Sono Te Hanasanaide

63 Capítulo LVIII


Glow is low and it’s dimming

O brilho é tênue e está escurecendo

And the silence is ringing

E o silêncio está tocando

And I can almost feel your breath

E eu posso quase sentir sua respiração

I can almost feel the rest

Posso quase sentir o resto



Night is young and we’re living

A Noite é jovem e estamos vivendo

Hands move, moving steady

Mãos se movem, movimento constante

And the time is moving slow

E o tempo se passa devagar

I can feel we’re getting closer

Eu sinto que estamos mais próximos

Closer, yeah

Mais próximos, sim

Capítulo 58



Com a chave do quarto em uma das mãos, Yuri carregava Wolfram da maneira que podia, saindo do elevador. Apesar de ele estar andando com as próprias pernas, seu corpo parecia inerte enquanto Yuri o carregava, segurando-o pela cintura com uma das mãos. O loiro apoiava o braço em seu pescoço e cantarolava baixinho e todo enrolado uma música que Yuri nunca tinha ouvido antes.

Enfim, chegou até a porta indicada, pensando em como tinha sorte da festa ser em um hotel, com quartos reservados para os convidados. De outra forma, não saberia o que fazer com Wolfram, no estado em que ele se encontrava. Não queria nem pensar na cena que ele tinha feito lá embaixo, também. Ele iria querer sumir quando recobrasse a consciência, no mínimo. Mas agora Wolfram parecia sonolento, o que era uma sorte. Yuri só teria que colocá-lo para dormir, e então, tudo ficaria bem.

Segurando mais firmemente a cintura de Wolfram, Yuri ia colocar o cartão magnético no espaço da porta, mas seu movimento foi impedido por um aperto repentino. Wolfram havia circundado seu corpo com o braço antes livre, praticamente pendurando-se nele.

— Hm… Wolf?

— Me segura, Yuri. Eu to caindo… — Com aquela voz arrastada, Wolfram apertou ainda mais o pescoço de Yuri, soltando seu peso e o fazendo perder o equilibrio.

— Oi, Wolfram, espera.. aí. — Os dois quase caíram juntos, mas Yuri juntou Wolfram e o prendeu firmemente pela cintura mais uma vez, enfim conseguindo acertar o cartão. A porta abriu com um click, fechando logo depois dos dois passarem, e trancou automaticamente. — Olha só, você não vai cair. Agora eu vou te colocar na cama e você vai poder dormir, certo? — Ele falava praticamente como quem fala com uma criança, e Wolfram não gostou nada daquilo.

Ele afastou o rosto do pescoço do outro e o encarou com o que pretendia ser uma carranca — e ele podia jurar que parecia muito ameaçador agora -, mas Yuri teve que se segurar para não rir do beicinho teimoso que se projetava nos lábios do loiro. Agora que estavam longe dos olhares de outras pessoas, Yuri se permitiu encarar a situação de outra forma. Ok, talvez fosse um pouco engraçado.

Ele deu alguns passos para frente, conduzindo Wolfram com um pouco de dificuldade na direção da enorme cama de lençóis brancos.

— Por que você quer que eu durma, hein? Você pretende voltar para a festa e me deixar aqui? Você vai me trair, fracote? — Ele começou a falar, a voz cada vez mais alta a medida que Yuri o levava, enfim conseguindo colocá-lo sentado sobre a cama.

— Claro que não, Wolf. — Yuri afagou os cabelos dele, sorrindo. — Vou ficar aqui com você.

— Ah… — Wolfram arregalou os olhos, absorvendo lentamente a nova informação. Yuri não conseguia segurar mais o riso. Apesar de saber que, quando acordasse, Wolfram ficaria furioso, ele estava simplesmente engraçado demais agora, com todas aquelas reações e expressões inesperadas. Mas ele tinha que cuidar do namorado agora, depois pensaria nisso. — Então tá. — O loiro parou por alguns segundos, encarando Yuri. — Está quente aqui.

— Quer que eu ligue o ar condicionado? — Ele ofereceu, olhando ao redor à procura de algum controle ou algo assim para ligá-lo.

— Hmn… Não… — Wolfram choramingou, tirando seu paletó com muita dificuldade, e ficando com o braço preso nele no processo. — Me ajuda…

Yuri encontrou o controle sobre a mesinha de cabeceira e ligou o ar-condicionado mesmo assim. Se aproximou de Wolfram, ajudando-o a tirar o casaco azul. Colocou-o sobre a poltrona próxima da cama, e, quando voltou a olhar para Wolfram, ele estava tentando abrir os botões da camisa, sem muito sucesso, e sem ter tirado o colete antes disso. Suspirando, ele voltou para perto de Wolfram mais uma vez, inclinando-se para ajudá-lo a desabotoar o colete primeiro.

— E-Ei, o que você está fazendo? Que indecência! — Wolfram reclamou, segurando o traje junto ao corpo e impedindo Yuri de tirá-lo.

— O quê? Eu só estou te ajudando… — Ele respondeu, sem entender.

— Não! Você está querendo se aproveitar do meu corpo, pervertido! — Wolfram acusou-o, encolhendo-se mais um pouco.

— Claro que não, Wolf. Eu jamais faria algo assim com você. — Ele usou seu tom de voz mais brando, vendo que o loiro lentamente assimilava a informação. Ele não parecia muito tranquilo.

— Eu não me importaria, na verdade… — Ele resmungou para si mesmo, soltando as roupas desalinhadas no seu corpo, a camisa pendendo para o lado, deixando um dos ombros à mostra, e o colete aberto quase caindo. Jogou a gravata que ainda estava no seu pescoço de alguma maneira, para longe, e tirou os sapatos também.

— Você quer alguma coisa? — Yuri ofereceu, vendo que o namorado já começava a se acalmar. Não havia ouvido o que ele acabara de murmurar.

— Quero…

— O quê? Um chá, ou um café? Nós podemos pedir pelo serviço de quarto, mas eu não sei como funciona… — Ele olhou para os lados, confuso.

Wolfram se ergueu em cima da cama, ficando de joelhos, e esticou o braço até Yuri, que não estava muito longe. Não se importava com chá, café ou serviço de quarto nenhum. Só havia Yuri na sua linha de visão borrada agora, e ele não conseguia pensar em mais nada. Conseguiu capturá-lo pela lapela do paletó, vendo-o sobressaltar, e o trouxe para perto com um movimento brusco.

— Oe, Wolf… O que você…

— Eu quero você. — Wolfram sussurrou no ouvido de Yuri, respondendo à pergunta anterior da forma mais direta possível. Abraçou-o pelo pescoço, sem a menor intenção de deixá-lo escapar. — … Eu posso?

— Pode… o quê? Não, Wolf, não acho que seja uma boa ideia eu e você… Bem, com você nesse estado, definitivamente… — Yuri se atrapalhou e não havia maneira de conseguir responder àquele ultimato. Sentiu a mão de Wolfram deslizar pelo seu tórax, buscando o botão do paletó. Yuri segurou aquela mão, parando seu movimento, e Wolfram ergueu os olhos na sua direção, parecendo profundamente magoado. Yuri sentiu seu coração fraquejar ao ver aquela expressão, mas precisava aguentar firme, pelos dois.

— Por quê…? — Wolfram indagou, a voz ficando fraca. Ele se afastou, sentando sobre as pernas em cima da cama, e sem desviar os olhos da direção dele.

— Você não está exatamente consciente do que está dizendo, e… — Era difícil falar qualquer coisa quando Wolfram o fitava daquela maneira. Parecia arrasado. A vermelhidão causada pela bebida na sua pele pálida só o tornava ainda mais adorável aos olhos de Yuri. — Ahn… Eu não quero que você se arrependa…

— Eu não vou me arrepender de nada. — Ele se inclinou na direção de Yuri, abraçando-o pela cintura, e enterrando o rosto no seu abdomen. — Por favor, Yuri… — Ele pediu, com a voz abafada causando um formigamento estranho no outro, mesmo através das roupas. — Não diga “não” para mim…

— Desculpa, Wolf, mas não dá… — Ele quase se arrependia de dizer essas palavras. — Você não está bem, e amanhã talvez nem se lembre que disse essas coisas. Eu sei que nós… Ahn… Já fizemos algumas coisas antes, mas agora não é hora. Não sei por que, mas sinto que vou me arrepender muito se deixar você fazer o que quer nesse estado. — Ele divagou mais para si mesmo, vendo Wolfram se afastar mais uma vez, como se o que ele dizia não fizesse sentido algum.

— Você está me rejeitando… — Wolfram murmurou lentamente, aquela constatação batendo fundo na sua mente. Seu queixo tremeu, enquanto ele fitava Yuri novamente, os lábios se projetando em uma expressão de puro abandono.

— É claro que não é isso, Wolf! — Yuri se apressou em negar, sentando ao lado de Wolfram na cama e acariciando seus cabelos, gentilmente. — Eu só não vou fazer nada com você essa noite. Porque você não está pensando direito, e não sabe o que quer… E isso poderia ser meio perigoso…

Perigoso, definitivamente. Para ele próprio, no caso, que não sabia até onde conseguiria manter o controle e não sucumbir à tentação que se mostrava diante dos seus olhos, em forma de um loiro com voz doce e convincente que estava claramente querendo levá-lo à insanidade.

— Perigoso por quê? O que pode acontecer? — Ele argumentou com mais perguntas, e Yuri hesitou, olhando para o chão do quarto do hotel, que tinha um tapete de aparência incrivelmente cara.

— Ahn… Coisas? — Ele tentou sorrir, mas tudo o que saiu foi uma careta desconfortável. Na verdade, não queria nem pensar em que coisas poderiam ser essas. Wolfram estava absolutamente tentador, com aquela expressão curiosa e ávida, e ele preferia se manter sob controle, ou poderia acabar se afobando — e quem sabe o que poderia acontecer, com dois adolescentes entusiasmados em aprender essas coisas novas, sozinhos em um quarto de hotel?

— Você não me quer mais? — Wolfram indagou, o tom de voz magoado, quase como o de uma criança, e lágrimas juntando-se nas bordas dos olhos.

— Não, não é isso… Argh! — Yuri soltou uma longa interjeição em meio a um suspiro cansado, passando as mãos nos cabelos em desesperada aflição. Por que Wolfram estava o testando dessa forma, isso não era nem um pouco justo! — É óbvio que eu quero você, Wolf, sempre, mas… Não desse jeito. Quer dizer, com você bêbado, e tal…

— Então, não tem nenhum problema. — Os olhos de Wolfram voltaram a brilhar, e ele começou a se aproximar de Yuri mais uma vez, esgueirando-se por cima da cama na direção dele. — Porque eu não estou bêbado.

Não, claro. Eu é que estou, por isso estou tendo fantasias com você. Yuri até ponderou falar isso em voz alta, mas não resolveria nada. Quando muito, iria deixar Wolfram irritado. Se discutir com ele em estado sóbrio nunca resolveu nada, imagine daquele jeito.

— Não é o que parece, para mim. — Resolveu manter-se na defensiva. Wolfram vinha o cercando, cada vez mais perto, e já o envolvia pelo ombro, aconchegando-se. Yuri tentou se afastar, mas quando bateu as costas no encosto da cama, percebeu que não tinha saída, a não ser que empurrasse Wolfram de cima de si, o que não era exatamente uma opção para ele.

— Eu não estou bêbado, Yuri! — Ele afirmou mais uma vez, teimoso, embora aquela sua voz arrastada e pesada dissesse exatamente o contrário. — Você só pode ficar bêbado depois dos 21 anos no Japão. — Ele disparou, com uma lógica infalível.

— Não acho que seja assim que funciona… — Yuri estava em perigo, com seu pescoço sendo o alvo, e Wolfram estava quase o alcançando. Ele tentou escapar vindo mais para frente, já que o loiro se aproximava pelo lado.

— Yuri. — Wolfram chamou, segurando o rosto do outro com ambas as mãos para que ele o olhasse nos olhos diretamente e parasse de tentar escapar. — Eu sei o que eu estou fazendo. Eu já penso nisso há muito tempo…

— Pensa... no quê? — Yuri balbuciou. Pensou que conseguiria enrolar Wolfram apenas conversando com ele, mas não parecia que ele se deixaria levar tão fácil. Ele aproveitou que Yuri já estava sentado na beirada da cama, e precisou somente posicionar sua perna do outro lado do corpo dele para aprisioná-lo por completo.

Certo, isso não parecia nada favorável. Wolfram empurrou Yuri com uma das mãos pelo ombro, para se ajeitar melhor, e logo depois o rodeou com ambos os braços pelo pescoço, sorrindo satisfeito com seu trabalho.

— Eu penso em você. — Finalmente respondeu, a voz baixa arrastando cada sílaba, como se precisasse ter certeza de que a mensagem ficaria gravada na memória de Yuri por completo. — Eu penso em como você está sempre longe demais, ocupado com outras coisas. E eu penso em como eu quero ter você só para mim. — Ele escondeu o rosto no ombro de Yuri, os dedos enterrando-se nos cabelos escuros. Ele sentiu aquele arrepio de antecipação que sempre o acometia quando quer que Wolfram o tocasse, e esbravejou internamente. Por que ele estava o torturando dessa forma? Pedir para que ele aguentasse isso parado já era algo impossível. — Mais e mais… — Ele prosseguiu, a voz retornando a um sussurro.

Aquela sinceridade súbita proveniente do álcool bagunçava os pensamentos de Yuri também. Não era o momento para sua voz sumir, na tentativa de argumentar para tirar Wolfram dali. Ele ergueu as mãos, tentando empurrá-lo, sem ser muito brusco, mas tudo o que conseguiu foi segurar a cintura de Wolfram e fazê-lo abraçar-se a ele com ainda mais vontade.

— Wolf… Isso não… — Sua voz tremeu e falhou por completo, quando ele viu os olhos esmeraldinos acima de si. Eles brilhavam com um contentamento quase delirante, de uma forma que Yuri jamais havia visto. É claro que ele não estava com pleno controle das suas ações, mas será que aqueles pensamentos não estavam o tempo todo ocultos na mente dele, esperando por um momento de descontrole para emergir? Essa ideia fez com que Yuri ficasse ainda mais confuso diante daquela possibilidade. Não sabia lidar com esse Wolfram cheio de vontades que se mostrava à sua frente.

— Por favor, Yuri… — Suplicou, por algo que nem ele próprio sabia o que era. Só tinha certeza de que precisava, e precisava disso agora.

— Isso… parece muito, muito errado! — A voz da consciência de Yuri falou mais alto, e Wolfram optou por silenciá-la por completo, de uma vez por todas. Movimentou seu quadril, utilizando-se de um instinto até então adormecido, e, friccionando-se de leve contra o outro, acabou com qualquer resquício de argumentação que ainda restasse no pensamento de Yuri.

Ergueu o rosto dele, cobrindo a boca com a sua. Yuri tentou falar mais alguma coisa, mas foi repreendido com uma mordida de leve nos lábios, seguido de um beijo mais profundo que fez seu corpo inteiro estremecer e aquecer-se ao mesmo tempo.

— Apenas esqueça de tudo… — Wolfram murmurou contra os lábios de Yuri, e ele se sentiu extremamente compelido a seguir essa ordem, por mais que, lá no fundo, um pequeno local da sua mente que se chamava responsabilidade piscasse em sinal de alerta vermelho.

Mais um roçar de leve, e Yuri deixou escapar um arquejo abafado. O movimento do quadril por parte do loiro, e um simples beijo, e ele já estava praticamente se rendendo, naquele estado. Sentia o aroma de álcool e o leve sabor de algo doce nele. Talvez, estivesse ficando embriagado, também. Como ele era fraco. Fraco e facilmente manipulável. Wolfram o tinha nas suas mãos, quando e como quisesse. E o pior de tudo, era que Yuri não se incomodava nem um pouco com esse fato.

Wolfram se afastou de leve, com a respiração ofegante batendo no rosto de Yuri, e o rosto absolutamente corado. Começou abrindo o paletó que Yuri ainda usava, deslizando-o pelos seus braços, e retirando facilmente. Pareceu satisfeito em notar que o moreno o ajudara com a tarefa, e soltou uma pequena risadinha ao vê-lo morder o lábio para conter uma reação com o seu inevitável movimentar sobre ele para fazer isso.

Yuri começou a desabotoar a própria camisa por baixo. Desfazendo o nó que ele próprio havia feito na gravata borboleta, Wolfram a atirou para longe, e começou a tentar, desajeitadamente, desabotoar a camisa dele, a partir de cima. Não estava conseguindo fazer isso muito bem, com os olhos franzidos para tentar enxergar melhor. Yuri tentou ajudá-lo, mas recebeu um tapa na mão como recusa; perdendo de vez a paciência, Wolfram puxou tudo o que restava para ser aberto de uma só vez. Alguns botões voaram para longe, mas ele nem se importou — estava apenas absolutamente radiante em ver o tórax exposto finalmente ao seu alcance.

Passou a mão por toda a extensão à frente dos seus olhos, umidecendo os próprios lábios com a ponta da língua, os olhos cintilando como uma criança faminta diante do mais delicioso dos doces. Ele queria isso mais do que tudo. E estava acostumado a ter o que pedia, desde sempre. Não seria diferente agora.

Notando a falta de iniciativa do namorado — e isso o irritava, também, — Wolfram decidiu que não levaria a opinião dele em conta. Não que estivesse levando antes. Ergueu-se do seu cômodo lugar e avançou para cima da cama de casal, sentindo que o olhar de Yuri o seguia constantemente. Puxou-o, pelo colarinho da camisa , até que Yuri estivesse junto com ele no centro da cama, onde ele podia abraçá-lo mais uma vez, deixando que caísse sobre si.

Dessa vez, Yuri foi mais rápido, tomando os lábios do loiro antes que ele o fizesse. E enquanto aprofundava o toque, apressadamente, ia abrindo os botões que ainda estavam fechados da camisa de Wolfram. Talvez tivesse desistido de tentar ser racional quando era evidente que isso não iria dar nenhum resultado. Ou tivesse chegado ao seu limite. Ou ambas as alternativas.

Wolfram ergueu as mãos, passando-as pela pele quente do outro, até alcançar as costas, ainda por baixo da camisa aberta, arranhando de leve. Yuri grunhiu alguma coisa inteligível, finalmente desistindo de vez, e atacando o pescoço alvo e vulnerável que tinha abaixo de si. Wolfram gemeu, sentindo a língua de Yuri percorrer todo o caminho da sua orelha até a clavícula, roçando com os dentes, e beijando o local ao retornar. Soltou uma risada satisfeita, logo depois. Havia cumprido seu objetivo e corrompido a boa vontade de Yuri. Agora, só precisava aproveitar.

Ergueu o joelho, encostando de propósito entre as pernas de Yuri, sentindo aquela região mais sensível ao seu toque, e um gemido mal contido de Yuri arrepiando-o por inteiro.

— … Não faça isso, Wolf. — Ele lamentou, percebendo o quanto o outro estava se divertindo com tudo aquilo.

— Por que não? — Wolfram desafiou, passando os lábios pelo maxilar e o queixo de Yuri. — Eu quero fazer o que eu quiser com você… — Ele sorria daquela maneira inesperada, os olhos ainda cintilando. — Então você pode fazer o que quiser comigo, também. — Ergueu o rosto até a orelha de Yuri, e a mordeu de leve. — Você não quer? — Soprou.

Yuri respondeu prendendo-o contra a cama, beijando mais uma vez os lábios avermelhados, entrelaçando suas línguas e deixando que seu corpo inteiro fosse tomado por aquelas chamas irremediáveis que pareciam provir do corpo de Wolfram e incendiar tudo ao seu redor. Com uma das mãos, deslizou pelo abdomen magro do outro, apertando sua cintura.

Havia algo que ele queria testar.

Subiu a mão com cuidado, afastando-se apenas o mínimo necessário para observar a reação do outro, chegando até seu peito. Yuri já pensava nisso há algum tempo. Aparecia muitas vezes nos mangás que pegava emprestado, e isso o deixou curioso para saber se era algo real, ou apenas ideias fantasiosas de garotas. Acariciou a região com cautela, e, percebendo que não teria oposição alguma (como se Wolfram fosse se opor a qualquer coisa, animado como estava), correu os dedos pelo mamilo rosado.

— A-Ahnn! — A reação foi instantânea, mas nada que Yuri pudesse esperar. Wolfram, que ainda tinha os braços ao redor dele, encolheu-se por instinto, contorcendo-se diante de uma nova sensação repentina. Yuri prosseguiu, estendendo o estímulo para o lado direito, e verificando que a resposta era positiva. Nunca poderia imaginar que Wolfram fosse tão sensível, ao ponto de gemer indistinto diante daquele toque, mas lá estava ele, surpreendendo Yuri mais uma vez.

Ele se sentiu com sorte, e resolveu arriscar. Substituiu a mão esquerda por sua boca e viu como Wolfram se retorcia sobre os lençóis, completamente suscetível aos seus avanços. Os braços dele rodearam sua cabeça, aproximando-o, e ele indagou, apenas para ter certeza:

— Isso é bom? — Levantou somente os olhos, sem nunca interromper completamente o toque.

Wolfram assentiu fracamente com a cabeça.

— Sim, ahn… É bom. — Ele parecia prestes a perder completamente os sentidos, porém, continuava muito desperto. Puxou o rosto de Yuri para cima, beijando-o com furor, enquanto as mãos dele continuavam concentradas na atividade anterior. Descoordenamente, sem querer quebrar o contato direto, Wolfram desabotoou as próprias calças, movendo-se sobre a cama para tentar tirá-las com um movimento único, e falhando miseravelmente.

— Me ajuda, Yuri… — Pediu, a voz suplicante e irresistível. Yuri, que havia percebido a tentativa de Wolfram de se despir, afastou-se o suficiente para conseguir ajudá-lo, puxando a calça dele de alguma forma, e jogando a esmo, sem se importar com onde ela iria parar. O volume na roupa de baixo cinza já demonstrava claros sinais daquilo que Yuri já sabia — situação da qual compartilhava.

Ainda afobado, Wolfram não esperou Yuri retornar à sua posição, e se ergueu na cama. O movimento brusco o deixou meio tonto, mas não desfez sua determinação em procurar pela calça de Yuri, e tirá-la dele o mais rápido que pudesse. Percebendo a intenção do loiro, que mal conseguia segurar o cós da sua calça, ele mesmo tratou de se livrar dela, enquanto Wolfram sorria, radiante, e voltava a circundá-lo com os braços, capturando de volta os lábios dos quais nunca se cansava.

Ele deitou para trás, trazendo Yuri consigo em seu abraço, e ergueu as pernas para envolver a cintura do moreno, entrelaçando seu corpo contra o dele. Yuri ajeitou-se entre as pernas de Wolfram, e o contato a que isso levou foi inevitável. Wolfram gemeu em meio ao beijo, a sensação inominável se espalhando pelo seu corpo, mas Yuri não libertava seus lábios por nada, não permitindo que ele se afastasse, nem mesmo para recuperar o ar.

Seus movimentos se coordenaram, ocasionando o roçar intenso entre os membros despertos. Yuri não conseguiu conter o gemido que surgiu no fundo da sua garganta, que parecia reservado em contraste à reação aberta de Wolfram, que, além do arquejo de satisfação, ainda impeliu-se para cima, buscando por mais contato. Yuri moveu instintivamente seu quadril, oferecendo aquilo que ele procurava, e ainda mais para si próprio, sentindo uma onda inteiramente nova de prazer inundar seu corpo a cada movimento.

Ergueu o rosto, logo depois, buscando pelos olhos de Wolfram. Encontrou-os, em meio à toda aquela névoa inebriante de sensações, ainda nítidos, fitando-o com o mesmo brilho sagaz e reluzente de esmeraldas. Afastou os cabelos dourados do caminho com a ponta dos dedos, e tocou suas testas, mantendo o contato visual profundamente, percebendo em Wolfram a mesma emoção predominante nele próprio.

Sorriu para ele, e, em resposta, Wolfram capturou seu lábio inferior entre os dentes, com um lampejo travesso passando pelos olhos, mordiscando de leve para depois soltar. Yuri movimentou o quadril com mais intensidade, arrancando outro gemido audível do loiro, e fazendo-o agarrar-se ainda mais em si, pelas costas e pelo pescoço.

— Mais… — Ele pediu, em meio a um beijo entrecortado, as respirações indistintas misturando-se com a proximidade. Yuri resolveu acatar ao pedido sem demora. Deslizou a mão pela pele quente do loiro, sentindo-o estremecer em seus braços quando enfim chegou à roupa íntima, já um tanto úmida, invadindo-a com cuidado.

Começou a movimentar a mão, da maneira como já sabia que deveria fazer, aplicando a quantidade exata de suavidade e pressão que era necessária para deixar Wolfram contorcendo-se. Avançou, inclinando-se sobre o corpo dele para beijá-lo mais uma vez, contendo os gemidos que não paravam de escapar da garganta do loiro.

— Wolf… — Ele sussurrou no seu ouvido, intensificando o toque, concentrando-se somente nele naquele momento, esquecendo até mesmo de si próprio. Tudo o que queria era ver Wolfram, sentí-lo, fazê-lo enlouquecer — o resto poderia esperar.

— N-não… — Ele pediu, contraditoriamente à maneira como seu corpo respondia aos estímulos recebidos. Yuri não entendeu a recusa inesperada de imediato. — A-assim não... Ngh… Eu quero mais…

— O quê? — Yuri não parou o que fazia. Wolfram o abraçou, trazendo o rosto dele para o espaço da sua clavícula, agarrando-se às suas costas.

— Ah… Eu quero…. A-ahn… — Ele ofegou, perdendo a linha de racícinio, que já não estava exatamente clara, muito mais rapidamente. — Eu quero você, Yuri…

— Eu estou aqui. — Ele respondeu em um murmúrio, a voz rouca roçando no ouvido de Wolfram. Moveu a mão mais firmemente, pressionando-o com exatidão, em um ritmo contínuo e intenso, fazendo-o lamentar com mais vontade.

— Não…! — Ele teimou mais uma vez, embora tenha soado muito mais como um gemido. Agarrava-se com todas as forças em Yuri, intensificando o contato o quanto podia, inclinando-se para cima e movendo o quadril junto com ele. — Eu quero… dentro…. de mim…. você… Ah… A-ahh…!

Yuri não teve tempo de ficar surpreso com aquela afirmação que ouviu. Wolfram inclinou a cabeça para trás, soltando sua voz mais alto, ecoando pelo quarto, e cravou fundo as unhas nas costas de Yuri, balbuciando seu nome desconexamente. Yuri sentiu o corpo dele estremecer por inteiro em seus braços, quando ele enfim chegou ao ápice.

Os braços de Wolfram perderam a firmeza e o soltaram. Suas pernas enfim o libertaram, sem forças para mais nada. O peito dele subia e descia com a respiração entrecortada. Seria uma visão encantadora, caso Yuri não estivesse perplexo demais para reparar nisso.

Espera, o quê? Ele finalmente assimilou a frase perdida entre arquejos que Wolfram havia pronunciado, momentos antes do fim. Ergueu-se, alarmado, procurando obter uma confirmação do que havia ouvido — mas tudo o que encontrou foi Wolfram, de olhos fechados, o corpo completamente desfalecido sobre o colchão, ressonando audível e confortavelmente, com a respiração irregular lentamente retornando ao normal.

Yuuri absorveu a imagem diante de si, e, por fim, a consciência de toda a situação em si o atropelou de uma só vez.

— Mas… o que aconteceu aqui?

No fim das contas, eles haviam mesmo seguido à risca o conselho de Suzanna Julia.



Yuri levou algum tempo para processar com cuidado as informações de tudo o que havia acontecido naquele breve espaço de tempo. Wolfram já dormia, e ele, infelizmente, ainda ostentava vigorosamente a consequência dos seus atos entre as pernas. Precisava cuidar disso, e de toda aquela bagunça, antes de poder pensar direito.

Ele se dirigiu ao banheiro anexo ao quarto, e cuidou do seu pequeno probleminha, antes de qualquer coisa. Tomou um banho frio, logo depois, e vestiu-se com o roupão do hotel, já que era a única coisa que poderia usar. Ao voltar para o quarto, observou Wolfram por algum tempo. Ele dormia profundamente, jogado sobre a cama inteira, de uma forma que qualquer pessoa comum jamais conseguiria pegar no sono (mas Yuri havia desistido de tentar entender as posições que Wolfram usava para dormir já há algum tempo).

Então, ele fez o que deveria fazer: cuidou do seu namorado. Limpou-o atenciosamente com as coisas que havia encontrado no banheiro, tomando cuidado para não acordá-lo, o ajeitou apropriadamente na cama, com a cabeça no travesseiro, e cobriu-o com o lençol. Wolfram não parecia dar o menor sinal de que despertaria tão cedo, mesmo com toda aquela movimentação ao seu redor, e Yuri, sinceramente, agradecia por isso. Não sabia com que cara deveria encará-lo depois de, bem… Tudo o que aconteceu.

Ele resolveu, por hora, concentrar-se nas tarefas práticas. Lavou as roupas íntimas de ambos na pia do banheiro, e secou-as no secador de mãos que havia ali; recolheu as peças de roupa jogadas por todo o quarto e deixou-as sobre a poltrona mais a frente; e, por fim, quando percebeu que não havia mais nada que precisasse da sua atenção imediata, se deu conta de que, talvez, tivesse um problema maior do que parecia nas suas mãos, quando o dia amanhecesse.

~



Sentia sua cabeça latejar. Não apenas latejar, era como se houvesse um tambor dentro dela, sendo tocado de novo, e de novo, ecoando para todos os lados. Não. Era como se a sua cabeça fosse o tambor. Ele queria acordar, mas não sabia se deveria. Talvez ficasse pior. O que é que estava acontecendo com ele? Tinha sido atropelado por um ônibus. Por um trem. Ele nunca se sentiu tão mal na sua vida inteira.

Abriu um dos olhos com dificuldade. Certo, ele ainda conseguia fazer isso, era um bom sinal. Mas a claridade que o feriu foi demais para conseguir fazer mais do que isso. A luz doía. Ao menos, ele conseguiu alcançar um estado de semi-consciência que permitia obter informações sobre o que acontecia ao seu redor. Aos poucos, tentou se localizar. Saber onde estava poderia ser um bom começo. Ouvia alguns ruídos ao longe, difíceis de identificar.

Tentou mover-se, mas isso se mostrou mais difícil do que deveria. Localizou seus membros, mas eles pareciam entorpecidos, não queriam obedecer. Ele teve a constatação de que estava de bruços, em uma cama. Não era a sua cama, disso tinha certeza. Os lençóis que sentia ao redor do seu corpo eram completamente diferentes.

Seu corpo… Seu corpo também parecia estranho. Ele sentia o ar externo em contato direto com a sua pele, e isso não era normal. Abriu os olhos de súbito com o susto, sentando-se na cama, e arrependendo-se imediatamente pelo movimento impensado.

Tudo girou. Sua cabeça pareceu prestes a explodir. A luz da manhã que entrava pela janela o cegou por alguns instantes, dolorosamente, e, ao recuperar o foco, ele puxou uma parte do lençol, e confirmou que a sensação anterior não era apenas parte da sua imaginação.

Ele estava completamente nu.

Não apenas isso, mas ele não conseguia encontrar uma razão para que estivesse inteiramente sem roupas em um quarto desconhecido. O pânico o afligiu. O que raios ele estava fazendo ali, e o que havia acontecido?

Por mais que tentasse, ele percebeu, segundos depois, com profundo desespero — não lembrava de nada. Absolutamente nada — na sua memória havia apenas um buraco negro e escuro de total vazio e incompreensão. Não sabia o que havia acontecido, como viera parar ali, e nem mesmo onde estava. Seus pensamentos corriam milhões de vezes, sem coerência alguma, deixando-o ainda mais zonzo. Ele sentiu seu estômago embrulhar com a tontura.

— Ah, você acordou. — A voz familiar trouxe um alívio instântaneo e efêmero, que logo se esvaiu. Wolfram virou-se de lado na cama, rápido demais, e o movimento deixou sua visão turva e escura por alguns segundos. Quando conseguiu enfim enxergar algo, viu Yuri, assim como esperado. Ele saia de outro cômodo, que parecia ser o banheiro. Usava calças pretas sociais, uma camisa com apenas os botões inferiores fechados, e todo o resto inteiramente aberto expondo boa parte do seu tórax, e os pés descalços.

Sorria um tanto sem jeito para Wolfram, agora. Ele puxou os lençóis para cima, instintivamente, e demorou mais alguns segundos para situar-se — mas, aos poucos o enigma ia tomando forma em sua cabeça. Calça social, quarto desconhecido… Eles estavam em um hotel, no casamento de Julia! Sim, disso ele conseguia lembrar. Não explicava muita coisa, mas já era um início.

— Você está com fome? — Yuri indagou, percebendo a falta de resposta e a estranha apatia de Wolfram. Resolveu tentar outra abordagem. — A camareira deixou o café da manhã aqui agora há pouco. Eu já comi, estava muito bom… — Ele mostrou uma bandeja prateada sobre a mesa com duas cadeiras que havia no centro do quarto. — Ah, não se preocupe, eu peguei a bandeja na porta, então ela não viu… você, assim… — Ele pigarreou, percebendo que não era uma boa hora para tocar no assunto, ainda. — Quer tomar um banho antes? Eu enchi a banheira, achei que você iria querer…

— O que…? — Wolfram planejava gritar, mas sua voz não saiu exatamente como ele queria, e o esforço fez sua cabeça protestar com ainda mais vontade. Ele franziu os olhos, levando a mão na cabeça. Seu cérebro parecia funcionar mais lentamente do que o normal, como se as engrenagens precisassem voltar a se encaixar depois de terem sido completamente descarrilhadas. — O que aconteceu ontem? — Ele precisou se concentrar ao máximo para fazer sua voz pesada e rouca sair a um volume audível. A luz ainda machucava seus olhos, e ele queria muito voltar a se esconder debaixo dos lençóis, mas isso não parecia a alternativa mais acertada naquela situação.

— Você… não lembra? — Yuri não parecia exatamente surpreso com essa constatação, mas, ainda assim, o fato de Wolfram não ter nenhuma memória do acontecimento anterior complicava um pouco mais as coisas para o seu lado.

— Não lembro de nada. — Ele precisou reunir toda sua coragem, e respirou o mais fundo que podia, para prosseguir. — Como eu… Por que eu estou sem roupas?

— Você mesmo tirou. A maior parte delas, pelo menos… — Yuri respondeu, tentando ser o mais resoluto possível. Mentir não levaria a nada, e Wolfram já tinha idade suficiente para se responsabilizar pelos seus atos. Além do mais, eles não haviam feito nada de errado. Eram namorados, amavam um ao outro, e já haviam se envolvido anteriormente da mesma forma que fizeram naquela noite, em outras ocasiões. Ainda assim, por que Yuri se sentia tão culpado?

— O quê?! O-o que você fez comigo?? — Wolfram elevou a voz, sentindo a garganta arranhar e se arrependendo logo em seguida. Isso era resultado de ter passado a noite inteira sem roupas?

— Mais fácil você perguntar o que você fez comigo… — Yuri resmungou, bagunçando os cabelos negros com as mãos, ainda um tanto embaraçado. Não queria ter que explicar a Wolfram tudo o que havia acontecido, em detalhes. Seria melhor se ele percebesse por si só.

Wolfram não precisou pensar muito sobre isso. Bastava ver pela camisa aberta a pele de Yuri, e ele via marcas recentes, avermelhadas, e provavelmente ocasionadas por ele próprio. Era só olhar no espelho do outro lado do quarto (que, até agora, ele esteve evitando) e ele perceberia o quanto sua condição precária não refletia melhor estado. Além dos cabelos inteiramente revoltos e amassados, na pele clara havia algumas marcas, principalmente na região do pescoço, da clavícula e... do peito.

— Yuri… — Ele se encolheu embaixo dos lençóis, o rosto adquirindo cor, e a cabeça estourando a cada novo susto. — … O que exatamente nós fizemos ontem?

— Quer mesmo os detalhes?

— Aaargh, não! — Ele voltou a se retorcer, escondendo-se debaixo do lençol e trazendo o travesseiro para a cabeça. Queria parar de pensar nisso, ou achava que iria enlouquecer.

— Wolf, você não vai querer comer nada, mesmo? — Yuri tentou abrandar a voz. Talvez isso ajudasse. Sentou na beirada da cama, percebendo que o volume que era Wolfram se moveu com sua proximidade.

— Eu não quero nada, meu estômago não está nada bem. — Ele resmungou de volta, encolhendo-se. — Mas… Acho que vou aceitar o banho, que você falou antes… — Ele murmurou, embaraçado. A situação recente ainda o deixava confuso, e ele não era bobo de imaginar que não havia acontecido absolutamente nada — embora pudesse deduzir por si só que não haviam exagerado completamente e ido mais longe, também. Yuri não faria isso. Apenas aquela dor de cabeça infernal, e o seu maldito estômago, que não cooperavam.

— Está bem. Está tudo pronto, é só ir até lá. — Yuri puxou uma pontinha do lençol, apenas o suficiente para ver uma parte do rosto de Wolfram. Ele direcionou os olhos para Yuri, inofensivamente. — Você está bravo comigo? — Ele perguntou, preocupado.

Wolfram estremeceu, repentinamente sentindo-se envergonhado pela maneira como agia. Ele não estava querendo evitar Yuri, ou culpá-lo por nada, é claro que não. Estava sentindo-se mal, não apenas fisicamente, mas por não lembrar o que quer que tivesse acontecido. E uma parte dele, apesar de incerta, repetia incessantemente que a culpa pelo que quer que houvesse ocorrido era, ao menos parcialmente, dele próprio. Não podia saber exatamente como, mas o que quer que fosse, podia ter certeza de que Yuri jamais faria nada que não fosse consentido. E ele havia dado sua permissão — isso, é claro, se não tivesse sido ele mesmo a provocar toda aquela situação. Argh, aquilo era muito complicado.

— Não estou, Yuri… — Ele disse enfim, depois de alguns segundos. Ergueu a mão, tocando de leve os dedos de Yuri que estavam segurando o lençol. — Eu só… não lembro de nada. Como eu vim parar aqui? E por que eu estou tão mal?

— Hm, bem… Você encontrou um drink que gostou muito, durante a festa de casamento. E bebeu ele várias vezes. Várias mesmo…

— Ah… Era com álcool? — Yuri assentiu, e Wolfram não precisou de mais para deduzir sozinho o que ocorrera. Ele bebera demais, ficara alterado, e precisaram levá-lo para um dos quartos do hotel. Bem simples, no final das contas. — A última coisa que eu lembro… — Ele comentou, depois de se concentrar um pouco, as memórias retornando em flashs, lentamente. — … É de conversar com Susanna Julia. E com o seu irmão. Depois disso, tudo está em branco na minha cabeça.

— Está tudo bem, você não precisa forçar. — Yuri o tranquilizou. — Consegue levantar? — Ele próprio se colocou de pé, para que Wolfram pudesse se erguer.

Wolfram puxou os lençóis consigo, rolando para a beirada da cama, do lado onde Yuri estava antes. Isso demandou mais esforço do que o esperado, mas ele não queria dar nenhum sinal de fraqueza, para Yuri ficar pensando que ele era tão frágil assim, e que não aguentava nem mesmo algumas bebidas. Trazendo junto os lençóis brancos, ele se colocou de pé. A vertigem foi imediata, e a falta de coordenação e de equilíbrio fizeram com que perdesse completamente o controle das próprias pernas. Ainda enrolado no lençol, ele sentiu que iria ao chão — mas, antes que isso acontecesse, braços o içaram no ar, impedindo a queda.

Seu rosto foi amortecido por algo, e, com alguma dificuldade, ele percebeu que Yuri havia sido mais rápido, segurando-o antes que ele caísse. Seu rosto se encontrava a centímetros do peitoral de Yuri, e, enquanto sua mão ainda segurava firmemente o lençol ao redor da sua cintura, a outra encontrava-se espalmada no centro do tórax dele. A pele de Yuri estava quente, ou talvez fosse ele próprio que estivesse com a temperatura elevando-se. Febre era sintoma de ressaca?

Apesar de não ter recordação alguma em sua mente, Wolfram podia agora imaginar com cruel exatidão como poderia ter sido a noite anterior. Ergueu os olhos, mas tudo o que viu foi o semblante de Yuri, com um compreensivo sorriso, e isso não era de maneira alguma algo justo. Como poderia conseguir agir como se nada tivesse acontecido se ele continuava sendo tão…. argh, assim!

Atrapalhou-se, na tentativa de se afastar e agir normalmente — e conseguiu, de alguma forma, equilibrar-se de pé.

— Eu estou bem, estou bem. — Ele repetiu, tentando convencer a si mesmo disso, no processo. — Você deveria… ter alguma vergonha na cara, e fechar essa camisa. — Ele comentou, virando o rosto, agora ruborizado e direcionando-se para a porta onde ficava o banheiro.

— Eu queria, mas você arrancou os botões. — Yuri deu de ombros, e Wolfram engasgou, não ousando olhar para trás. Será que havia mais alguma coisa que o seu ‘eu’ descontrolado da noite passada não houvesse feito para destruir toda a sua dignidade de uma só vez?

Entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, escorando-se nela e, enfim, soltando o ar. Mal havia acordado, e já sentia-se inteiramente exausto. O reflexo do espelho do banheiro mostrava o mesmo que ele já sabia. Que ele estava em um estado indiscutivelmente deplorável. E ainda, ah, o pior de tudo, teria que dar um jeito de ocultar aquelas visíveis marcas por todo seu corpo.

A banheira logo ao lado espalhava um aroma delicioso, junto com o vapor convidativo. Tudo o que Wolfram queria era desaparecer na água quente, esquecer seus problemas, fazer sua dor de cabeça sumir, e dormir por mais uma semana, pelo menos, até que os acontecimentos anteriores, sejam eles quais fossem, desparecessem também.

— Wolfram… — Duas batidas na porta, e o loiro sobressaltou, seu coração acelerando pelo susto. — Você esqueceu suas roupas aqui.

Wolfram virou-se devagar, abrindo uma fresta da porta e espiando por ela. Yuri estendia as roupas na sua direção. Ele abriu um pouco mais a porta, baixando o olhar, e sentindo a culpa pesar ainda mais a sua já atormentada cabeça. Yuri não insistia, não o acusava por ter agido de maneira tão egoísta, perdendo o controle, e fazendo o que bem quisesse para depois, convenientemente, esquecer tudo. Ele tinha todo o direito de ficar bravo. E, ainda assim, ele estava sendo tão gentil, preparando banho, trazendo suas roupas, e preocupando-se com o bem estar dele daquela maneira. Era mais do que Wolfram estava merecendo, no momento.

Wolfram aceitou as roupas que ele trazia, apertando-as junto ao peito. Não podia se mover muito, ou o lençol na sua cintura caíria.

— Yuri… — Ele balbuciou. Ergueu os olhos, e impeliu o corpo ligeiramente para fora, inclinando-se na direção de Yuri, impedindo que ele se afastasse. Depositou um beijo rápido e leve no rosto de Yuri, antes de se encolher de volta atrás da porta. — Obrigado. Por tudo.

Yuri apenas sorriu em resposta.

— Está tudo bem.



~



Depois de tomar banho, Wolfram se sentia um pouco melhor do que antes. Ainda se sentia enjoado e com dores de cabeça, mas, ao menos, estava apresentável para que saíssem do hotel sem parecerem dois moribundos que se perderam no caminho para seus barracos debaixo da ponte. Suzanna Julia havia partido naquela mesma manhã para sua Lua-de-Mel, e deixara ordens para os funcionários do hotel providenciarem um táxi para os dois quando eles saíssem do quarto.

Wolfram ficou em casa primeiro, avisando para Yuri que iria dormir sem hora definida para acordar, e que ligaria para que ele soubesse como estava se sentindo. O moreno foi para sua casa logo depois, e foi recepcionado por uma ansiosa Miyako, que abriu a porta para ele já avisando que sua mãe estava no mercado e seu pai tinha ido com ela. Ela parecia esperançosa em conseguir alguma informação, isso era evidente, mas Yuri apenas seguiu o caminho, tentando agir normalmente, até seu quarto. Ele também passaria o resto do tempo dormindo, se pudesse. Ele mal havia pregado os olhos durante a noite inteira.

Tirou o paletó negro que usava fechado sobre a camisa arruinada e jogou-o longe. Estava prestes a fazer o mesmo com a camisa também, quando sua porta abriu em um rompante. Miyako havia desaprendido a bater nas portas com a sua mãe.

— Como o Wolfram está, Onii-chan… — Miya terminou a pergunta com reticências no ar, ao ver seu primo no centro do quarto, de costas para a porta e a meio caminho de se despir. O que havia chamado sua atenção era em específico os detalhes daquela cena. Porque as costas de Yuri estavam completamente marcadas por linhas vermelhas em toda a sua extensão e, ou os óculos de Miya estavam precisando de revisão, ou aquela camisa que ele retirava agora estava sem mais da metade dos seus botões. Costas arranhadas e camisas arrancadas? Essa combinação só podia significar uma coisa. — Yuri-nii-chan!! — Ela guinchou, sem conseguir conter a empolgação. — Você e o Wolfram-kun, vocês dois… Vocês d-dois…!

— Não! Não, nada disso! — Ele se apressou em negar, correndo na direção da porta, e tentando colocar Miyako para o lado de fora dela e a fechar. — Não aconteceu nada, não pense mais nisso, Miya-chan!

— Alguma coisa deu errado? — Ela estranhou o aparente mau-humor do garoto. Se a sua dedução estivesse correta, não era para ele estar assim. — A Miya pode ajudar!

Depois de alguma insistência, Yuri conseguiu fechar a porta, e Miyako adiou sua busca por respostas, ao menos por hora. Tudo o que Yuri não precisava agora era explicar para a prima o que havia acontecido naquela noite. Até porque nem ele próprio sabia definir exatamente o que raios havia ocorrido.

A falta de sono estava começando a cobrar seu preço. Yuri apenas terminou de tirar as calças e as meias, e se jogou na cama da maneira que se encontrava, afundando o rosto no travesseiro. Exceto por alguns curtos períodos, que pareciam durar pouco mais do que um piscar de olhos para ele, não havia conseguido dormir nada, afinal. Com Wolfram completamente desacordado, ocupando a maior parte da cama, Yuri dividiu seu tempo entre observá-lo em silêncio, e pensar no que havia acontecido.

Ele se sentia responsável por ter permitido que Wolfram fosse tão longe, é claro, mas não podia negar que o que o intrigava, na realidade, era aquela frase breve e incoerente, que o loiro soltara entre gemidos indistintos em seu ouvido.

Apenas ao recordar, no presente momento, ele já sentia arrepios. Pensar sobre isso, com o principal motivo da sua insônia completamente desnudo bem ao seu lado, também não foi a coisa mais saúdavel a se fazer naquela noite. Mas ele tinha quase certeza do que ouvira.

“Eu quero… dentro…. de mim…. você…”

Yuri escondeu ainda mais o rosto no travesseiro, contorcendo-se com o simples pensamento. Ao menos as palavras faziam sentido, na sua mente. Não havia como ele ter se confundido com elas, não é? Só restava saber se Wolfram sabia do que estava falando naquele momento.

Mas, como poderia? Ele estava completamente fora de si, não deveria estar consciente de nada do que dizia ou pensava naquela hora. Poderiam ser apenas palavras ao acaso, sem motivação ou razão alguma por trás delas. Porém, se aquele fosse somente um desejo oculto que havia se revelado por conta do descontrole momentâneo, então… Bem, Yuri não saberia lidar com isso.

Quer dizer, não era como se Yuri nunca tivesse pensado sobre isso… Mas ele nunca havia pensado tão longe, e com tantos detalhes assim! Ele estava ligeiramente ciente do que significava avançar mais um passo, e que algum dia eles fariam isso, mas nunca havia pensado profundamente em como isso se daria. É claro que ele tinha breve noção de como as coisas funcionavam… em tese. Mas a realidade era algo absolutamente diferente!

E, além disso… Tinha que admitir. O pedido, claro e direto, havia partido do próprio Wolfram. E isso assustava Yuri. Porque ele ainda não havia imaginado uma situação como essa, e, acomodado com as coisas da maneira que eram, não pensaria que Wolfram tivesse vontades como aquelas. Não que isso fosse ruim, de maneira alguma. Era só… inesperado.

Contudo, talvez, ele não quisesse dizer exatamente isso, afinal?

Yuri só precisava perguntar, para ter certeza. Mas ele preferia passar outra noite em claro a ter que discutir diretamente, olhando para Wolfram, sobre esse assunto. Não sabia nem mesmo que palavras usar para isso. Estava tão confuso que até mesmo a ideia de recorrer à ajuda de Miyako parecia tentadora agora.

Ele definitivamente estava precisando dormir.

Notas finais
Hey, pessoas o/ Acho que o capítulo dessa vez demorou um pouquinho mais do que geralmente demora, mas eu passei alguns dias na praia e PASMEM, não pude levar o meu notebook junto, nem internet tinha lá. Sim, mesmo depois dos 20, não sou um elfo livre.. ninguém é. Enfim! Era pra eu ter postado o capítulo ontem, mas acontecimentos (passei o dia jogando Amnesia - culpa da editora que me instigou a comprar) me impediram EU SINTO MUITO POR ISSO mas espero que esse capítulo compense 'u' .... a não ser que vocês não tenham gostado de como acabou .-. mas espero que tenham gostado ehehe Ok, vou ficando por aqui! Nos vemos no próximo capítulo o/ bye.