Kitto watashi wa ne

Tenho certeza que eu

Kono hi no tame ni machigai darake no

tomei todos os caminhos errados

Michi wo aruite kita nda

apenas para este dia ...

Te wo totte eien ni doko made datte ikeru hazu

Eu vou de mãos dadas com você para sempre, devemos ser capazes de ir a qualquer lugar que quisermos.

Mamoru beki daiji na mono ga ima atte

Agora temos algo precioso que devemos proteger.

Ooi kakusu zetsubo ni nomikomare sou na toki wa

Quando o desespero tentar engoli-lo.

Watashi ga kimi wo terasu hikari ni naru kara

Eu me tornarei a luz que brilha sobre você.



Capítulo 30

— Abra logo essa porta, Yuri, sua mãe me disse que você está aí!

A voz de Wolfram se tornava cada vez mais irritada, e Yuri não via como explicar aquela situação embaraçosa para ele, nem para ninguém. Não queria encará-lo agora — dentre todas as pessoas que poderiam acordá-lo naquela situação, Wolfram era com certeza a pior alternativa. Ele havia acabado de sonhar com aquele garoto, algo indecente e ousado, que ele jamais ousaria narrar com palavras para quem quer que fosse. Tudo bem que eles eram namorados já há algum tempo, mas, ainda, nunca haviam ido além de beijos. Porém, mais do que isso, o problema real era a prova irrefutável do que ele estava realmente pensando… E ela se encontrava, nesse momento, dentro das suas calças, e qualquer um que o visse agora perceberia.

“Aaaahh, droga, por que eu ainda estou assim? Isso não passa! Será que é por que eu ainda estou ouvindo a voz do Wolf? Eu sou um fracote obsceno mesmo, ele tinha razão, aaahh, eu quero morrer!!!”

— Você não vai abrir a porta, Yuri?

— E-eu não posso… — Ele finalmente encontrou coragem para responder, ainda que com a voz fraca.

— O que houve? Você não está com alguém ai dentro, está? Fracote, trapaceiro! Quem está aí? – A voz de Wolfram enfureceu, e Yuri mordeu os lábios com força, o semblante de quem sabia que havia sido descoberto, e não tinha mais saída.

Sentindo-se o pior dos seres humanos, o mais baixo e mais sujo, ele pegou uma almofada da cama, e escondeu a parte das calças que se evidenciava. Respirando fundo, abriu uma fresta da porta mostrando apenas o rosto. Talvez, ele pensava, aquela situação acabasse antes de ele ter que se explicar. Talvez passasse rapidamente… Talvez não desse nem para notar!

Porém, ver o rosto de Wolfram do outro lado teve o efeito oposto do que ele esperava, e ele sentiu que ficava em uma situação cada vez pior.

— Oi… Wolf… — Yuri conseguiu se forçar a dizer, baixando o rosto direto para os pés dele, sem coragem de olhá-lo nos olhos. Estava mesmo, minutos atrás, tendo pensamentos imorais com a pessoa que estava bem na sua frente. Na verdade, agora mesmo, esses pensamentos afloravam, e parecia que isso não iria ter um fim tão cedo. Como poderia agir como se isso não fosse nada?

— Por que não abriu a porta antes?

— Eu estava dormindo… — Ele respondeu evasivamente. Mentir não era uma opção para Shibuya Yuri, mas ele podia muito bem ocultar uma parte da verdade.

— Dormindo… Sei… — Wolfram franziu os olhos e, com um movimento rápido, empurrou a porta, adentrando o quarto dele sem esperar por convite. Olhou ao redor, para baixo e para cima, vasculhando o local a procura de provas de uma possível traição. Quando se deu por satisfeito, virou-se novamente para Yuri. – Por que está segurando essa almofada?

— N-nenhum motivo… — Ele apertou mais ainda a almofada entre os dedos. Os olhos de Wolfram esquadrinharam minuciosamente a região, e Yuri sentiu como se de repente estivesse nu. Wolfram tinha que parar de olhar para ele daquela maneira, isso estava acabando com toda a sua sanidade.

— O que está escondendo de mim, Yuri? – Wolfram avançou na direção do moreno, que acabou encurralado entre ele e a cômoda atrás de si. – Vamos, solte essa almofada!

— Não! – Yuri segurou com ambas as mãos, encolhendo-se como uma garotinha prestes a ser atacada. – Eu não posso fazer isso!

— Por quê?

— Porque você vai me odiar! – Ele gritou, fechando os olhos. – Eu sou um fracote, como você diz, um fracote indecente, sem nada na cabeça! Eu fiz uma coisa horrível com você, Wolf!

— Do que você está falando? – Wolfram retrocedeu um passo, agora realmente se preocupando. – Você… Você me traiu mesmo… É isso?

— Claro que não! – Ele se apressou em negar, e, no desespero de tirar aquela ideia da cabeça de Wolfram, quase deixou cair a almofada. Hesitou, pensando se deveria segurar o ombro do outro com a mão livre, mas acabou recuando. – Eu nunca faria isso com você! É outra coisa, eu… Eu… Eu não posso dizer. Mas… me perdoe, Wolfram… Eu… fiz algo indesculpável…

— Você só está me deixando ainda mais intrigado falando dessa forma! – Wolfram não cedeu. – Anda, tire logo essa almofada, ou eu mesmo a arranco daí!

— Não!!!

Wolfram avançou para puxar a almofada das mãos de Yuri, mas o fato de ele estar agora tocando indiretamente logo naquela região deixou a situação de Yuri ainda mais drástica. Ele tentou por tudo no mundo não fraquejar, mas acabou caindo sentado no chão, bem no instante em que Wolfram ergueu a almofada para o alto, vitorioso. Quando ele finalmente voltou a olhar para Yuri, bem… Digamos que sua visão foi privilegiada.

— Y-Yuri… Q-que raios… — Wolfram gaguejou. Seu rosto rapidamente se coloriu, até a raiz dos cabelos. Uma mistura intensa de raiva, confusão, constrangimento e curiosidade invadiu seus sentidos, e ele paralisou, com os olhos arregalados focados unicamente em um ponto.

— Por isso que eu disse pra você não olhar!!! – Yuri choramingou, desesperado, puxando o travesseiro da cama para ocupar o lugar que antes era da almofada, e abraçando-o com força, escondendo também o rosto ali. – Eu não queria que você visse isso!

— O q-que você estava fazendo, Yuri...? Vamos, responda!! – Wolfram indagou de repente, completamente destemperado. Agachou-se, infiltrando-se debaixo da cama de Yuri subitamente, e puxou de lá uma pilha de cerca de cinco revistas. Uma era sobre baseball, mas as outras quatro eram revistas femininas, catálogos de biquínis e lingeries, que Yuri conseguira com seus colegas de time, anos atrás. Estavam todas empoeiradas, esquecidas no fundo da cama. — Era isso, não era?! Você estava usando isso aqui! Seu imoral, descarado, despudorado!

— C-como você sabe sobre… N-não vem ao caso!! Eu não estava lendo isso!! Olha só, estão até cobertas de poeira, é claro que eu não estava vendo isso!!! – Yuri tentou se defender, quando Wolfram voou até ele, e começou a golpeá-lo com as revistas, todas de uma vez.

— Como ousa, recorrer a tais libertinagens quando tem um namorado como eu! Depravado, indecente!! — Ele gritava espaçadamente a cada golpe.

— Exatamente!! Eu não estava lendo isso!!! – Yuri tentava se pronunciar, erguendo o travesseiro para proteger a cabeça. Quando Wolfram percebeu o que estava na sua vista, ainda que não da mesma forma que antes, parou de bater nele, e desviou o olhar, com o rosto em chamas. Yuri voltou a abraçar o travesseiro como antes, ainda sentado no chão.

— Se não estava lendo… Então o que aconteceu? Porque eu sei muito bem que… essas reações… fisiológicas… não acontecem do nada! – Wolfram jogou as revistas longe, decidindo que se ocuparia delas depois. Antes de tudo, queria esclarecer aquela situação.

— Eu vou explicar… — Yuri suspirou, voltando a esconder parte do rosto. Apenas seus olhos ficaram de fora, e estes miravam o chão. – Eu… Eu tive um sonho… Um s-sonho… bastante detalhado… B-bem… Um tanto… inadequado…

— Eu entendi! Prossiga!– Wolfram interrompeu, irritando-se novamente. – Com quem você sonhou? Foi com alguma atriz, foi? Uma idol? Ah, eu quero te matar…

— Foi… F-foi com você, Wolf. — Yuri respondeu num fio de voz, enterrando de vez o rosto no travesseiro para não ter que encarar mais aquela situação. Ele esperou por gritos, xingamentos, talvez até mais agressão física. A essa altura dos acontecimentos, seu amigo lá de baixo nem estava mais tão desperto assim, mas já era tarde.

Wolfram estava tão silencioso que Yuri estranhou. Ergueu os olhos lentamente, ainda temerosos, e viu o loiro na sua frente um tanto abobalhado, com o rosto corado e aspecto de quem absorve muitas informações ao mesmo tempo.

— O q-que você sonhou…? — Wolfram indagou hesitantemente, ainda custando a acreditar.

— Faz mesmo diferença? – Yuri replicou, constrangido. – Eu sonhei com você, e acordei nesse estado! Se alguém tem culpa aqui, obviamente essa pessoa é você! – Ele acusou sem pensar, mas logo se arrependeu, ao ver o semblante de Wolfram se contorcer inadvertidamente sem uma emoção clara a demonstrar. – Não, não, desculpa, Wolfram! Eu não queria… B-bem… N-não é algo que eu possa controlar, mas… Eu não queria que você visse esse meu lado… tão vergonhoso, e… Eu sinto muito por ter pensado em você dessa forma, tá legal? Mas… eu tenho um namorado assim tão lindo como você, é claro que isso acabaria acontecendo… — Ele argumentou por fim, num fio de voz que Wolfram poderia não ter escutado se não estivesse perto o suficiente. O rosto de Yuri era agora, obviamente, como o de uma criança pega em flagrante, e que se recusa a admitir sua culpa.

— E v-você estava… Sabe… — Wolfram cruzou os braços e se afastou um pouco, sentando à beira da cama de Yuri, o mais longe possível dele, ainda olhando para o lado oposto. – T-tentando se… aliviar… quando eu cheguei?

— Aliviar…? — Yuri não entendeu de primeira a insinuação, mas quando ela fez sentido em sua mente, ele pulou para cima, largando o travesseiro longe no chão. – Claro que não!! Eu não estava fazendo nada disso, Wolfram, eu não sou um pervertido!

— Não chegue tão perto!! – Yuri recuou rapidamente com o pedido, enquanto o loiro franzia a testa ferozmente, em pensamento profundo.

— Você não me odeia, não é, Wolf? Ou sente… medo… Ou nojo… de mim…? — Yuri murmurou, encolhendo-se. – Você não vai querer terminar comigo, não é? – Ele alarmou-se, voltando a encarar Wolfram suplicantemente.

— Claro que não, idiota, eu não sou alguém tão frívolo assim! – Ele se ofendeu com aquela ideia. Não estava realmente julgando Yuri pelo que aconteceu, afinal, era homem também, e sabia que, de certa forma, algumas coisas estavam fora de controle. Porém, não queria dar o braço a torcer e admitir tão cedo que entendia Yuri, ou que aceitava facilmente essa situação. Pelo menos não por enquanto. – Eu não vou dizer que acho isso certo… Mas também não vou condená-lo. Só me responda uma coisa… Você realmente estava sonhando comigo? Apenas comigo?

A pergunta pegou Yuri desprevenido, mas ele foi rápido ao responder, com toda a segurança que seu estado de constrangimento acima de níveis nucleares era capaz de permitir.

— Claro! Com quem mais seria? – A resposta saiu com naturalidade, e Wolfram corou. Imaginar de que forma ele poderia ser retratado na imaginação de Yuri o fez ficar ligeiramente preocupado, por um breve segundo. E se o Wolfram dos pensamentos de Yuri fosse menos mimado, menos teimoso, menos reclamão… E se ele fosse mais doce, e mais carinhoso… E se Yuri gostasse mais dele? Wolfram percebeu então que estava sentindo ciúmes de si mesmo, e isso era o ápice da loucura. Não poderia permitir-se tal comportamento irracional por mais tempo, não mesmo.

— Eu… estou disposto a perdoar você por esse… descuido. – Ele bradou, virando o rosto ainda ruborizado para o lado, a fim de disfarçar os pensamentos insanos que vagavam indistintos pela sua mente rápida. – Apenas… não repita esse comportamento tão indecente! – Ele disse, embora sem tanta convicção quanto pretendera.

— Wolf… Hm, é… — Yuri coçou o rosto, timidamente, e se aproximou alguns passos, sentando na beirada da cama, quase colado à cabeceira para não incomodar Wolfram. – E se… E se isso… v-voltar a acontecer, o que eu faço…?

— Que tipo de pergunta é essa, fracote pervertido!! – Wolfram exclamou, quase caindo da cama com o choque. Yuri quase se arrependeu por perguntar, mas precisava saber. Estava claro para ele que aqueles pensamentos não terminariam com apenas um sonho; para falar a verdade, eles ainda estavam rondando sua mente, e estar sozinho em um cômodo com Wolfram não era a melhor maneira de fazê-los parar. Claro que a tendência era sempre piorar, e Yuri estava consciente ao menos dos limites que seu corpo era capaz de aguentar. Apenas por causa disso, ele manteve-se firme em procurar obter uma resposta de Wolfram. – B-bem, não é como se eu pudesse fazer realmente alguma coisa para te ajudar com… esse seu problema, q-quero dizer… S-se eu estivesse tendo pensamentos desse tipo com você, e eu não estou dizendo que estou! Eu iria… apreciar… algum tipo de preocupação nesse sentido, da sua parte…

— O que isso quer dizer…? – Yuri inclinou-se para frente, imaginando que por acaso talvez estivesse entendendo errado. Wolfram corou mais ainda, desviando o olhar imediatamente.

— Por exemplo… Quando uma pessoa tem aracnofobia… O tratamento envolve expor gradualmente o fóbico ao objeto do medo dele, no caso, as aranhas. Seguindo essa linha de pensamentos… Bem… — Wolfram fechou os olhos, empertigando-se de forma muito distinta, como se estivesse apenas dando uma aula para Yuri. – No seu caso, você deveria gradualmente entrar em contato com seu objeto de pensamentos… Até que fique, de alguma forma, acostumado a isso, e, assim, os sonhos teriam um fim…

— Wolfram… — Yuri murmurou lentamente, incrédulo. – Você está dizendo que… vai deixar eu… f-fazer… com você… coisas pervertidas…?Ele sussurrou a ultima parte como quem compartilhava um segredo sujo, e Wolfram sentiu que seus batimentos cardíacos pararam por completo.

— Não fale dessa maneira tão indecente, seu imoral!! – Wolfram gritou, golpeando o ombro de Yuri com força, fazendo-o encolher-se na cama. – Eu não quis dizer dessa forma! Mas é evidente que, se alguém tem que cumprir esse papel, essa pessoa não seria ninguém além do seu namorado, com quem você notoriamente firmou um compromisso. – Ele completou com muita dignidade, o rosto afogueando-se a cada palavra dita, cruzando novamente os braços, irritado. Yuri deixou escapar um sorriso, e, tomando coragem, aproximou-se de Wolfram, rodeando os braços pela cintura dele. Wolfram nem se moveu, como se não tivesse realmente notado a aproximação repentina do outro.

— Você também pensa em mim desse jeito, Wolf…? – Ele indagou em voz baixa, muito curioso. Wolfram arquejou, indignado, sem palavras para responder uma questão tão absurda, mas não precisaria. Yuri sorriu novamente, parecendo aliviado, de alguma forma. – Ainda bem… Eu pensei que você fosse me odiar… — Ele escondeu o rosto no ombro de Wolfram, e sua respiração pesada tocando diretamente na pele dele o fez arrepiar-se por inteiro. Yuri sentiu-o estremecer em seus braços, e abraçou-o com mais força, deslizando o rosto pela curva do pescoço, beijando devagar a pele pálida, provando-o com a língua.

— Y-Yuri! – Wolfram protestou, fraco demais para empurrar Yuri para longe, embora parecesse estar tentando muito.

— O real é muito, muito melhor do que o sonho… — Yuri ponderou, e sem dar à Wolfram sequer a chance de respirar, deitou-o para trás na cama, segurando-o pelos braços. Apressou-se e selou seus lábios, agindo puramente pelo seu instinto recém-descoberto, que parecia saber muito bem o que fazer no presente momento. Wolfram relutou, tentando soltar as mãos que Yuri prendia, mas quando conseguiu, ao invés de empurrá-lo para longe como ele julgou que faria, Wolfram apenas enlaçou-se ao seu pescoço, deixando que aprofundasse o contato. A situação lembrava, e muito, o sonho recente. Porém, o calor do corpo de Wolfram, seu perfume, a maciez da sua pele… Tudo isso era mais intenso, era real… Inebriante, viciante. Yuri não conseguia nem raciocinar mais.

Sentiu sua cabeça girando mais uma vez, e seu corpo reagindo aos toques intermináveis de Wolfram. As mãos dele acariciavam de leve suas costas, causando pequenos arrepios, que se alastravam por toda a linha da sua coluna. Ele se afastou alguns poucos segundos, para tomar ar, e apreciar a face de Wolfram, tomada pelo rubor, a respiração ofegante e entrecortada batendo em seu rosto. Tinha certeza de que essa era a realidade, e tudo parecia tão certo… Quando sentiu os lábios dele de novo nos seus, já não restavam mais dúvidas. Wolfram era seu… Para sempre seria. Era o que ele queria. Queria Wolfram para si, completamente, sem hesitar, sem precisar pensar em mais nada. Da forma que fosse. Apenas seu…

— Yu-chaaan! – A voz de Hamano Jennifer atravessou as paredes e congelou os dois garotos no ato. Os dois se entreolharam, e só então pareceram perceber a situação em que se encontravam. – Eu fiz chá para vocês! – Ela continuou gritando, e era uma sorte que Miko tivesse apenas gritado, e não escancarado a porta como de costume.

Yuri se levantou, afobado, ajeitando a camiseta e tentando normalizar a respiração e a frequência cardíaca. Já Wolfram demorou um pouco mais para se situar. Sentou-se na cama lentamente, ajeitado os cabelos com a mão, e baixando a camisa, que estava erguida, quase sendo desabotoada. Os dois se fitaram, e voltaram a desviar os rostos, repentinamente embaraçados demais para dizer qualquer coisa. Haviam se excedido, era verdade, mas nenhum deles se arrependia por isso.

Wolfram tomou chá com Yuri, tão rapidamente quanto poderia, e foi para casa logo depois. Se percebeu qualquer coisa de estranho entre os dois, Miko não comentou nada. Miyako chegou em casa logo depois, e, ao ver o semblante pensativo do primo, sentado no sofá com a TV ligada em um programa de comédia, quase pôde adivinhar o que havia acontecido. Seu palpite era de que havia perdido alguma coisa muito interessante quando estava no trabalho… E ela completamente estava certa.

~

No dia seguinte, na escola, as coisas correram como se nada tivesse acontecido, e Miyako não pôde descobrir nada do que ocorrera na véspera. Wolfram agiu naturalmente, e, com isso, Yuri se tranquilizou o suficiente para relevar o assunto. Era mais como se um peso tivesse sido tirado das suas costas, depois de esclarecer aquele assunto em específico, tão complicado, com Wolfram.

Os dois almoçaram com Miyako no telhado, e Mariko não deu o ar da sua desgraça em parte alguma. Elizabeth já estava no colégio interno, e Valtrana não voltou a insistir para Wolfram sair com ela. Fazia sol lá fora, o treino de Yuri pela manhã havia sido tranquilo, e ninguém comentou sobre o incidente no chuveiro. Nishimura não aparecera. Estava tudo tão calmo e tranquilo que eles custavam a acreditar. Mas é claro, isso não demorou muito mais.

Na hora em que as aulas acabaram, uma chuva torrencial e inesperada caía. O treino da tarde fora cancelado, e Yuri iria embora junto com os outros, mas como não haviam trazido guarda-chuva, eles esperavam dentro do prédio, até que a água diminuísse um pouco de volume, para assim poderem chegar em casa de alguma maneira. Wolfram e Miyako sentaram no chão, escorados na parede, para esperar, e Yuri ficou de pé, olhando pela porta para cuidar quando pudessem ir. Havia mais alguns poucos alunos ao redor, esperando também.

Miyako lia uma revista, que havia conseguido emprestada com uma colega de aula. Yuri ficava aliviado em saber que, apesar dos esforços de Mariko, ela estava se saindo relativamente bem ao interagir com os outros, e, embora não tivesse realmente o maior dos círculos de amizades, os avanços eram notáveis.

— Olha, Wolfram-kun… — Ela apontou para a revista, na seção de moda. – Essa roupa ficaria bem em você! Você não acha, Yuri-nii-chan, que essa roupa ficaria bem no Wolfram-kun?

Yuri se inclinou por cima da cabeça de Wolfram, para enxergar também. A roupa era decididamente masculina, calças jeans dobradas na ponta dos tornozelos, sapatos Oxford, uma camisa azul clara estampada, e um colete cinza por cima, com um lenço em tons pastel rodeando o pescoço. Porém, ao olhar o modelo, Yuri tinha suas dúvidas. Ele usava um chapéu xadrez, que encobria boa parte do rosto, embora um sorriso de canto ainda pudesse ser identificado, e era bem magro, o que ficava evidenciado nas poses dinâmicas em diferentes combinações. O que causava dúvida em Yuri, porém, eram realmente os longos cabelos loiro-platinados, que chegavam quase até a cintura, esvoaçando atrás das costas.

— Não é uma garota? – Ele indagou, apenas. Não entendia de moda, nem um pouco, e nem se esforçaria para entender, mas um princípio básico, para ele, era que roupas femininas se destinavam às garotas, e roupas masculinas, aos garotos. Claro que sua mãe nunca levou isso em consideração, quando o fazia usar vestidos quando pequeno, mas isso era apenas um detalhe que ele preferia esquecer.

— Não, este é o modelo masculino! – Miyako insistiu. – Mas você não acha que a roupa ficaria bem no Wolfram-kun, hein, hein?

— Eu acho que qualquer coisa que ele vista ficaria bem. Até um saco de batatas. – Yuri respondeu com sinceridade, dando de ombros. Miyako entoou um “aaah~” emocionado, e Wolfram engasgou, sem saber se encarava aquilo como um elogio ou não. Enquanto ele repreendia Yuri e batia nele, como sempre fazia quando ficava constrangido com investidas inesperadas como aquela, ouviram um comentário próximo, de alguém que pensava não estar sendo ouvido.

— Hey, você ouviu o que falaram sobre o Shibuya? Aquele ali, perto da porta? Ele está com o Príncipe ou algo assim! Parece que alguém viu os dois se agarrando numa sala de aula!

— Eles parecem bem próximos mesmo... Eu ouvi que ele bateu no Nishimura do time de baseball, no vestiário. Será que foi por causa disso…? Ou será que ele deu em cima do Nishimura também, e quando não conseguiu o que queria, só bateu nele?

— Horrível! Não acredito que alguém assim está na nossa escola… E pensar que o Príncipe também joga no outro time, que desperdício…

As duas garotas se afastaram dividindo um guarda-chuva, ainda comentando os incidentes. Yuri sabia que Wolfram e Miyako teriam ouvido o mesmo que ele, e os fitou com culpa, quase como se ele próprio tivesse sido aquele a falar mal dos outros. Não queria que nenhum dos dois soubesse sobre os comentários — preferia ter conseguido parar com isso antes que qualquer um descobrisse. No entanto, parecia que os boatos vinham ficando cada vez maiores, e Yuri não tinha ideia de como acabar com isso.

— V-vamos para casa? Acho que a chuva acalmou… — Ele riu sem graça, esfregando a mão na nuca. Tentava disfarçar e fingir que nada acontecera, mas pelos semblantes estampados na cara dos outros dois, era evidente que não estava obtendo sucesso.

— Yuri, você ouviu o que aquelas garotas estavam falando sobre você? – Wolfram ergueu-se, indignado.

— Eu não me importo com o que falam de mim, não tem problema nenhum, só vamos embora logo…

— Não, Yuri, isso é sério! Elas disseram que você bateu em alguém! É verdade?

— Claro que não! Eu nem encostei naquele Nishimura idiota! Ele estava falando um monte de bobagens e eu fiz ele parar, foi só isso. – Yuri se explicou, falando rápida e nervosamente, quase desesperado.

— Yuri-nii-chan… Esses comentários maldosos… Eles já vêm se espalhando há algum tempo? – Miyako indagou, um tanto incerta de se intrometer na conversa dos garotos. – Eu sei que as pessoas não começam a espalhar isso assim do nada, então… Pode ser que o Nishimura de que elas falaram estivesse falando sobre isso e você se irritou?

— Eu… Ele… Ele estava falando mal do Wolfram, eu não podia deixar isso acontecer! – Yuri exasperou-se, largando os braços como se desistisse de se segurar. – Mas eu não bati nele, isso é mentira!

— Yuri. – Wolfram o fitou seriamente, com os olhos verdes como duas esmeraldas, duras e frias. – Nós temos que conversar.

— Eu vou indo na frente! – Miyako bradou de repente, e, ao olhar para fora, enxergou a sua saída perfeita milagrosamente colocada no portão. – Olha só, o Ben-kun veio me buscar, ele tem um guarda-chuva… E-eu vou indo com ele, até depois, Nii-chan!

Miyako saiu correndo na direção da chuva, deixando os dois sozinhos, e Wolfram continuou a encarar Yuri. Não poderiam conversar direito ali, com tantas pessoas ao redor, dispostas a relatar qualquer coisa que presenciassem para a escola inteira em um piscar de olhos. Isso só traria mais problemas.

— Vamos. – Wolfram não hesitou em segurar Yuri pelo pulso, e o arrastou para fora, em direção à rua. Os pingos gelados da água e o vento frio fizeram Yuri estremecer, e, enquanto caminhavam na direção dos portões, já estava encharcado antes mesmo de chegar lá.

— M-mas, a chuva…

— Você não é feito de açúcar, não vai derreter – Wolfram bradou. Mesmo quando já haviam alcançado a rua, e caminhavam pela calçada, chapinhando os pés nas poças de água acumulada, ele não soltou o braço de Yuri. A água também escorria pelo seu rosto fechado, pingando a partir dos cabelos loiros, agora escurecidos e molhados. – Por que não me contou?

— S-sobre o quê…?

— Sobre as coisas que estavam falando sobre nós, Yuri! Isso é muito problemático, eu sei, mas você não pode lidar com isso sozinho! Isso me envolve também! Deveria ter contado para mim em primeiro lugar!

— Eu não quis te preocupar… Fiquei com medo de que você fosse… ficar com vergonha… ou com raiva de mim… — Yuri admitiu, constrangido, desviando o olhar. Passou a mão pelos cabelos molhados, sentindo as roupas grudando no corpo, e os pés gelados. Wolfram estancou, e fitou Yuri pelo canto dos olhos. Suspirou, e deslizou a mão pelo pulso dele, até entrelaçar seus dedos, lentamente.

— Eu não sinto vergonha de você, Yuri. Não me importo com nada do que esse monte de plebeus inúteis fala pelas minhas costas, e você sabe disso. Mas você não pode simplesmente bater em qualquer um que diga algo sobre nós! O que vai acontecer se você for expulso do time?

— Wolfram… O que você…

— Conrad me contou. – Ele disse, e, sem precisar de explicações, Yuri já sabia exatamente do que ele falava. Os dois se abrigaram embaixo de uma árvore consideravelmente grande que lançava seus galhos sobre a calçada, e ao menos estavam livres da quantidade maior de água, embora já estivessem completamente ensopados. – Conrad me disse que você precisa da bolsa de estudos de esportes para entrar na faculdade. – Wolfram continuou, sem soltar a mão de Yuri. – Ele também me contou que você já foi expulso de um time durante o ginásio, mas que se isso acontecer agora, não poderá entrar no programa. – Wolfram aproximou-se dele, fitando-o diretamente com os olhos determinados, quase como se estivesse desafiando-o. – Yuri, por que você nunca me conta nada? Eu deveria saber sobre todas essas fofocas idiotas, sobre a briga que você arrumou! Ao menos me conte que você pretende entrar na faculdade, fracote!

— Desculpa, Wolf… — Yuri murmurou com voz fraca. Ergueu os dedos, afastando dos olhos de Wolfram os cachos úmidos que caiam sobre sua testa. – Eu pensei que estaria incomodando você se começasse a reclamar sobre meus problemas, mas… acho que agi de forma errada. – Ele afagou o rosto de Wolfram, passando o polegar por uma gota de água que escorria pela bochecha. – A partir de agora… não vou esconder mais nada de você, eu prometo. Sobre os problemas, sobre meus planos pro futuro… E sobre meus sonhos estranhos também… — Ele riu de canto, e Wolfram bufou, revirando os olhos impaciente.

— E sobre esses fofoqueiros sem nada melhor para fazer… Nós também vamos dar um jeito neles. – Wolfram determinou. Olhou ao redor discretamente, e, ao notar que não havia ninguém nos arredores, empurrou Yuri um passo para trás, encurralando-o contra o muro que separava a calçada de outra propriedade. Yuri se surpreendeu, já que Wolfram não costumava ser assim tão proativo, mas não ia começar a reclamar agora. Sentiu a mão gelada dele abraçando-o pela cintura, quase possessivamente, como uma criança pequena faria com seu ursinho de pelúcia favorito. E então Wolfram sorriu para ele, querendo tranquilizá-lo, deixar claro que nada daquilo jamais seria empecilho para ele.

— Sim, nós vamos dar um jeito em tudo… — Yuri sussurrou, otimista.

Segurou o queixo delicado dele para cima, aproximando seus rostos, com ainda o mesmo sorriso fácil brincando nos lábios, e um brilho animado nos olhos negros. Wolfram o encarou sem titubear. Adorava os olhos de Yuri, tão sinceros, tão abertos, sempre sorrindo para ele. Adorava a maneira como ele acariciava seu rosto carinhosamente, antes de enfim selar seus lábios, com se estivesse apreciando genuinamente cada instante, gravando na memória cada traço seu. Nesses momentos, Wolfram sentia-se amado, de uma maneira que nunca pudera imaginar antes.

Quando Yuri enfim terminou com a distância que os separava, Wolfram soube que nada poderia impedi-lo de prosseguir, sempre em frente, ao lado de Yuri. Aquela felicidade radiante, que sempre se espalhava pelo seu corpo quando estava com Yuri, como se ele fosse um grande sol, iluminando sua vida, ofuscou sua visão, e ele não foi capaz de pensar em mais nada. Apenas em como tinha Yuri em seus braços agora, encharcado, bagunçado, fosse da maneira que fosse… Ele era seu.

E para sempre seria.

Notas finais
Yoo, minna-san, Shiroyuki desu! Ahh, finalmente posso postar esse capítulo, ele estava pronto há dias, e eu estava ansiosíssima para saber o que acharam~ Bem, não sei se tinha mais alguma coisa pra falar, e nossa, to morrendo de sono... e ainda quero escrever~ então, boa noite pra vocês, até o próximo... [Revisado]