claro — havia percebido mais de uma vez no período em que Yuri trabalhara ali que Sara parecia ter interesse especial em conversar com ele, nos breves momentos que se dispunha a tal. Porém, mesmo que não houvesse nenhum sinal verdadeiro que ocasionasse essa suspeita em Shuuhei, e ele nem conseguia ouvir o que os dois conversavam, o garoto não conseguia evitar encarar a cena com uma considerável desconfiança.

A verdade era que ele não conseguia simpatizar com a cara de Saralegui, então qualquer atitude dele parecia… ensaiada, nada natural. Ou algo assim. Ele não sabia como explicar. Talvez fosse só porque Natsume era tão obcecada com aquele modelo, que ele já não aguentava mais olhar para a cara dele.

Entretanto, na dúvida, não custava nada prestar atenção.

— Asahina-kun, será que você poderia parar de sonhar por um segundo? — Hori colocou várias embalagens na frente do garoto. — Você tem suas entregas para fazer.

— Ah, verdade. — Ele reuniu as sacolas para guardá-las na mochila de entregador, e se preparou para sair. Lançou mais um olhar para a mesa logo à frente, vendo Yuri ainda sorrindo, enquanto se preparava para se levantar. Apesar de tudo, ele ainda não parecia estar com seu comportamento usual, então era meio óbvio que havia algo de errado acontecendo.

Podia pensar nisso melhor mais tarde, afinal, tinha trabalho no qual se concentrar agora. E, além disso, o celular vibrando no seu bolso o fez lembrar que havia uma pessoa que com certeza se interessaria muito em saber sobre o que acontecera na confeitaria naquela tarde.



~



Seu estômago estava embrulhado. A cabeça latejava. E a claridade ardia tanto nos olhos que ele desconfiava que de alguma forma havia se tornado um vampiro por descuido na noite anterior. Wolfram não queria sair daquela cama por nada nesse mundo, por pelo menos uma semana, mas o universo parecia conspirar para que nada do que ele quisesse desse certo ultimamente.

Acordou, sem saber ao certo quanto tempo havia dormido desde que chegara em casa de manhã, mas a julgar pela extremamente incômoda luminosidade que entrava pelas janelas, ainda era dia. Sua mente estava vazia. E por dois longos segundos, aquele vazio foi confortável e ele se sentiu descansado. Porém, isso só durou até que a dor retornasse com força total instantes depois, e, acompanhando-a, imagens desconexas de um sonho que não fazia sentido algum.

Wolfram apertou os olhos com força, enquanto seu cérebro lutava para se reordenar. Aquelas cenas que ocupavam sua mente se mostravam mais nítidas, quanto mais ele se concentrava nelas.

Uma música, lenta e instrumental. Pessoas movendo-se ao redor. Yuri conduzindo-o em uma dança improvisada. Sorrindo.

O quarto de hotel onde eles estavam. Yuri preocupado. O calor espalhando-se pelo seu corpo, tão rapidamente que era como se estivesse pegando fogo.

Yuri. Somente Yuri. Suas mãos, seus lábios, seu cheiro. Embaixo de si, abraçando-o, beijando-o, fazendo exatamente aquilo que Wolfram queria. No rosto, no pescoço, na cintura, nas pernas. Yuri em todos os lugares.

E então, nada. Um branco absolutamente preocupante tingia sua memória, e se as tênues partes que ele conseguia se lembrar já não fossem o suficiente para uma vida inteira de embaraço, Wolfram temia o que viria adiante, nas partes que ele não recordava.

Oculto pelos seus cobertores, ocupando o menor espaço possível enquanto se encolhia, Wolfram desejava que assim pudesse sumir de uma só vez e apagar todo aquele rastro vergonhoso que havia deixado para trás. Onde é que ele estava com a cabeça para permitir-se agir daquela forma!

O que Yuri deveria estar pensando do seu namorado libertino que se transfigurava ao mero toque de algumas taças de… sejá lá o que ele tivesse tomado durante a festa. Wolfram se retorceria diante desse pensamento, se não fosse a dor e a tontura que acompanhavam qualquer movimento brusco seu.

Yuri… As imagens que o assolavam ainda estavam lá, forçando-o a acreditar que o que quer que vagasse pela sua mente naquele momento havia acontecido de verdade, e não era somente um fruto da sua imaginação fértil demais.

Não que estivesse completamente arrependido. Quer dizer, havia sido… bom. Pelo menos, era o que aquelas recordações soltas o faziam crer. Na verdade, ele podia imaginar com extenuante exatidão como é que poderia ter sido. Seu corpo, aparentemente, ainda lembrava. E isso não ajudava em nada.

— Yuri… — Ele murmurou, a voz abafada pelo travesseiro no seu rosto.

Teria sido melhor se ele não estivesse bêbado durante a maior parte da noite. Então, lembraria de tudo perfeitamente, e poderia ter sido uma noite mágica para os dois. Romântico, como casamentos devem ser. Teriam tido mais tempo para aproveitar. Conversar, rir juntos. Eles poderiam ficar até o fim da festa, vendo a noite esvaecer enquanto dançavam descalços na pista de dança, ao som de uma música qualquer.

Wolfram poderia até fingir que não ligava para essas coisas, mas, lá no fundo, era um sonhador. Adorava ter momentos especiais com Yuri, lembranças que guardaria para sempre. Jamais admitiria isso para ninguém. E ele não teria lamentado nada do que eventualmente pudesse acontecer depois disso, se fosse esse o caso, não importando o que ocorresse — ele não havia pensado muito longe sobre isso, mas era assim que se sentia. No entanto, o seu descontrole, sua afobação, haviam estragado tudo o que ele havia imaginado. De novo.

Batidas na sua porta, que mais pareciam tambores anunciando o início da guerra, ecoaram dentro dos seus ouvidos, fazendo Wolfram soltar sons lamuriosos do lugar onde se escondia, embaixo dos cobertores.

— Wolfram. — A voz cortante de Gwendal, que soava como um trovão, veio do outro lado. — Desça para comer alguma coisa. Você não come nada desde que chegou.

— Eu não quero. — Ele falou um pouco mais alto em resposta, e sua cabeça latejou dolorosamente, fazendo com que ele se encolhesse ainda mais. Só queria sumir, e fazer aquelas dores todas pararem.

— Não foi uma sugestão, foi uma ordem. — Gwendal estava falando sério, e Wolfram sabia disso. Desde que era pequeno, ele sempre teve um senso muito rápido para identificar quando Gwendal estava sem paciência para suas teimosias. Enquanto Cheri sempre cedia facilmente a qualquer birra que ele fizesse, e Conrad estivesse disposto a ajudar e ser compreensivo, com Gwendal era diferente. Por mais que o fraco dele por “coisas fofas” fosse um ponto a seu favor, havia um limite que ele não ousava ultrapassar. Aparentemente, havia ido mesmo longe demais daquela vez.

Ele deveria ter imaginado que seu irmão mais velho não ficara nada satisfeito com a sua atitude. Como poderia? Ele havia bebido mais do que deveria, e não importava que essa não fosse sua intenção inicial. Tinha que admitir, havia gostado daquela sensação de poder fazer o que quisesse e não ligar para os problemas, de pisar em estrelas, flutuar pelo céu, sem pensar em nada. Outra vez as batidas na porta, e Wolfram prometeu a si mesmo que não voltaria a experimentar álcool durante a sua existência. Os efeitos colaterais eram demais para ele.

Vagarosamente, e quase sem abrir os olhos, ele rolou até a beirada da cama, e tateou até encontrar o criado mudo logo ao lado. Franzindo as pálpebras, ele encontrou o que procurava, e, sem hesitar, colocou no rosto. Óculos escuros que cobriam muito bem sua visão, e permitiam que ele conseguisse abrir seus olhos sem que esses parecessem estar sendo queimados por ácido sulfúrico.

Com alguma dificuldade, e o estômago ainda protestando, ele juntou forças para erguer seu corpo inerte da cama, e, a passos lentos, alcançou a porta. Do outro lado dela, Gwendal o esperava, de braços cruzados, e com pelo menos mais três vincos na testa enfarruscada.

— Bom dia… — Wolfram entoou com a voz fraca, quase sumindo, encolhendo os ombros ao passar pelo irmão. Ele o encarava de cima, obviamente enfurecido.

— Boa tarde, não é, Wolfram? — Ele bradou de volta. Wolfram foi andando pelo corredor, tentando pensar por onde deveria começar a se explicar, se é que havia alguma maneira de fazer isso naquela situação. — Sinceramente, eu não sei onde você estava com a cabeça quando começou a experimentar essas bebidas. Até entendo que possa ter provado uma taça sem querer, mas foram várias! Nunca pensei que fosse ter que enfrentar esse tipo de situação logo com você.

— Irmão, será que você poderia falar menos… — O olhar de absoluta fúria que Wolfram visualizou através das lentes escuras o fez engolir em seco. — … M-mais baixo, eu quis dizer. Minha cabeça dói...

— É bom que doa, pois só assim você vai se lembrar das consequências dos seus atos impensados. Além de quase começar um escândalo no meio da festa, ainda arrastou Yuri para o meio disso. Ele teve que passar a noite cuidando de você.

— Eu fiz isso mesmo? — Wolfram indagou, ligeiramente surpreso. Lembrava de alguns poucos flashes da festa em si, mas não sabia que tinha mesmo feito uma cena no meio das pessoas.

Desceu as escadas dos fundos, que guiavam até as demais dependências, vagarosamente, segurando no corrimão, um passo de cada vez, pois tudo ao redor girou quando ele chegou no alto dos degraus. O chão lá embaixo parecia distante e trêmulo. Era o mesmo tipo de mal-estar que ele tinha quando precisava viajar de navio, ou andar de barco, por qualquer motivo que fosse, e a mera lembrança desse fato o deixou ainda mais tonto. Gwendal segurou-o pelo braço para ajudá-lo, provavelmente percebendo o estado do irmão, mas sua expressão não suavizou nem por um segundo, e ele também não parou de falar.

— Foi por pouco que Yuri e Conrad conseguiram conter você, e então Susanna Julia ofereceu um dos quartos reservados aos convidados. Mas se ainda te interessa, algumas poucas pessoas notaram seu comportamento inadequado, e uma delas foi Stoffel. Então eu acho que você terá algumas explicações para dar mais tarde.

Obviamente Stoffel não perderia tempo de comentar com seu Tio Valtrana sobre o acontecimento, e Wolfram sentiu como se sua dor de cabeça estivesse aumentado só de se tornar consciente desse fato. Era melhor nem pensar no que viria pela frente.

Chegando à cozinha, logo percebeu o aroma forte de café sendo preparado. Ele não gostava muito de café amargo, mas sentiu que faria parte do seu “castigo”, como se somente a ressaca já não fosse o suficiente.

— Está se sentindo melhor, Wolf?

Como vinha andando de cabeça baixa por todo o caminho, Wolfram sobressaltou ao ouvir a voz que o chamara, e ergueu os olhos tão rápido que sentiu a tontura retornar. Ainda assim, soube distinguir o borrão negro que era Yuri na sua visão, projetando-se para o seu lado, e uma mistura de hesitação, medo, e alívio fizeram seu coração acelerar imediatamente ao vê-lo.

Sentado em um banco alto no balcão principal da cozinha, Yuri sorriu na sua direção. Por um breve, breve segundo, Wolfram achou que aquela fosse uma ilusão muito bem feita criada pela sua mente. Mas os efeitos do álcool não poderiam ser tão fortes assim, afinal. E só o Yuri de verdade sorriria daquela forma tão tola e adorável para ele.

Ele parecia bastante deslocado, porém, e hesitava, com um pacote branco nas mãos sobre a mesa. Wolfram sabia que deveria haver algo mais sobre aquela noite que ele não lembrava, e que Yuri não contou. Porém, ele não sabia se teria coragem de perguntar sobre isso.

— Estou… melhorando. — Ele se acomodou no balcão, logo ao lado de Yuri, sem olhar muito na direção dele. Seus braços se tocaram, brevemente, e mesmo algo tão simples fez o coração de Wolfram dar um solavanco. Ainda assim, Yuri não se afastou, e o pequeno e despreocupado contato entre os dois fez Wolfram respirar com calma, e pensar com mais clareza.

— … Belos óculos. — Yuri comentou, em um leve tom de brincadeira. Wolfram levou a mão ao rosto instintivamente, lembrando só agora que estava usando.

Uma das criadas serviu duas xícaras de café, e depois que Yuri agradeceu, ela deu um pequeno aceno com a cabeça, e se retirou. Quando Wolfram percebeu, Gwendal também não estava mais ali, e eles estavam sozinhos na cozinha, com somente o ruído da cafeteira funcionando como música de fundo. Seu irmão mais velho havia o deixado sozinho com Yuri, sabendo muito bem que isso seria uma punição à altura dos seus atos. Nenhum erro se conclui sem suas consequências, era o que ele dizia, não? Wolfram teria que enfrentar as dele, afinal.

O loiro segurou a sua xícara fumegante, e aproximou-a do rosto. Franziu o nariz. Forte demais.

— Eu trouxe isso para você. — Yuuri arrastou a caixa branca sobre o balcão, até ela estar na frente de Wolfram. Ele logo identificou como sendo uma embalagem de confeitaria, e, ao verificar as letras douradas marcadas no pacote, suas sobrancelhas se uniram em suspeita.

Little Shimaron. Não era o nome daquele lugar onde Yuri trabalhara clandestinamente? Sua língua coçou para perguntar e exigir satisfações sobre o que seu namorado estava fazendo, voltando até lá, ainda mais na presença da Sereia Maligna que deveria estar sempre rondando, pronta para dar seu bote. No entanto, ele engoliu em seco. Fingiu não notar nada demais, e abriu a embalagem. Não arriscaria começar outro escândalo, para acabar brigando com Yuri, ainda mais depois do que havia acabado de acontecer. Se havia uma lição que havia sido aprendida nas últimas semanas, ela seria sobre tirar conclusões precipitadas, e Wolfram estava decidido a praticar isso na sua vida também.

Mas... Ah, o cheiro adocicado de baunilha, chocolate e o que mais viesse acompanhando que o assaltou não era nada ruim. Pelo contrário, aquela sempre havia sido uma das confeitarias favoritas de Wolfram desde que viera para o Japão, embora atualmente ele odiasse admitir isso, por razões óbvias. Dentro da caixa havia cinco delicadas fatias de bolo, cortadas individualmente, de diferentes sabores. Wolfram nem sabia o que escolher primeiro.

— São todos pra mim? — Ele indagou, em um tom que soou involuntariamente infantil. Yuri conteve uma risada, e seus ombros tremeram na tentativa. Wolfram admirou o gesto por alguns segundos, mal percebendo que o motivo do riso era ele próprio, porque a reação de Yuri havia sido tão… É, fofa. Wolfram fechou os olhos, e voltou a virar o rosto para a frente. Sua cabeça ainda não estava funcionando direito.

— Eu tinha pensado em dividir com os outros, mas se você quiser, é só não contar pra ninguém. — Ele apoiou o cotovelo na mesa, e segurou o rosto, inclinando-o para o lado. — Pode ser o nosso segredo, hoje.

Outra vez, aquela falha nas batidas do seu coração, que parecia bater mais alto do que o normal. Wolfram sentiu seu rosto aquecer. Era como quando ele havia acabado de perceber os seus sentimentos por Yuri, e não importava o que ele dizia, ou fazia, qualquer coisa deixava Wolfram extremamente consciente de si mesmo, e do outro. Ele pensou que já tinha superado essa fase há um bom tempo, mas não era isso que seu pulso acelerado demonstrava.

Resolveu se concentrar no que tinha na sua frente. Apesar de estar com o estômago sensível até poucos momentos atrás, a perspectiva de provar aqueles bolos fez com que ele se recuperasse como mágica. Retirou os óculos escuros, para enxergar melhor, embora a luz ainda incomodasse, e seus olhos tiveram que se acostumar com a claridade.

Ele não pensou duas vezes em pegar o de nozes primeiro. Era o seu favorito. Yuri estendeu a ele um garfo pequeno, sem mover o outro braço que apoiava o rosto. Wolfram provou o primeiro pedaço, e seus olhos brilharam de satisfação. Não pôde deixar de esboçar um sorriso genuíno, o primeiro desde a noite anterior.

Ia perguntar se Yuri também não queria um dos bolos — ele não ia comer todos aqueles de uma vez só, afinal, e mais uma vez, foi alvejado por aquela força invisivel que agia ao redor dos dois, e que o fazia sentir-se inexplicavelmente sensível perto de Yuri. Porque ele continuava a observá-lo, naquela mesma posição, com um sorriso terno adornando o rosto, seus olhos doces focados em si e em nada mais. Repentinamente, tudo fez sentido. E aquela cozinha parecia ter ficado mais iluminada, o aroma do café se tornou aconchegante e agradável, e aquele bolo era o melhor que ele já comera na vida.

Wolfram suspirou, seu coração se aquecendo com aquele sentimento confortável que o preenchia sempre que Yuri estava por perto. Isso o acalmava como nada mais no mundo poderia.

— O que houve? — Yuri devia ter se preocupado com o silêncio repentino, pois se inclinou na direção de Wolfram, aproximando seu rosto do dele. — Você está com olheiras… — Ele acariciou o rosto do loiro, passando o polegar delicadamente pela pele pálida, perto dos olhos verdes. A face de Wolfram logo se avivou, mas ele cerrou os olhos e inclinou o rosto para o lado da mão, apreciando o toque carinhoso na sua face.

— Eu estou bem… — Ele soprou, abrindo os olhos novamente. — Me desculpe, Yuri… Pelo que aconteceu, eu não…

— Shh, já passou. — Yuri baixou a voz, aproximando-se mais e levando os dedos até os fios dourados dos cabelos dele, enrolando-os de leve. — Não foi nada, está tudo bem. Mesmo.

Wolfram se rendeu, aceitando aquela resposta, e se jogou nos braços de Yuri. Escondeu o rosto na curva do pescoço dele, e Yuri levou as mãos até ele, lentamente abraçando-o de volta, afagando devagar as suas costas.

Com Wolfram nos seus braços agora, tudo parecia bem. Seus olhos se fecharam, em resposta, quase automaticamente, como se seu corpo estivesse relaxando e descansando com a perspectiva de que não havia nenhuma preocupação imediata.

— Eu poderia dormir pelo resto da tarde, acho… — Yuri confessou, fechando de vez os olhos e aconchegando-se melhor em Wolfram. A noite não havia sido das mais revigorantes, afinal, e agora cobrava seu preço.

— Hm? — Wolfram ergueu apenas um pouco o rosto, sem se afastar. — Podemos fazer isso.

— Podemos? — O sorriso de Yuri aumentou. A cama de Wolfram era grande e confortável, e dormir abraçado com ele seria definitivamente a melhor forma de descansar. A proposta era tentadora, sem sombra de dúvidas.

— Sim. — Wolfram se desvencilhou,voltando a sentar direito em seu lugar, e pegando novamente o seu garfo. — Assim que eu terminar de comer o meu bolo.

— Então vou te ajudar. — Yuri foi ágil, e segurou a mão de Wolfram que trazia o garfo, conduzindo-o para a sua própria boca.

— Yuri! — Wolfram protestou, dando um tapa no ombro de Yuri para afastá-lo. — O bolo é meu!

— Mas fui em quem trouxe!

— Pra mim. Então é meu, sai. — Ele escondeu o prato na mesa com a outra mão, e devorou outro enorme pedaço do bolo, franzindo os olhos de maneira desconfiada para Yuri. Suas bochechas cheias o faziam parecer um esquilo faminto. Yuri não resistiu, e começou a rir.

Aquilo que Sara disse antes fazia muito sentido, agora. Wolfram parecia tão tranquilo, e ele não queria acabar com isso. Não precisava ter aquela conversa para resolver as pontas soltas agora, já que, de uma maneira ou de outra, tudo havia ficado certo.

Ele poderia muito bem aproveitar o momento de calmaria antes de iniciar uma possível tempestade sem sentido.

Notas finais
Oláaa pessoas! Capítulo novo (finalmente)!!! Demorou, eu sei, sinto muítissimo por isso .-. mas às vezes as coisas fogem do nosso controle. Além dos fatores que eu vivo repetindo aqui, faculdade, trabalho, tcc, e tuudo mais, ainda me bateu um bloqueio .-. e um daqueles que não sai nada de nada que preste pra escrever... então, acabou atrasando mais do que o normal justamente porque não importava o que eu escrevesse, nada parecia certo, ou bom o suficiente, pra ficar no capítulo... então não andava a coisa. Mas no fim, com a ajuda da querida Editora (que tá falando bobagem aqui no meu ouvido há mais de uma hora, inclusive enquanto escrevo essas notas), é claro, consegui vencer isso e escrever o capítulo do jeito que eu queria que fosse ♥ e aqui está ele~ Espero que gostem 'u' e aguardem pelos próximos... vou tentaaaar não ser afetada pelo demônio do Bloqueio, e trazer ele mais rápido pra vocês. Muito obrigada por tudo, e até a próxima o/