Sono Te Hanasanaide
65 Capítulo LX
Notas iniciais
People fall in love in mysterious ways
As pessoas se apaixonam de maneiras misteriosas
Maybe just the touch of a hand
Talvez apenas o toque de uma mão
Well me, I fall in love with you every single day
Eu, me apaixono por você a cada dia
I just wanna tell you I am...
Eu só quero te dizer que eu estou…
So honey, now, take me into your loving arms
Então, querido, agora, me abrace com seus braços amorosos
Kiss me under the light of a thousand stars
Beije-me abaixo da luz de mil estrelas
Place your head on my beating heart, I'm thinking out loud
Coloque sua cabeça em meu coração que bate, estou pensando alto
And maybe we found love right where, we are
Talvez tenhamos achado o amor bem aqui, onde estamos
Capítulo 60
Segunda-feira era sempre igual. O final de semana parecia ter sido tão longo que era como se ela nunca fosse chegar, mas agora que finalmente a semana se iniciava, trazendo consigo o tom de rotina, monotonia e tédio relacionados, ficava difícil não desejar poder voltar no tempo, para o sábado outra vez.
Esse era o clima que pairava por todo o Colégio Shin’ou. O uniforme de verão fora oficialmente adotado, e as manhãs já não eram mais tão refrescantes quanto antes. Com a proximidade do final da primavera, era notável que a motivação dos jovens diminuía de acordo com o aumento gradual da temperatura lá fora. Não que houvesse qualquer opção, e, por mais que os professores adorassem discursar sobre a jovialidade, agitação e energia de seus estudantes, essa não era, definitivamente, a imagem presente naquela maçante manhã de segunda.
Desta mesma maneira, aquele que era, possivelmente, o casal mais famoso de toda aquela escola estava sentado em suas respectivas classes, na fileira próxima à janela. Yuri e Wolfram. Era muito fácil encontrá-los quando basicamente todos na escola sabiam de quem se tratava, embora os comentários maldosos e boatos infundados tivessem praticamente sumido nos últimos tempos, o que só podia ser considerado como uma vitória. Não que isso os afetasse, de qualquer maneira.
Eles agiam como sempre. No caso, era intervalo, e Wolfram estava com a cabeça escorada entre os braços, na mesa, e Yuri estava sentado de lado, olhando na direção dele. O loiro parecia tranquilo, o que era algo raro por si só. Conversavam, e ocasionalmente Yuri tocava em Wolfram, tirando uma mecha de cabelo dos olhos dele, cutucando sua bochecha ou apenas afagando sua mão. Naturalmente, e sem motivo algum para isso.
Ninguém ao redor parecia prestar atenção nos dois, já habituados à maneira que agiam geralmente, e o sentimento era mútuo, considerando que eles estavam tão distraídos um com o outro que não perceberam estar sendo alvo de uma intensa e minuciosa vigilância, desde o início do intervalo.
— O que vocês estão fazendo aqui?
A garota em seu posto de observação girou lentamente a cabeça na direção da voz que ela identificou logo de cara. Primeiramente, viu ao seu lado o par de pernas muito familiar, e, erguendo os olhos, encarou a face intrigada de Shuuhei, sabendo que ele não fazia ideia do que estava acontecendo ali. Como se não fosse óbvio.
Natsume e Miyako, que também estava ali, e parecia assustada ao ter sido flagrada, estavam em uma operação de suma importância. Shuuhei havia contado para Natsume que encontrou Yuuri na confeitaria, e que ele estava agindo de maneira estranha; depois disso, Miyako confirmou o fato de que alguma coisa havia acontecido durante o casamento, e que seu primo se recusava a contar o que quer que fosse. Nesse caso, Natsume decidiu que isso precisava ser averiguado o quanto antes.
No andar dos terceiros anos, as duas se esgueiraram até a janela do corredor da sala de Yuri e Wolfram, querendo observá-los em seu “habitat natural” para decidir se estava realmente tudo bem entre os dois, ou se havia necessidade de intervenção.
Era nisso que elas se focavam naquele momento, e, antes que Shuuhei fizesse com que elas fossem descobertas pelos objetos de observação, Natsume puxou-o pelo pulso no mesmo segundo, até ele se abaixar ao lado dela, como se ela e Miyako já não estivessem destacando-se o bastante enquanto espionavam, agachadas em frente à janela do corredor da sala do terceiro ano.
— Nós estamos em uma missão aqui, então não atrapalhe. Não queremos ser notadas. — Natsume soprou, sem tirar os olhos do seu objetivo.
— Desculpe, Agente Especial Sunohara, mas acho que vocês já atraíram atenção suficiente por si mesmas, sem minha ajuda. — Shuuhei indicou ao seu redor todos os alunos que passavam e invariavelmente notavam a dupla (agora trio) nada discreta. Natsume deu de ombros. Obviamente não queria ser notada somente pelos seus alvos, e eles dois pareciam bem absortos um com o outro para perceber qualquer coisa.
— Não importa, nós conseguimos o que precisávamos. — Ela se voltou para Miyako, que cuidava de tirar fotos com o celular. — Conseguiu alguma coisa boa?
— Acho que sim… — Miya foi passando pelas fotos que acabara de tirar, com um sorriso nada usual no rosto.
— Apenas por curiosidade, o que vocês fazem com essas fotos mesmo? — Shuuhei indagou, um tanto receoso pela possível resposta.
— Vamos guardar para passar em slides no casamento deles futuramente. — Miyako respondeu, parecendo animada com a ideia. Depois de ir ao casamento de Julia dias atrás, ela andava cheia de ideias românticas na cabeça.
— O que você está fazendo com essa pobre garota inocente?
— Eu não faço nada. — Natsume se justificou, embora soasse parcialmente orgulhosa por isso. — Isso tudo já estava dentro dela o tempo todo.
Shuuhei suspirou com pesar.
— Normalmente eu avisaria para ter cuidado e não ser arrastada pelas forças malignas, mas acho que já não há esperanças para você, Miya-pyon.
— P-pyon? — Miyako indagou de volta, surpreendida com o apelido repentino, mas Natsume somente revirou os olhos, como se dissesse “ele faz isso o tempo todo, nem liga”.
— E, de qualquer maneira, nós não viemos aqui só para tirar fotos. Viemos checar a informação que você tinha me passado, sobre como o Yuri-kun estava agindo estranho.
— E se o Nii-san continuasse assim, nós iriamos dar um jeito de consertar isso. — Miyako completou, decidida.
— Aparentemente, não é esse o caso. — Shuuhei comentou. — Eu sei que eu disse que o Shibuya estava meio estranho…
— E ele estava mesmo. — Miyako reafirmou.
— … mas, pra mim, eles só parecem o casal de pombinhos de sempre, que acabaram de sair da lua-de-mel. — Ele completou. Miyako inclinou a cabeça para o lado, pensando consigo mesma sobre o comentário do garoto.
— Lua-de… Sunohara-san! — Miyako voltou-se para a garota ao seu lado, em absoluta consternação. — E se realmente aconteceu alguma coisa! Algo… definitivo!
— Você acha que eles… Oooww!!! Faz todo sentido!
— Todo sentido o quê? — Shuuhei se perdeu no meio daquela comunicação própria entre as duas. Pensando melhor, ele nem queria saber do que se tratava. Algo dizia que seria uma alternativa mais sensata manter-se na bênção da ignorância, enquanto as duas garotas pareciam se entender em uma linguagem própria, que envolvia ruídos inumanos e gesticulações frenéticas.
Uma sombra se projetou acima deles, e, subitamente sentindo que já não estavam mais ocultos, as meninas se calaram, e os três espiões ergueram os olhos ao mesmo tempo. Yuuri sorria lá do alto, inclinado para frente e escorado com os braços na janela. Podiam ver o rosto de Wolfram, observando logo ao lado dele.
— Parece que está bem divertido aí embaixo. — Ele pronunciou, despreocupado. — O que estão fazendo?
— Essa é uma ótima questão, Shibuya. — Shuuhei se ergueu tão rápido que era de se duvidar que estivesse agachado ali nos últimos minutos, colocando as mãos nos bolsos e claramente querendo demonstrar que não possuía nenhuma relação com quaisquer atos ilícitos que estivessem sendo cometidos ali. — Exatamente o que eu estava perguntando para essas duas.
Do canto, deu para ver Wolfram revirar os olhos com a justificativa do garoto.
— Então? — Yuri se voltou para as duas restantes, enquanto elas se erguiam lentamente, e se entreolhavam, pensando no que dizer.
— E-eu… fiquei preocupada… — Miyako começava a falar, antes que Natsume começasse a utilizar uma das centenas de desculpas que já se formavam em sua mente para explicar a presença das duas naquele local.
Yuri sorriu de leve, e, ainda usando um dos braços como apoio, esticou-se pela janela para alcançar a prima, dando batidinhas leves no topo da sua cabeça. Sabia sobre o que ela estava se referindo.
— Não precisa ficar, está tudo bem, ok? — Ela sorriu de volta, mais tranquila. — O que é isso no seu celular?
Miyako escondeu junto ao peito a tela do celular, que segundos antes exibia a foto recém tirada de Yuri e Wolfram, trazendo no rosto a expressão mais suspeita possível.
— Nada.
Antes que Yuri pudesse insistir mais no assunto, o sinal para o fim do intervalo soou. Miyako soltou o ar com alívio, e já se preparou para ir se afastando, acenando discretamente para o primo.
— Que pena, nós temos que ir. Até mais tarde! — Natsume riu, e também se apressou, correndo para longe com sua parceira de crime antes que pudessem interrogá-las ainda mais.
— Você sabe que elas estavam aprontando alguma, não sabe? — Wolfram comentou, cruzando os braços, enquanto assistia as duas garotas correndo na direção das escadas, obviamente escapando deles. Yuri riu.
— Claro que sei.
— Então, eu também vou indo. — Shuuhei anunciou, quando sentiu que as atenções iriam voltar-se para si, fazendo uma ligeira continência com dois dos dedos, e voltando para a sua sala, no fim do corredor.
Wolfram e Yuri se entreolharam, ambos com a mesma expressão confusa de quem não sabe exatamente o que foi que acabou de acontecer. Voltaram para seus lugares ao mesmo tempo em que Gunter abria a porta da sala em um rompante, agitado e eloquente como sempre, proclamando em altos brados que a aula iria começar.
Yuri acomodou-se no seu lugar, logo em frente a Wolfram, ainda pensando na recente interação. Não fazia muito tempo desde que conhecera Natsume e Shuuhei, mas tinha que admitir, eles eram divertidos. E Miyako parecia muito à vontade com ambos, de uma maneira que Yuri nunca havia visto ela ficar ao redor de outras pessoas antes. Ela parecia mais alegre e tranquila, e, nos últimos tempos, nem mesmo Mariko havia ousado voltar a incomodá-la.
Desconfiava que talvez fosse justamente por Miyako não andar mais sozinha, e isso desencorajava a garota a importuná-la como antes. Não se surpreenderia se, de fato, Natsume tivesse enfrentado Mariko em alguma ocasião — ela parecia ser o tipo de pessoa que faria algo assim. Sem falar que Shuuhei havia ajudado tanto ele próprio quanto Wolfram anteriormente, e ele nunca se esqueceria disso. De certa forma, era um alívio saber que pessoas como eles estavam por perto, e que provavelmente poderia contar com eles no futuro também.
— Yuri… — O chamado em voz baixa o sobressaltou. Ele olhou discretamente para trás, não querendo que Gunter, que discursava apaixonadamente sobre alguma coisa, o notasse. — O que exatamente é um Festival Cultural?
— Festival? — Yuri olhou para Gunter, confuso, e finalmente percebeu o que ele havia escrito, em letras grandes, no quadro-negro. — Aah, nós já chegamos nessa época do ano? Bem, acho que você não participou no ano passado porque entrou depois das férias de verão na escola. É uma espécie de… Ahn, evento escolar, aberto ao público, com atrações criadas pelos próprios alunos. Vocês não têm isso no seu país?
— Não. E, mesmo que tivesse… eu não frequentei a escola regular, então ainda assim não saberia como funcionam esses eventos escolares. — Wolfram falava com naturalidade sobre isso, mas Yuri não conseguia imaginar como seria nunca ter tido uma vida colegial comum, com festivais, eventos esportivos e tudo o que essas ocasiões traziam consigo. Era uma chance imprescindível de mostrar à Wolfram o espírito japonês de trabalho em equipe, cooperação mútua, criatividade e hospitalidade! Ele mal podia esperar.
— Você vai adorar, Wolf! Nós podemos…
— Senhor Shibuya! Gostaria de acrescentar alguma observação para o resto da turma? — Gunter chamou sua atenção. Yuri não havia percebido que havia girado quase o corpo inteiro para trás ao falar com Wolfram, em meio à sua empolgação, e voltou a se ajeitar em seu lugar.
— Não, Gunter, desculpe… — Gunter quase nunca chamava a sua atenção, visto que Yuri era um dos seus alunos favoritos, mas ele não gostava de ver seus alunos dispersando e desviando a atenção para qualquer ponto que não fosse ele, durante as aulas. O que era algo extremamente difícil, visto que ele não costumava ir direto ao ponto de maneira nenhuma, e suas aulas consistiam basicamente de discursos inflamados, originados pela absoluta paixão que o professor possuía por.. Bem, qualquer que fosse o assunto que estivesse lecionando.
— Gunter-sensei! Sen-sei! Agora, ouçam com atenção! Em um mês nossa amada instuição de ensino irá protagonizar o seu mais explêndido e especial evento aberto ao público, o Festival dos Fundadores, em honra ao nosso patrono Shin’ou e ao Grande Sábio, que são os responsáveis pela edificação desta maravilhosa ode ao conhecimento que contempla o Colégio Shinou.
Alguns alunos já começavam a se mover, comentando em voz baixa entre si. O Festival do Colégio Shin’ou era famoso naquela região, um verdadeiro acontecimento, e sempre lotava de visitantes. Em hipótese alguma poderiam decepcionar o seu público, e, ano após ano, a intenção era superar o evento anterior. Gunter parecia aprovar aquela comoção que se iniciava, vendo a motivação nascer naqueles jovens, e prosseguiu com seu discurso.
— Será necessário decidir o que nossa classe fará! Não esqueçam que, quanto antes elaborarem uma atração, melhor! Além disso, precisamos de candidatos para formar o comitê de organização do festival, e de representantes de cada turma também. Por favor, não tenham medo de oferecer suas mãos e seus corações para este evento, meus pupilos, e construam juntos as memórias especiais das quais se recordarão por muitos e muitos anos.
Um murmúrio baixo de desagrado espalhou-se como uma onda pela turma. Ser representante da turma podia até dar trabalho, mas era uma função que não demandava tanto esforço — consistia basicamente de organizar o trabalho dentro da sua classe. Agora, ser membro da comitê de organização? Ser responsável por todas as turmas, controlar o uso de materiais, regular as noites antes do festival em que os estudantes ficavam na escola, resolver os conflitos que certamente ocorreriam, e ainda não poder se divertir nem um pouco enquanto o evento estivesse acontecendo? Impossível. Era de conhecimento geral que ser membro da comissão sugava a vida das pessoas durante aquelas semanas. Não, ninguém queria tomar esse problema para si.
Wolfram ouviu atentamente às explicações — não muito didáticas — de Gunter, e também os comentários dos seus colegas ao redor, reclamando sobre como era problemático participar diretamente da organização do festival, e que ninguém queria esta função. Aparentemente, se ninguém se candidatasse ao posto ou recomendasse colegas, os próprios professores montavam o grupo, e não haveria como recusar. Era isso o que todos temiam.
O loiro ainda não entendia qual era o problema, afinal. Era só uma questão de coordenar pessoas, certo? Não devia ser tão difícil. Tomaria tempo e algum esforço, certamente, mas realizar um evento escolar seria de um nível de dificuldade muito mais brando do que lidar com assuntos como aumento de impostos, epidemias, tragédias naturais ou conflitos internacionais, só para citar alguns exemplos. Esses adolescentes de hoje em dia reclamavam demais.
— Você não acha que vai ser divertido? — Yuri aproveitou que o resto da turma já conversava em voz alta mesmo, com Gunter distraído em seus devaneios sobre a juventude, e virou-se para trás na classe. — O que nossa turma poderia fazer? Ano passado fizemos um café cosplay e ficou muito legal. Mas todos os anos o time de baseball faz yakisoba nas barracas do pátio pra vender, então eu nem participei direito. Você vai adorar, eu tenho certeza! Festivais são sempre incríveis, e esse vai ser o seu primeiro, Wolf!
— É o que parece… — Wolfram respondeu vagamente, ainda sem saber muito bem o que pensar sobre o tal festival. Não sabia exatamente sobre o que se tratava, afinal, mas, pela comoção que causou com sua simples menção, parecia algo grande e complexo. Como uma comemoração, uma festa, ou algo assim. Ele nem conseguia imaginar direito.
Mas estava curioso para saber como seria.
~
Havia sido um golpe de sorte encontrar um lugar desocupado para passar o tempo após o final da aula. Wolfram não precisava necessariamente esperar Yuri terminar suas atividades com o clube de baseball, mas ele gostava de voltar para casa na companhia de seu namorado, e, apesar de não precisar de nenhuma justificativa para isso, afirmava repetidamente que estava na verdade esperando Conrad para ganhar uma carona para casa.
Preferia passar seu tempo em lugares mais afastados do pátio principal, para evitar o incômodo de grupos aleatórios de estudantes tentando estabelecer algum contato com ele, ou mesmo para fugir simplesmente do tumulto de conversas e desordem que sempre ressoavam no final de cada dia. Gostava daquele lugar em especial, próximo ao bosque que circundava o prédio, onde havia alguns poucos bancos de madeira perto dos canteiros que deveriam servir ao clube de jardinagem, mas que há tempos já não eram mais usados. Yuri já havia escapado com ele para lá em mais de uma ocasião, e talvez esse fosse parte do motivo por ele ter apreço por aquele lugar em especial.
Além disso, ninguém ia para lá no final do dia, e, como o lugar ficava atrás dos prédios, oculto pelo pequeno bosque, dificilmente ele seria localizado ali, a não ser pelas pessoas que saíam do ginásio esportivo mais à frente. Yuuri já sabia onde ele estaria quando saísse do seu treino, então não haveria problemas de desencontro entre eles.
Alguns raios de sol ultrapassavam a copa das árvores, chegando até Wolfram, mas isso não chegava a incomodar. Ele passava calmamente os olhos pelas páginas do livro que trazia nas mãos, e, de tão concentrado que estava, mal prestava atenção aos arredores. Aquela brisa agradável o fazia pensar em Shin Makoku. O clima vinha ficando mais quente nos últimos dias, e provavelmente ficaria ainda mais no decorrer do mês. Yuri havia dito que o verão no Japão costumava ser intenso, e ele já previa algum sofrimento com sua pressão baixa se as temperaturas subissem demais — todavia, por enquanto, estava achando aquele calor recente agradável, até. Entre o frio e o calor, ele sempre havia preferido o segundo.
Se pensasse em si mesmo há um ano atrás, jamais poderia acreditar que teria apreciado tanto assim a vida naquele país, ainda mais quando estava tão relutante para aceitar a mudança na época. Claro que seus motivos eram outros, e muitas coisas aconteceram até chegar no ponto em que se encontrava atualmente, mas seria tolice não admitir que o principal responsável por tornar sua permanência no Japão a melhor coisa que já havia acontecido em sua vida era indubitavelmente Yuri. Um pequeno sorriso adornou sua face ao pensar no garoto de cabelos e olhos negros. Não conseguia imaginar como estaria se não fosse por ele, afinal. Era tão surreal que nenhuma imagem se formava daquele pensamento.
Tarde demais, Wolfram percebeu que já estava devaneando demais, pensando em Yuri, e acabara de ler a mesma frase três vezes seguidas sem conseguir absorver seu significado por inteiro. Voltou a atenção para a leitura, concentrando-se de verdade dessa vez.
— Olha só! Eu não esperava ver você por aqui, Príncipe!
O chamado fez Wolfram levantar os olhos do livro, incomodado. Obviamente ninguém mais seria insolente para chamá-lo daquele apelido no mínimo irônico além daquele garoto, que acenava alguns metros à frente. Ao perceber que havia sido notado, ele sorriu abertamente, e apressou o passo à uma quase corrida para chegar até Wolfram.
Ele vestia o que parecia ser um uniforme de treino azul e branco, e Wolfram lembrou que ele fazia parte do time de volêi, aparentemente. O cabelo estava preso na parte de trás da cabeça em um pequeno rabinho que deixava a maior parte das mechas castanho-avermelhadas caírem no seu rosto.
— Eu não lembro de ter chamado você até aqui. — Wolfram fez questão de deixar bem claro, antes de qualquer coisa, encarando o intruso com a mesma expressão de desagrado e arrogância com a qual conseguia afugentar todos que ousavam incomodá-lo. Yuri havia sido imune à essa barreira desde que se encontraram pela primeira vez, ainda na infância. Shuuhei também não parecia ser afetado por esse tipo de atitude, já que continuava parado em pé à sua frente.
Wolfram precisava de métodos novos.
— Ah, você é tão engraçado! — Shuuhei riu, relevando a tentativa de Wolfram de manter-se isolado. — Então, como vai a vida?
— Deixe-me ver. Desde a última vez que eu chequei… — Wolfram colocou uma das mãos no queixo, franzindo as sobrancelhas claras ligeiramente. — Continuava não sendo da sua conta.
— Wow! — Shuuhei fingiu cambalear dois passos para trás, e então riu, endireitando-se. — Ok, fui atingido, mas acho que vou sobreviver.
Wolfram revirou os olhos, pela segunda vez naquele dia, e para a mesma pessoa.
— Importa-se? — O loiro indicou o livro em sua mão, e acenou com a cabeça, em um claro sinal para Shuuhei entender que já podia ir embora.
— Nem um pouco. — Ele sorriu, tomando o espaço que sobrava do banco ao lado de Wolfram, e ainda o empurrando um pouco mais para o lado com a perna para se acomodar melhor. — Então, eu só perguntei isso porque parece que a Natsume e a Miya-pyon… Você sabe, ela parece um coelhinho assustado às vezes. — Percebendo o ar intrigado de Wolfram com o inesperado apelido, ele fez questão de explicar. Wolfram descobriu que teria certa dificuldade de acompanhar o ritmo desenfreado da linha de pensamento daquele garoto. — Enfim, as duas andavam meio preocupadas com o comportamento aparentemente incomum do Shibuya.
— Não há motivo nenhum para preocupações. Nós estamos perfeitamente bem. E sem a interferência de ninguém, inclusive. — Ele afirmou, com ênfase na última parte.
— É, deu pra ver hoje. Você e o Shibuya, completamente… — Ele deixou a frase em aberto, e não precisava de muito para Wolfram conseguir completá-la. — Não é?
— Não faço ideia do que você está tentando dizer com isso. — Wolfram fingiu não ter entendido a insinuação, e respirou fundo, reunindo paciência. — Agora, você não tem nada para fazer? Acho que já está na sua hora de ir.
— Nossa, como você é frio, Alteza. Pensei que príncipes fossem mais… Sabe, gentis, compreensivos, educados… Como nas histórias.
— Você não leu as histórias certas, então.
— Falando em histórias… — Shuuhei se aproximou, e, sem pedir licença, ergueu a capa do livro que Wolfram tinha em mãos, lendo o título. Seu sorriso só aumentou, mas Wolfram fechou o livro com força, fazendo com que ele tivesse que tirar os dedos rapidamente. — Eu adoro essa saga!
Wolfram olhou para a capa do seu livro — uma fantasia medieval que se entrelaçava com os dias de hoje em um sistema de dimensões alternativas, repleta de tramas políticas e históricas, magia, lendas e mistério. Olhou novamente para Shuuhei, com seu uniforme de volêi, o cabelo desgrenhado, e o mesmo sorriso de sempre no rosto.
— Você não parece muito alguém que goste de ler esse tipo de história. — Ou de ler no geral, ele complementou mentalmente, mas seria rude da sua parte julgar previamente. Embora ele já estivesse julgando, de qualquer forma.
— O que foi? Eu não posso ser bonito e culto ao mesmo tempo?
— Esqueceu de acrescentar modesto. — Wolfram completou, ceticamente.
— Está pegando o espírito da coisa, Príncipe. — Shuuhei piscou um dos olhos, divertido. — Mas, falando sério, eu já li a série inteira. E joguei o jogo, também.
— Tem um jogo? — Antes que percebesse, Wolfram indagou. Não queria parecer tão interessado, mas o impulso foi mais rápido do que sua racionalidade.
— Tem sim, e é íncrivel. Se você quiser, eu posso emprestar, porque já zerei. — Shuuhei sugeriu. Wolfram abriu a boca para responder, mas fechou novamente, unindo as sobrancelhas, intrigado.
— Não acho que seja necessário. — Respondeu, talvez de modo mais ríspido do que intencionava. Wolfram não precisava pensar muito para perceber que havia se empolgado um pouco demais antes, e não era essa a sua vontade. Apesar disso, Shuuhei não parecia perceber nada disso.
— A melhor parte de todas é quando eles encontram aquele dragão. — Ele continuou a falar animadamente. — Porque depois, na Grande Guerra…
— Eu não cheguei nessa parte ainda! — Wolfram se apressou em interrompê-lo, virando-se na direção dele quase em pânico.
— Oh, ok, sem spoilers. — Shuuhei ergueu as mãos, desculpando-se, e Wolfram relaxou, voltando a sentar para trás. — Essa semana eu peguei outro livro para começar, um suspense policial dessa vez. Tem uma coisa que eu faço, e a Natsume fica indignadíssima com isso, que é quando começo a ler um mistério, eu leio o final antes, para saber quem é o culpado.
— O quê? Mas isso… Isso quebra completamente a intenção do livro! — Wolfram agitou-se, como se Shuuhei tivesse acabado de pronunciar a maior das heresias.
— Eu sei. — Ele riu, parecendo se divertir com a reação do loiro. — Mas, sabe… É legal saber antes. Então, enquanto eu vou lendo depois, eu vou pegando todas as pistas que o autor deixou de propósito, entendendo nas entrelinhas qual era a intenção da história. Sem falar na sensação de conhecer a verdade antes de todos os personagens. E o autor nunca me engana.
— Você só quer criar caos no mundo. — Wolfram resmungou, franzindo os olhos. — Qual a graça de ler um mistério sem tentar deduzir quem é o culpado no final?
— Eu não sei, mas ainda é divertido. Eu só não terminei esse ainda por causa das atividades no clube.
Até onde Wolfram sabia, e não era muito, Shuuhei era aluno do terceiro ano, assim como Yuuri e ele próprio. Geralmente os alunos veteranos saíam dos clubes quando chegava essa época do ano, para concentrarem-se nas provas de admissão da faculdade. Yuuri não havia feito isso, mas ele pretendia continuar jogando depois de sair da escola — e, além disso, dependia da bolsa de esportes para entrar na universidade. Esse não era o caso para todos os alunos, mas muitos deles pareciam ter escolhido continuar em seus clubes mesmo com a proximidade dos exames.
— Eu não entendo… — Wolfram acabou deixando escapar, enquanto pensava consigo mesmo. Shuuhei o fitou, esperando pelo resto da frase que não veio.
— Não entende o quê? — Ele insistiu. Wolfram virou o rosto, percebendo que havia falado em voz alta sem pensar.
— Nada, não importa. — Ele resmungou, abrindo novamente o livro. Talvez, se voltasse a ler, fosse dica o suficiente para o garoto perceber que não deveria permanecer ali. — Não tem nada a ver com você, aliás. Não sei por que insiste.
— Eu só fiquei curioso. Além disso, você pode falar o que quiser pra mim, não vou sair por aí espalhando. Se quiser conversar, fique à vontade. — Shuuhei sugeriu, prestativamente. Wolfram o analisou por alguns segundos, desconfiado.
— E por que eu faria isso?
— Bom, você já desabafou uma vez comigo antes. — Shuuhei falou o que era óbvio, mas mesmo assim deixou o loiro sem argumentos. Sim, ele já havia falado sobre assuntos extremamente pessoais com essa pessoa antes. Onde estava com a cabeça quando fez isso? Era tudo culpa de Yuri e da sua influência amigável na vida dele, certamente. — Então… Se quiser abrir seu coração, sabe? Divã do Dr. Asahina está sempre disponível.
— Alguém já disse que você é extraordinariamente irritante antes?
— O tempo todo. E aí, o que está afligindo o seu nobre coraçãozinho de sangue azul hoje, Alteza? — Ele fez uma breve mesura com a cabeça, e esperou que Wolfram prosseguisse. Ele suspirou, quase exausto, antes de pensar no que dizer.
— Não… Não é nada. Eu só estava pensando em algumas coisas sem importância mesmo. — Ele hesitou. Não havia motivo nenhum para ser sincero e falar sobre o que estava pensando. Mas, da mesma forma, não havia motivos para não falar, também. — Sabe, eu nunca entendi muito bem a motivação por trás das atividades extra-curriculares… Os clubes, festivais e eventos que deixam o Yuri e todos os outros tão animados. Não vejo qual a finalidade de tanta dedicação. Quero dizer, é óbvio que esse tipo de atividade conta no currículo e tudo mais, mas não seria mais tão necessário depois de algum tempo. Então, por que eles continuam? Não seria mais importante se focar na faculdade a partir de agora?
— Você esteve pensando bastante, hm? Mas acho que entendi a sua dúvida. — Shuuhei franziu as sobrancelhas ligeiramente, parecendo analisar a situação de forma mais objetiva. — Acho que existem várias respostas para essa questão, digo, cada um tem uma motivação pessoal para persistir. Eu acho que a maioria das pessoas te responderia algo como “para criar memórias”.
— Memórias?
— É. Sabe, nós só temos uma chance de ter uma vida colegial. Pra muitos, é também a única chance de serem… livres pra fazer o que querem. Depois disso, vem a faculdade, trabalho, família, e tudo mais. Responsabilidades demais. — Ele balançou a mão, displicentemente. — Então, é bom aproveitar esses anos, junto com os amigos, para se divertir, de alguma forma. — Shuuhei olhou para o alto e pensou por alguns segundos, antes de prosseguir. — Sem falar no que se aprende quando faz parte de um clube ou participa da organização de um evento. Coisas como trabalho em equipe, divisão de tarefas, confiança nos seus colegas, e o compromisso de cumprir com as promessas que são feitas. Isso tudo é muito importante, não acha?
— Vendo por esse ângulo… Não parece tanto com uma perda de tempo. — Wolfram aquiesceu, pensativo. — Foi por isso que você entrou no time de volêi, então?
— Não, eu só gosto de jogar, mesmo. — Ele riu, colocando o cabelo que caía em seu rosto para atrás da orelha. Wolfram não esperava muito mais do que isso como resposta, realmente, mas não podia negar que o ponto de vista de Shuuhei havia o surpreendido, de uma maneira boa. — Então, por que você está pensando nessas coisas? Está pensando em participar de alguma atividade?
— Não é isso. Começaram a falar sobre o tal Festival Cultural na sala hoje e eu fiquei…
— Curioso? Interessado?
— Intrigado. — Wolfram corrigiu.
— Bom, de qualquer forma, acho que seria legal você aproveitar. — Shuuhei aconselhou, embora não parecesse tanto um conselho, e sim uma sugestão despreocupada. — Nós estamos no terceiro ano já, sabe? Vai ser a única chance de fazer alguma coisa, se você quiser.
Wolfram ficou em silêncio, analisando mentalmente o que aquelas palavras significavam. Porém, antes que pudesse pensar em algo para responder, captou um movimento ao longe, que se aproximava em uma corrida ritmada. Balançando um rabo de cavalo longo atrás da cabeça, ela acenava para chamar a atenção dos dois até chegar perto o suficiente para ser ouvida.
— Aqui está você, Shuuhei! Te procurei por todo o canto. — Era aquela garota de cabelos azuis que estava sempre em todos os lugares, ultimamente. Natsume, era o nome dela, e Wolfram não fazia ideia de como ainda lembrava dessa informação. Ela levou alguns segundos para recuperar o fôlego, antes de continuar. — A capitã do time queria falar com você sobre como vamos dividir o ginásio e a quadra externa semana que vem. Nós temos um amistoso no final do mês, e ela queria que pudessemos treinar mais até lá.
— Ah, ok. Eu vou lá falar com ela, então… — Shuuhei se preparou para levantar, mas Natsume balançou a cabeça.
— Não adianta, ela não vai falar com você. — Shuuhei fitou a garota com a expressão que dizia claramente “O que foi que eu fiz de errado?”, e ela suspirou longamente, antes de prosseguir. — A capitã é meio tímida… E você é, bom, assim. Ela não consegue falar diretamente com você, nunca percebeu?
— Bom, eu sempre achei que o time feminino não queria se misturar, só… Mas o que tem de errado comigo? — Shuuhei ainda trazia a mais pura confusão estampada no rosto. Até Wolfram já havia entendido qual era a raiz do problema ali, e ele não parecia ter a menor pista do que acontecia. — É porque eu falo muito alto? Isso assusta as garotas, não é? Eu acho que posso falar mais baixo…
— Não importa, agora que eu estou lá, posso falar com você no lugar dela. Serei uma mediadora. Problema resolvido. — Natsume deu de ombros, e então virou-se para Wolfram, compartilhando o sentimento de exasperação daquele momento. Somente então reparou nele de verdade, e arqueou uma sobrancelha. — Desde quando vocês dois andam juntos?
— Eu estou me fazendo essa mesma pergunta há 15 minutos. — Wolfram entoou, cético.
— Nós somos quase amigos, sabe? — Shuuhei entoou, orgulhoso de si mesmo, recebendo um olhar fulminante do loiro como resposta, embora não parecesse ligar nem um pouco para isso.
Wolfram ficou esperando pelo momento em que eles finalmente perceberiam que estavam incomodando, e iriam logo embora. Possivelmente isso não aconteceria, mas ele ainda tinha esperanças.
— Depois vemos isso… — Ela encarou Shuuhei por alguns segundos, e saltitou dois passos para trás, mais agitada. — Então, vai querer resolver o assunto do ginásio agora, antes de ir para casa?
— E desde quando você me dá escolha em alguma coisa? — Ele se levantou, esticando-se. — Eu queria tomar uma ducha antes, mas okay, vamos lá.
— E você, Wolfram-kun? — Natsume sorriu mais uma vez para ele, de um jeito que dava calafrios. Ele não lembrava de ter dado liberdade para apelidos, embora isso não parecesse importar para aqueles dois. — Vai esperar pelo Yuri-kun?
— Exatamente. — Ele tentou fingir que não havia percebido o sorriso matreiro da garota se alargar, e voltou a abrir o seu livro. Graças à interferência externa não solicitada, ele havia se perdido nas páginas, e não sabia mais onde parara. Resmungou consigo mesmo, tentando encontrar o lugar certo para recolocar o marca-páginas.
— Até breve, Príncipe! — Shuuhei se despediu, começando a acompanhar Natsume. — Não fique pensando demais nas coisas, senão vai perder a oportunidade!
— Hey, você estava dando conselhos pra ele?! Quando foi que ficaram tão amiguinhos? — Wolfram ainda ouvia a voz de Natsume, enquanto os dois se afastavam juntos.
— Com ciúmes, é?
— Até parece!
Assim que os dois sumiram de vista, Wolfram percebeu que a atmosfera se tornara muito mais silenciosa e tranquila, imediatamente. Bem melhor. Precisou de um tempinho para focar-se novamente na leitura, mas, quando se sentiu confortável novamente, foi fácil. Sua mente viajou, enquanto corria os olhos pelas palavras, e ele não sentiu os minutos passarem, nem percebeu que a luz do sol ia ficando mais tênue, colorindo as nuvens de tons rosados e alaranjados no céu acima.
— Rá!
Braços envolveram seus ombros, e ele sentiu uma respiração próxima demais do seu pescoço, junto com o chamado que antecipou o ataque, e que, mesmo assim, o pegou desprevenido, tão absorto que estava na sua leitura. Wolfram sobressaltou, quase derrubando o livro, e por pouco não deixou escapar um grito com o susto, mas os braços que o circundavam o mantiveram no lugar.
O susto durou apenas os breves segundos que Wolfram precisou para deduzir que ninguém além do seu adorável e discreto namorado faria algo como pular nele do nada. Quando girou a cabeça para encará-lo, vendo-o rir com vontade, os cabelos úmidos roçaram em sua bochecha, e ele descobriu que ser interrompido por ele não o incomodava de maneira alguma. Yuri parecia ter recém saído do vestiário, e a sua pele ainda estava gelada, recendendo um aroma agradável de sabonete comum, que, na opinião de Wolfram, parecia ser a melhor fragância de todas quando a sentia nele. Ele inclinou a cabeça um pouco mais para cima, passando o nariz no pescoço exposto do outro, sem conseguir reprimir um sorriso quando o sentiu estremecer com seu toque.
— Você… está me cheirando? — Yuri pronunciou cuidadosamente, desconcertado. Wolfram não demonstrou qualquer abalo.
— Não posso? — Um sorriso de canto brotou em seus lábios, e Yuri não pôde deixar de apreciar o brilho travesso que passou rapidamente pelos seus olhos. Adorava vê-lo assim, apesar de quase sempre ser pego desprevenido. No entanto, transformando-se em questão de instantes, Wolfram tomou o cuidado de marcar a página do livro, e, fechando-o em seguida, guardou-o de volta na sua mochila. — Então, podemos ir agora?
— Claro. — Yuri se afastou e deu a volta no banco, diante de Wolfram, que se ergueu e prontamente aceitou a mão que ele oferecia, segurando-a e entrelaçando seus dedos nos dele em um gesto automático para ambos.
Wolfram reparou em uma movimentação não muito longe dali. Alguém caminhava na direção oposta a que eles se encontravam, distraído com seu celular. Ele tinha estatura baixa, e os cabelos estavam escondidos em um boné, mas Wolfram tinha a impressão de que já o vira em alguma ocasião. Quando reparou na mochila esportiva que ele levava nas costas, junto com a bolsa escolar, exatamente igual a que Yuri trazia consigo, percebeu do que se tratava.
— Ele é seu colega de time? — Ele indicou o garoto. Não que se preocupasse em ser visto com Yuri, nesta altura essa seria um receio infundado, depois de tudo pelo que já haviam passado, mas, considerando a situação delicada com os outros jogadores do time e Yuri, Wolfram não queria arriscar e fazê-lo alvo de mais perseguições.
Yuri olhou para trás por alguns segundos, e, ao ver para onde ele apontava, sorriu.
— Sim, é um calouro. Yonezou-kun. — Como a voz de Yuri já não era baixa, o garoto pareceu perceber que seu nome havia sido pronunciado. Olhou para trás, e, ao ver os dois, acenou animadamente, com um sorriso no rosto. Yuri retribuiu ao aceno, e o menino continuou o seu caminho. — Ele estava comigo até agora há pouco, fazendo perguntas e mais perguntas sobre o treino. Ele disse que ser catcher é muito legal, acredita? Ninguém diz essas coisas pra mim!
Wolfram admirou por algum tempo a maneira como Yuri parecia um garotinho entusiasmado ao falar daquelas coisas, gesticulando com uma das mãos enquanto a outra, que segurava a sua, balançava como se não pudesse conter aquela euforia. Falou sobre o treino do dia, sobre as dicas que Conrad havia dado para o jogo que se aproximava, e como ele estava ansioso por isso. Wolfram pouco entendia da parte técnica daquela conversa, mas, se tinha uma coisa que ele podia claramente dizer sobre isso tudo, era que Yuri estava obviamente feliz com aqueles avanços, e o quanto isso significava para ele.
Enquanto caminhavam juntos sem muita pressa na direção da saída da escola, Wolfram se deixou levar pelas nuances da voz de Yuri, tão aceso e extasiado com o baseball naquele momento. Não tinha como não sorrir diante disso.
— Então, seus colegas estão sendo… legais, com você? — Wolfram indagou, alguns minutos depois. Eles já estavam na rua, e ele sentiu a hesitação do outro diante da pergunta. Não precisou ser específico para ele saber do que se tratava.
— Alguns, como o Yonezou-kun, não parecem se importar. Outros simplesmente ignoram. Acho que Conrad deve ter falado alguma coisa, porque eles nunca são hostis comigo, mas dá pra notar às vezes algumas coisas. Olhares, ou comentários no vestiário que eles disfarçam. Mas são poucos, e eu não ligo. — Yuri soltou o ar e preparou mais um sorriso. — Tenho coisas mais importantes para pensar.
— Por exemplo? — O loiro o fitou. Com a mão livre, Yuri passou os dedos pelos fios negros ainda úmidos, deixando-os para trás. Foi um gesto completamente aleatório e despreocupado, mas Wolfram sentiu seu coração dar um solavanco inesperado.
— Você. — Como se todo o resto ainda não fosse suficiente, a resposta tão direta foi o que faltava para acabar com a tranquilidade de Wolfram. Ele engoliu em seco, voltando a olhar para frente. Só esperava que Yuri não notasse que ele estava corando.
— Wolf… — Yuri se inclinou para enxergar o outro melhor. — Você está ficando vermelho!
— Quê? — Wolfram se alterou, agitando-se para longe da visão atenta de Yuri, embora ainda estivesse de mãos dadas com ele e não pudesse de fato escapar. Virou o rosto para o outro lado, como se isso pudesse disfarçar qualquer coisa. — Absurdo, é claro que não. Eu estava do lado de fora, no sol, é claro que vou ficar um pouco corado. Isso não é nada.
Yuri não se conteve, e contornou o loiro em seus braços, atrapalhando seus passos, trazendo-o para tão junto de si quanto era possível, tentando ver seu rosto melhor. E, embora Wolfram relutasse de início, não foi preciso muito para que ele relaxasse, acomodando-se mais confortavelmente nos braços do outro, e deixando que ele o envolvesse por inteiro.
Depois de tanto tempo juntos, era difícil de acreditar que Yuri ainda conseguia causar esse tipo de efeito nele, deixando-o tão desconcertado com somente algumas palavras. Não somente palavras, mas seus atos, seus olhares, suas reações… Qualquer pequeno detalhe fazia o coração de Wolfram flutuar, assim como era no início. Apaixonar-se novamente, todos os dias, pela mesma pessoa. Yuri era incrível, da sua própria maneira, e Wolfram nunca cansaria de admirar cada pequena matiz que formava aquele espectro de cores vibrantes, que tanto o fascinavam, desde o princípio.
E ele sabia, lá no fundo, que isso jamais mudaria.
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