Sono & Relaxamento
18 Capitulo 18
A porta que levava ao Mundo dos Sonhos fechou quando a última ninfa passou por ela. As divindades menores se juntavam a Pasitea, assustadiça. Era a primeira vez que o séquito da Graça adentrava o reino que controlava e moldava os sonhos de deuses e mortais. Entretanto, elas não eram as únicas com medo. Pasitea, segurando o filho contra o peito, também sentia medo.
— Milady — Chamou, a voz fraca, uma das ninfas. — Para onde seguimos?
Os olhos de Pasitea estavam fixos no objeto, imaginando o que estaria passando do outro lado e querendo que Hypnos estivesse ali com ela. Foi com dificuldade que conseguiu desviar os olhos da alta e imponente porta que separava os dois mundos e olhou para as cinco ninfas que lhe seguiam.
— Venham… — Caminhou em direção a uma das inúmeras portas suspensa naquela dimensão.
As ninfas não esconderam a surpresa ao pisarem em uma galeria com estátuas de mármores representando os deuses do Olimpo. A dimensão suspensa no vazio desapareceu e em seu lugar surgia um palácio de mármore e calcário, grandioso e silencioso. Arcos elegantes conduziam a um jardim interno, onde papoulas, oleandros e acantos floresciam em abundância, exalando um perfume suave.
A porta dupla ao final do corredor foi aberta diante a presença de Pasitea, dando passagem a um quarto amplo, com uma cama de casal com dossel. O teto era uma cúpula central, com desenhos que simbolizava o cosmos e a abóbada celeste. As ninfas estavam embasbacadas com o cenário, andando pelo local, observando os detalhes enquanto Pasitea depositava Oneiros sobre a cama.
— Minha senhora — chamou outra ninfa admirando o mosaico de flores no piso. — Que palácio é esse?
— O meu... — Respondeu, acariciando os cabelos claros do filho que levava os dedos à boca alheio ao que acontecia fora daquele lugar. — Aqui posso criar qualquer cenário de qualquer jeito e formas. E Oneiros ficará seguro aqui até meu pai se acalmar… Espero.
As ninfas se entreolharam, apreensivas. O céu noturno naquele mundo não era influenciado pelos raios do rei dos deuses e por seu temperamento.
A graça se encolheu na cama, observando o primogênito brincar a sós, se apaixonando pelos sons que balbuciava e se perguntando o que estava reservado a ele.
***
Trajando sua sobrepeliz, o deus do sono surgiu na sala do trono. Hades estava sentado, com Perséfone ao seu lado e Thanatos em pé, atrás. Hypnos fez uma breve reverência e tomou seu lugar ao lado do imperador.
— Sua esposa e filho, Hypnos, onde estão? — Perguntou Perséfone sem tirar os olhos da porta dupla, alta e negra da sala onde sabia que a visita inesperada entraria.
— No Mundo dos Sonhos, Vossa Majestade.
Perséfone aquiesceu. Seu rosto impassível não esboçou o quão aliviada ficou com aquela informação. Olhou para o marido. Hades tinha o rosto austero, mas sabia que os raios de Zeus terem atravessado o Submundo o enfureceu grandemente.
A porta foi aberta, por fim. O deus que adentrou a sala do trono do Submundo era jovem, com cabelos castanhos claros e olhos azuis elétricos. Vestia uma túnica branca curta e calçava sandálias enfeitadas com asas douradas. Numa das mãos, segurava um caduceu adornado por asas.
— Hermes — Hades pronunciou o nome com desprezo. O mensageiro de Zeus era mal visto naquele reino.
— Imperador — Fez uma reverência e então olhou para Perséfone. — Minha irmã. Sono e Morte. — Fez um meneio aos deuses gêmeos. — Vim com uma mensagem urgente do Grande Zeus.
— O que ele quer? — A pergunta de Hades foi ríspida, cortante. Seu rosto angelical, impassível,
Hermes respirou fundo antes de continuar.
— Zeus exige uma resposta imediata — declarou, erguendo levemente o caduceu. — Seus raios não foram lançados sem motivo. O Olimpo considera que uma ameaça surgiu… e que ela se encontra sob a proteção da Sua Majestade Hades.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nada em Hades mudou, mas o deus de olhos e cabelos preto atrás dele, sim. Thanatos cerrou os punhos com força, enfurecido.
Hermes sustentou o olhar, mas era nítido que apertava com mais força o caduceu.
— O soberano exige explicações de seu sonho ter sido invadido e que sentiu a nova existência que nasceu neste reino — disse Hermes. — E quer que seja levado a presença dele, pois crer que apresenta uma ameaça.
— Uma ameaça?! — a voz de Hypnos explodiu.
O mero movimento de cabeça de Perséfone o fez se recompor. Por dentro, fervia de fúria.
— O Submundo foi agraciado com uma nova vida, Hermes. — A voz de Perséfone soou melíflua. — Tantos eons com os mesmos rostos e agora temos um novo e adorável para admirar. Uma criança que nasceu e será criada aqui. Então não cabe ao Olimpo decidir o destino de quem pertence a este reino.
Com um sorriso delicado moldando os lábios, a imperatriz do Submundo virou o rosto para o marido. Hades tinha o rosto impassível. Os olhos azuis que compartilhava com Zeus e com Hermes, fitavam o deus mensageiro de tal forma que no menor piscar de olhos o lançaria no Tártaro. Hermes engoliu em seco.
— Então… — começou Hades. — Zeus exige algo de mim?
O deus mensageiro não foi capaz de responder. Hades pôs-se de pé. O simples movimento fez os cosmos ao redor se curvar diante sua supremacia.
— Retorne ao Olimpo, mensageiro! — Ordenou. — E diga a Zeus que o Submundo não se curva à sua vontade!
A pressão na sala do trono era assustadora. Se Hermes se sentiu intimidado, não esboçou. De costas empertigadas, fez uma reverência rápida e saiu sem pronunciar uma palavra. As grandes portas negras se fecharam atrás dele.
Thanatos, por fim, pôde liberar toda a raiva que sentia.
— Deveríamos ter acossado ele — disse com a voz carregada. — Uma criança. Ele mandou seu mensageiro por causa de uma criança!
— Thanatos. — Hypnos pronunciou o nome do irmão como um aviso.
— É seu filho, Hypnos! Zeus não pode…
— Zeus é avô da criança, Thanatos — pronunciou Perséfone, pondo-se de pé e virando-se para os gêmeos atrás do trono. — E meu pai também. E sabemos bem como ele é. Se ele está preocupado, também devemos ter preocupação com as ações que ele possa tomar.
— As vezes vejo medo no fundo de seus olhos, querida — disse Hades. — Quando fala de Zeus. Ele é instável, sabemos. Mas não precisa temer ele.
— Não o temo. Temo por Oneiros. — Perséfone deu um suspiro. — Temo pelo que está acontecendo no Submundo. Zeus não pode ser mais uma dor de cabeça.
— E não será, milady. — Hypnos disse, firme. — Defenderei minha família e o Submundo. Sempre.
Hades encontrou os olhos de Hypnos.
— Seu pequeno herdeiro talvez venha ser um problema para Zeus no futuro. Gosto disso. — disse ele. — Mas sua esposa ainda é um problema para o Submundo. Sei que ainda tão ligada a Zeus quando minha imperatriz esteve antes de comer a semente de romã. Se não resolver isso o quanto antes, nada poderei fazer caso ele reivindique a criança a ele.
— Ele não pode fazer isso.
— Pode e fará. — Hades afastou-se, as mãos cruzadas atrás das costas. — Então mantenha-a informada e faça algo ao que a une ao pai. — Virou-se de costas para os dois. — Podem se retirar.
Hypnos fez a reverência e caminhou para a porta. Thanatos o acompanhou, e foi apenas quando estavam no corredor, longe dos ouvidos do imperador, que o deus da morte falou novamente.
— Se Zeus tentar chegar até ele de novo...
— Eu sei — disse Hypnos, sem parar de caminhar.
— Não, você não sabe o que eu ia dizer.
Hypnos parou. Olhou para o irmão. Thanatos encarou seu reflexo dourado.
— Eu disse que se Zeus tentar chegar até Oneiros de novo — repetiu, devagar — ele vai ter que passar por mim primeiro. E diferente de Hades, eu não mando mensageiro.
Hypnos ficou em silêncio por um momento. Depois pousou a mão no ombro do irmão e não disse nada. Não precisava.
***
No Yumekai, Pasitea estava sentada na beira da cama, os joelhos dobrados contra o peito, observando o filho. Oneiros dormia com os punhos fechados perto do rosto. A respiração era lenta, regular, completamente alheia ao que acontecia do lado de fora daquele palácio construído em sonho.
Uma das ninfas aproximou-se com uma taça, mas Pasitea fez um gesto suave recusando. Ficou olhando para o filho. Seus olhos iluminavam a cada simples movimento que fazia. A Graça estava convicta em fazer tudo para protegê-lo. Nem que ficasse para sempre dentro do Yumekai para mantê-lo seguro.
— O que você está sonhando? — Beijou o topo da cabeça. — Meu pequenino.
Observava-o dormir quando ouviu a porta do quarto abrir. Reconheceu os passos antes de erguer a cabeça. Hypnos entrou e parou. Olhou para ela, depois para Oneiros, e deixou o ar escapar por vê-los bem.
Pasitea saltou na cama, correndo para os braços do deus do sono que a envolveu.
— Hermes veio — disse ele, por fim.
Pasítea fechou os olhos. Claro que veio.
— O que meu pai queria?
Hypnos deslizou as mãos pelas costas da Graça, procurando um jeito de comunicar a ela tudo sem a assustá-la.
— Respostas. — Hypnos inclinou a cabeça contra a dela. — De alguma forma você invadiu o sonho dele. E ele não gostou.
Pasitea mordeu os lábios.
— Não sei como fiz isso. Lamento muito. Amanhã vou me apresentar ao imperador e pedir desculpas.
Hypnos negaceou.
— Não há necessidade — disse ele. — Está tudo resolvido. Por enquanto.
— “Por enquanto”? — Repetiu, olhando os olhos dourados do marido.
Hypnos olhou para o filho adormecido por um momento. Quando voltou os olhos para ela, havia algo diferente neles. Procurava uma forma de falar que Zeus, em algum momento, poderia exigir o filho, mas não sabia que palavras usar.
Pasitea leu o silêncio dele antes mesmo que ele falasse. Afastou-se levemente, o suficiente para ver seu rosto.
— Que mensagem Hermes veio transmitir?
— Zeus pode reivindicar Oneiros — disse ele, por fim. — Não agora. Mas pode. Oneiros carrega o ikor dele, Pasi. Enquanto você ainda estiver ligada ao Olimpo, enquanto ainda for filha de Zeus… ele pode fazer o que bem entender.
Pasitea afastou-se, assustada. Ela virou o rosto para o filho adormecido.
— Ligada ao Olimpo — repetiu ela, baixinho. — Como se eu fosse uma coisa que ele pode simplesmente... puxar de volta.
— Pasitea...
— Não. — A palavra saiu suave, mas firme. — Eu deixei o Olimpo. Me casei. Tenho um filho. Nosso filho! — Pausou. — Ele não pode tomar nosso menino.
— E não vai.
Pasitea ficou quieta por um momento. Depois caminhou de volta para a cama e se sentou ao lado de Oneiros, a mão pousando levemente sobre o pequeno peito que subia e descia.
— Por que ele quer o Oneiros? — Seus olhos transmitia o medo que sentia com a menor possibilidade de se ver longe do filho. — Hypnos, você acha que ele sabe do que aconteceu quando Oneiros nasceu?
— Talvez. — Hypnos atravessou o quarto e se sentou ao lado dela. Por um momento os dois ficaram assim, ombro a ombro, olhando para o filho. — Ele… crer que Oneiros seja uma ameaça.
Pasitea ergueu o rosto, assombrada.
— O que?... Não! Ele é um bebê. É o neto dele!
A graça sentiu um aperto no peito ao se lembrar da voz sinistra que a chamara de fraca e dissera que seu filho era a prova da ruína dos Olimpianos.
— É por causa do Érebo, não é? De Nix!
— Hades deixou claro que o Submundo não se curva à vontade dele. — Hypnos tentou confortá-la. — Mas ele também avisou que sua ligação com seu pai é o que nos torna vulneráveis. Enquanto você for vista como uma Olimpiana, e não como uma divindade do Submundo, ele poderá fazer o que quiser.
Pasitea levou os dedos a estrela em sua testa. Então que aquilo significava, se ainda não era uma deusa do Submundo? Então lembrou-se de algo que Nix quis que ela bebesse.
— O que tenho que fazer? — Sua voz saiu firme. Faria tudo pelo filho.
Hypnos segurou a pequena mão do filho.
— Comer a semente de romã, tal como a imperatriz fez. — Respondeu. — Se fizer isso, Zeus jamais poderá desfazer seu laço.
Pasitea olhou para ele por um longo momento. Havia algo nos olhos dela que Hypnos reconheceu imediatamente: o peso de uma decisão que ela sabia que teria que tomar, mas ainda não estava pronta para carregar.
— Me dê um tempo — disse ela, por fim.
Ele assentiu.
— Tenho todo o tempo do mundo.
Hypnos passou o braço ao redor dos ombros dela, que encostou a cabeça contra o peito dele. Oneiros balbuciou algo no sono, completamente feliz e alheio ao que o destino reservava a eles.
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