mugen ni ikitai mugen ni ikiraretara subete kanau

Eu quero viver para sempre; se eu pudesse viver para sempre, tudo se tornaria verdadeiro

demo ironna mono ga atashi o oikondeku

Mas várias coisas me encurralam num canto

ikiru nokori jikan yume no zahyou yukue

O tempo que me resta para viver, as coordenadas do meu sonho, o lugar onde eu estou

zenbu daiji na mono na no ni

Mesmo que tudo isso seja precioso para mim



aruitekita michi furikaeru to

Olhando para trás para o caminho que andei

iya na koto bakkari demo uunzari da yo

Já tive o bastante de ter apenas as coisas que eu odeio

fureru mono o kagayakashiteyuku

Deixando que as coisas que eu toco brilhem

sonna michi o ikitekitakatta yo

Aquele tipo de caminho é o tipo que eu queria viver



~Capítulo 50~

Aquele lugar já era bem familiar para Yuri. Tinha o cheiro de menta, dos sprays usados nas contusões, de suor, e do couro das luvas e das bolas. Ele passou direto pelos armários dos vestiários, onde ainda alguns remanescentes mais atrasados do treino do dia o olhavam surpresos. Não esperavam vê-lo ali — os seus antigos companheiros de time, que se diziam seus amigos, mas lhe viraram as costas assim que se encontrou em dificuldades. Mas Yuri não estava pensando neles, agora.

Seguiu em direção à sala pequena que ficava no fundo do vestiário, e bateu na porta. “Entre”, ele pôde ouvir, e adentrou o local, sorrindo parcialmente para o treinador do time de baseball, e também irmão mais velho do seu namorado, Conrad. Já fazia algum tempo em que eles haviam conversado, mas ele não parecia muito surpreso em vê-lo ali – ou, pelo menos, não demonstrava.

— Oi, Conrad…. Podemos conversar? Se estiver ocupado eu volto outra hora… — Ele disse, colocando apenas metade do corpo para dentro da sala. Conrad ainda sorria, quando se levantou para recebê-lo.

— Claro que pode, Yuri, entre logo. — Ele o puxou para um abraço de cumprimento, e o fez sentar-se na cadeira à frente da sua mesa. — Está com algum problema? Parece um pouco tenso…

— Na verdade, eu estou sim… Sinto muito por sempre procurar por você quando algo acontece, mas…

— Eu não ligo para isso, você sabe, Yuri. Na verdade, me alegra saber que você recorre a mim quando está em dificuldades. Já o considero da família há muito tempo. — Ele deu um tapinha amigável nas costas do garoto, e voltou a se acomodar na sua cadeira. — Seria muito bom se o meu próprio irmão mais novo também fosse sincero assim quando diz respeito aos seus próprios problemas, de fato.

— Ah sim… É exatamente sobre isso que eu vim falar com você, Conrad… — Yuri levantou o olhar, bastante sério. Esse não era o seu usual, e Conrad já havia percebido isso desde o momento em que ele entrou por aquela porta. — Você sabe se aconteceu alguma coisa com o Wolfram recentemente? Ele anda… agindo estranho… — Ele se refreou antes de falar sobre os hematomas. Se era algo que Wolfram vinha escondendo com tanto afinco, era evidente que não queria que as outras pessoas ficassem sabendo, e, conhecendo a personalidade do seu namorado, sabia que ele fazia isso para evitar preocupações e uma agitação ainda maior dentro da sua família, então, por hora, ele respeitaria isso. Tudo o que ele queria era uma resposta para o comportamento estranho de Wolfram. A verdade sobre aqueles machucados, apenas o próprio poderia oferecer, quando se sentisse à vontade.

— Ele tem… evitado você ou algo assim? — Conrad adivinhou parcialmente, e Yuri assentiu. — Eu… receio que possa ser por culpa minha… Bem, sobre aquele favor que você me pediu, recorda?

— Ah, sim… — Yuri lembrou sobre o seu trabalho e o acordo que havia feito com Conrad e, de repente, fazia sentido que Wolfram estivesse evitando-o nas semanas anteriores, embora isso ainda não justificasse os machucados. — Você… disse alguma coisa para ele?

— Eu só tive uma conversa que já queria ter há algum tempo… — Conrad sorriu divertido, embora Yuri não entendesse por quê. — Não era nada demais, não precisa se preocupar. Foi apenas o suficiente para ele ficar constrangido por algum tempo.

— Hm, certo… — Yuri assentiu, pouco convencido.

— Tem algo mais além disso preocupando-o? — Conrad indagou, notando a incerteza do garoto.

Yuri pensou por mais um segundo. Não sabia exatamente qual era o problema que Wolfram tentava tanto esconder, mas não queria revelar isso para Conrad e criar uma confusão ainda maior. E se ele tivesse mesmo apenas caído quando andava a cavalo? Jamais perdoaria Yuri por sair fofocando sobre ele por aí. Não que ele acreditasse nisso, de qualquer forma. Porém… Tinha suas suspeitas de que esse assunto estava relacionado àqueles idiotas que não aceitavam seu relacionamento, ou algo assim, e se fosse esse o caso… Bem, Yuri preferia cuidar disso do seu jeito.

— Não, não tem mais nada… Acho que era isso mesmo. — Ele riu, sem graça, levando a mão à nuca. Conrad o fitou por alguns segundos, parecendo tentar detectar qualquer coisa de errado, mas sem ter certeza de nada por enquanto.

— Ah, eu tenho uma notícia para você, Yuri. — Sorriu então, relaxando o clima do ambiente quase que de imediato. Yuri nem havia reparado que estava com os ombros rígidos até aquele momento, e o alívio da tensão foi nítido, ao mudar de assunto. — Uma notícia não, é mais como um pedido. Espero que seja bom para você…

— O que é?

— Você não acha que já está mais do que na hora de voltar para o time?

Yuri se surpreendeu com o que Conrad disse. Ele realmente sentia falta de jogar, e já estava longe das quadras há mais tempo do que se lembrava de já ter estado em qualquer outro momento da sua vida. Outros assuntos o distraíam por hora, mas era evidente que ele sentia falta. Perdeu a fala por meio segundo, antes de conseguir reagir.

— Mas… já? Você tem certeza de que eu devo, Conrad?

— Claro que sim! Você se forma esse ano, Yuri, não deve desperdiçar as suas chances por causa de outras pessoas. Ou você não quer mais jogar?

— Eu quero, sim! É só que… eu não quero deixar ninguém desconfortável com a minha presença, nem nada assim… — Ele baixou o olhar. Yuri não era tão burro a ponto de não perceber os olhares estranhos e os comentários velados dos outros membros do time. Diferente de outros estudantes da escola, que já haviam se acostumado com a situação, ou simplesmente não ligavam mais, os jogadores pareciam sentir-se pessoalmente ofendidos com o fato de Yuri namorar Wolfram.

— Eu entendo que você se preocupe com seus colegas, Yuri, mas… posso ser sincero? Não como técnico do time, mas como seu amigo. — Ele encarou Yuri diretamente, sem dar a ele a chance de hesitar. — Não é hora para pensar no bem-estar dos outros. Pode soar um tanto egoísta, mas esse é o seu último ano na escola. Não haverá outra oportunidade para jogar em um campeonato, e além disso, eu sei que você almejava ganhar uma bolsa de estudos através do esporte. Você tem certeza de que vai abrir mão disso por causa de outras pessoas, que nem mesmo se importam com você?

— Conrad… eu… você tem razão… — Ele baixou o rosto, pensando sobre o que o mais velho dizia, e então, ergueu novamente, dessa vez, com um esboço de sorriso motivado se formando. — Não tem sentido continuar a se esconder, não é? E eu quero muito voltar.

— Está certo. — Conrad parecia muito satisfeito. — Esse time não tem sido a mesma coisa sem você. Teremos nosso catcher de volta semana que vem, está bem assim?

— Sim, perfeito! Eu termino meu trabalho de meio-período ainda essa semana, então posso ir. Mas… Sobre os outros…

— Não se preocupe com nada disso, Yuri, eu resolvo isso. Você já deu tempo suficiente para todos absorverem a informação, o que foi muito generoso da sua parte, mas não pode continuar assim para sempre. Eles precisam amadurecer e saber aceitar certas coisas também. Conto com você, ok? — Ele estendeu a mão, lançando seu melhor sorriso confiante. Yuri correspondeu ao cumprimento, apertando de volta. – E, sobre o Wolfram… Bem, confie nele. Se ele tem algum problema, ele vai tentar esconder o máximo que puder, mas se você souber como chegar até ele, ele se abrirá. E eu sei que ele é incapaz de conseguir esconder qualquer coisa de você por muito tempo. Wolfram é um livro aberto, se você souber como lê-lo.

— Está bem... — Yuri assentiu, encontrando um consolo nas palavras do mais velho. Era uma questão de saber como chegar no lugar certo, e Wolfram iria dividir os seus problemas com ele.

Naquele momento, desejou, no futuro, se tornar alguém como Conrad. Alguém capaz de encorajar, motivar e acalmar outras pessoas com apenas algumas palavras. E que conseguia entender Wolfram sem esforço.

Ao sair do vestiário, Yuri sentiu como se um peso tivesse sido retirado das suas costas. Ele nem havia reparado no quão tenso andava se sentindo, e, para alguém como ele, isso era algo bastante raro de acontecer. Respirou bem fundo, e ao olhar para frente, notou uma pessoa parada no corredor, esperando-o. Wolfram. Avançou até ele, sentindo o coração pesar. Queria tanto poder ajudá-lo, e estava se esforçando de verdade para vê-lo feliz, mas parecia que qualquer esforço seu era inútil na tentativa de tirar daquele rosto tão lindo a expressão carregada.

— Me disseram que você tinha vindo até aqui falar com o meu irmão. — Ele disse, assim que Yuri se aproximou. Parecia preocupado, e Yuri sabia que ele devia estar pensando se ele não havia contado sobre os hematomas para Conrad.

— Sim... — Estendeu a mão, acariciando de leve os cachinhos loiros que caiam sobre as orelhas de Wolfram. O cabelo dele parecia ligeiramente mais comprido do que o usual. — Ele disse que eu deveria voltar para o time.

— Ah! — O rosto dele logo se iluminou. A verdade é que ele se sentia culpado por privar Yuri daquilo que ele tanto gostava. — Então você vai voltar?

— Semana que vem. — Yuri informou, com um sorriso. Segurou a mão de Wolfram naturalmente, como estava acostumado a fazer quando andavam pelos corredores da escola durante os intervalos. Pessoas passavam por eles, é claro, mas nenhum dos dois notava qualquer coisa.

— Mas… E os outros idiotas? Já sabem?

— Não sei, nem imagino como vai ser a reação deles… Mas já está mais que na hora, certo? — Ele sorriu. Essa sensação de familiaridade que ele tinha com a ideia de voltar a treinar e jogar como sempre dava a impressão de que tudo estivesse voltando aos seus eixos, e isso o tranquilizava, em parte. — Espero que eu não tenha enferrujado demais…

Wolfram assentiu, feliz por Yuri, e sorriu. Repentinamente, uma figura familiar captou seu olhar, e ele sentiu o sangue todo fugir do seu rosto. Era diferente vê-lo sob a luz do dia, mas ele tinha certeza de quem se tratava, sem precisar confirmar, porque o garoto olhava para ele com ar ligeiramente surpreso também. Não era ninguém além da pessoa que o salvou naquela noite que ele mais queria esquecer, e que estava ali, do outro lado do corredor. Shuuhei, era o nome dele? Usava o mesmo gakuran preto que os outros, porém aberto, e com uma camisa vermelha que se destacava por baixo. Ele não estava mentindo quando disse que estudava ali, afinal. Wolfram não precisava daquilo, logo agora... Tentou ignorar, mas era tarde — o garoto o reconheceu também. Ele inclinou a cabeça em um cumprimento, sorrindo logo depois.

Sem diminuir o passo, ele olhou para Yuri, esperando que ele não tivesse reparado naquilo, mas ele estava olhando fixamente para Shuuhei, com o semblante igualmente chocado. Assustou-se ao ver Wolfram fitando-o naquele momento. — Eu não conheço ele! — Yuri imediatamente foi dizendo, apertando a mão de Wolfram com mais força, e andando mais rápido automaticamente. Wolfram não entendeu. Aquela ia ser a sua fala!

— E-eu também não.

Os dois não se olharam, e voltaram a caminhar, com aquele clima estranho de pretender que estava tudo bem.

Será que ele percebeu?” Ambos compartilharam o mesmo pensamento sem saber.

Wolfram esperava que Yuri não tivesse reparado que Shuuhei tinha-o cumprimentado. Se ele perguntasse de onde o conhecia, não teria como responder. Ele jamais contaria o que aconteceu naquela noite, para ninguém.

Yuri, por sua vez, xingava Asahina-kun mentalmente. Afinal, eles trabalhavam juntos no Little Shimaron, e ele tinha pedido encarecidamente, que ele não falasse com ele na escola, ao menos por enquanto, para que Wolfram não desconfiasse de nada! Parecia que ele não tinha entendido muito bem essa parte.

E Shuuhei apenas continuou onde estava, e nem pareceu reparar no fato de que havia sido deliberadamente ignorado pelos dois.

~

— Você já tá sabendo, né, Nishimura, sobre o Shibuya?

Os dois colegas que estavam por perto e ouviam a conversa olharam para o Pitcher, sabendo que ele odiava Yuri com todas as forças, desde um evento ocorrido no passado. O outro, porém, pareceu não se abalar.

— Ele vai voltar. Sim, eu o vi ontem, entrando na sala do técnico. — Ele comentou, evasivo, trincando os dentes de irritação.

— Parece que acabou o nosso sossego. — Um dos segundanistas comentou com descaso, terminando de atar os seus tênis. — Agora, temos que tomar cuidado no chuveiro e no vestiário.

Os outros três riram, Nishimura sem muito humor. Ele adorava falar mal ou criticar outras pessoas, mas quando se tratava de Shibuya, ele ainda tinha certo receio. Jamais esquecera do medo que sentiu ao ver aquele ar ameaçador e quase assassino emanando do colega de time. Se possível, queria evitar ter um encontro como aquele novamente.

— Tanto faz, desde que ele não chegue perto de mim.

— Mas é sério! — Outro dos garotos, dessa vez um calouro, parecia chocado. — Eu não conheço esse Shibuya, mas o que é que o treinador tá pensando, colocar alguém assim no nosso time! E se ele fizer alguma coisa?

— Eu não sei o que ele pode fazer, mas, sei lá, imagina se ele aparece se agarrando com o namorado por aí? Eu não quero ver isso.

— Eu soube… Que uns garotos do terceiro ano andaram encontrando o namorado do Shibuya… Aquele príncipe, sabe? E resolveram dar uma surra nele.

— Sério? Ah, cara eu queria ver isso! É bom pra eles aprenderem.

— Na verdade, não saiu assim tão bem. — O garoto completou — Alguém apareceu e acabou com tudo, bateu em todos eles…

— Em todos eles? Então são aqueles da 3-B que apareceram de olho roxo? — Nishimura pareceu chocado, por um momento. — Foi o Shibuya que bateu neles?

— Parece que não, foi outro cara…

— Ah, então o viadinho loiro tem fogo no rabo, tá dando pra mais de um ao mesmo tempo. — Todos riram da piada infame, alguns bem alto, enquanto o autor ria de canto orgulhoso pelo seu feito. As risadas, porém, cessaram, ao ouvir o barulho da porta do vestiário se abrindo, e por ela entrou Conrad, o treinador do time.

— Posso saber o motivo de tanto bom humor? — Ele comentou, divertido. Eles haviam perdido os últimos jogos, então não era como se risadas fossem comuns de se ouvir por ali ultimamente. Costumava se dar bem com todos os seus jogadores, e eles também gostavam de interagir com ele, pois, apesar de ser mais velho, não era exatamente a figura de autoridade com a qual eles estavam acostumados, por ser mais acessível, compreensivo e cordial. Os garotos riram, alguns sem graça, antes de prosseguir.

— A gente tava falando sobre a notícia de que… Bem, o Shibuya vai voltar a jogar. É verdade isso, treinador? — Um deles se pronunciou.

— Talvez? — Conrad sorriu, enigmático. — Por isso vocês riam? Estavam felizes com a notícia, então?

— Não exatamente… — Nishimura desviou o olhar, desconfortável.

— É que… tem certeza de que é uma boa ideia, treinador? — O calouro se manifestou. — Porque, sabe, ele é daquele jeito, e tudo mais…

— De que jeito, Yonezou? Não estou entendendo aonde você quer chegar. — Conrad parecia desafiar, e o garoto mais novo se encolheu, confuso. Para ele, parecia tão óbvio que aquilo tudo era errado de alguma forma, que era difícil argumentar. Era errado e ponto, certo? Não havia alternativa.

— O que nós achamos, aqui… — O outro garoto resolveu ajudar — É que o Shibuya não devia jogar. Ele saiu por conta própria certo? Se ele voltar agora, só vai nos deixar desconfortáveis.

— Me ajudem a entender a lógica de vocês, garotos — Conrad parecia realmente intrigado — Estão dizendo que não gostam do Shibuya, e que a presença dele incomoda vocês, correto? Dessa forma, para evitar isso, querem que ele fique fora do time.

— É… é isso mesmo. — Os garotos resmungaram, alguns sem entender por que Conrad falava aquelas coisas.

— Porém, antes de toda essa comoção ao redor da relação de Shibuya com outro garoto acontecer, nenhum de vocês tinha nada contra ele, estou certo? — Ele olhou para cada um, esperando por uma resposta.

— Eu nunca gostei muito dele. — Nishimura resmungou, do seu canto.

— Eu nem conheço ele… — Yonezou admitiu.

— Ah, ele até que era legal…

— Ok, então eu devo presumir que, com exceção de Nishimura que nunca se deu bem com Shibuya, a implicância de vocês tem como base os boatos, os julgamentos infundados e preconceitos de cada um.

— Não é bem isso, treinador! — Um deles tentou se defender. — Quer dizer, o senhor é homem, vai entender! Ninguém aqui quer um viad… um ho-homossexual, olhando, ou querendo, sei lá, fazer alguma coisa?

Conrad suspirou, apertando a fonte do nariz. Aquilo parecia pior do que ele supusera a princípio.

— Sentem-se todos vocês aqui — Ele chamou também os jogadores que estavam mais afastados e não participavam da discussão. — Vamos conversar.

— Treinador, sério, não precisa de tudo isso! A gente só tá falando o que pensa…

— Então me deem licença para que eu tente elucidar a cabeça de vocês. Não é bom ficar preso a pensamentos equivocados somente porque alguém disse a vocês que eles estão corretos. Eu não estou aqui querendo ensinar somente baseball a vocês. Esta é uma escola, e se aqui vocês não aprenderem também sobre valores e ética, esses três anos passados aqui terão sido em vão.

— Tá, mas treinador… Ninguém aqui é obrigado a conviver com o Shibuya se não quer! Ele pode até ser um bom jogador… e a gente tá perdendo os jogos… m-mas isso não muda nada!

— Certo, o problema aqui é o fato de que Shibuya Yuri é gay, é isso? — Os garotos todos pareceram incomodados com a escolha de palavras de Conrad, e nenhum deles respondeu. — Sendo assim, eu devo alertar que ele já é comprometido, e não vai dar em cima de nenhum de vocês.

— Mas mesmo assim, não é legal, treinador… q-quer dizer, nada contra, mas, sabe…

— Não, eu não sei. O que me ocorreu agora, é que o problema de vocês não é com a orientação do Shibuya, mas com os pensamentos que estão dentro das suas cabeças. Vocês têm medo de que ele enxergue vocês da mesma maneira que vocês enxergam as meninas. Com desejo, mas com desrespeito, desconsideração e menosprezo. Acredito que ninguém goste de ser visto assim, não é? As garotas também não gostam. — Os garotos se entreolharam, e então baixaram a cabeça, constrangidos, e ninguém disse nada. A verdade era que as palavras de Conrad os acertaram em cheio. — Se vocês têm receio de que andar perto dele irá fazer com que vocês tenham dúvidas sobre si mesmo, não obrigarei ninguém a ficar.

— Não, não é isso!

— Ótimo. — Conrad assentiu. — Espero que tenham entendido. Amanhã não teremos treino, portanto quero que cada um de vocês descanse, relaxe, e pense no que foi dito aqui hoje. Pesem suas prioridades e os seus conceitos, avaliem se eles estão mesmo corretos. E, se alguém aqui acreditar que ainda está certo em julgar Shibuya Yuri por amar outra pessoa, então, venha até mim, e argumente. Eu aceitarei muito bem suas opiniões, mas quero convicção, e não meia dúzia de xingamentos e ideias aleatórias, ofensivas e sem fundamento, como as que tenho ouvido por aqui. Eu estou treinando homens, não pirralhos sem nada na cabeça. Entendido?

— Osu! — Eles entoaram em uníssono, como estavam acostumados a responder em treinamento.

— Quem desejar sair, pode ficar à vontade. — Ele continuou. — Mas o Shibuya irá ficar. E qualquer comentário ofensivo que eu ouvir de qualquer um de vocês, pelos cantos, pedirei para que o autor se coloque a frente do Shibuya, ou de qualquer um a quem for dirigida a ofensa, e repita isso olhando nos olhos dele. Falar pelas costas é muito fácil, correto? Mas um homem de verdade sustenta sua opinião em qualquer situação. Assim como Shibuya vêm fazendo durante todo esse tempo, apesar de tudo o que vocês têm jogado em cima dele.

Outro silêncio desconfortável entre os jogadores. Conrad estava certo, e eles não tinham como rebater àquelas afirmações. Nenhum deles ficava feliz com isso, mas tinham que admitir, não havia nada mais a ser dito. Conrad pareceu satisfeito. Mesmo aqueles que reclamavam de não ter treino, não pareciam tão contrariados. Todos os garotos tinham semblantes confusos ou pensativos em seus rostos, e isso era um bom indício. Sua intenção era exatamente colocar aquelas mentes para pensar.

— Espero que pensem bem sobre isso. Espero vocês na semana que vem. Estão dispensados!

Todos começaram a se mover lentamente, terminando de juntar suas coisas e se encaminhando para a saída. Grupos menores conversavam aos burburinhos, porém, antes que todos saíssem, Nishimura, que parecia particularmente incomodado, voltou-se novamente para Conrad. Ainda estava um tanto irritado com tudo aquilo que havia sido dito.

— Treinador… Por que é que o senhor se importa tanto com o que nós pensamos ou dizemos?

— Quero abrir a cabeça de vocês para outras coisas, Nishimura-kun. Se a opinião de vocês está errada, eu devo mostrar isso, e dar a vocês a oportunidade de ampliar seus horizontes.

— Só por isso? — O garoto não parecia convencido. Conrad sorriu. Aqueles garotos eram perspicazes quando queriam.

— Talvez os seus comentários impensados me ofendam, também. Eu fui criado em uma família que me ensinou que todos são livres, e não deveríamos julgar as escolhas de ninguém, quando não sabemos pelo que essa pessoa passou, e que deveríamos proteger uns aos outros acima de tudo.

— Não entendi…

Conrad suspirou. Teria que ser mais direto do que pensava.

— Por causa de Wolfram von Bielefeld, Nishimura, o “viadinho” de quem vocês adoram fazer graça, e não finjam que não pois eu já escutei o suficiente por esse vestiário para saber. Ele é o meu irmão mais novo.

Strike três, bola fora. A reação entre os garotos foi unânime, desde um resmungo de desagrado e culpa, até a realização de todas as coisas que já haviam comentado por ali sem ter a mínima ideia de quem Conrad era. Eles tinham sobrenomes diferentes, e eram completamente opostos, como é que qualquer um ali iria desconfiar?

— F-foi mal, treinador, a gente não sabia… Desculpa… — Todos eles estavam embaraçados para encarar o mais velho de frente.

— Eu quero sim, proteger o meu irmão de comentários como aqueles, mas não é por causa desse fato que vocês devem respeitá-lo. Mas sim por ele ser uma pessoa, um ser humano, como qualquer um de vocês, com sentimentos e aspirações. Ninguém, seja o meu irmão, o Shibuya, o Primeiro-ministro, o diretor dessa escola, ou um mendigo na rua, deve ser degradado e julgado por nada além do seu caráter. Não importa quem escolheram amar, ou sua aparência, crenças, gostos ou conhecimentos. No que a vida do meu irmão afeta a de vocês? Pensem bem nessa questão, e vocês perceberão. Não é a existência do Wolfram, ou do Shibuya, que incomoda e intriga a todos vocês. São as suas próprias. Os conflitos internos que se externalizam e os fazem agir de maneira irracional, por medo do desconhecido. — Todos o encaravam em um silêncio mórbido, como se estivessem se recuperando do impacto que todas as constatações do treinador, que eles não tinham como replicar, causavam. Conrad, inesperadamente, sorriu de maneira gentil, olhando para cada um deles. — Mas eu sei que todos aqui são jovens, inteligentes o suficiente para não ignorar as coisas que ouviram aqui, e aproveitarão a chance de refletir e, quem sabe, mudar de opinião. Estou dando a vocês uma chance. Não a desperdicem, ok?

~

Miyako e Natsume se encaminhavam calmamente na direção do ginásio de esportes, onde ela faria o teste para o time de vôlei. O teste seria feito depois do treino propriamente dito, do time, então, elas estiveram andando pela escola para matar o tempo até a hora de ir para lá, depois de Natsume mudar para o uniforme de educação física. A garota de cabelos azulados estava bem mais nervosa do que deixava aparentar, então, a todo momento fazia piadas ou observações engraçadinhas, para disfarçar a tensão.

Quando elas chegaram lá, o treino ainda estava acontecendo, então elas se encaminharam até a arquibancada, onde outras meninas que provavelmente também fariam o teste aguardavam. Natsume as avaliou rapidamente com um olhar, e se sentiu mais confiante. Algumas delas eram altas, e pareciam ter alguma experiência, mas nenhuma se encaixava no seu perfil, então, ela ainda tinha uma vantagem.

Minutos depois, a professora que era técnica do time encerrou o treinamento, e aquela que parecia ser a atual capitã, uma garota alta de cabelos castanhos bem curtos e que parecia muito mais velha do que uma colegial, se dirigiu até às meninas da arquibancada.

— Atenção! Eu sou Nakamura Aika, do terceiro ano. Vocês que estão aqui para fazer o teste de aptidão para o time feminino de Vôlei, nós iremos começar. Façam uma fila aqui na frente. — Ela anunciou, e todas começaram a se movimentar. Miyako murmurou um “boa sorte” quando Natsume se levantou, e foi descendo junto com as outras.

— Ah, você! — A Capitã chamou por Natsume, assim que ela se aproximou da fila que se formava. — Você é a aluna transferida do segundo ano, certo?

— Sou…? — Ela respondeu, soando mais como uma pergunta, sem entender como a capitã lembrava dela. Afinal, ela entregou a ficha de inscrição direto para a professora.

— Você fica no final da fila, então. Seu teste será o último. — Ela ordenou, e então voltou-se novamente para as primeiranistas nervosas que tremiam no início da fila. Natsume balbuciou um “okay, então…” meio incerto, antes de se posicionar onde deveria. — Agora, começando! Cada uma, vá para a quadra, diga seu nome, sala e posição. Vamos lá!

A Capitã bateu palmas e a técnica apitou, dando início ao teste. Cada uma das garotas fazia, assim como foi instruído, o caminho até o centro da quadra, diziam o necessário, e então, do outro lado, as veteranas que estavam em cima de estrados de madeira para ficarem mais no alto cortavam ou levantavam as bolas para avaliá-las. Natsume relaxou na hora. Aquilo ali era moleza, ela já fazia todos os dias. Até acenou para Miya, que parecia mais apreensiva do que ela própria, para confirmar que estava garantida já.

Uma a uma todas as garotas foram avaliadas, e logo chegou a vez de Natsume. Ela foi se encaminhando para a quadra, sorrindo.

— Sunohara Natsume, 2-B, Líbero.

As garotas que antes jogavam as bolas, desceram dos seus lugares, e iam se dispersando. Natsume não entendeu.

— O seu teste vai ser diferente, Sunohara-san. — A Capitã Nakamura sorriu. — Fui informada de que você já joga vôlei há alguns anos, então, teremos outra pessoa cuidando da sua avaliação, para ser justo com as novatas, certo?

— Ah, certo... Quem será, então?

— O capitão do time masculino. — Ela informou. Antes que Natsume pudesse reagir apropriadamente, sentiu um baque nas costas, e alguém envolvendo seus ombros com um dos braços, em uma espécie de meio-abraço que a fez perder o equilíbrio por um momento. Seu semblante mudou no mesmo instante, irritado, e ela nem precisava olhar para o lado para saber de quem se tratava.

— Droga, você disse que não ia se meter nisso! — Ela protestou, tirando os braços do garoto de cima de si. Ele riu com vontade, passando a mão pelos cabelos castanho-avermelhados que escapavam do curto rabo de cavalo atrás da cabeça. Estava usando o abrigo azul-marinho e branco do time.

— Pois é, mas não consegui resistir. — Ele girou até ficar de frente para ela, juntando uma das bolas por perto, e a quicando no chão, para então girá-la entre os dedos. Ainda sorria de canto. — Asahina Shuuhei, capitão do time de vôlei masculino da Shin’ou, e ás do time. — Ele piscou um dos olhos, da maneira mais irritante possível, e Natsume revirou os olhos, ouvindo o suspirar sonhador da maioria (senão todas) das garotas ao redor. — Eu vou aplicar o teste de aptidão em você. Preparada?

Ela bufou, começando a esticar os braços para se alongar, enquanto Shuuhei se encaminhava para o outro lado da rede.

— Está brincando comigo, não é? — Ela sorriu, desafiadora. — Manda logo!

Notas finais
Poois bem, cá está mais um capítulo de Sono te o/ De quem foi a fucking ideia de colocar números romanos nessa budega?? Depois de certa altura eles não ficam mais tão bonitinhos -3- Bom, não importa, porque nós chegamos a marca de 50! Sim!! Cinquenta (que não são tons de cinza *ba tum tss*) capítulos dessa fic que eu amo tanto, e que parece sempre muito loonge do fim.... Mas enfim, obrigada por tudo, durante todos esses capítulos, a todos vocês que acompanham, deixando reviews, expressando suas opiniões, dando sugestões, e sempre me motivando a continuar a escrever essa história, para todos vocês. Durante todos esses anos escrevendo, eu devo dizer que essa é a fanfic que mais me proporcionou surpresas, tanto pelos números que ela alcança, e pela reciprocidade que vocês têm pelo que eu escrevo, como também pelas oportunidades de conhecer tantas pessoas incríveis como vocês, e de fazer amigos realmente próximos a partir dela (olhando pra você, editora). Sou muito grata por isso, e amo cada um de vocês que estão aqui! Agora, chega de viadagem, já tá longo demais esse discurso, não planejei fazer isso não. De qualquer forma, espero que estejam gostando do desenvolvimento que a história está tendo até agora... Até a próxima o/ [Extra da Editora]: Enfim, oficialmente o capítulo 50 de Sono te! Fico muito feliz e só tenho a agradecer à Autora, por ter me permitido betar esta história que tanto amo e admiro. E que desejo que venham mais e mais capítulos pela frente, para nos fazer surtar, rir, chorar (no meu caso), e se emocionar. Espero que tenham apreciado o capítulo tanto quanto eu apreciei.