— Onde você estava?! — A voz retumbante a assustou. O eco pendurou como se várias vozes fizessem a mesma pergunta.

Seu instinto foi se encolher de medo. A voz, embora grave e assustadora, era muito familiar e remetia a lembrança de reprimendas. O que Eurínome dizia mesmo? "Não enfureça Oceanos."

Olhou para cima. O homem gigante sentado com as pernas dobrada no peito, de cabelos desengrenados e uma longa barba cinzenta repleta de nós a olhava, sisudo.

— Vovô! — exclamou num misto de surpresa e alegria. Ele não pareceu tão surpreso como ela, mas Pasítea conhecia bem ele e por trás do rosto de poucos amigos, ele estava feliz.

Quis abraçá-lo, mas ela e suas irmãs eram expressamente proibidas de tocá-lo.

— Vá! — ralhou ele. — Sua mãe está louca!

— Mas...

Não houve tempo de terminar sua justificativa, a areia sobre seus pés se moveu, a carregando até os domínios de sua mãe.

Tudo estava exatamente igual. O enorme fontanário no centro do pátio. As algas marinhas e corais no chão como as flores nos jardins de Hera. O enorme palácio de calcário branco, erguendo imponente no meio de tudo. Na torre principal uma estátua de Oceanus em tamanho menor ao seu real, em pé apontado com o dedo indicador a superfície lá no alto.

Mas... Por que estava ali de volta? Sua mãe foi sucinta na época em dizer que dificilmente voltaria para lá depois que passasse a viver como Olimpiana.

— Pasitea! — ouviu a voz dela em um tom alto, bravo, que dava medo. Ela saiu do palácio pisando forte, o rosto enfurecido. — Onde você estava?!

Ela se encolheu. Não sabia o que falar, apenas temer a bronca que ia levar tal como fazia quando era criança...

Algum brilhou em sua mente, então olhou para as próprias mãos. Eram pequenas e gordinhas e seus pés também era pequenos.

— Eu sou uma criança?... — murmurou surpresa, olhando para a mãe que vinha em sua direção.

— É claro! Que pergunta mais idiota... Onde estava?! — ralhou outra vez. — responda!

— Eu... Eu não sei.

— está de castigo! — Deu sua sentença, virando nos calcanhares. — Ande, vá pra dentro. Não sairá do quarto até eu mandar!

Correu para dentro. Subiu a escadaria principal de mármore branco, entrou numa porta que dava a um corredor e abriu a porta onde cochas coloridas estavam coladas.

— Pasi! — a voz infantil de Aglaia pronunciou, animada. Ela e Tália brincavam no chão com bonecas de madeira.

Instantaneamente o medo passou, e correu para se sentar junto as irmãs. Mas veio a mente que nem ela e nem as irmãs eram mais crianças. Eram todas adultas e, exceto Tália, eram casadas.

— Hypnos... — Murmurou. O nome surgiu repentinamente em sua mente, mas ao ouvido era muito estranho, contudo, o peito doeu de angústia, saudade e preocupação.

A maçaneta na porta mexeu e as três viraram em direção ao som. Mexia como se fosse impossível de abrir, mas as portas jamais eram trancadas.

Então abriu...

— Vai ficar o dia todo aí? — A cabeça ruiva de Tália surgiu na porta.

Abriu a boca, surpresa. A irmã mais velha não era mais uma menininha, mas uma adolescente. O cenário a sua volta mudou, não era mais o quarto infantil do palácio submerso no mar, mas um jardim de grama verde e flores silvestre e o sol irradiava no firmamento.

— Vamos, Pasi! — Insistiu Tália mais uma vez, visivelmente irritada.

— Onde... Estamos? — perguntou, olhando ao redor.

— Pare de ser boba! O que deu em você? Vamos, levante-se.

Fez o que a irmã mandou e a seguiu. Era o palácio de Hera, no Olimpo. Como podia ter esquecido dele? Mas... Não era para estar ali. Não era mais seu lar.

A deusa Hera estava sentada em seu divã, o fiel pavão em seus pés e uma ninfa a abanando.

As três se curvaram diante dela, e se sentaram em bancos estofados próximo a ela. Aquilo era tão comum no passado para Pasítea, mas tão estranho agora. Não deveria estar ali...

Onde deveria estar?

— Grande Hera -chamou Pasítea com a voz receosa. A deusa a olhou de viés. — Não estou me sentindo bem.

— Não? — arqueou a sobrancelha. — O que você comeu hoje?

— Nada.

— Traga comida a lady Pasítea. — respondeu, fazendo um gesto com a mão para a ninfa, que saiu imediatamente. A deusa olhou a graça de cima a baixo. — está muito magra.

Pasítea olhou para si mesma. Sempre fora magra, mas tinha que concordar com a deusa, pois estava mais magra e pálida.

— Devo estar doente.

— Impossível! Tália e Aglaia assim que Apolo voltar leve a irmã de vocês até ele.

— Sim, senhora. — responderam em uníssono.

— Grande Hera, posso lhe fazer uma pergunta?

Aglaia cutucou a irmã com o cotovelo e sussurrou:

— Deixe Hera em paz, Pasi. — Pediu. — ela vai se irritar.

— Mas... e o Hypnos? — perguntou, franzindo o cenho. O nome surgia em sua boca e falava antes de pensar.

Os rostos de suas irmãs mostraram estranheza com a pergunta. E, novamente, o cenário mudou.

Estava muito, muito frio. Seus dentes tremiam involuntariamente. Abraçava o próprio corpo numa tentativa inútil de se aquecer. O cenário a sua volta era estranho. O céu estava escuro, as árvores eram mortas e a terra, seca.

O vento era forte, parecia que queria impedi-la de avançar, mas para qualquer lugar que fosse não havia nenhum sinal de vida.

— Mãe! — gritou. — Aglaia! Tália!

Ninguém a respondeu. O vento gritava em seu ouvido com fúria. Sem lugar para ir, sentou-se no chão, juntou as pernas no peito e deitou a cabeça no joelho.

Não entendia o que estava acontecendo. Tudo parecia real demais para ser um sonho, e um sonho para ser real. Sua mente estava bloqueada, e isso era capaz de perceber. Tinha dificuldade de entender por que estava em tal local, então percebia que não deveria estar ali.

Onde deveria estar?

Começou a chorar.

— Huff... Patético. — o som da voz era cruel, sinistra e fria.

A reação que teve foi se encolher mais. Quem quer que fosse dono daquele timbre estava perto. Perto o suficiente para sentir o frio gélido do vazio.

— Você é a prova que os olimpianos são fracos... Eles não merecem mais o poder que tem! Você, mulher patética, incapaz de parir um ser decente é a prova mais fidedigna disso. Aquela coisa que pôs pra fora é ridícula como um mortal, e não servirá de nada para mim. Eu preciso de um corpo!

Seu grito tremeu o chão e Pasítea foi jogada. Não quis olhar para cima e permaneceu caída no local, chorando. Temia a imagem do ser que gritava numa mistura de fúria e frustração.

— Vamos... Saia daqui! — disse ele. — Estou cansado se sua presença enfadonha.

Apoio as palmas da mão no chão para se levantar, mas uma força opressora a mantinha contra o chão. Fez esforço, inutilmente.

O ser gargalhou.

— Então este é seu fim? Juro que acreditei no que aquela mulher disse sobre você. Hahahahah! — sua risada era alta.

Pasítea estremeceu e chorou.

— Deixei-a em paz. — uma voz suave pronunciou.

Pasítea levantou a cabeça em direção ao som. Da única luz que surgiu em meio aquela escuridão, uma silhueta saiu. Se aproximava a passos firmes. A luz intensa impedia de vislumbrar que eram, mas quando tomou ciência chorou de alegria.

— Mãe!

Eurínome vinha com seu vestido branco, os cabelos curtos e a pele morena. Seu rosto sério estava fixo em algo acima de Pasítea. A Graça não quis olhar na direção, ainda temendo o que viria.

Mas, de repente, em que estava ali não era Eurínome. Seu vestido deu lugar a uma armadura, sua estatura aumentara, os cabelos curto e escuro tomaram lugar a fios dourados e a rosto masculino.

Arfou quando o reconheceu.

— Hypnos! — gritou em pleno pulmão.

O peso em suas costas havia sumido, o frio cruel que até então estava presente, dissipara.

Pôs-se em pé e correu em direção a ele. Se jogou em braços, enterrando o rosto em seu peito.

— Finalmente te achei... — levou as mãos ao rosto dela, olhou minuciosamente. — Você está bem?

Ela aquiesceu. Suas lágrimas foram secadas pelas mãos quentes do deus do sono.

— Por que estamos aqui? — Pasítea olhava fundo em seus olhos dourados com medo de perdê-lo de vista. — Aconteceu tanta coisa... eu não consigo explicar!

— E não precisa. Você só tem que sair daqui, Pasi.

— Sair? — inclinou a cabeça. O cenário não mudará, ainda estavam em meio a penumbra. — Hypnos, onde estamos?

— A pergunta é: onde você está? Demorei muito para te encontrar aqui. Quando conseguia me aproximar, você fugia. — ele ficou em silêncio, olhando ao redor. — Você está presa em sua mente, Pasi.

Ela prendeu o ar.

— Mas... Por quê? O que aconteceu? Por que não me lembrava das coisas e quem era aquela coisa?

— Saía daqui primeiro, Pasi. Você precisa acordar antes de ter todas as perguntas respondidas. Perséfone e nosso filho também estão dormindo com você.

— "nosso filho"? — repetiu surpresa. Levou a mão a barriga, sentido falta do peso e do volume. — Ele nasceu?

Hypnos aquiesceu. Até isso ela havia esquecido.

— Você tem que sair daqui agora. — Hypnos envolveu seu rosto com as mãos e a beijou. — Ele precisa de um nome.

— Onde você vai? — perguntou desesperada ao ver ele de afastar.

— Já fiz minha parte. Agora você tem que sair daqui sozinha. — respondeu. Riscou no ar uma minha e dela surgiu a porta que o levaria de volta, antes de atravessá-la, olhou para a mulher. — Pasi, juro pelo nosso filho, quem fez isso não sairá impune.

Hypnos atravessou a porta e desapareceu, deixando Pasítea sozinha naquele lugar estranho e sombrio. Ela sabia que precisava seguir o conselho dele e encontrar uma maneira de sair dali. Respirou fundo, concentrou-se e caminhou na direção oposta à que Hypnos havia desaparecido.

À medida que avançava, o cenário ao seu redor mudava. A escuridão deu lugar a uma luz suave e reconfortante. As árvores mortas ganharam vida, as flores desabrocharam, e o frio deu lugar a uma brisa suave e agradável.

Pasítea se viu em um cenário exuberante e sereno, cercado por árvores frondosas e um riacho cristalino que serpenteava por entre as pedras. Pássaros cantavam alegremente, e borboletas coloridas dançavam no ar. Estava em casa.

E não estava sozinha. Sentada sobre a grama, de vestido branco, Ker acariciava um bebê deitado no chão. Ela sorriu para Pasítea assim que notou sua presença.

— Sabia que ia conseguir. — disse. — Venha ver ele. Ainda bem que ele se parece com você, e não com meu irmão.

Ela foi. Era um menino pequeno, o pouco cabelo que tinha era loiro e dormia lindamente. Pasítea se ajoelhou ao seu lado e a mínima tentativa de tocá-lo o fez chorar em plenos pulmões.

Ker se afastou incomodada com o barulho.

— Ele quer você.

Envolveu ele em seus braços e embalou suavemente. Era lindo. Tirou a alça do vestido e o aproximou de seu peito e abocanhou com sofreguidão.

— O nome dele será Oneiros. — acariciou a cabeça dele. — Vai ser o primeiro de muitos.

— Pense bem, se todos chorarem igual esse não há ouvido que aguente. — Ker brincou.

Pasítea sorriu. Observava cada mínimo detalhes do pequeno ser em seu colo. Os cílios eram mais claros que os cabelos, os lábios eram redondos e o nariz pequeno.

—E agora, vocês dois devem acordar. — Ker disse, tirando-a de seus devaneios. — Seu lugar é no mundo dos deuses, ao lado de Hypnos.

Pasítea assentiu e olhou para o bebê nos braços. Ela sentiu um desejo profundo de acordar, de voltar ao seu mundo, de estar com Hypnos e suas irmãs. Ela fechou os olhos e concentrou-se nisso.

Quando abriu os olhos, estava de volta ao mundo real. Ela se viu deitada em uma cama confortável, na presença de Hypnos, que a observava com um sorriso caloroso.

— Bem-vinda de volta, minha amada. — disse ele. — Você estava presa em um pesadelo, mas agora está livre.

Pasítea olhou nos olhos dourados de Hypnos, sentindo-se feliz e aliviada por estar ao seu lado.

— Obrigada por tudo, Hypnos. — O pequeno Oneiros dormia em seus braços, ressonando. — E obrigada por nosso filho.

O deus se sentou na cama e a beijou com ternura sua testa.