Sono Te Hanasanaide
29 Capítulo XXIX
ani yattatte hanarenai nani ittatte modorenai
Não importa o que eu faça, eu não posso ir; não importa o que eu diga, eu não posso voltar
Kangaetatte shouganai kara tonikaku ai ni yuku no yo
Não consigo te ajudar, mas eu irei te encontrar de qualquer jeito; o amor continua o mesmo
Colorful na yoru ni tokeru sonna jibun no kodoku ga mawaru
Minha solidão indecisa se desfaz na noite colorida
Otona ni nattara wakaru baka ne kotoba wa jiyuu wo ubau
Quando for adulto entenderei que palavras idiotas podem roubar a sua liberdade
Zutto kanjin na kimochi nomikon de
O sentimento que sempre senti me tomando
Tsuyogatte anata omotte kurushiku naru
Pensar fortemente em você me machuca
Sonna jibun wa kirai? Tsuyoku waratte itai kedo ah
Você odeia esse meu lado? Quero sorrir fortemente, mas isso dói
Anata no koto da to itsumo okashiku naru
Se tratando de você eu sempre fico estranho
Capítulo 29
Sentindo algo vibrar embaixo da sua cabeça, Wolfram abriu os olhos, assustado. Puxou o celular debaixo do travesseiro, ainda de olhos fechados. Tentou abri-los, mas sua visão estava toda embaçada, e ele não enxergava direito a tela. Foi só depois de alguns segundos tentando focar, que ele finalmente conseguiu ver alguma coisa. Era uma mensagem.
“Bom dia, Wolf”.
Sem perceber, Wolfram já sorria para si mesmo, sonolento. Desde que começara a namorar Yuri, todos os dias de manhã era saudado com a mesma mensagem, simples e direta. Significava que ele era a primeira coisa em que Yuri pensava quando acordava. E que ele ainda o amava, durante o amanhecer de outro dia. Wolfram não podia segurar as batidas do seu coração, que se aceleravam com essas pequenas conclusões.
Era sábado, ele constatou ao olhar para o visor do celular, mas ele decidiu não ficar mais tempo na cama. Yuri provavelmente tinha treino agora de manhã, e era por isso que acordara cedo e mandara a mensagem. Wolfram não tinha motivos para levantar realmente, mas sabia que, se ficasse ali deitado, acabaria com seus pensamentos voando novamente na direção dele, fantasiando sobre situações das mais diversas, enquanto fazia uma cara realmente tola. Não queria se permitir tal comportamento, embora fosse bastante tentadora a ideia — então, resolveu levantar de uma vez.
Quando chegou à mesa para o café da manhã, parte da família já estava reunida. Sua mãe, seu irmão Gwendal, seu tio Valtrana e Elizabeth. Conrad já devia ter saído, assim como ele deduzira, para o treino do time de baseball. Wolfram desejou bom dia a todos, não tão mal-humorado como costumava ser ao acordar cedo, pois as mensagens matutinas de Yuri tinham o pequeno poder de deixá-lo animado durante o dia. Ele sentou perto de Gwendal, tomando cuidado de não dirigir o olhar para Elizabeth. Não queria encorajá-la ainda mais, embora ser frio com ela também não demonstrasse estar dando resultados.
— Tem planos para hoje à tarde, meu sobrinho? – Valtrana indagou em voz alta, antes mesmo de Wolfram poder se acomodar para comer. Ele desviou o olhar, incomodado.
— Sim, tenho. – Respondeu sem pensar, já imaginando o rumo daquela conversa. Serviu-se de suco de laranja, parecendo absorto na tarefa, como se não estivesse entendendo o que o tio queria.
— Ah, lamento tanto. Pensei que, como esses são os últimos dias da senhorita Elizabeth nesta casa, você poderia mostrar a ela a cidade…
— Ela já teve muito tempo para ver a cidade, e, além disso, não é como se ela fosse ir embora de qualquer maneira. Oportunidades não faltarão. – Ele replicou, sem muito entusiasmo. Gwendal o repreendeu com o olhar, por estar se dirigindo de forma tão petulante para alguém mais velho, mas Cheri parecia absolutamente orgulhosa. – Eu tenho que visitar um amigo, pois devido à visita inesperada de Elizabeth na escola, não pude antes. – Disse, embora não tivesse combinado nada com Yuri previamente. Iria valer-se de qualquer argumento para se livrar de uma tarde inteira andando com Elizabeth por onde quer que fosse.
— Que pena, meu sobrinho… Será que não há maneira de adiar esse compromisso? – O tom de voz de Valtrana era brando, mas era evidente que ele pressionava Wolfram, e seus olhos transmitiam impassibilidade resoluta. Ele não aceitaria nenhuma resposta que não fosse “sim, senhor”. Elizabeth, ao lado dele, esperava ansiosa, e Cheri encarava seriamente o filho.
Wolfram sempre respeitara muito o tio, cumpria cegamente toda e qualquer ordem que viesse dele, e, muitas vezes, obedecia a ele mais do que a própria mãe. Havia sido assim desde que era pequeno — Valtrana cumpria o papel de figura paterna que Wolfram perdera tão cedo, e era bastante claro para todos o apreço que o garoto tinha pelo tio. Sempre fizera de tudo para agradá-lo; aulas de hipismo, esgrima… Seus gostos para leitura, até mesmo suas companhias eram cuidadosamente revisadas por Valtrana. Mas talvez isso estivesse para mudar.
— Sinto muito, senhor meu tio, mas isso não será possível. – Wolfram ergueu-se, limpando o rosto rapidamente com o guardanapo de tecido, e pousando as mãos na mesa. Não terminara de comer, mas parecia evidente que não conseguiria uma refeição adequada naquela mesa.
— Deixe o Wolfram, Valtrana – Cheri finalmente se interpôs, sorrindo calmamente. – Elizabeth parece uma garota determinada, sei que ela ficará ainda muito tempo no Japão, terminando seus estudos… Não vejo por que ela deveria querer conhecer a cidade com Wolfram, quando sei que já fez muitos passeios por si só sem nenhum problema. – Ela lançou um olhar ferino para a garota, que desviou o rosto. – E você, querido – Ela dirigiu-se então para Wolfram. –, sente-se e coma direito. O café da manhã é a refeição mais importante do dia, você não acha? – Ela sorriu, e Wolfram surpreendeu-se ao ver os olhos dela brilhando na sua direção.
Ela parecia… orgulhosa, por ele ter se imposto daquela forma. O que seria curioso, já que ele havia agido de forma tão desrespeitosa, que nem mesmo Gwendal parecia aceitar, embora ele permanecesse em silêncio. Wolfram não reclamou mais, e voltou a sentar. Valtrana também não voltou a insistir, e o café da manhã transcorreu com conversas brandas sobre amenidades. Um pouco atrasado, foi que Wolfram acabou notando: teria que visitar Yuri naquela tarde.
~
Yuri tirou o capacete preto da cabeça, e chacoalhou os cabelos molhados de suor. Começou a tirar as luvas e a proteção do peito, ainda pensando no que Conrad dissera durante o treino. Colocara-o como catcher, dizendo que ele era apto para ser líder, que sabia analisar bem as situações, e, assim, prever uma direção para o time. Yuri nunca havia pensado nisso, e era a primeira vez que falavam dele dessa forma, mas ele havia ficado muito feliz. Mal podia esperar para contar isso para Wolfram… Embora tivesse quase certeza de que ele não saberia o que significava.
Depois de retirar todo o pesado equipamento de proteção, ele foi se dirigindo para os chuveiros do vestiário, onde a maior parte dos seus colegas de time já estava tomando banho. Depois de tirar o uniforme completamente coberto de sujeira, Yuri mergulhou embaixo do chuveiro, sentindo a água refrescante levar para longe todo o cansaço, aliviando a tensão dos seus músculos. Logo, as vozes altas dos seus amigos, porém, acabaram com o breve momento de sossego.
— Então, ela disse que eu podia ir com ela, porque não haveria ninguém em casa! Dá pra acreditar? É claro que eu não perdi a oportunidade. – Quem falava mais alto do que todos era Nishimura, o pitcher. Ele havia feito o maior número de eliminações da temporada, e suas bolas com efeitos já eram famosas. Ele com certeza sabia como espalhar esse feito bem alto pelos corredores, até que todos na escola soubessem, também. Yuri não costumava se dar tão bem com ele quanto com seus outros colegas.
— Até onde vocês foram, até onde? – Outro garoto indagava animadamente para ele.
— Segunda base. — Ele entoou a metáfora com orgulho na voz, e todos exclamaram, uns admirados, outros fazendo pouco caso, como se fossem de fato muito experientes. Yuri, em geral, não prestava atenção nesse tipo de conversa, mas eles eram tão eloquentes que era impossível não ouvir.
— Que inveja de você, Nishimura! Você tem uma namorada tão linda, e que ainda deixa você fazer essas coisas! – Um dos kouhais do time reclamou. – A Kiyoko-chan não deixa nem que eu toque nela! Foi muito custo só para conseguir o primeiro beijo!
— Você tem que ir com jeitinho… Se souber como dizer as coisas certas, na hora certa, elas sempre cedem. – Nishimura riu de canto, convencido. Yuri pensava consigo mesmo que nunca havia ouvido tanta besteira junta, de maneira tão desrespeitosa como aquela, e acabou deixando escapar um riso de incredulidade por entre os lábios.
— Algum problema, Shibuya? – Nishimura indagou, ao notar o sorriso quase debochado de Yuri. Todo vestiário pareceu emudecer, e olhar direto para Yuri, que o encarou surpreso.
— Não, nenhum. – Ele respondeu prontamente, e Nishimura riu prepotente, como se julgasse a escusa de Yuri como medo dele. – Só achei que você realmente não sabe do que está falando. – Inesperadamente, Yuri prosseguiu.
— O que você disse? – Ele rebateu, quase derrubando a toalha que trazia ao redor da cintura.
— Que você não sabe realmente como tratar uma garota. E que se continuar agindo dessa forma, seu namoro vai terminar antes que você sequer cogite a possibilidade de tentar chegar à "primeira base". – Yuri foi firme, e Nishimura teve o rosto ruborizado de raiva. Se Yuri não estivesse completamente nu dentro da divisória do chuveiro, ele não teria pensado duas vezes em pular para cima dele e partido para a agressão.
— E o que você sabe sobre tratar uma garota, Shibuya? – Ele riu com desdém, não querendo admitir derrota. – Nunca vi você sair com nenhuma! E aquela kouhai gostosinha, como é o nome dela mesmo? Mariko? Ela vive dando em cima de você, todo mundo sabe, e você ainda a rejeita! Você sabe o que andam falando de você por aí por causa disso, não sabe? – Ele desafiou, e todos os outros garotos arquejaram ao mesmo tempo. Yuri percebeu só então que devia estar sendo alvo de algum boato já há algum tempo, e nem se dera conta disso. Em contra-partida, todos ali já pareciam saber do que se tratava o assunto, e desviavam o olhar, desconfortáveis.
— Eu não sei o que andam falando, conte para mim, Nishimura-kun. – Yuri pediu, com a expressão impassível, sem mudar um centímetro. Desligou o chuveiro, e puxou a toalha para enrolar ao redor da cintura.
— Que você não gosta da fruta! Que é gay… — Nishimura riu alto, como se tivesse contado a piada do ano. Alguns poucos o acompanharam na risada, mas a maioria apenas voltou o olhar para Yuri. Ele ainda mantinha-se sério, e não havia encontrado nenhuma graça naquela insinuação. – Disseram que você era um viadinho esse tempo todo, Shibuya, e só agora saiu do armário! Anda pegando aquele príncipe loiro mimado que anda sempre com você, ainda por cima! É isso, Shibuya? Você é a princesinha? Anda de vestidinho rosa, na garupa do cavalo daquele outro gayzinho rico, ou é ele quem anda na sua? – Ele riu com mais vontade, e dessa vez, ninguém o acompanhou. Isso porque Yuri tinha uma expressão absolutamente feroz no rosto.
Ele abriu a porta da divisória do chuveiro com tanta força que ela bateu na porta ao lado. Andando diretamente na direção de Nishimura, que abruptamente, parou de rir. O ar que Yuri emanava agora era ameaçador, e ninguém ousava dizer uma palavra. Seus olhos negros não possuíam resquício algum do brilho de sempre, e ninguém ali jamais presenciara nada parecido. Nishimura sentiu um arrepio na base das costas, e o ímpeto de correr.
Yuri chegou bem perto dele, até quase encostarem-se. Ele era pouca coisa mais alto do que Nishimura, mas parecia tão intimidante que a impressão de quem via de fora era de que a diferença de altura era muito maior.
— O que você disse sobre o Wolfram? – Ele sibilou, com a voz lenta e arrastada. Nishimura engoliu em seco, sem saber o que responder. Ninguém naquela sala ousava nem respirar. Como percebeu que não haveria resposta, pois o garoto tremia demais até para falar, Yuri continuou. – Retire o que disse sobre ele!
— E-eu… só estou repetindo o que ouvi!
— Nunca mais ouse falar do Wolfram com essa boca suja. — Yuri sibilou, se afastando. Todos os outros garotos abriram passagem para ele. Yuri em geral era calmo, amigo de todas as pessoas, gentil e prestativo. Mas pessoas calmas, quando se enfurecem, são as piores. E todos ali pareciam ter comprovado isso naquele instante.
Yuri se afastou, e, saindo dos chuveiros, ele parou em frente ao seu próprio armário, começando a se vestir rapidamente. Do outro lado, aos poucos, a conversa retornava a um ritmo normal, mas ninguém tentou comentar o episódio anterior, com Yuri ainda ali. Ele terminou de juntar as suas coisas, e saiu dali rapidamente, sem se despedir de ninguém.
Ainda estava furioso, e a carga de adrenalina que a irritação juntou em seu sangue apenas não queria se esvair. Ele não conseguia nem pensar direito. Uma coisa era que boatos a respeito dele surgissem, e isso não era nada, pois ele nunca ligou para isso mesmo. No entanto, se ousassem falar mal de Wolfram na frente dele, então, isso não ficaria assim.
Enquanto caminhava para casa, o ar frio do inverno foi aos poucos esfriando sua cabeça, até que ele estivesse novamente calmo. Ao chegar, tomou outro banho, mandou uma mensagem para Wolfram dizendo que já estava em casa, comeu algo que sua mãe havia deixado preparado, e resolveu ir deitar na sua cama, e ler algum mangá da pilha que Miyako deixara na mesa do seu quarto como “recomendações especiais”. Ele relaxou, decidido a não pensar mais em problemas, pelo resto daquela tarde. Nishimura e aqueles idiotas que fossem se ferrar, Yuri tinha mais com o que se preocupar. E… bem, aqueles mangás até que eram interessantes…
~
Wolfram inclinou-se na direção dele, encarando-o com seriedade. Os dois estavam almoçando no armário da escada, o seu esconderijo secreto à prova de Marikos e Miyakos, onde eles podiam aproveitar bem uma hora de almoço juntos sem interrupções e nem preocupações.
— Você parece apreensivo. – Wolfram deixou de lado seu sanduíche pela metade, e se aproximou. Yuri sabia que não conseguiria disfarçar por muito tempo, sempre fora péssimo nisso. Porém, não queria preocupar Wolfram com seus próprios problemas.
— São só algumas coisas que aconteceram no treino, nada demais… — Ele desconversou, desviando o olhar, pois era impossível dizer qualquer coisa com aquele par de orbes verde-esmeralda encarando-o tão diretamente.
— Você não vai me contar? – Wolfram desafiou, contrariado. – Então está ótimo. Eu ia convidar você para ir à minha casa, já que não haveria ninguém lá, mas parece que você anda muito cheio de problemas com seu time, mesmo…
— Hey, espera aí, Wolf! – Yuri interrompeu, pulando no lugar para sentar direito. – Você ia me convidar para ir para a sua casa??
— O que você acha? Já estamos namorando há quase duas semanas, e você nunca mais foi lá depois disso. – Ele cruzou os braços. – Às vezes eu quero ficar em algum lugar que não seja um buraco poeirento que irrita meu nariz e faz barulho cada vez que alguém desce as escadas, sabe? Sem falar que eu odeio a ideia de que nós estamos aqui só pra fugir daquela Mariko… Odeio ter que me esconder, e odeio o fato de não poder esfregar na cara daquela garota que você é meu!
Yuri sorriu, aproximando-se de Wolfram ainda mais, naquele pequeno espaço reservado. Segurou uma das mãos dele, sobre o assoalho, e com a outra afagou o rosto macio.
— Mas, mesmo assim, eu ainda sou só seu. Não há com o que se preocupar, Wolf…
— N-não sussurre meu nome assim, fracote. – Wolfram tentou recuar, mas Yuri ainda o acariciava lentamente.
— O que você ia me convidar para fazer na sua casa, hm? – Yuri provocou, vendo o rosto de Wolfram adquirir um pouco mais de cor, a cada palavra que dizia. Adorava ver a maneira como ele reagia a cada atitude sua. Era divertido, de alguma forma, ver o sempre tão austero e cheio de si Wolfram perder a compostura de vez em quando. Mas só quando estavam sozinhos, na sua frente…
— N-nada de mais. Fracote indecente, você estava pensando em obscenidades, não estava? – Wolfram franziu os olhos, desconfiado, e Yuri riu baixinho, aproximando o rosto do dele, para sentir melhor o perfume doce e natural que emanava da sua pele. Adorava aquele cheiro, e adorava tudo o que vinha de Wolfram. Se pudesse, poderia apenas continuar dessa forma por muito, muito tempo.
— Ninguém aqui falou em obscenidades, só você… — Yuri afirmou, inocente. – Mas não me parece uma ideia tão ruim… — Ele sussurrou mais uma vez no ouvido de Wolfram, sentindo-o estremecer em seus braços. Ele era tão sensível, e Yuri gostava de saber disso. Tocou com a ponta do nariz a pele lisa e quente do pescoço de Wolfram, e, ao ouvi-lo deixar escapar um som ininteligível, aproximou os lábios da pele, apreciando o gosto e a textura dela com a ponta da língua. Wolfram gemeu contidamente, e ele sentiu algo agitar-se dentro do seu corpo ao ouvir aquele som. Dificilmente conseguiria parar agora.
— P-pare… E se alguém… nos ouvir… — Wolfram relutou, mas Yuri não conseguia processar o significado daquelas palavras. Tudo o que ouvia era a voz de Wolfram, ecoando em seus ouvidos, reagindo na superfície da sua pele, que parecia queimar, clamando pelo toque dele.
— Ninguém ouvirá.
Em um ato impulsivo, ele empurrou Wolfram para trás, prendendo o corpo dele com as pernas, uma de cada lado, e ainda segurando a mão direita na sua. Estando a centímetros de distância, eles podiam ver claramente o rosto um do outro, oculto em parte pelas sombras. Yuri sorriu, mirando os lábios cheios de Wolfram, que pareciam especialmente convidativos naquela composição.
— Yuri… — A voz suave de Wolfram envolvia cada sílaba do seu nome, e pareciam causar ainda mais reações inexplicáveis ao pobre Yuri, que mal conseguia se aguentar agora. Ele não estava resistindo.
— Wolfram… — O nome escapou dos seus lábios em resposta, antes que ele tivesse a chance de pensar por mais algum segundo. – Eu amo você… — Ele confessou com toda a sinceridade, encarando diretamente o par de esmeraldas que brilhavam em sua direção, refletindo diretamente a luz proveniente da lâmpada tênue que pendia do teto.
Cerrou os olhos, sabendo que Wolfram faria o mesmo, quando se inclinou na direção dele, e selaram seus lábios, sedentos por mais contato. Não demorou em invadi-los com a língua, explorando cada canto, para gravar o gosto dele fundo em sua memória. Sentiu os braços do loiro se libertarem do seu aperto, apenas para abraçá-lo com força pelo pescoço, trazendo-o ainda para mais perto.
Entre a respiração entrecortada de um beijo e outro, Yuri soltou um gemido abafado. Sentia seu corpo inteiro entrando em contato com o de Wolfram perfeitamente. Podia imaginar os contornos e a sensação de tocar naquela pele pálida, e apenas esse pensamento era o suficiente para que ele sentisse como se estivesse em meio a chamas.
Deslizou a mão para a cintura do outro, invadindo a parte debaixo do suéter sem nenhuma oposição. Aproveitou para tirar o casaco, e abrir a camisa, arrancando todos os botões com o ato brusco. A pele clara de Wolfram se revelou, e Yuri avançou, desejando marcá-la de alguma forma, espalhando beijos do abdômen ao pescoço, ouvindo Wolfram arquejar, sem fôlego, a cada centímetro que ele continuava.
Avançando sem nunca interromper o toque até tomar novamente seus lábios, Yuri o abraçou com ainda mais força, e na agitação que provocava para mover seus braços, suas pernas se entrelaçavam. Sentiu algo roçar na região do seu baixo-ventre, e quase enlouqueceu por dentro. A sensação espalhou-se como fogo por todo o seu corpo, e ele deixou escapar outro gemido, dessa vez um pouco mais alto.
Wolfram podia estar consciente disso, ou não. Mas o fato é que ele continuou a provocar esse movimento enlouquecedor, e, aos poucos, Yuri foi sentindo-se ainda mais dormente, anestesiado. Como se seu corpo já não pertencesse mais a ele, ou sua mente que havia sido varrida para longe. A sensação era tão boa que Yuri perdeu-se na vaga inconsciência em que se encontrava, esquecendo-se até mesmo de como abrir os olhos.
Agitou-se, debatendo-se, até que notou que aquilo que abraçava era macio demais para ser Wolfram, e nem mesmo tinha o cheiro dele. Mexeu os braços, tentando recuperar a sensação anterior, que havia sido substituída inesperadamente por um aperto quase doloroso no mesmo local. Algo batia do lado de fora, um ruído ritmado e ininterrupto, seguido por vozes confusas. O incômodo foi maior do que a dormência, e, com custo, ele conseguiu abrir os olhos.
Encontrava-se em seu próprio quarto, abraçado com força em um travesseiro, com todos os lençóis da cama enrolados de qualquer maneira ao seu redor. Seu cabelo ainda estava úmido do banho anterior, e ele vestia as mesmas roupas que estava usando antes, depois de chegar em casa logo após o treino. Uma revista de mangá, que pertencia a Miyako, estava aberta, virada para baixo, perto da sua mão.
Porém, havia outras coisas com as quais ele se preocupava no momento. Uma delas era as batidas incessantes na porta do quarto, seguidas por chamados ao seu nome. Sem dúvidas, aquilo o acordara, mas o que mais o assombrava era o fato de que a voz que o chamava era de Wolfram. No entanto, esse nem era a sua maior dificuldade no presente momento. A real preocupação, que Yuri notou assim que abrira os olhos, era o fato inegável de que, de alguma maneira, ele estava com um indisfarçável, indesculpável, problemático e absolutamente evidente… volume entre as pernas.
Wolfram ainda batia na porta do lado de fora, ordenando que ele a abrisse. E Yuri não sabia o que fazer agora. Pulou da cama, com dificuldade, correndo até ela.
— Yuri, abra essa porta! O que está acontecendo? Você está aí?
A voz de Wolfram do outro lado não parecia especialmente furiosa, mas Yuri tinha medo. Não podia abrir a porta para Wolfram agora, por mais que quisesse realmente vê-lo. Encostado na madeira da porta, de costas, ele mordia os lábios desesperadamente, pensando em alguma maneira de lidar com aquela situação súbita e inesperada.
Como daria explicações sobre aquela situação embaraçosa para ele?
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