Sono & Relaxamento
10 Capitulo 10
O dia do juramento finalmente havia chegado. Dias foram dedicados para que a Graça soubesse o que fazer na cerimônia. E não fora nada tranquilo para ela já que estava assustada; não em prestar juramento ao deus Hades, mas por ter de se encontrar com ele.
Nervosa, seguia Nix pelos corredores do templo do deus Hades. Assim como nunca tinha visto ele pessoalmente, também não havia pisado em seu palácio. Embora a decoração fosse rica e detalhista, o frio e o eco eram persistentes ali.
Pararam em frente a uma grande porta dupla de metal que foi aberta por dois espectros. O vento que saiu do salão ao ser aberto era gélido e cruel. A graça parou no lugar, assustada. Nix, a deusa da noite, olhou-a por sobre o ombro e lhe deu um sorriso de canto.
Ela atravessou a porta a passos majestosos com a cabeça erguida. Pasítea respirou fundo e a seguiu, mas refreou os passos ao entrar.
O salão estava cheio naquele momento. A Graça estava crente de que seria apenas eles presentes no juramento, e não os três juízes e outras divindades do Submundo. Uma escadaria levava ao majestoso trono de Hades. Hypnos e Thanatos estavam sentados em tronos menores ao lado de seu soberano, e ambos com a expressão impassível.
Por um momento Pasítea não soube o que fazer. O nervosismo tinha se tornado uma ansiedade, o desejo dela era sair correndo daquele salão e daquelas pessoas desconhecidas. Apertou a mão com força e suspirou.
Eu sou a graça do relaxamento, pensou, tenho que me acalmar.
Deu um passo e depois outro, e outro, e outro. Sentia que era analisada minuciosamente por todos ali presentes, mas fez o máximo possível para não se abalar por isso.
Em frente ao trono, Nix que seguia a dez passos à sua frente se ajoelhou, e a graça logo depois. Ajoelhada, levantou o olhar para o deus e ficou admirada.
A imagem que Pasítea tinha de Hades era de um deus aterrador, com uma aparência medonha e deformada, afinal, que outro motivo teria o deus dos mortos para ocultar sua presença? Mas ali, vendo-o pela primeira vez, Pasítea havia ficado fascinada com sua beleza angelical. De nada parecia com os boatos espalhados sobre ele.
Perséfone estava ao seu lado, sentada num trono de bronze escuro com um sorriso complacente e acolhedor para a Graça, contrastando com o semblante do marido.
— Levante-se Nix! — a voz do imperador era calma e estóica.
Nix o obedeceu, o reverenciou mais uma vez e se juntou aos outros deuses, deixando Pasítea só diante do imperador.
Hypnos havia explicado exatamente o que fazer quando ficasse frente a frente ao imperador: se curvar e lhe jurar fidelidade. Depois disso seria apresentada como a mais nova divindade do Submundo.
Ao erguer a cabeça e olhar os olhos puros de Hades, pronunciou as palavras ensinadas a ela:
— Juro dar minha fidelidade e prometer minha lealdade ao imperador do Submundo. — Respirou fundo. — E dou-lhe minha obediência à sua palavra.
Dito isto, pôs-se de pé e respirou fundo. O rosto impassível do imperador era um mistério para a Graça, que se sentia nervosa sobre seu olhar. Será que estava a julgando? Sabia o que Hera tinha feito? A cada instante ficava apreensiva com seu silêncio.
Então ele se levantou de seu trono e sorriu, surpreendendo a Graça.
— A honra é minha, Graça Pasítea. — Disse, descendo as escadas. O deus tocou com seu dedo frio a testa de Pasítea e uma estrela de cinco pontas com bordas violetas surgiu no lugar. Abriu os braços e anunciou: — Aqui, à vista de todos, darmos adeus a Graça do relaxamento, filha de Zeus, e darmos as boas-vindas a Pasítea, a deusa da alucinação!
O salão irrompeu em palmas e Pasítea levou a mão a estrela marcada em sua testa. Agora era uma divindade do Submundo, uma subordinada de Hades e o serviria lealmente – ou assim tentaria.
Perséfone deixou seu trono ao lado do marido e foi ter com a graça. Gentilmente, a deusa tomou as mãos de Pasítea.
— Aceitamos sua obediência e é uma honra tê-la como nossa aliada. — disse Perséfone — Agora é uma de nós, minha deusa da alucinação. — E beijou a estrela em sua testa.
Pasítea a olhou surpresa e sorriu logo depois.
Fez uma mesura.
— Obrigada, minha irmã.
Nix então se aproximou das duas, sutilmente pôs as mãos nas costas de Pasítea e a levando para fora do salão. A Graça recebia parabenizações dos convidados quando passava por eles.
(...)
Após o juramento, Pasítea foi levada para uma outra sala e lá ficou com Nix. Num espelho moldurado por ouro, ela olhou seu reflexo e tocou na estrela. Não tinha certeza, mas lhe parecia que a estrela brilhava intensamente, aumentando sua cor violeta, e logo depois diminuía. Porém, não era só a estrela que lhe incomodava, sentia que o pouco tempo que estava ali havia lhe mudado. Não se via mais como uma rustica princesa olimpiana que vivia entre os deuses e os mortais.
Olhou surpresa para o reflexo de Nix quando a mão dela pousou sobre seu ombro.
— A mudança é gradual, mas acontece. — disse a deusa, lhe sorrindo. — Agora é uma deusa de verdade.
Pasítea nada lhe disse. Desviou seu olhar para uma porta lateral que se abria e dela atravessava Hades, Perséfone e os deuses gêmeos. Nix acompanhou o casal de imperadores para um lado da sala e ficaram conversando, enquanto Pasí ficou com os deles gêmeos.
— Devo dizer que me impressionou hoje. — disse Thanatos a Pasítea. — Estava apostando que ia desistir ou chorar.
— Chorar? — indagou a Graça. — Por que?
O deus da morte deu de ombros.
— O Submundo não é pra todos. Princesas olimpianas sofrem aqui.
Pasítea o encarou e deu um sorriso debochado.
— Ainda bem que perdeu sua aposta, irmão.
Hypnos, que estava perto dos dois, riu.
— Apenas o ignore, Pasí — disse Hypnos e então a fitou. — Você se saiu bem.
Enrubescida, a graça agradeceu. De repente, a porta por onde haviam entrado foi aberta e os convidados presentes na cerimônia entraram.
Ao lado de Hypnos cumprimentava todos os deuses que lhe viam parabenizar. Alguns eram simplesmente desconhecidos a ela, e outros nem tanto. Cansada de tantos cumprimentos, a deusa se sentou no divã e aceitou uma taça de néctar que lhe foi oferecida.
— Pasítea, está bem? — Perguntou o deus do sono. A Graça aquiesceu. — Quero mostrar algo pra você. — disse, lhe estendendo a mão.
Pasítea o olhou curiosa, mas não hesitou em pegar a mão do deus. Saíram do templo de Hades e foram para os jardins.
Hypnos deslizou o dedo no ar e uma linha índigo escura surgiu. Em seu lugar apareceu uma grande porta de mármore. Sobressaltada, Pasítea deu alguns passos para trás. A altura da porta era impressionante, imponente e opressora.
— Vamos entrar. — Convidou ele. — Não precisa ter medo
Ela respirou fundo e aquiesceu, atravessando a porta. A forte luz que surgiu assim que a porta foi aberta obrigou Pasítea a fechar os olhos, mas ao abri-los em seguida ficou estupefata. Aonde quer que olhasse havia portas idênticos a aquela na qual havia atravessado. Eram infinitos portais em um cenário índigo.
— Aqui é o Mundo dos Sonhos. — explicou o deus, olhando ao redor. — Me foi dado ainda pequeno, quando mal entendia direito qual era meus poderes. Esse é meu reino.
Pasítea apertou sua mão na dele, compadecia com tamanho peso que ele vinha carregando desde a infância. Ele a olhou e sorriu.
— Há várias regiões aqui— continuou. —, cada uma diferente da outra e todas são regidas por mim. — Olhou para as inúmeras portas. — E foi em uma delas que prendi Zeus.
— Como? — indagou a Graça. — Como conseguiu fazer isso?
Ele deu de ombros.
— Outro dia lhe contou. Agora quero lhe mostrar uma outra coisa.
Dito isso, o cenário mudou repentinamente. Agora estavam numa sala de piso escuro límpido, pois a nitidez do reflexo no chão era impressionante. Ao fundo da sala havia dois tronos de tamanhos diferentes.
Sem largar a mão de Hypnos, Pasítea caminhou até eles. O deus do sono sentou em um e ela, em outro. A pedido de Hypnos olhou para cima e pôde enxergar os infinitos portais, dimensões e sonhos que eram vividos naquele momento.
Era como assistir os movimentos das estrelas, observar a Via-Láctea.
Hypnos olhou para Pasítea – agora sua amada esposa. Ela sempre esteve em seus sonhos e, sentado naquele trono, embalou e olhou os sonhos dela. Cuidou dela quando ele não passava de deus comum, sem importância para graça. E, no entanto, ali estava ele com a graça Pasítea. Deusa do Mundo dos Sonhos.
O Mundo dos Sonhos era grande demais para reger sozinho, e Hypnos sabia muito bem disso. Era de certa forma assustador ficar sozinho ali.
Ela sorriu encantadoramente olhando para os diversos e distintos lugares do Mundo dos Sonhos. Era uma bela visão.
Ele levantou-se de seu trono e Pasí o olhou, curiosa. Uma porta branca surgiu e Hypnos a indicou com a mão.
— Quero que abra essa porta. — disse.
Pasí se levantou e fez o que lhe foi pedido. Abriu devagar, receosa com o que poderia ter do outro lado, mas assim que fez ficou extasia. Ao abrir, inúmeras borboletas saíram em revoada das flores daquele campo.
Cautelosamente, andou por meio das flores, maravilhada diante de tanta beleza. Sentiu-se uma criança de novo, com a vontade de correr, pular e dançar com suas irmãs e Alécia. Então fez o que tinha vontade; dançou, rodopiou e pulou em meio a flores.
Parou em frente de Hypnos com um largo sorriso
— Obrigada por me trazer aqui — disse. —É tudo tão maravilhoso. É quase um sonho! — e riu.
Hypnos ficou encantado ao vê-la daquele jeito e não hesitou em envolvê-la em seus braços. Desde a noite de núpcias não a tocava, não sentia seu delicado corpo no seu. Limitava-se somente a beijos e carícias; não desejava forçá-la. Mas vendo-a daquele jeito, tão única e num lugar que anteriormente era só dele o atiçava.
Precisava se controlar, mesmo que seu desejo pro ela fosse maior.
Os olhos dos dois se encontraram e a graça arfou, soltando uma leve lufada de ar.
— Talvez... — começou ela.
Hypnos levou um dos dedos aos lábios dela.
— Shhh. Deveria me deixar apreciá-la. — disse, contornando seu rosto e parando no queixo. — Tão bonita... Se importaria se eu a...
— Não. — Interveio.
Então ele a beijou ternamente, e Pasítea o correspondeu com anseio. E o beijo que a pouco havia começado cálido tornava-se ardente. As mãos dele passeavam por todo seu corpo e por nenhum momento deixou de apertá-la contra o seu.
— Pasí. — Sussurrou assim que suas bocas se separaram. — Meu corpo arde por você. Eu preciso de você.
Ela ficou com as faces rubras, fitando os olhos cheios de desejo de Hypnos. Passou os braços em volta do pescoço dele e o beijou.
— Eu também preciso.
Enquanto se beijavam e se acariciavam, o cenário de repente mudou. Estavam em um quarto. Nele, havia uma varanda externa circundando todo o aposento com vista para um infinito verde. Em cada arco da varanda havia uma cortina branca e uma cama com dossel encostada na parede.
A Graça se deitou de costas na cama, Hypnos abaixou seu corpo sobre o dela e a beijou. Era maravilhoso sentir sua pele com a dela, dos beijos lascivos sendo correspondidos e as mãos percorrendo por todo corpo.
Fale com o autor