Notas iniciais
Olá, aqui é a Editora! Eu não devia estar aqui, mas exclusivamente hoje, pedi este espacinho apenas para expressar meu orgulho para com a Autora. Ela seguiu direitinho o seu castigo, e escreveu o capítulo em uma semana (sendo que eu tinha dado o prazo de duas semanas) *u* Espero que gostem. Boa leitura!

Mamoritai mamorareteru

Quero te proteger assim como você me protegeu

Aenai toki mo zutto

Mesmo quando não podemos estar juntos

Ichibyou zutsu watashi-tachi wa

Cada segundo que passa

Tsuyokunareru kara

Faz com que fiquemos mais fortes



Hiroi yozora yorisou hoshi-tachi miagenagara

Enquanto vemos juntos as estrelas no vasto céu da noite

Kakegai no nai kyou no mutou asu ga uwareru

O amanhã está nascendo longe desse dia precioso

Futari no ai de o yukikau

Eu quero tocar o ar

Kono kuuki daiji ni shite

que flui entre nós dois



Suki to o te yuku kokoro kara

O meu coração se abre

Yasashikunareru

e a minha ternura cresce

Wasurenai kimi to koishite

Eu não me esquecerei o modo como dividimos

ONE kanji aeru nukumori

Nosso calor dessa maneira

Kanjiteru tada hitotsu

Sinto apenas uma fonte de luz

Mirai terasu na no

Iluminando o futuro

~Capítulo 49~



A luz de um poste ao longe piscou, mas não era o suficiente para iluminar aquele local. O ar estava abafado, um pouco quente demais para a primavera, e sufocava. Ele tentava normalizar a sua respiração, e não conseguia enxergar muita coisa, era como se estivesse em um sonho. Um sonho longo, confuso e terrivelmente realista, mas sentia como se já não estivesse mais presente. A dor continuava sendo o maior indício de realidade que possuía no momento.

Via apenas silhuetas se movendo no escuro, e sabia que se tratava de uma briga — ou melhor, de uma pessoa sendo atacada por outras quatro, e revidando os golpes. As vozes gritando, os barulhos secos de golpes sendo distribuídos, e então, os passos deles se afastando e correndo, tudo isso parecia distante e Wolfram não tinha interesse em entender nada, só queria ir embora dali.

Colocou-se de pé, apoiado na parede. Sentia dificuldade ao respirar, suas costelas protestavam, e a dor era latejante. Como iria explicar isso? Era melhor que não ficasse pior do que isso… Não queria que ninguém ficasse sabendo do que acabara de acontecer, e estava decidido a esconder como pudesse, apesar de nem ter conseguido ajeitar os pensamentos na cabeça ainda.

— Oe, você está bem? — Wolfram ouviu novamente a mesma voz de antes, e tinha certeza de que não se tratava de Yuri, afinal — aquele havia sido somente um devaneio seu. A pessoa se aproximou, e o ajudou a se firmar. Wolfram rejeitou a ajuda.

— Quem é você? — Indagou, encolhendo-se, fitando o estranho com desconfiança.

— Ah… — Ele bagunçou os cabelos ou algo assim, e soltou uma risada fraca, a qual o loiro não compreendeu o motivo. — Shuuhei. Asahina Shuuhei. Agora, será que nós podemos sair desse lugar escuro? Aqueles caras não eram bons de briga, mas podem voltar com uns amigos. Para que lado você vai?

— Obrigado pela ajuda, mas eu me viro sozinho agora, você já pode ir. — Wolfram falava com dificuldade, com a região do estômago ainda dolorido. Apoiava o braço ali para aliviar, embora isso não ajudasse em nada. Não enxergava com exatidão, mas tinha certeza de que o outro garoto havia revirado os olhos diante da sua recusa.

— Apenas me diga para que lado vai, não posso deixar você sozinho depois disso tudo. Eu acabei de te salvar, sabe? Minha reputação como herói da justiça ficaria manchada se você se metesse em problemas de novo. E estava meio óbvio que aqueles caras tinham você como alvo, então podem voltar mesmo. – Mesmo com o silêncio do loiro, ele não pareceu se abalar. — Vamos lá, só me diga pra que lado. Se não disser, eu vou te seguir de qualquer maneira. — Ele deu de ombros.

Wolfram não tinha paciência para discutir com esse tipo de gente falante e insistente, então apenas ignorou e começou a caminhar lentamente, de volta na direção da sua casa. Não poderia aparecer na casa de Yuri nesse estado, de jeito nenhum. O garoto, chamado Shuuhei, o acompanhou.

— O seu nome, você não me falou. — Ele comentou, puxando assunto, e Wolfram não gostava disso, mas respondeu mesmo assim.

— Wolfram.

— Hm.. — murmurou, como se analisasse a informação. — Então eu sou da mesma escola que você. Você é aquele Wolfram, não? O Príncipe dos rumores, namorado do catcher do nosso time, que causa alvoroço por onde passa e sempre é capa do jornal da escola.

— Mas o que…? — Wolfram o encarou com incredulidade. Não sabia de tudo aquilo que ele estava falando. Capa do quê?

Agora que estavam em um local mais iluminado novamente, Wolfram conseguia visualizar melhor o seu “salvador”. Ele era bem alto, mais do que Yuri pelo menos, e parecia atlético — a regata preta que ele estava usando deixava isso mais do que evidente. Tinha olhos escuros, aparentemente, e os cabelos também, e mesmo na luz fosca do poste, pareciam de um tom de terra, castanho-avermelhado, ligeiramente ondulados, bagunçados, caindo um pouco acima dos ombros quando ele os soltou para amarrar novamente.

— Você sabe, falam de vocês por toda a escola. — Ele disse, com o elástico de cabelo entre os dentes. Ajeitou os cabelos para amarrá-los novamente em um rabo de cavalo baixo e curto, mas alguns fios insistiam em cair no seu rosto. — Mas é só isso que eu sei, também, não me importo. Mas imagino que deve ser complicada, essa situação… Esses caras, eles resolveram bater em você por causa disso, não é?

— São acéfalos incapazes de enxergar ao redor, cavalos que usam viseiras e se perdem facilmente quando não são conduzidos, e a opinião deles não me atinge…

— Mas os socos atingem, e se eu não tivesse te visto lá de longe, você estaria acabado agora. — Shuuhei não parecia o tipo de pessoa que se deixava impressionar por frases complexas.

— Eu agradeço a sua ajuda — Wolfram achou melhor acabar logo com isso antes que acabasse em dívida com aquele desconhecido. Quanto antes ele fosse embora e Wolfram pudesse esquecer o que aconteceu e dar por encerrada a sua noite, melhor. — Mas… Eu apreciaria muito se você não espalhasse o que aconteceu por aí, entende? — Ele abrandou a voz, e fitou o garoto que andava lentamente ao seu lado.

— Ah, claro, sem problemas. — Ele respondeu, despreocupado. — Nem esquenta com isso. Mas quero ver você conseguir disfarçar. — Apontou para Wolfram, que ainda caminhava com dificuldade e meio curvado.

— Eu consigo dar um jeito. — Andaram mais um pouco em silêncio e ele logo já via sua casa se aproximando. Respirou fundo, e seu plexo solar protestou. Ah, seria um longo caminho para acobertar esse incidente, certamente; no entanto, ele estava determinado. Ninguém, muito menos Yuri, poderia saber do que ocorreu naquela noite.

— É melhor você e o seu namorado tomarem cuidado, esses caras pareciam determinados. — Shuuhei comentou. — Não entendo a motivação deles, mas ainda assim…

— Já sei disso… — Ele não queria mais falar sobre esse assunto, e tentou andar um pouco mais rápido, para acabar logo com isso. — Minha casa é logo ali, você já pode ir.

— Acho que tem razão. — Ele afundou as mãos nos bolsos da calça jeans. Parou de andar, logo abaixo do poste iluminado, e viu Wolfram continuar, no seu passo vagaroso. — Melhoras pra você, Príncipe. Tente não se meter em mais problemas. — Ele deu as costas, e acenou.

Wolfram nem ligou, mais preocupado em conseguir andar normalmente para dentro da sua casa. Aquela pessoa era estranha, isso era um fato, mas ele parecia ser um imã para pessoas estranhas ultimamente, então já não era novidade. Quando o portão abriu-se, assim que os seguranças viram Wolfram na entrada, o estranho garoto já não estava mais ali.



~



Miyako estava sentada do lado de fora, no banco onde sempre ficava durante o horário do almoço. Geralmente ela almoçava ali para não ter que encarar Mariko, e nem atrapalhar Yuri e Wolfram. Porém, dessa vez, diferente de antes, ela tinha companhia. Natsume estava com ela e, apesar de isso ser algo com que ela não estava acostumada, não era desagradável a forma como a conversa parecia fluir facilmente entre as duas. Diferente do usual, Miya não precisava se esforçar para ter algo a dizer e nem se preocupar em como soaria, pois sentia que Natsume compreenderia, e faria o mesmo.

— Pensei em entrar logo para um clube, o que acha? — Natsume disse de repente, entre uma mordida e outra no seu yakisoba pan. Como sempre, as conversas com ela eram dinâmicas e mudavam de tópicos a cada segundo, mas Miyako acompanhava bem — afinal, havia sido criada em meio à Shibuyas, e isso era algo muito mais fácil de lidar do que qualquer uma das reuniões de família dela.

— Acho uma ótima ideia, você já tem algum em mente?

— Tenho sim — Natsume sorriu animadamente, provavelmente pensando em alguma coisa que Miyako não adivinharia nem se tentasse. — Mas e você, já participa de algum?

— Ah, não, não mesmo — Miya riu, balançando os pés que ficavam ligeiramente acima do chão, e olhou para frente, onde via mais alunos da escola interagindo, correndo para todos os lados. Aquela agitação toda já a exauria só de observar. — Eu não sou boa em nenhum esporte, e nenhum dos clubes culturais realmente chama minha atenção… — Ela parecia um tanto vaga ao falar sobre isso, e Natsume imaginou que ela poderia ter vontade de entrar em algum, talvez.

— E a sociedade de mangás? — Ela testou.

— Eu não sei desenhar, então não faria sentido… — Miya respondeu rapidamente, então a ideia já deveria ter passado pela cabeça dela. — E além do mais, a sociedade de mangás da nossa escola só tem garotos que gostam de ecchi e coisas assim…. N-não que isso me incomode. — Ela foi tratando de se corrigir, já que tinha um belo exemplo de “garoto que gosta de ecchi e coisas assim” na sua vida. — Mas, você entende, eu não me… encaixaria, lá. — Ela encerrou a questão, simples assim.

— Hmm… — Natsume entendeu o que ela queria dizer. “Não me encaixo lá” era um motivo bem contundente, mas ela resolveu não insistir no assunto. — Ah, eu duvido você acertar em qual clube eu quero entrar!

— No de vôlei? — Ela indagou, inocentemente.

— Eu até te dou três chances e… — Ela paralisou com o dedo no ar, e voltou-se novamente para Miya. — Pera, pera, oi? Como é que você sabe?

Miya riu do semblante da garota, que agora parecia pensar que ela podia ler pensamentos ou algo do tipo.

— Eu vi a bola de vôlei no seu quarto quando fui lá, só isso.

— Aaah! Tá! Não me assusta assim garota, eu achei que você fosse paranormal por uns segundos! Ia ser muito legal, não ia? — Ela logo se animou com alguma nova ideia. — Se você fosse uma Mahou Shoujo que fez um contrato com um bichinho fofo, e agora tem que recuperar objetos perdidos ou purificar o coração corrompido das pessoas, combatendo o mal com o poder do amor!

— O que isso tem a ver com ler pensamentos?

— Eu não sei… Mas ia ser muito legal!

— E você já joga vôlei? — Ela indagou, curiosa. Raramente ela iniciava assuntos, por achar que podia incomodar as pessoas, mas isso não parecia mais importar tanto agora.

— Desde o fundamental. — Ela anunciou, com orgulho. — Ou melhor, desde sempre. Um amigo meu, que é um ano mais velho, me usava para treinar, então eu acabei aprendendo. Eu fui capitã durante o ginasial… Por meio ano, porque a capitã de verdade se machucou, mas eu fui. Nós não ganhamos nada… Mas foi divertido mesmo assim. Se você quiser, pode vir ver o meu teste! Vai ser amanhã depois da aula.

— Mesmo?

— Claro! — Natsume respondeu com tanta convicção que ela não ousou duvidar, e apenas assentiu, sorrindo. Quando ergueu novamente o rosto, notou um par de cabeças muito familiares que observavam da janela do terceiro andar. Miya sorriu abertamente, e acenou para eles, que perceberam que já não estavam mais incógnitos, e se recolheram.

— Eles estão sempre te olhando de longe, tipo dois stalkers? — Natsume indagou, olhando para o local onde antes, estavam Wolfram e Yuri.

— Eles faziam isso antes, quando eu… Bem, tive uns problemas, e eles achavam que precisavam ficar me cuidando, mas já passou. — Ela fez um gesto de despreocupação com a mão.

— Era com aquela garota? A Barbie?

— Ahn… é…

— E você almoçava aqui sozinha antes?

— Bem, às vezes. Nii-chan e o Wolfram-kun diziam que eu podia ir lá com eles, mas eu não queria, sabe… atrapalhar os dois. — Ela sorriu contidamente, e Natsume entendeu imediatamente o que ela queria dizer, e riu também.

— Mas agora que eu estou aqui, eles podem ir até lá e aproveitar o tempo sozinhos o quanto quiserem. — O sorriso de Natsume aumentou, imaginando.

— Eu espero que eles façam mesmo isso…

A frase ficou incompleta no ar, pois Miyako logo viu, vindo pelo lado oposto, Mariko e duas das suas amigas/seguidoras, falando muito, e bem alto. Teve o impulso de sair e se esconder, porque era isso o que fazia quando percebia que a garota estava se aproximando, mas logo lembrou que Natsume também estava ali, e ela não poderia simplesmente sair e deixá-la para trás.

O olhar maldoso de Mariko logo focou nela, e um sorriso de escárnio ameaçou aparecer, enquanto ela se preparava para andar naquela direção, e sussurrava algo para suas colegas. No entanto, estancou de repente, o sorriso mal-formado rapidamente desaparecendo, ao notar Natsume ao lado do seu alvo.

Ao contrário de Miyako, Natsume não desviava o olhar — mantinha-o firme, como se desafiasse Mariko a vir até ali mesmo. A loira bem que tentou sustentar e encarar de volta, mas Natsume não hesitava, como se dissesse “perdeu alguma coisa aqui?”. Mariko logo se perdeu, e não sabia o que fazer. Olhar feio para as pessoas sempre foi uma arma muito efetiva, mas agora não estava fazendo efeito.

Diante da derrota simbólica, ela saiu marchando e bufando, como se nada tivesse a abalado ali. Natsume soltou uma risada triunfante, e olhou para Miya, que ainda parecia meio chocada com aquela briga silenciosa de olhares.

— Você vai ver, nós vamos acabar com essa Cabelo de Palha de Milho logo, logo…

— Você não gosta mesmo dela, não é? — Miyako indagou.

— Desde a primeira vez que senti o cheio de água oxigenada da cabeça dela. — Ela afirmou. Miya não podia deixar de rir. A determinação de Natsume era tão contagiante que ela até conseguia acreditar que podiam fazer alguma coisa.



Alheios à conspiração das duas garotas lá embaixo, Wolfram e Yuri se afastaram da janela e iam caminhando na direção do corredor. Agora que, aparentemente, não precisavam mais ficar olhando Miyako durante os intervalos, para que Mariko não a atacasse, como ela andava fazendo sempre que tinha chance desde que namoro dos dois havia se tornado público, agora eles se encontravam meio perdidos, como dois pais cujo filho acaba de sair de casa.

— Hoje eu já vi dois garotos de olho roxo passando pela escola. Estranho nee? — Yuri continuou alguma conversa aleatória que estavam tendo antes. Wolfram fingiu não dar atenção para esse comentário em particular.

— Mesmo? Esquisito.

Yuri permaneceu só mais alguns minutos em silêncio, pensando em algo. Como já haviam almoçado, os dois andavam meio a esmo pelo corredor. Yuri entrelaçava de leve os dedos de Wolfram nos seus, brincando com eles enquanto caminhavam. Wolfram usava mangas compridas para esconder os arranhões nas mãos, decorrentes do evento da noite passada, e só assim Yuri ainda não havia reparado em nada.

— Wolf… Você acha que o clube de artes está usando o último andar? — Ele indagou de repente.

— Como é que eu vou saber? — Wolfram continuou caminhando normalmente. — Por quê? Você quer algo de lá?

— Eu quero… Bem, não exatamente de lá, mas… — Ele olhou para o teto, como se estivesse apenas falando distraidamente sobre qualquer assunto. Wolfram franziu a testa, desconfiado. — Lembra daquele lugar que eu te mostrei?

— Lugar…?

— Embaixo da escada… — Yuri acariciou de leve com o polegar, os dedos de Wolfram. Era óbvio que ele lembrava, ora! Era o melhor lugar daquela escola (na sua simples opinião) e que, ultimamente, eles não estavam mais tendo oportunidade de visitar. Só que o orgulho de um Von Bielefeld não era algo tão fácil de lidar.

— Não recordo, não… Do que você está falando, hm? Está de novo fazendo propostas indecentes para alguém como eu! — Ele baixou a voz, como se estivesse dando uma lição de moral. Apesar disso, não soltou os dedos de Yuri em momento algum. — Não aprende nunca, não é, fracote?

— Então por que você não me ensina? — Ele sorriu de canto em resposta, erguendo ligeiramente uma das sobrancelhas. Maldito, onde é que ele aprendia aquelas coisas? Wolfram tentou disfarçar as borboletas que invadiram o seu estômago com aquele rápido vislumbre.

Sem esperar por resposta, Yuri depositou um singelo beijo no rosto de Wolfram, e aproveitando a perturbação momentânea causada pelo ato inesperado, puxou o loiro pela mão, na direção da escadaria, sem nem dar tempo para ele protestar. O ato certamente assustou Wolfram, mas ele não reagiu. O esforço repentino havia feito seu abdômen doer de novo, e ele temia que Yuri percebesse isso a qualquer momento.

Apesar de tudo o que já havia ocorrido naquela escola, não existiam mais grandes atos de desaprovação entre a maior parte dos alunos. Enquanto eles agiam como o casal de namorados que eram, na escola, o resto dos estudantes já não notava mais nada — se importar gastava energia demais. Era como se eles fossem qualquer outro casal que troca sinais de afeto em público, ou até mesmo, parte da paisagem. Ah, lá estão Wolfram e Yuri de novo, caminhando juntos, nenhuma novidade. As pessoas se acostumam rápido, até. Então, enquanto Yuri e Wolfram passavam correndo pelos corredores de mãos dadas, ninguém dava a isso mais atenção do que o necessário. Salvo algumas poucas exceções.

Como esperado, o corredor do último andar estava tão vazio como deveria estar, e Yuri nem mesmo titubeou ao arrastar Wolfram direto para a pequena porta debaixo da escada que levava ao terraço, seu pequeno esconderijo secreto.

A despeito da falta de uso, o pequeno espaço estava mais limpo do que ele podia lembrar. Mas raramente se usava aquele lugar, e Yuri até desconfiava que ninguém mais soubesse da existência dele. Wolfram se remexeu, desconfortável, ao notar que Yuri tinha percebido, e tomou a frente para entrar no cômodo apertado, ajeitando-se lá na melhor forma que podia.

— Talvez eu tenha algum tempo livre, já que alguém está sempre ocupado, e talvez eu tenha vindo até aqui na semana passada e tirado toda a poeira e as teias de aranha. Talvez. Mas isso não quer dizer nada. Eu só estava entediado.

— Você... Wolf, você limpou esse lugar? — Yuri repetiu, incrédulo, enquanto subia para o espaço reservado a ele, e fechava a portinhola atrás de si. A imagem de Wolfram fazendo qualquer tipo de serviço braçal como aquele simplesmente não fazia sentido na sua cabeça. Mesmo quando era dia dele nas tarefas da sala de aula, Yuri acabava sempre ficando para trás e ajudando, porque Wolfram não sabia nem como se usava uma vassoura direito.

— Não! Eu só… dei uma ajeitada. Porque se nós usamos esse espaço, é melhor que ele esteja limpo! Não que eu esperasse usar… E-eu só estou querendo dizer que como nas escolas japonesas, são os alunos que providenciam a limpeza dos locais que utilizam, isso era apenas o esperado. É isso. Nada demais. Você veio para cá para ficar questionando os meus hábitos de limpeza?

— Não, não, claro que não! Eu vim aqui para ficar com você. — Ele sorriu amplamente, e atirou os braços ao redor do corpo magro do namorado, apoiando-o na parede logo atrás de si. Wolfram cerrou os olhos, deixando-se abraçar. Doía um pouco. Ele sentia o cheiro de Yuri impregnando-o, tão próximo, e não pôde evitar um pequeno sorriso que acabou com o seu ar de irritação e o fez esquecer a dor fraca de antes. Sentia tanta falta disso que era quase insano. Ele provavelmente havia ficado mal-acostumado, e agora sentia-se como um abstinente tendo mais uma dose do seu vício depois de muito tempo. Respondeu ao abraço de Yuri entrelaçando seus braços ao redor do pescoço dele, e foi assim que ele soube que estava tudo bem.

— Fracote trapaceiro… Por onde você tem andado? Eu senti sua falta... — Wolfram reclamou, agarrando-se aos cabelos de Yuri como forma de protesto, enquanto ele repousava o rosto no seu ombro, acariciando de leve seu pescoço com a ponta do nariz. Estava evitando descaradamente a questão.

— Pêssegos…

— O quê?

— Você tem cheiro de shampoo de pêssego, Wolf. — Ele começou a distribuir beijos por todo a extensão de pele exposta, fazendo Wolfram deixar escapar um arquejo que denotava ligeiramente aprovação. No fundo da sua mente repousava a ideia de que Yuri estava enrolando-o para não ter que responder, mas tinha que admitir, ele também estava muito suscetível a ser enrolado no presente momento.

Como o espaço disponível era restrito, suas pernas acabaram tendo que se encaixar de uma maneira ou de outra. Yuri fez com que Wolfram deitasse, e sorriu quando ele não demonstrou recusa. Tinha tanto medo que ele o rejeitasse por estar tanto tempo longe. Mas era por uma boa causa, afinal! E logo valeria a pena...

Apoiou os braços da maneira que podia, para se erguer sobre o corpo de Wolfram, e se aproximou lentamente, sentindo as mãos dele gradualmente o tocando pela cintura, até as costas, pedindo para que se aproximasse mais. Fechou os olhos e tocou de leve seus lábios, e ambos os garotos suspiraram ao mesmo tempo, antes de colocar de lado todos os pensamentos racionais e aprofundar de uma só vez o beijo tão esperado. Agarrou-se ao gakuran de Yuri com força, o que fez suas mãos feridas latejarem, e correspondeu com igual intensidade às tentativas dele de invadir sua boca com a língua, roubando todo seu fôlego. Seu corpo se eriçou com a proximidade na qual se encontravam. Era como um barril de pólvora, e depois de tanto tempo acumulando, qualquer faísca poderia fazê-lo explodir.

Yuri se afastou minimamente, o bastante para respirar, e desceu a mão pelo corpo de Wolfram, sem quebrar o contato visual. Adorava ver o rosto afogueado, os cabelos em desordem, os olhos úmidos cintilando como esmeraldas… A respiração quente e cadenciada batia em seu rosto. Uniu seus lábios novamente, apenas para ter certeza de que não estava sonhando. Não seria a primeira vez, aliás, que devaneava dessa forma.

— Y-yuri… Wolfram suspirou baixinho, sentindo as mãos quentes dele percorrendo todo o caminho pelo seu tórax, invadindo-o por baixo da camisa. O local ainda estava dolorido, mas ele não ligava. Não, a dor nem mesmo passava pela sua cabeça agora.

— Wolfram!

Ele abriu os olhos, sobressaltado. Yuri não costumava chamá-lo pelo seu nome completo por nenhum motivo, e sua voz estava alarmada. Primeiramente, não entendeu o motivo da mudança tão brusca de humor no namorado, mas quando seguiu a linha de visão dele, pôde ter uma ideia.

No seu abdômen, uma tênue mancha escura se projetava. Como sua pele era bem clara, ficava ainda mais evidente, mesmo que o hematoma fosse recente, e ainda estivesse fraco. Wolfram não havia percebido que havia deixado marcas, pensava que era apenas a dor que restava como lembrete da nada agradável noite anterior, mas ao que parecia, não era bem assim.

— I-isso não é nada, Yuri. — Ele tentou sorrir, sem muito sucesso. Afastou a mão de Yuri que ainda segurava sua camisa para cima, e tratou de esconder mais uma vez as marcas no seu corpo.

— Você está com um machucado ali! — Ele repetiu, preocupado. Repentinamente, pareceu reparar em outra coisa. Segurou a mão que Wolfram usava para conter o seu pulso, e virou na sua direção. — A sua mão também, está toda esfolada. O que aconteceu? Você se machucou!

— Eu já disse, não foi nada. Eu só… caí… — Wolfram tentou por tudo no mundo sustentar o olhar de Yuri, para garantir que ele não identificasse a sua mentira, mas não aguentou. Ao fitar diretamente os orbes negros, tão repentinamente sérios e genuinamente aflitos, sabia que teria que esforçar ao máximo para esconder aquilo dele.

As engrenagens do cérebro de Yuri pareciam trabalhar ruidosamente. Ainda segurava Wolfram pelo pulso, e o fitava como se estivesse prestes a chegar a uma conclusão.

— Me diga o que aconteceu, Wolfram. Por favor. Alguém fez isso com você? — Seu tom de voz era sério, grave. Wolfram permanecia de cabeça baixa. Quase nunca ouvia esse tom, e sempre esperava não ter que ouvir de novo. Yuri não precisava desse tipo de preocupação.

— Não, não seja estúpido, Yuri! Por que alguém faria isso comigo? — Sua voz falhou na última sílaba, e ele se sentiu miserável por não ser capaz de mentir para Yuri. Logo ele, que sempre se gabou da sua capacidade de enganar qualquer um com um sorriso falso, principalmente quando vivia em Shin Makoku, e precisava aparecer diante das câmeras. O Japão havia o deixado fraco. Yuri o deixava fraco…

— Quem fez isso com você?! — A voz de Yuri se ergueu, e Wolfram estremeceu. Não de medo, mas de vergonha. Yuri estava preocupado com ele, e tudo o que ele fazia era mentir. Mas não havia outra maneira! Se contasse a verdade agora, Wolfram sabia que ele iria querer ir atrás daqueles garotos e não sossegaria até descobrir quem eles eram, e tentaria fazer justiça com as próprias mãos. Yuri era tranquilo e sossegado, mas ele sabia muito bem que ele não tolerava nada que julgasse errado, e jamais admitiria aquilo que aqueles garotos fizeram com Wolfram. Logo agora que ele estava perto de voltar para o time, e precisava disso para conseguir a bolsa para a faculdade. Wolfram não arruinaria isso com um problema seu, fazendo Yuri procurar por confusão quando era evidente que isso não levaria a nada. Não, ele mentiria. Mas era uma mentira para protegê-lo. Então era válida, correto?

— Eu caí. Caí enquanto andava a cavalo, ontem à tarde. — Ele disse, com o corpo completamente rígido, firme, sem balançar, sem gaguejar. No entanto, não conseguia olhar diretamente para Yuri.

— Mas, como? — Ele parecia incrédulo. — Você cavalga muito bem! Não cometeria nenhum erro bobo a ponto de cair e se machucar dessa maneira…

— Quem sabe eu não estava distraído me preocupando com certo fracote que não me liga, não me manda uma mensagem sequer e não me dá mais nenhuma satisfação, hm? Talvez eu estivesse pensando nele porque eu estava com saudades! Ou porque sou muito idiota mesmo!

Yuri não teve resposta para isso. Wolfram sabia que havia virado a mesa com maestria, e mesmo que se sentisse culpado por usar os sentimentos de Yuri daquela forma, uma parte do que dizia era verdadeira, então não foi tão difícil. Ele empurrou o peito de Yuri com a mão, e passou por ele para sair pela estreita porta do armário.

— Wolfram, espera…

— Está tudo bem agora, Yuri… — Ele abrandou a voz. Não era justo deixar que Yuri pensasse que ele ainda estava bravo, apenas para guardar um segredo. Não era o que ele queria. Ele voltou, e beijou o rosto de Yuri, carinhosamente. — Está tudo bem. Vamos, é melhor voltar antes que o intervalo termine e deem por nossa falta.

— Certo...

Ainda mergulhado em pensamentos, Yuri seguiu Wolfram pelo corredor. Agora, as marcas nas mãos dele pareciam gritantes demais, e ele se perguntava como é que não havia reparado nelas antes. Aquele assunto não estava terminado, e ele não acreditava na história da queda do cavalo. Aqueles hematomas, Yuri já havia convivido o bastante com os garotos do time no vestiário para saber como ficavam depois de uma briga séria. Se Wolfram não queria contar agora, tudo bem, mas ele tinha certeza de que algo havia acontecido. E não permitiria que isso passasse em branco.



Notas finais
Olá, meu povo? Surpresos por me verem tão cedo? Pois é, eu também '-' Não acreditei quando vi o capítulo todo pronto na minha frente, mas tenho que admitir, é bem satisfatório ter conseguido terminar tão rápido XD dessa vez dei um jeito de conseguir um tempo pra escrever mais ~ E também porque tinha certas pessoas *cofcof* me pressionando, e não me deixavam fazer outra coisa além de escrever u-u Mas enfim, acho que todos vocês merecem esse capítulo adiantado... já que o último capítulo foi tenso, e vocês leitores que eu tanto amam, tinham direito de saber o que acontecia com o Wolfram.... Aliás eu preciso perguntar. O que é que vocês pensam de mim??? Porque a quantidade de pessoas que achou que eu ia fazer os caras do capítulo anterior abusarem do Wolfram me assustou o-o Não era nada disso não, minha gente, isso nem chegou a passar pela minha cabeça! Vocês tem uma mente aguçada meeesmo, porque eu nem tinha pensado por esse lado. Eles só iam bater nele (só isso) e as coisas piores que poderiam acontecer, e que eu tava pensando em colocar, eram só mais socos...... Mas enfim~ mesmo só com isso, acho que teve muita gente aflita pelo Wolfram. Temos então, toda essa tensão, e a chegada de um novo personagem que eu criei pra esse novo arco que se inicia~ quero muito saber o que acham dele XD e mais tretas vindo por aí~ aguardem o/ Espero que tenham gostado do capítulo ~ Até o próximo o//