A claridade despertou Pasítea contra sua vontade e ela resmungou. As ninfas abriam as cortinas da janela e sapateavam pelo quarto. A Graça se remexeu na cama, puxou a coberta sobre a cabeça e tentou voltar a dormir. Ainda estava cansada. Tateou a mão pela cama a procura do deus do sono e sentou na cama surpresa ao ver que estava sozinha.

—Bom dia, lady Pasítea. — Saudou uma das ninfas. — Já preparamos seu banho.

— Bom dia… — respondeu sonolenta. Espreguiçou-se e olhou para o espaço vazio da cama. — Aonde está o senhor Hypnos?

— Ele saiu logo cedo com o irmão, milady. Venha, vamos arrumá-la.

Assim que saiu da cama, as ninfas dividiram-se em retirar sua roupa e a banhar. Dispensou elas assim que ficou pronta e decidiu sair para conhecer sua casa.

Andou devagar pelo imenso corredor observando seus detalhes e decoração. Era tudo minimalista, mas não deixava de ser bonito. Ao chegar ao topo da escadaria, espreitou pelo corrimão o andar de baixo. Estava tudo tão quieto.

Assim que pisou no primeiro degrau, a sombra de uma mulher surgiu repentinamente no início da escadaria.

— Estava lhe esperando.

— Lady Nix... — disse ao reconhecer a deusa. Desceu e a reverenciou.

A deusa olhava-a com superioridade, mas não deixava de sorrir para ela.

(...)

Trajando suas robes brancas, os deuses gêmeos estavam sentados à mesa junto ao imperador Hades.

— Se quer o bem da sua esposa — começou Thanatos — é melhor seguirmos com a cerimônia.

Hypnos nada disse. O deus do sono tinha seus dedos entrelaçados sob seu queixo, pensativo. Até pouco tempo tinha quase certeza que tudo estava indo bem, até que o imperador lhe informou que Zeus desconfiava de algo.

— Como minha subordinada ficará segura. — Hades disse. — Zeus não poderá fazer mal a ela, caso ele realmente venha saber de alguma coisa.

Thanatos incomodava-se com o silêncio do irmão.

— Para que se preocupar com o que ela pensa? — ele bufou. — Me poupe, essa filha de Zeus só irá trazer problemas.

— O nome dela é Pasítea. – disse Hypnos

O imperador dardejou um olhar para o deus da morte.

— Sua imperatriz é filha de Zeus, Thanatos. — disse o imperador, sério. — É melhor que mantenha respeito se ainda quiser ver essa estrela brilhando em sua testa.

O deus da morte aquiesceu e ficou em silêncio.

— E então Hypnos? — Hades arqueou as sobrancelhas. — Isso iria acontecer de qualquer forma, só vamos adiantar para que sua esposa fique segura.

O deus do sono deu um profundo suspiro. Esperava que Pasítea pudesse se acostumar mais com a vida no Elíseos antes que jurasse fidelidade ao deus Hades. Na verdade, queria adiar isso o máximo possível.

— Tudo bem. Conversarei com ela.

(...)

A Graça caminhava pelos jardins do palácio com a deusa e, para sua surpresa, Nix mostrava ser uma ótima companhia. A Graça se via como uma criança diante da deusa, e talvez fosse.

— Sente saudades da sua família? — indagou ela.

— Sempre. Ainda não me acostumei com tudo isso.

A deusa de um sorriso de canto.

— É claro. Eu entendo. Me diga, gostou do meu presente?

Automaticamente a Graça levou a mão a sua túnica, mas lembrou que não usava o broche desde a noite do casamento.

— Sim. Sim. É uma bela joia. Lady Perséfone me disse que a senhora não costuma se desapegar de suas coisas. Fico grata por ter me dando algum tão bonito.

A deusa sorriu. Ela agia feito uma jovem espontânea, não como a deusa mais antiga e temida até mesmo pelos olimpianos.

— Não precisa agradecer, querida. Fiz isso por amor ao meu filho. — A deusa olhou-a minuciosamente. — Tem ancas boas para segurar um bebê, isso é bom.

Pasítea ficou em silêncio, não gostou da observação, mas mesmo assim agradeceu.

— Lady Nix, — chamou ela, receosa. — .... Eu poderei voltar para o Olimpo, certo?

A deusa a olhou longamente, mas antes de respondê-la sentou-se num banco no jardim à sombra de uma árvore.

— Você diz como morar lá de novo? — A graça aquiesceu. Era o que mais queria — Não, minha querida. Nunca. Passará a ser uma deusa do Submundo, não mais uma Olimpíada. Embora seja filha de Zeus e possa reclamar isso mais tarde, não voltará a ser moradora daquele lugar. Visitá-lo, sim. Hades não impede ninguém de ir e vir ou passar alguns dias, anos ou éons na superfície. Mas se o imperador requisitar sua presença ou um favor seu, terá de obedecê-lo. — Ela refastelou no banco, cruzou os pés e sorriu. — Com tempo perceberá que aqui é bem diferente do Olimpo, mas dá para se acostumar

Logo pelo jardim surgiu uma ninfa avisando que Hypnos esperava pela esposa. Nix fez um movimento com a cabeça.

— Vá ver o que seu marido deseja. — disse ela. — Depois podemos conversar.

A Graça aquiesceu e seguiu a ninfa para dentro do palácio. O deus estava esperando-a numa sala, estava diante das janelas quando a Graça entrou. Ela o reverenciou.

— Sabe que não precisa disso. É minha esposa. — disse ele, afastando-se das janelas. — Precisamos conversar.

Pasí ficou em silêncio por alguns instantes um pouco assustada e nervosa com o que poderia ser o tema da conversa. Ela se sentou em frente a ele.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela, preocupada.

Ele suspirou.

— Ainda não. Parece que Zeus desconfia de alguma coisa.

— O que! — espantou ela, pondo-se de pé, assustada. — Eu sabia que isso era loucura. Papai vai me odiar. Vai me condenar para sempre.

Ele colocou as mãos sobre os ombros da Graça.

— Não é pra tanto, Pasítea. Se acalme.

Ela deu de ombros.

— Ele não é bobo, Hypnos.

— Ele não seria o rei do Olimpo se fosse. — Retrucou. — Sente-se, por favor.

Relutante, ela o obedeceu.

— Para que fique mais calma, parece que ele só desconfia das minhas atividades e da Hera, também. Você não está envolvida nisso.

— Como não? Casei com você para que fizesse o trabalho de Hera. — Ela levou a mão a cabeça. — Ele vai saber de tudo! Vamos ser destruídos.

Hypnos deu um longo suspiro. O desespero de sua mulher já estava o irritando.

— Pasítea, me ouça. Talvez leve um bom tempo para saber. Hera não poria tudo a perder assim, do nada. Ela nos deve isso, afinal. Por outro lado, o imperador Hades prefere se prevenir.

— Hades sabe por que nos casamos? — Indagou ela.

— Em parte. — respondeu. — Pasí, há um certo juramento que todos devem fazer ao imperador. Que faz se tornar subordinado e protegido dele...

— Eu não preciso fazer, não é? — interveio a Graça. — Eu já sou uma deusa do submundo. Você falou isso naquele dia e Nix também.

— De qualquer forma você tem que fazer isso. Por mim, adiaria o máximo o juramento, mas eu quero mantê-la protegida. Se algo vier acontecer, Hades poderá protege-la. Zeus não poderá lhe infringir mal algum se você se tornar subordinada dele.

— Eu não sei o que pensa... — disse, mordendo os lábios apreensiva. — Eu quero voltar pra casa.

Ele colocou a mão sobre o ombro dela.

— Essa é sua casa, minha senhora. — Acariciou seus cabelos. — Seu único lar.

Hesitante, fitou os olhos dourados de Hypnos e aquiesceu.