Aa soumatou mitai yomigaeru kioku wa

Minhas memórias brincam em frente aos meus olhos, como uma lanterna agitada

Tomedonokute, adokenakute yake ni kagayate mietan'da

Infinitamente, inocentemente, e tão brilhantemente.

Okubyouso mo yowasamo sawayaka na kaze ni naru

Meus medos, minhas fraquezas, tudo sai voando

Boku wa tada mae wo…

Junto com a brisa refrescante, em frente...



Dare yori mo yawarakakute atatakai kimi no te

Segurei a sua mão, a mais quente e suave.

Nigishimete sono kokoro no oku made todoku you ni

Esperando alcançar o fundo do seu coração.

Hohoende kureta nara nigiri kaeshite kuretara

Se você sorrir pra mim e segurar minha mão de volta

Boku wa kimi no te wo hiite yuku

Então eu nunca mais te soltarei.

Capítulo 56



Miyako não tinha permissão para se mover. Já fazia quase uma hora que Natsume andava ao seu redor, mexendo no seu rosto e no seu cabelo sem parar, fazendo coisas que ela também não tinha permissão de ver. Passava pincéis no seu rosto e penteava seu cabelo de inúmeras formas diferentes, enrolando e trançando, e Miya não conseguia imaginar no que isso resultaria. Às vezes, Natsume parava, se afastava para examinar melhor, e voltava para modificar mais alguma coisa, murmurando para si mesma enquanto trabalhava com afinco.

E Miyako não estava nem esperando pela visita. Era cedo da tarde quando a campainha tocou e Natsume sorria para ela do outro lado da porta, com uma maleta de maquiagens emprestada da sua mãe, e produtos de cabelo em uma bolsa grande que trazia. Era a primeira vez que Miya recebia uma amiga em casa, mas ela nem teve muito tempo para pensar nisso, pois logo foi arrastada para uma longa sessão de tortura — ou melhor, de tratamentos de beleza, orquestrados por uma exultante Natsume. A garota de cabelos azulados — presos em um rabo de cavalo alto que davam a clara manifestação do seu empenho — desde pequena, nunca havia gostado muito de brincar de bonecas, mas parecia estar adorando essa nova experiência.

Primeiro de tudo, mandou Miyako tomar um longo banho, usando os sabonetes perfumados, shampoos e cremes de cabelo que ela mesma trouxe — e então, colocou as mãos em obra. Cremes no rosto, esmaltes nas unhas, escova no cabelo. Natsume admitiu que ela nunca fazia nada disso em si mesma, nem sabia pra quê tudo aquilo servia, mas não era nada que não pudesse ter aprendido em várias horas de vídeos tutoriais no Youtube. O que no caso, era o que ela havia feito.

— Hm, é... Acho que tá quase lá… — Ela abriu sua bolsa e tirou de lá algumas pequenas presilhas brilhantes, com pérolas no centro. Adornou o penteado que havia feito no longo cabelo de Miyako, pontuando as mechas com cuidado, dando um aspecto delicado, mas ainda destacado ao todo. Sorriu, olhando para ela como um artista para sua obra de arte.

— Terminou? — Miyako indagou, incerta. Sentia-se toda estranha, como se estivesse em um corpo que não era seu. Tinha medo do resultado — afinal, não importava o quanto Natsume tentasse arrumá-la, ela ainda era Shibuya Miyako. Meia dúzia de cremes e alguma maquiagem não podiam fazer milagres.

— Olhe você mesma. — Natsume deu espaço para Miya andar até o espelho que tinha na parede do seu quarto. Ela hesitou, pensando que talvez não precisasse ver, mas o olhar insistente e animado da outra foi o suficiente para convencê-la.

Ainda de pés descalços, ela se ergueu e se posicionou. O tecido leve do vestido parecia flutuar ao seu redor. Ela olhou para frente, e do outro lado do reflexo, encarando-a, estava uma garota. Parecia com ela, era verdade, mas ainda assim, era completamente diferente. O vestido também parecia muito diferente, quando ela estava usando-o agora, do que da primeira vez que experimentara.

Natsume se preocupou quando Miyako ficou encarando o espelho sem palavras. Será que ela não tinha gostado do resultado? Porém, logo depois, a menina desviou o olhar e a fitou — e ela sorria, então Natsume respirou, aliviada.

— Muito obrigada, Sunohara-san… Eu… Eu não teria conseguido… — Ela não encontrava as palavras certas. Era a primeira vez que ela conseguia pensar, de verdade, que estava se sentindo bonita. Natsume podia ver a gratidão evidente na voz dela.

— Hey, eu não mereço todo o crédito não. Nem precisei fazer muita coisa, na verdade. — Ela abanou a mão, se aproximando. — Você já é bonita, Miya-chan, então não me agradeça por isso.

— Obrigada… — Ela sorriu sem graça, baixando o rosto enquanto segurava uma mão na outra.

— Agora vamos mostrar pra todo mundo como você ficou! — Natsume a puxou pelo braço, querendo logo exibir uma ainda constrangida Miyako. — Eu pagaria pra ver a cara do Ben quando ele te enxergar!

Miya soltou um ruído intelígivel, querendo desmaiar só de ouvir isso. Havia esquecido que Benjamin também havia sido convidado para o casamento com seu tio.



~



Enquanto Natsume desfilava com Miyako pela casa para mostrá-la para todo mundo — e Miko gritava tão animada que os vizinhos do quarteirão inteiro já deviam estar sabendo, a campainha tocou. Yuri foi o único a ouvir, e correu para a entrada.

Ao abrir a porta, sentiu todo o ar esvair-se dos seus pulmões, e piscou duas vezes, tentando recuperar a fala antes de qualquer coisa. Do outro lado da porta estava um verdadeiro e legítimo príncipe. Wolfram vestia um terno azul aberto, com camisa branca e colete por baixo, que estava tão perfeitamente modelado no seu corpo que só poderia ter sido feito sob medida. Os cabelos loiros estavam bem penteados, embora seus cachos se recusassem a ficar no lugar de qualquer maneira. Ele ergueu os olhos ao ver Yuri, colocando uma das mechas de volta atrás da orelha, e o encarava furiosamente, bradando coisas que Yuri demorou a perceber e processar.

— … O que? — Ele indagou, tolamente, ainda esquadrinhando Wolfram por inteiro. Nunca na sua vida ele havia se preocupado muito com roupas, ou percebido elas em outras pessoas — mas, como sempre, Wolfram era uma exceção, porque era impossível não notar o quanto ele ficava impecavelmente belo com roupas formais.

— Eu perguntei o que é isso no seu pescoço? Como é que você não está pronto ainda, Yuri? Já são quase seis horas da tarde! — Wolfram continuava falando, enquanto ia entrando para o hall e tirando os sapatos, sem parar de passar o seu sermão. Yuri engoliu em seco, observando como aquela calça se moldava bem nele. Quando se abaixava…

— É mesmo… — Ele disse vagamente, voltando a ser capturado pelos olhos verdes e cheios de censura. Wolfram ficava lindo quando se irritava, também.

— Ainda bem que eu resolvi passar por aqui para ver se você já estava pronto. O casamento começa às oito horas, sabia? — Ele não parava de falar, e Yuri apenas o seguiu até a sala, onde ele finalmente parou. — O que você disse? — Wolfram interrompeu sua sequência interminável de reclamações, ao notar o insistente olhar de Yuri.

— Você está lindo… — Yuri repetiu o que havia sussurrado para si mesmo, e Wolfram paralisou, o rosto rapidamente adquirindo cor. — Parece um… Príncipe… — O sorriso de Yuri era sincero, e os olhos dele transbordavam admiração ao enxergá-lo.

Não era possível que, depois de tanto tempo e tantas coisas que aconteceram, Wolfram ainda ficasse embaraçado por aquelas mesmas coisas bobas, mas ele ficava. E se irritava por causa disso — então, em um esforço para disfarçar o constrangimento que aqueles olhos de Yuri fixos em si causavam, ele tentou agir naturalmente.

— Claro que pareço, porque eu sou um, lembra? — Ele desviou o olhar, com um sorriso forçadamente presunçoso. — E agora, você...

— O que tem?

Wolfram suspirou, o embaraço anterior dando lugar a uma leve exasperação. Ele se aproximou de Yuri, erguendo as mãos até alcançar a gola da sua camisa.

— Não se amarra uma gravata borboleta como se fosse cadarço de tênis, Yuri. — Ele ia dizendo, enquanto tentava desfazer o nó que o outro havia de alguma maneira conseguido fazer.

— Eu nunca usei uma coisa dessas, isso daqui é do Shori. Como é que eu ia saber? — Yuri justificou, e Wolfram ergueu os olhos sorrindo de canto.

— É por isso que eu estou aqui. — Ele conseguiu desatar a gravata, e ergueu a gola da camisa branca para ajeitar apropriadamente. Yuri continuou parado, observando enquanto Wolfram se concentrava para arrumá-lo. Ele estreitava os olhos baixos, e Yuri podia ver o quanto seus cílios claros eram longos.

Quando se deu por satisfeito, Wolfram apertou os lados da gravata, e ajeitou a gola. Olhou para baixo, vendo a maneira desleixada como Yuri havia colocado a camisa, e pensou em ajeitá-la dentro da calça, mas… Em um segundo pensamento, isso não parecia uma boa ideia.

— Está bom agora? — Yuri indagou.

— Só arrume sua camisa, sim? — Yuri fez como Wolfram indicou, e então, ele se aproximou de novo para arrumar os cabelos desalinhados de Yuri, que pareciam estar sempre agitados e em movimento, assim como ele. Não era dificil arrumar um cabelo liso, afinal, mas Yuri jamais combinaria com um estilo todo certinho. Wolfram gostava do jeito que o cabelo dele era. Depois disso, terminou de abotoar o terno preto, passando as mãos para alisar a lapela e os ombros. Pousou as mãos ali mesmo, depois, fitando Yuri com aprovação. — Agora sim, está perfeito.

— Mesmo? — Sem pensar muito, Yuri envolveu a cintura de Wolfram em um abraço, e ele permitiu, aproximando-se apenas mais um mínimo passo até que estivessem juntos um do outro. Assentiu uma única vez em afirmação, os olhos baixando até os lábios entreabertos de Yuri. Talvez não fizesse mal, aproveitar só um pouquinho, já que estavam ali… — Obrigado, Wolf… — O nome perdurou em seus ouvidos por mais alguns instantes, e ele já sentia seu corpo se impelindo involuntariamente naquela direção.

Click. O barulho seguido de algumas risadas acabou com todo o clima. Ambos viraram o rosto ao mesmo tempo, e Wolfram reconheceu Miyako vestida para a festa, e, ao seu lado, a garota que andava sempre com ela ultimamente — Natsume era o nome dela, se não lhe falhava a memória — segurando uma câmera nas mãos. Pelo visto, não era a intenção delas atrapalhar, mas elas também não pareciam arrependidas.

— Eu trouxe a câmera para tirar fotos da Miya-chan e olha só o que recebo de bônus. — Ela comemorou, visivelmente satisfeita.

— Me manda essa foto depois! — Miyako pediu, inclinando a cabeça para poder ver como havia ficado também.

Wolfram até pensou em reclamar, mas sabia que seria um esforço desperdiçado. Afastou-se de Yuri um pouco a contragosto, e cumprimentou a mãe dele que vinha apressada do corredor, com um vestido longo verde e esvoaçante, colocando um brinco na orelha e elogiando a todos, em voz elevada, sobre como estavam bonitos. Natsume aproveitou para tirar mais fotos, de todos juntos também. E logo Shori apareceu em casa, apenas para se arrumar rapidamente, já que estava vindo direto do trabalho. Ele já não estava mais morando ali — alugara um apartamento mais próximo ao seu escritório, mas Miko fazia questão de que toda a família chegasse ao local reunida — mesmo que ele tivesse argumentado que podia muito bem ir direto do trabalho para o casamento, pois Bob, o seu chefe, também era um dos convidados.

Ao que parecia, Susanna Julia e o seu noivo — em breve, marido — eram de famílias bastante conhecidas do país de onde vieram, e ele era acionista de uma das empresas que fazia negócios com a empresa onde Shori trabalhava. Haviam sido eles os responsáveis por conseguir asilo político para a família Real no Japão, por meio da empresa de Bob. Eram tantas coincidências que Yuri preferia não pensar nisso, pois ficaria complicado demais de entender.

Natsume deu uma última ajeitada no cabelo de Miyako, Wolfram penteou com os dedos os fios rebeldes da parte de trás da cabeça de Yuri, e todos estavam prontos para sair.

— Oh meu Deus, olha a hora! — Miko foi empurrando a todos em direção à entrada, quase esquecendo que Natsume não ia ao casamento e levando ela junto também. — Ah, querido! — Ela voltou para buscar o marido, que havia se distraído com a televisão. — Nós vamos nos atrasar!

— Ainda temos muito tempo, querida… — Despreocupado, o pai de Yuri vinha os acompanhando no seu próprio ritmo. Wolfram não pôde deixar de pensar, por um breve segundo, que ele era mesmo muito parecido com Yuri em alguns aspectos.

— Não podemos dar uma impressão ruim chegando atrasados, claro que não! — Ela insistiu, voltando mais uma vez para buscar Shori, que ainda dava o nó na sua gravata pelo caminho. Mesmo que ele fosse dirigindo o próprio carro, Miko não deixava de repetir que deveriam chegar juntos, como era apropriado.

Yuri reclamava do quanto sua mãe se preocupava com coisas consideradas tolas na sua concepção, e ainda pedia desculpas para Wolfram por todo o escândalo, mas o loiro não se importava. Na verdade, achava engraçado a maneira como ela tratava os filhos ainda como crianças, apesar de ambos já serem bem grandinhos, e de sempre tentar fazer com que tudo saísse perfeito, esforçando-se tanto quanto possível, cuidando da casa e da família.

E, além disso, Wolfram se sentia bastante orgulhoso de si mesmo por poder presenciar essas cenas tão caseiras. No início, quando vinha visitar Yuri, percebia que Miko tentava passar uma boa impressão a ele e fazer com que tudo na casa parecesse perfeito, quando ele estava ali. O pai de Yuri também demonstrava esforço nesse sentido, e Shori nunca escondeu que sentia ciúmes de Wolfram — embora sempre o tratasse muito bem, havia certa ameaça implicita na sua cordialidade, que Wolfram relacionava com a que às vezes percebia em Gwendal; algo que soava como “se você magoá-lo, irá se arrepender”.

Porém, com o passar do tempo, a presença de Wolfram se tornou tão familiar que as tentativas de atuar como uma família perfeita ruíram gradualmente, e eles passaram a agir mais naturalmente ao redor dele. Mesmo Yuri, que sempre era cuidadoso para não assustá-lo com as loucuras da sua casa, foi desistindo — e, por fim, presenciar as discussões e brigas que ocorriam por vezes passou a ser algo comum. Se Wolfram ficava feliz com isso? Claro que sim, pois, dessa forma, sentia-se com parte da vida de Yuri, incluido em sua família, como se fosse a sua própria. Era algo que ele nunca havia imaginado antes, e que, inesperadamente, fazia com que se sentisse muito bem.

— Ah, Miya-chan, você ainda está descalça! Os sapatos, onde estão os sapatos? Vocês dois, pro carro! — Ela acenou para Wolfram e Yuri se apressarem, acordando o loiro dos seus devaneios internos.

Yuri segurou a mão de Wolfram automaticamente, e eles seguiram até a frente da casa enquanto Miyako colocava os sapatos ao mesmo tempo em que caminhava para fora, e Miko levava Natsume para o carro enquanto ela tentava balbuciar um “mas eu não vou junto” confusamente.

— Desculpe pela… Ahn… Confusão.. — Yuri parecia exasperado. — Minha mãe fica sempre agitada com essas coisas…

— Está tudo bem. — Wolfram sorriu, e Yuri não entendeu por que ele parecia tão tranquilo, e até animado, ele poderia dizer. — Eu já me acostumei.



~



Era fim de tarde, e as luzes dos postes começavam a acender, embora o sol ainda não tivesse desaparecido por completo. A rua estava menos movimentada, mas as poucas pessoas que passavam observavam com estranheza a garota que andava pela calçada. Ela parecia estar em sérias dúvidas. Ora andava para frente, parecendo decidida, mas então estancava, levava as mão até a cabeça, chacoalhando os cabelos azulados. E então, dava meia-volta na direção oposta, apenas para segundos depois, mudar de ideia, e, resmungando para si mesma, marchava de volta ao seu caminho.

Natsume estava com um sério dilema.

Depois de sair da casa de Miyako, ela iria direto para a sua própria, mas havia um pequeno obstáculo no seu caminho, que a impedia de realizar esse simples planejamento com sucesso. E o nome do obstáculo era Little Shimaron.

Ok, ela podia admitir ao menos para si mesma que, desde que descobrira que Sara, aquele modelo por quem ela tinha um grande… apreço e admiração pelo trabalho, era o gerente daquela confeitaria, o lugar passou a vagar pelos seus pensamentos de tempos em tempos. Ela realmente queria ir até lá e vê-lo de novo. Caramba, não era todo dia que surgia a oportunidade de ver alguém de quem ela era fã, e que só podia ver através de revistas e da televisão, tão de perto! Ali, na mesma vizinhança. Era uma chance única na vida, ela não podia desperdiçar.

Porém, havia dois problemas, empecilhos que a impediam de concretizar essa vontade. O primeiro motivo era o pequeno incidente envolvendo um bolo que ela protagonizara. Não tinha coragem de aparecer naquele lugar novamente, depois do vexame que causara. E, mesmo que tivesse a cara de pau o suficiente para aparecer no lugar de cabeça erguida, havia o segundo motivo, e esse atendia pelo nome de Shuuhei. O maldito havia escondido dela a informação de que trabalhava ali, com o seu… ídolo— e, ainda assim, se ele sequer desconfiasse que ela desejava retornar ao locar só para vê-lo, iria rir da sua cara até a próxima encarnação.

Ela ainda remoía a dúvida — tentar ver Sara nem que fosse de longe e arriscar ser vista por Shuuhei, ou desistir de vez e voltar para casa submersa em arrependimentos, para a sua vida de colecionadora de revistas e pôsteres? Enquanto ainda não decidia, continuava caminhando, e, quando se deu conta, estava na esquina da confeitaria. Certo, talvez não tivesse sido tão inconscientemente assim, mas ela gostava de pensar que aquele era um golpe do destino. Não poderia desperdiçar uma oportunidade que caía no seu colo tão repentinamente, afinal.

Tratou de se ocultar nos arbustos que circundavam o canteiro da rua, da melhor forma que podia, e tirou da bolsa um boné roxo e amarelo com o emblema de um time de basquete americano na frente, e um par de óculos escuros. Soltou os cabelos para ocultar melhor o rosto. Talvez ela estivesse preparada para isso desde que saíra de casa, mas isso não significava nada. Não era como se ela tivesse planejado fazer isso por dias, também. Era apenas uma coincidência.

Pegou também a câmera fotográfica, ajustando-a em frente ao seu rosto. Não estava pretendendo exatamente tirar fotos, é claro, a menos que surgisse a oportunidade, mas com o zoom da câmera ela podia enxergar bem melhor o interior da loja. Era no mínimo uma imagem suspeita, e quem vinha passando pela rua logo trocava de calçada. Ela parecia uma stalker, tinha que reconhecer isso.

Concentrou-se no visor da câmera, e logo notou uma movimentação. A atendente do balcão estava anotando pedidos de duas garotas, que deviam ser jovens universitárias, no mínimo, não pareciam ter idade escolar. Elas riam e se mexiam bastante ao falar, pareciam estar pedindo alguma coisa para a funcionária… Que chamou por alguém.

E então, ele apareceu. Natsume prendeu o ar, como se fosse possível que ele a detectasse ali do lado de fora a qualquer momento caso fizesse o menor ruído. Sara sorria cordialmente para as garotas, que pareciam entusiasmadas demais. Elas ainda estavam agitadas, nem ligavam para as fatias de bolo que a outra funcionária havia servido no balcão. Ele se juntou a elas, ainda sorrindo simpaticamente, enquando cada uma se posicionava de um lado, uma delas erguendo o celular para tirar uma foto, enquanto a outra fazia sinal de paz com os dedos. Ambas seguravam os braços dele, e não soltaram mesmo depois de tirar a foto.

Oferecidas. Natsume não gostou nem um pouco de nenhuma das duas. Não sabiam respeitar o espaço pessoal das pessoas. Ousadia sem tamanho.

Ela cerrava os dentes, grunhindo enquanto via as duas assanhadas saírem pela porta da frente, dando gritinhos entusiasmados e pulinhos retardados pela rua. Sara sumiu novamente, pelo mesmo lugar por onde havia surgido antes, e Natsume suspirou, torcendo para que ele resolvesse retornar e ficasse onde ela pudesse enxergá-lo. Ainda imaginando como seria se ela pudesse realmente entrar naquele lugar, tão despreocupadamente como aquelas garotas há pouco fizeram, ela não percebeu quando alguém se aproximou pela sua lateral, com passos pouco ruidosos.

— Está perdida, senhorita?

O coração de Natsume quase parou, quando ela se desequilibrou e caiu sentada na calçada atrás do canteiro. Olhou para cima — e, de pé ao seu lado, estava a última pessoa que ela queria que a visse naquela situação. Maldita hora que se rendeu aos seus pensamentos insanos e resolveu que espionar a confeitaria podia ser uma boa ideia.

O sorriso no rosto dele deixava bem claro que ela ainda sofreria muito por ter tomado essa decisão.



~



Quando chegaram ao local da cerimônia, Yuri deixou escapar um pequeno “wow” ao ver as dimensões da festa através da janela do carro. Nunca havia estado em um lugar tão requintado. A festa e a cerimônia seriam no mesmo local, um dos hotéis da família de Julia, e aquele em questão era um cinco estrelas. O edifício era enorme, e em letras garrafais, de um dourado que parecia muito ouro (embora Yuri realizasse depois que ninguém usaria ouro em uma fachada) podia-se ler Wincott. Uma mediana fila de carros esperava para adentrar o local, e, ao parar na entrada, os motoristas trocavam de lugar com os valetes, para que estacionassem apropriadamente. Os convidados — todos em roupas extremamente chiques, e que mais pareciam ter saído do tapete vermelho do Oscar— eram conduzidos pelos funcionários do Hotel.

O mesmo aconteceu com Yuri e sua família. Logo ao sair do carro, ele segurou a mão de Wolfram, que não parecia nem um pouco surpreso com o local, e andava com tanta naturalidade que era como se pertencesse inteiramente àquele cenário. Tudo parecia brilhar intensamente. Desde as luzes ofuscantes do amplo hall de entrada, até os uniformes dos funcionários que os levavam até o local adequado, ou o reflexo da iluminação na escadaria de mármore. Yuri se sentiu até tonto, com tantas coisas para ver em tão pouco tempo. Porém, diferente do que imaginava, eles foram indicados a seguir até o saguão que dava acesso ao lado de fora do hotel. Ele estranhou um pouco, de início, mas logo entendeu.

O espaçoso jardim estava inteiramente decorado para o casamento. No centro, havia um caminho na grama coberto por pétalas de rosas brancas, que levava até uma elevação na extremidade oposta, onde havia um pequeno altar, com um arco de flores atrás. Aliás, havia flores por todos os lados, para onde quer que ele olhasse. Pequenas flores brancas, flores exuberantes, em tons de amarelo e azul-claro, folhagens e trepadeiras que pendiam graciosamente dos pilares que circundavam o local. Desses pilares, vinham luzinhas — como aquelas de Natal, Yuri pensou — e essas luzes também estavam nas árvores ao redor, nos arbustos, e iluminavam o início da noite que ainda não tinha estrelas.

Ao redor, ao invés de cadeiras, haviam mesas por todos os lados, muitas delas já ocupadas, decoradas com vasos de rosas brancas bem altos. A funcionária que os aguardava na entrada, sorridente, indicou o lugar que estava reservado a eles. Havia o nome de cada um dos convidados em pequenos cartões na frente de cada lugar, e a mesa onde eles deveriam sentar já estava ocupada por duas figuras conhecidas. E uma delas tinha os olhos azuis fixos em algo, e se levantou rapidamente para ir de encontro ao foco da sua atenção, quase como se estivesse hipnotizado. Miyako corou até a raiz dos seus cabelos, quando ele finalmente chegou até ela, e segurou sua mão, inclinando-se até alcançar seu ouvido.

— Você é linda demais… — Ben sussurrou, vendo como ela ficava ainda mais desconcertada com a maneira que ele a fitava agora. Ela tentou agradecer, mas nada além de um “obrigada” soprado saiu.

Não que Ben não soubesse o quanto Miyako era linda — ele tinha plena consciência disso, tanto que passava seus dias a vigiá-la de longe e ameaçar com olhares nada amistosos qualquer cliente que ousasse olhar demais para ela. Mas ela não parecia prestar atenção nesse detalhe, provavelmente porque não se preocupava com os olhares de outros sobre si. No entanto, naquele momento, ela parecia muito consciente, e talvez até mesmo um pouco mais confiante sobre si mesma. Parecia reluzir. E Benjamin, apesar de estar feliz por vê-la assim, não podia deixar de sentir um pouco de ciúmes. Porque agora todos podiam perceber nela o que ele sempre enxergou.

A maquiagem no seu rosto era leve, mas a realçava de uma maneira que ele nunca podia ter imaginado. Seu cabelo havia sido preso atrás com duas tranças menores, a franja ainda cobrindo sua testa, e caia delicadamente pela lateral do seu ombro em suaves ondas, e havia pequenos pontos brilhantes de presilhas que cintilavam delicademente sob a luz tênue da decoração acima deles. E o vestido, de um tom de cor-de-rosa claro com delicadas flores adornando o tecido, caia em duas camadas pouco volumosas e muito leves. Tinha mangas curtas e ligeiramente franzidas, e a gola tinha rendas da mesma cor, com um laço um pouco mais claro passando acima da cintura.

Benjamin segurou a mão de Miyako e a conduziu com delicadeza para sentar-se ao seu lado, na mesa onde Yozak já cumprimentava aos outros com animação. Os nomes de Yuri e Wolfram indicavam que eles também deveriam sentar ali, mas tanto seus pais como seu irmão se dirigiram à mesa logo ao lado, reservada a eles, já que cada uma só tinha lugar para oito pessoas.

Logo ouviram a voz extasiada de uma pessoa que se aproximava, exclamando sobre o quanto estavam lindos, e é claro que esta só podia ser Cecilie. Ela estava deslumbrante em um vestido colado ao corpo curvílineo, longo e preto, que brilhava de acordo com a maneira como ela se movia, e com os cabelos volumosos soltos em grandes cachos. Parou para abraçar a cada um deles demoradamente, e então se acomodou na mesa reservada a si, que era junto à familia de Yuri — Julia parecia ter planejado a organização dos convidados com primor.

Junto a eles acomodaram-se Conrad e Gwendal, que, para a surpresa de todos, estava acompanhado, e por ninguém menos do que a professora de química de Yuri e Wolfram. Yuri quase não acreditou ao vê-la segurando o braço de Gwendal com a maior naturalidade do mundo, em seu vestido vermelho-vinho. Já era estranho o bastante imaginar que os professores tinham uma vida fora da escola, agora encontrá-la ali já era surreal.

Foi Wolfram quem o lembrou que Anissina fora sua tutora na época em que morava em Shin Makoku, e conhecia sua família desde muito tempo atrás. Ao que parecia, quando ficou sabendo que haveria um casamento, ela insistiu veementemente até que Gwendal não tivesse outra saída a não ser levá-la consigo. Eles eram bons amigos desde a faculdade, e foi assim que Anissina se tornou sua tutora, Wolfram explicou. Yuri não ousou fazer nenhum comentário sobre o assunto, mas Anissina e Gwendal eram uma dupla no mínimo inusitada, e que ele jamais poderia imaginar que fossem amigos.

E mais convidados não paravam de chegar — Yuri logo ficou impressionado com a quantidade de pessoas que se reunia ali, e no quanto elas podiam ser diferentes umas das outras. Julia sempre deu a ele a ideia de que tinha muitos amigos, mas ele não imaginava que seriam tantos assim. O lugar já estava cheio, e todos conversavam animadamente, ao som da música ambiente que só mais tarde ele percebeu que era proveniente de um grupo de músicos que se encontrava na lateral do palco de madeira.

Yuri ouvia com uma nota de preocupação que sua mãe e Cheri estavam já muito animadas em conversar uma com a outra, e pareciam empolgadas em planejar alguma coisa juntas. Ele ouviu a palavra casamento mais de uma vez, e não parecia ser referente ao que se encontravam no momento. Já na sua própria mesa, Yozak e Conrad conversavam entre si, e Gwendal parecia muito tranquilo, enquanto Anissina olhava ao redor e fazia comentários ocasionais, sempre muito animada. Já Benjamin e Miyako pareciam estar em um mundinho só deles, conversando em voz baixa, e de vez em quando ela deixava escapar algum riso contido.

Ele olhou para o seu lado, e viu Wolfram distraído enquanto observava o arranjo de flores na sua frente. Não cansava de pensar no quanto ele estava lindo hoje. Ele sempre era lindo, claro, mas… Agora, com aquelas luzes que pareciam fazê-lo reluzir ainda mais aos seus olhos, Yuri mal podia aguentar a vontade que tinha de dizer isso a ele, várias e várias vezes. Sabia que era exagero pensar assim, mas seu coração se agitava levemente ao olhar para Wolfram, e ele não sabia dizer de onde essa agitação surgia. Seria por terem ficado separados por algum tempo, o que nunca havia acontecido antes, ou ele simplesmente havia se apaixonado mais uma vez pelo seu namorado? Talvez fosse consequência de toda aquela atmosfera romântica que um casamento criava, que estivesse tornando-o tolo. O que quer que fosse, o deixava estranhamente impaciente — e, ao mesmo tempo, contente.

Segurou a mão de Wolfram por cima da mesa, com o anel que havia dado a ele de presente reluzindo discretamente no dedo pálido, e seus olhos se encontraram, causando novamente o tremor em seu peito. Ele sorriu para Wolfram, e recebeu um sorriso confuso de volta. Teve vontade de rir.

Sabia que não havia motivos para aquele sentimento inominável, que o sufocava de uma maneira que ele não entendia, mas que não era ruim. Aquilo era vontade de estar mais perto de Wolfram, provavelmente. Mas não precisava apressar as coisas. Não quando eles tinham todo o tempo do mundo para isso.



~



Natsume não conseguia acreditar na situação em que se encontrava. Aceitar a realidade era confirmar o fato de que havia sido um tanto inconsequente e tomado uma decisão errada por ímpeto, e que Shuuhei tinha razão quando dizia que ela era uma fã maluca, apesar de nunca admitir. E a última coisa que ela queria era admitir que aquele garoto que agora ria na sua direção tinha razão.

Sim, ela havia sido flagrada no meio da sua espionagem — ou, como ela preferia chamar, observação externa indireta — por ninguém menos que o seu vizinho e amigo de infância, e ele não perdeu a oportunidade que se apresentava diante dele. Poderia incomodar Natsume com aquilo por eras! Era uma fonte inesgotável de entretenimento, e havia algo mais divertido do que ter Natsume, sempre tão segura de si, com aquele semblante frustrado e visivelmente embaraçado? Até hoje, ele não havia encontrado nada melhor.

E foi assim que ele acabou se deixando levar pela situação, e convidado Natsume para entrar. Ela negou e tentou fugir, mas já fazia algum tempo desde a última vez em que ela foi a mais rápida e mais forte entre os dois. Uns bons anos, aliás. Então, é claro que acabou sendo praticamente arrastada para a confeitaria.

Agora, estava sentada em uma das mesas, com um pedaço de bolo à sua frente, muito arrependida e com vontade de sair correndo. Shuuhei ainda sorria, e ela só conseguia pensar no quanto queria arrancar aquela expressão debochada do rosto dele no tapa. E, além disso, ainda tinha que parecer normal, pois a outra funcionária — que se apresentou como Hori — continuava por ali, enquanto fechava a loja.

— Esse boné não é aquele que eu perdi e você disse que não sabia onde estava? — Shuuhei indagou, examinando o chapéu de cores pouco discretas, que agora repousava sobre a mesa, ao lado dos óculos escuros.

— Ele apareceu lá em casa, eu não sei de nada. — Ela se limitou a dizer, provando o bolo de morangos. Era delicioso. Mas ela não faria nenhum comentário, seu orgulho ainda estava em jogo. E, caramba, ele poderia aparecer ali a qualquer momento! Ela precisava sair correndo antes disso.

— Então você também não sabe o que estava fazendo escondida no canteiro da rua espionando o lado de dentro pela câmera? — Ele quase não pôde evitar o riso. Natsume o amaldiçoou mentalmente. Ele sabia muito bem o que ela estava fazendo ali, e usava isso para torturá-la, da pior forma possível.

— Asahina-kun… — A atendente do balcão se aproximou, depois de fechar todas as janelas e limpar as mesas. — Essa é a sua namorada?

— Não. — Tanto Shuuhei quanto Natsume entoaram a resposta automática no mesmo tom desinteressado. Já estavam acostumados a responder àquela pergunta desde muito tempo, já que sempre andavam juntos quando mais novos.

— Ah… Eu pensei que fosse, já que ela estava esperando por você do lado de fora… — A funcionária sorriu, sem graça, e Natsume se encolheu, constrangida ao perceber que a mulher havia percebido que ela estava lá. Se ela percebeu, quem mais poderia ter notado...

Shuuhei continuava a sorrir. Era evidente que ele só a trouxera para dentro da loja para poder vê-la ficar ainda mais desconcertada. E tinha gente que ainda se deixava enganar pensando que ele era o bonzinho, e ela a má influência entre os dois.

— Hori-san, você já terminou de… Ah, temos um cliente de última hora?

Natsume paralisou diante daquela voz. Não tinha coragem de olhar para cima agora, mas reparar que Shuuhei franzia os lábios para não rir dela era ainda pior. Cerrou os punhos no colo, tentando não esboçar reação.

— É amiga do Asahina-kun, que veio esperá-lo para ir embora. — Hori explicou rapidamente, fechando a caixa registradora e sumindo nos fundos da loja.

— Hmm.. — Natsume sentiu que estava sendo observada, e o calor que subiu pelo seu pescoço rapidamente se espalhou por todo seu rosto. — Nós já não nos conhecemos? — Ele soava intrigado. Ela sobressaltou com a pergunta, evidentemente dirigida a ela, e, no susto, ergueu a cabeça. Ele estava mais perto do que ela imaginava. Apoiado na mesa, bem a sua frente, Saralegui a encarava com interesse, até que pôde ver seu rosto e sorriu em compreensão. — Ah, eu lembro de você! Estava com a prima do Yuri-kun no outro dia. A garota do bolo!

Ah, a Terra poderia se abrir e engoli-la agora mesmo. Ela preferia ser abduzida e virar experimento de alienígenas, ou passar o resto da vida em um retiro afastado sem internet, do que ter que passar por aquilo. Ele lembrava! Ele lembrava dela, e lembrava daquele terrível acidente humilhante que, por mais que quisesse, ela jamais esqueceria. Como poderia ser pior?

— Bolo? — Shuuhei indagou retoricamente, arqueando a sobrancelha para ela, que apenas balançou a cabeça, tanto para negar o questionamento dele quanto para reorganizar sua linha de pensamentos.

— Eu… sinto muito… — Ela tentou se manter firme, sem muito sucesso. Se atrapalhou com as próprias mãos ao tentar gesticular, e decidiu que ficar parada era melhor. Ainda não conseguia olhar diretamente para Sara. Ele parecia reluzir, de alguma forma completamente surreal que ofuscava sua visão. — Naquele dia, eu… Hm… E-eu estava com um pouco de pressa… — Sua voz soava estranha aos próprios ouvidos, e ela não tinha certeza do que estava falando. Mas quando o postêr que você tem no quarto fala com você em pessoa, ficar calada definitivamente não é uma opção.

Seu coração deu um solavanco e parou de bater no instante em que ela percebeu que Sara se acomodava graciosamente na cadeira logo em frente à sua. Isso também não parecia estar nos planos de Shuuhei, que fitou o outro garoto, curioso. Como assim? Ele não poderia estar seriamente pensando em continuar aquela conversa, não é mesmo? Impossível.

— E você está bem agora? — O loiro indagou. Apoiava o rosto em uma das mãos, e parecia genuinamente interessado na resposta. Natsume arregalou os olhos antes de conseguir elaborar uma resposta mentalmente, que logo travou na sua garganta. A última coisa que ela estava era bem, quanto mais agora!

— S-sim. — Ela olhou de canto para Shuuhei, buscando por ajuda, mas ele parecia tão surpreso quanto ela — ou, pelo menos, mais do que deveria, já que toda essa situação havia sido arranjada por ele próprio, para começar.

— Que bom. — Ele ainda sorria, e Natsume não conseguia processar aquela imagem na sua mente. Ele estava ali. Sorrindo para ela. Parecia até real… — Nee, você ainda não me disse seu nome.

Ela ainda estava com a boca entreaberta, em estado praticamente catatônico, e apesar dos seus olhos verem que os lábios dele se moviam, e produziam voz, e essa voz era dirigida a ela, seu cérebro não estava acompanhando a informação em tempo real. Ela só acordou quando sentiu um cutucão do pé de Shuuhei no seu pé, por baixo da mesa. Tentou recriar mentalmente o que havia acabado de ouvir, e quase não conseguiu, ao perceber que Sara ainda esperava por uma resposta, calmamente.

— Ahn… — Ela engasgou ao tentar falar. Ele tinha perguntado por algo. Nome? O seu? Era isso?

— Natsume. — Shuuhei respondeu no lugar dela. Já não parecia se divertir tanto quanto antes.

— É um prazer conhecê-la. — O sorriso continuava cordial e educado, e ele ainda se voltava para ela. — Eu sou Saralegui, gerente da confeitaria.

— P-prazer… — Ela enfim ergueu completamente o rosto, apenas para descobrir que os orbes dele eram mais dourados do que qualquer revista ou pôster que ela colecionava jamais poderiam reproduzir fielmente o bastante. No que ela estava pensando quando foi para aquele lugar, afinal? Fora definitivamente a pior ideia que ela já tivera na vida inteira, e olha que isso vinha de uma garota com uma quantidade considerável de loucuras aleatórias das quais poderia se arrepender.

— Não precisa se preocupar com aquilo que ocorreu, também. — Ele trouxe de volta aquele assunto, e Natsume queria morrer. — Acidentes acontecem o tempo todo. — Até a risada dele soava melódica, como isso podia ser humanamente concebível?

— Ah, hm… O-ok… Eu acho… — Ela se esforçou em deixar sua voz sair, ainda que meio rouca e atrapalhada.

— Eu mesmo, por exemplo… — Ele ergueu os olhos, parecendo recordar de algum evento passado. — Já derrubei mais pedidos do que posso contar. É completamente normal.

— O-obrigada… — Ela tentou sorrir, meio sem jeito, e sem saber se tinha conseguido fazer alguma expressão menos desesperada do que realmente se sentia. Podia ser impressão sua, mas Sara parecia estar dizendo aquelas coisas para confortá-la e deixá-la menos sem jeito. Ele era muito mais acessível do que ela podia ter acreditado, e isso era completamente incrível.

— Já está na hora de ir para casa, não é, Natsume? — Shuuhei se levantou de onde estava, um tanto impaciente. Como Natsume ainda sentia-se como se estivesse no meio de um sonho, demorou para entender o que ele queria dizer com aquilo. Ergueu-se também, mais por reflexo do ato dele do que por ter entendido realmente.

— Acho que sim… — Ela balbuciou, depois de raciocinar por uns poucos segundos e perceber que já estava dentro daquela loja há muito mais tempo do que deveria, embora só fizessem alguns minutos. Tantas coisas acontecendo em um período tão curto a deixaram completamente perdida.

— Tão cedo? — Sara deixou o comentário no ar, e se pôs de pé também. — Por favor, não deixe de retornar para uma visita. Vou esperar por você. — Aquele sorriso estava lá de novo, para deixá-la ainda mais perturbada e sem foco.

— O-obrigada, S… — Ela não conseguiu pronunciar o nome dele em voz alta, de jeito nenhum. Com as sílabas entaladas na garganta, ela apenas se curvou rapidamente. — Foi um prazer…

— Igualmente. — Ele acenou, enquanto Shuuhei praticamente arrastava Natsume para fora do estabelecimento, ou, do contrário, ela não teria encontrado a porta da saída sozinha, tão afetada que estava. — Até a próxima. — Ela ainda ouviu, ao alcançarem a porta.

Olhou para trás. A figura esbelta, com os cabelos presos parcialmente por uma presilha, ainda acenava, com um sorriso no rosto. Ah, okay. Geralmente era nessa parte que ela acordava. Por que seu despertador ainda não havia tocado?

— Shuuhei… — Ela pronunciou cuidadosamente, assim que chegaram à rua, e o garoto a deixou caminhar sozinha. As lojas ao redor também fechavam suas portas, e havia uma quantidade razoável de pessoas caminhando apressadamente pela rua no caminho de volta para suas casas.

— O quê? — Ele perguntou, com certa relutância.

— O que foi que acabou de acontecer…?

— Eu nem quero saber. — Ele soltou o ar, extenuado, e passou a mão pelos cabelos. A verdade é que não gostava muito de Saralegui; nunca gostou, desde a época em que o conheceu através das revistas e conversas intermináveis de Natsume. E ter conhecido ele pessoalmente, ou mesmo o fato dele ser seu chefe, nunca atenuou aquela sensação de desagrado que Shuuhei sempre sentia ao estar perto do outro garoto. — Talvez seja um sonho maluco seu? — Ele ponderou, seriamente.

Natsume estancou no meio do caminho, o rosto pálido e os olhos parados, sem foco. Shuuhei indagou um “O que houve?” que foi perfeitamente ignorado, mas podia quase ouvir as engrenagens do cérebro dela trabalhando para que tudo voltasse a fazer sentido. Lentamente realizando o que havia acontecido, ela levou as mãos à cabeça. Não precisava de muito para ele saber que uma crise histérica se aproximava.

— E-eu falei com ele... — Ela entoou, incrédula. — Shuuhei! — Pulando na frente do garoto, ela impediu que ele começasse a andar de novo, assim que teve certeza de que estavam longe o bastante da confeitaria para não serem ouvidos. — Ai, meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu falei mesmo com ele! — Segurando o garoto pelos braços, ela estava tão entusiasmada que nem reparava na evidente desanimação do outro em ouví-la. — De verdade!!! Ai, ele estava lá, e eu falei com ele, e ele falou comigo!!! Consegue acreditar nisso?? — Ela indagou, praticamente aos berros.

— Nem parece real. — Ele rolou os olhos, mas ela não viu, com os olhos ainda brilhando, sonhadores, e um sorriso de orelha à orelha.

— Ele foi tão educado, não foi? E gentil, também! Aah, ele é muito simpático! Muito mais do que eu podia imaginar! Aaah, ele disse que eu podia voltar lá! Eu queria tanto ver a cara daquelas duas sonsas de antes se elas pudessem ter visto isso! — Era óbvio que ela continuaria a tagarelar ininterruptamente, se não houvesse nenhuma intervenção.

Shuuhei colocou a mão no topo da cabeça dela e bagunçou os cabelos longos, interrompendo os gritos e fazendo com que ela tivesse que se curvar para conseguir se livrar do toque. Ela o empurrou segundos depois, como sempre fazia.

— Hey, pra quê isso?? — Gritou, batendo nele com o boné dos Lakers que ainda trazia na mão.

— Nada não. — Ele colocou as mãos nos bolsos e continuou caminhando, dessa vez mais rápido. — Vamos logo, tô com fome…

— Pera aí, mais devagar! — Ela se apressou em acompanhar o passo dele. Shuuhei gostava de incomodá-la, era verdade; mas, dessa vez, não era essa sua intenção. Ele só queria checar se a Natsume de sempre ainda estava ali. Não gostava da expressão que ela trazia no rosto antes. Talvez, tivesse ido longe demais na sua provocação anterior.

… Não. Que besteira, ele estava exagerando. Era óbvio que nada demais poderia acontecer.

— Você não deveria caminhar e mandar mensagens no celular ao mesmo tempo. — Ele resmungou, percebendo que, agora, ela já estava absorta em outra atividade.

— Não enche. — Ela nem ergueu os olhos da tela enquanto falava, ainda movendo os dedos febrilmente. Ela parecia fazer um esforço extra para tirar o sorriso tolo do rosto, e parecer brava com ele. — Eu ainda não esqueci o que você fez comigo. Vai ter volta.

Natsume sempre seria Natsume, afinal.



Notas finais
Olá pessoas, tudo bem? Eu posso demorar, mas sempre volto o// Nem vou me estender muito nas desculpas, porque vocês já devem imaginar o que eu vou dizer. Trabalho, faculdade, essa vida de escrava do sistema acaba com a gente. To muito afim de largar tudo e vender minha arte na praia, viver do que a natureza dá... Enfim, também tivemos um pequeno problema técnico de falta de internet na casa da editora (vou usar isso com desculpa também, me processe) (edit: ok, tenho que reconhecer, ela betou uma parte do capítulo usando a 3g do celular u-u), e uns trabalhos por fora de ilustração que eu peguei pra fazer (isso toma meu tempo livre todo ç-ç). Pois bem, apesar de ter demorado mais do que o normal, capítulo está aí, e bem grande que é pra compensar XD Espero que gostem~ Casamento da Julia tá só começando, e ele vai bombar o// Party Hard, o ~party all the time ~~ tá, parei.... Aguardo vocês, e até a próxima o// Fui, dormir, que sábado não é dia de descanso não .-.