Sono & Relaxamento
17 Capítulo 17
Oneiros crescia rápido e forte. O palácio do deus do sono jamais fora tão agitado e tão visitado em éons até o nascimento de seu primogênito. Ninfas os rodeava e competiam entre si pelo cuidado do pequeno. Ker mostrara ser uma tia atenciosa, levando o sobrinho consigo por todos os lugares do Elísios e do Submundo. Perséfone o amava. Cantava para ele e o colocava para dormir. E o pai era o mais orgulhoso.
Entanto, de todos os alegres com a mais nova vida nascida no Elísios, Pasítea era que menos parecia feliz. Seus dias eram passados reclinada na cama, ouvindo da janela os gritos alegres de Oneiros e as risadas das ninfas.
— Sua melancolia é um tedio, querida cunhada. — A voz de Ker veio primeiro, depois seu corpo materializou em frente a janela.
Pasítea nem se deu ao trabalho de levantar os olhos.
— E sua intromissão é previsível, Ker — respondeu, com a voz suave, mas carregada de um cansaço.
Ker aproximou-se, cruzando os braços. Seus olhos brilhavam com a intensidade característica de quem se alimenta do caos, mas havia algo mais: curiosidade.
— Intromissão? Eu chamaria de preocupação. — Ker inclinou-se, observando a expressão vazia de Pasítea. — O nascimento de Oneiros deveria ser motivo de celebração, mas você parece carregar o peso de todas as eras nas costas. Por quê?
Pasítea fechou os olhos, como se quisesse afastar a conversa. Porém, Ker não estava a fim de facilitar.
— O que estava na sua cabeça naquele dia? — continuou Ker, a voz agora mais baixa, quase um sussurro. — O que te afetou tanto, Pasítea?
A antiga graça abriu os olhos, fitando finalmente a irmã de Hypnos. Seu olhar estava frio, mas havia uma centelha de dor ali.
— Você nunca entenderia, Ker — murmurou ela.
Ker arqueou uma sobrancelha, intrigada.
— Ousa dizer que a deusa do infortúnio não entenderia?
Pasítea hesitou, mas sua voz tremia quando finalmente respondeu:
— Alguém muito antigo estava na minha cabeça, mas não queria a mim, queria Oneiros. Ker, quando você soube que estava gravida, você disse que ele nasceria sem poder. Por quê? — indagou, aflita. — Eu temo o futuro do meu filho.
Ker riu, um som curto e cortante.
— Que dramático, mesmo para você. Ele é apenas uma criança. Nem mesmo Zeus teve esse impacto no início.
— É o que você pensa. — Pasítea sentou-se lentamente, os dedos entrelaçados no colo. — Ele não é apenas uma criança, Ker. Alguém não ver ele assim. Alguém quer ele como hospedeiro e Nix está ajudando com isso. Oneiros é a promessa de uma nova era... e da ruína desta. — Pronunciou como profecia, com os olhos fixos no vazio.
Ker a observou em silêncio por alguns instantes com o maxilar trincado em menção ao nome da mãe. Então, com um sorriso inclinou-se mais perto.
— Você se apavora com tudo, Olimpiana. Não é a primeira vez que Nix planeja algo. Ela voltara, pedira desculpas, o imperador irá condená-la a alguma prisão por alguns Éons então voltara como se nunca tivesse tramado nada contra alguém. Não é a primeira vez.
— Não é a primeira vez que ela ajuda Érebo diretamente, não é?
Ker virou o rosto.
— Não a provas.
— Minhas visões...
— Suas visões são como os oráculos de Apolo para os mortais, não dão certeza de nada! — interrompeu Ker, ríspida. — Prever o futuro não dar nada. Infortúnios, por outro lado, são certezas. Oneiros não é um de nós, e isso é uma verdade absoluta. Nix estar tramando com Érebo porque você viu uma visão não é uma certeza. Já fui visitá-lo várias e várias vezes e ele continua preso. E continuará.
Pasítea apertou os dedos contra o tecido de sua túnica. Ela sabia, desde o momento em que segurou Oneiros nos braços pela primeira vez que ele era diferente. A ausência daquela energia divina que definia os deuses a perturbara desde o início.
— Nix está desaparecida... Isso para mim já diz muito. — Ergueu o olhar para Ker. — Ela nos observa, não é?
A deusa do infortúnio fungou e cruzou os braços.
— Não sei. Mas ter medo dela não adiantara em nada. Se teme o futuro de Oneiros, levante da cama e o proteja. Hypnos não pode fazer isso sozinho.
Ker deu-lhe as costas e desapareceu em um redemoinho de sombras. Pasítea afastou os lençóis e pôs-se de pé. Observava da janela enquanto Oneiros, com seus passos ainda hesitantes, tentava alcançar uma ninfa com um brinquedo em mãos. Ele tropeçou, mas não chorou. Em vez disso, levantou-se e continuou.
Sua presença foi percebida e as ninfas apontaram para que o pequeno Oneiros visse a mãe. Ele soltou um som alegre e estendeu as mãos em direção a ela, pedindo por seu colo.
Pasítea não resistiu ao chamado do filho. Ela desceu as escadas do palácio com passos lentos, seguida pelas ninfas que lhe faziam companhia, surpresa por finalmente a graça sair do quarto.
Com um sorriso terno, ela se abaixou e o levantou em seus braços, sentindo o calor reconfortante do pequeno corpo contra o seu. Quando o pegou no colo, ele riu, um som puro e inocente que ecoou pelos jardins do Elísios.
As ninfas sorriram, mas mantiveram distância, respeitando o momento entre mãe e filho. Pela primeira vez em dias, sentiu-se uma mãe presente. Ele brincava com os fios de seu cabelo, balbuciando palavras que ainda não faziam sentido, mas que soavam como uma melodia reconfortante.
— Oneiros... — sussurrou ela, acariciando seu rosto. — Meu pequeno sonho. O que será de você?
Ele olhou para ela com olhos curiosos, como se entendesse a gravidade da pergunta, mas logo voltou a sorrir, distraído por uma borboleta que passava voando.
Naquela noite, após Oneiros ter dormido, Pasitea pôde voltar a deitar nos braços do marido. Suas preocupações e medo a fizeram afastar-se de Hypnos, e o deus do sono compreendera. Assim como ela também se preocupava com filho, e mais ainda com ela.
Se amaram como jovens amantes, afoitos pelo corpo um do outro. Pasítea arqueava-se contra ele, as unhas cravando-se em suas costas.
Quando o êxtase os alcançou, Pasítea mordeu o ombro de Hypnos para abafar o próprio gemido, e ele envolveu seus cabelos em seus punhos, puxando-a para mais perto, como se pudessem fundir-se em um só ser.
Hypnos rolou para o lado, levando Pasítea com ele, mantendo-a presa contra seu peito. Ela escutava o coração dele bater em ritmo lento, divino, que costumava acalmá-la.
— Ele está seguro? — perguntou Pasítea, a voz um sopro contra o peito de Hypnos. No final era a primeira vez que Oneiros dormia sozinho, longe dos olhos preocupados da Graça.
— Está. As ninfas vigiam seu sono. — Hypnos inclinou a cabeça, os lábios roçando sua testa. — Mas não é disso que você tem medo, não é?
Pasítea não respondeu. Em vez disso, enterrou o rosto no pescoço dele. Hypnos segurou-a mais forte.
— Não — disse ela, por fim. Pasítea ergueu o rosto para olhá-lo. — E o que vamos fazer?
— Não ter medo — respondeu ele, simples. — Nix e Érebo não ficarão impunes, Pasi, saiba disso. Em nossa família ele não tocara.
Pasítea assentiu, mas a voz que a chamara de inútil e fraca ainda vinha em sua cabeça causando arrepios. Hypnos beijou-lhe na fronte e apertou-a mais contra seu peito, crente que o arrepio era pelo vento que entrava pela janela.
Adormeceram e o sonho da Graça levou-a até o Olimpo. Os archotes e velas brilhavam contra a noite silenciosa. O céu brilhava com incontáveis estrelas sob o imponente palácio de seu pai. Subiu as escadarias correndo, passando por galerias e corredores silenciosos, perguntava-se se o quarto que dividira com as irmãs ainda permanência intacto, entanto as portas não se abriam para ela.
Porém, ao fundo uma estava entreaberta. A grande porta rica de entalhes de todas as formas de animais que Zeus se transformara através dos éons. Olhou com cuidado para dentro do aposento, vendo roupas no chão e Zeus e Hera adormecidos na cama. Riu tal como fizera a primeira vez quando ouviu seu pai roncar.
Ela deu as costas para aquela cena. Zeus odiava quem entrasse em seus aposentos sem permissão, mesmo que fosse um de seus filhos. Olhava com ar nostálgico cada coluna e jardim, lembrando das danças e das brincadeiras feitas com as irmãs.
Entretanto, o local foi tomado por uma ventania repentina e ouviu-se um trovão distante. Zeus estava acordando?
Quando alcançou o pátio central, onde costumava dançar com suas irmãs, algo a fez parar.
Ali, no centro do mármore branco, estava Oneiros.
Seu filho estava ajoelhado, desenhando na poeira com o dedo. O padrão que ele criava não era de uma criança, mas era o símbolo antigo de Érebo.
— Oneiros! — Pasítea gritou, correndo para ele.
Ele ergueu o rosto, e seus olhos eram dois poços sem fundo. Estagnou, assustada, deixando a ventania sacudi-la.
— Mamãe
O céu noturno foi tomado por nuvens pesadas e um raio junto com uma voz potente cortou o céu, abalando todo o Olimp:
— QUEM OUSA INVADIR MEU SONHO?
O chão se abriu sob seus pés.
Ela acordou com um grito, sentando-se na cama tão abruptamente que Hypnos precisou segurá-la pela cintura para impedir que caísse.
— Foi só um pesadelo – ele murmurou, acalmando-a. — Foi só um pesadelo.
Pasítea ainda respirava ofegante quando o primeiro estrondo sacudiu o palácio de Hypnos...
Lá fora, o céu noturno do Elísio, sempre sereno, estava sendo rasgado por relâmpagos púrpuras, os mesmos que haviam invadido seu sonho. E então cessou.
Assustada, a Graça agarrou-se ao marido.
— Não foi um pesadelo, Hypnos!
Antes que Hypnos pudesse responder, um grito ecoou pelos corredores do palácio. Era o choro de Oneiros.
Pasítea saltou da cama, o coração batendo como um tambor de guerra. Hypnos materializou-se ao lado do berço antes mesmo que ela alcançasse a porta. Quando ela chegou, ofegante, encontrou o marido imóvel, olhando para o filho.
Oneiros não estava chorando. Ele ria. E flutuava acima do berço, envolto em sombras que se moviam como serpentes.
— Hypnos... — Pasítea estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar no filho.
As sombras recuaram assim que Oneiros a viu. Ele caiu de volta no berço, como se nada tivesse acontecido, e balbuciou:
— Mamãe.
As ninfas responsáveis por cuidar dele durante seu sono estavam no chão, não mortas, mas em estado de sono profundo. Com uma ordem de Hypnos, elas acordaram confusas e relatando pesadelos.
— Saiam daqui. Voltem para seus quartos. — Ordenou Hypnos. Pegou o filho no colo e o olhou profundamente nos olhos cinzentos. Não encontrando nada de estranho, o aninhou em seu peito. — Ele e você vão para o Yumekai. Ficarão mais seguros lá até encontramos Nix.
Pasítea negaceou com os olhos amedrontados.
— Não posso... — Sua voz estava tremula pela experiencia. — Zeus está vindo.
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