Notas iniciais
Oie! Feliz 2020 atrasado!

A noite era silenciosa e tranquila, e mesmo a brisa fria da noite não incomodava Pasítea que dormia um sono pesado sobre o peito de Hypnos. Porém, o deus já não conseguia voltar a dormir. A tranquilidade daquela noite lhe era estranha e o rápido vulto que passou pelo jardim apenas confirmou suas suspeitas.

Com todo cuidado afastou a graça de seu peito e levantou-se da cama. Seguiu para o jardim e encarou o espectro ajoelhado na grama.

— O que faz aqui? — perguntou, ríspido.

O espectro com um joelho apoiado no chão e cabeça baixa, lhe respondeu:

— Me perdoe, lorde Hypnos, mas a deusa Ker exigiu que eu viesse lhe cha...

— Ker? — interveio, surpreso. — Ela voltou?

Ele aquiesceu.

— Neste momento ela está com lorde Thanatos e deseja vê-lo imediatamente.

Por alguns instantes Hypnos ficou em silêncio. Olhou por sobre o ombro podendo ver a esposa deitada na cama.

Voltou-se para o espectro.

— Diga que irei o mais breve possível. — O espectro aquiesceu. — Agora suma.

Retornou para dentro do quarto. Sentou na beira da cama e se inclinou sobre Pasítea. Envolveu um dos seios dela com a mão e beijou seus lábios.

A graça despertou com um resmungo e sorriu.

— Desculpe — ele disse. —Não queria acordá-la.

Ela se espreguiçou languidamente e sorriu.

— Está tudo bem se continuar com o que está fazendo.

O deus sorriu, e a beijou mais uma vez antes de se afastar. Repentinamente Hypnos estava trajado com sua sobrepeliz.

— Durma, ainda está cedo. — disse-lhe ele. — Peço que me perdoe, mas tenho que sair agora.

Num pulo, Pasitea se sentou na cama e o olhou incrédula. Para ela era inadmissível que o deus saísse assim como se o que aconteceu não fosse nada.

— Vai me deixar aqui sozinha?

— Tenho assuntos urgentes para tratar. – respondeu, acariciando sua bochecha. — Mas assim que acabar eu volto pra você. Prometo.

Ele não esperou que a graça protestasse mais, simplesmente sumiu e Pasítea se viu sozinha no quarto. Ela suspirou.

A Graça jogou os pés para fora da cama, mas parou o movimento rapidamente ao sentir os músculos doloridos e sorriu com as lembranças.

Foi tudo tão intenso. Tão cheio de paixão.

Ela enrubesceu e abraçou as pernas. Lamentava pela saída súbita de Hypnos, mas estava feliz pelo momento compartilhado. E desejava poder repetir de novo.

Saiu da cama e procurou por sua túnica. A encontrou no chão, mas não parecia nem um pouco com a que estava vestida.

— Idiota... — resmungou, ao se agachar e vê-la desleixada. Se Hypnos não a tivesse arrancando-a de seu corpo poderia usá-la novamente. Mas não tinha como vesti-la e não havia outra roupa que pudesse usar ali.

Ao se erguer com a túnica em mãos, Pasítea sentiu uma pontada horrível na cabeça e sentou na cama, tonta. A estrela em sua testa ardia.

O imperador Hades terá que saber.

Sobressaltou ao ouvir tão nitidamente a voz de Thanatos.

Rangeu os dentes. A estrela continuou a arder fazendo sua cabeça latejar.

As coisas por aquele lado nunca são tranquilas, e vocês sabem disso.

Era uma voz de mulher, disso tinha certeza, que suava fina e infantil. Não conhecia ninguém com tal timbre, mas isso não era importante. Entre a dor que sentia tentava entender de onde vinham aquelas vozes e por quê as ouvia.

Temo que ele esteja sendo ajudado. Ofegou ao reconhecer a voz de Hypnos.

Rangeu os dentes. A dor passou a ficar insuportável, excruciante. Fechou os olhos com força e, repentinamente, tudo mudou. Tinha consciência de que seus olhos estavam fechados, por isso estranho ao ver as costas largas de Hypnos a sua frente. Contudo, enxergava tudo numa coloração avermelhada.

O deus do sono estava de frente a uma forma humanoide escura e ao lado de Thanatos. “Eu sei que é loucura.” Continuou ele. “Mas por eons nunca tentou nada, por que agora?”

“Porque há uma vez pra tudo.”

A voz de Nix soou assustadoramente fria. Viu quando os gêmeos viraram o rosto para vê-la entrar no círculo. Por um momento, Pasitea sentiu que os olhos dela estavam sobre o seu, vendo-a quando ninguém mais podia e a olhando profundamente.

Arfou, arregalando os olhos. Deu um grito quando a dor se intensificou e, repentinamente passou, como se nunca tivesse sentido.

Levantou da cama tonta, apoiando-se nos móveis ao redor.

— Alguém! — chamou. — Alguém! Eu preciso de ajuda!

Já não aguentava as próprias pernas e caiu no chão, desacordada.

****

Ao pé da cama de Pasítea, os deuses gêmeos observavam a Graça em seu sono pesado.

— Como ela está? — indagou Thanatos. — Ela já dorme há quase um dia.

— Não sei dizer. — respondeu Hypnos. — Ela não está tendo sonho algum, e não consigo influencia-la a acordar.

— Tem alguma ideia do que pode ter acontecido com ela?

Hypnos pensou em inúmeras coisas, a principal era o cálice com a bebida de romã, mas ainda era cedo para a falta causar algum efeito.

— Algum choque ou cansaço mental. — respondeu. — Até ela acordar, vai ser difícil ter certeza de alguma coisa.

— Isso é muito estranho — observou Thanatos. — O Yumekai é um lugar seguro, seria impossível ela ter sido atacada lá.

Hypnos olhou o irmão gêmeo de relance e disse:

— Coisas estranhas estão acontecendo desde que Ker voltou.

O deus da morte suspirou.

— Ela faz jus ao que foi designada: trazer infortúnios.

Nesse momento a porta do quarto foi aberta por uma ninfa e Perséfone entrou alarmada, ignorando os deuses gêmeos. Sentou na beira da cama e segurou a mão na mão de Pasítea.

— Ah, irmãzinha, que situação triste. — Virou-se para o deus do sono. — Hypnos, o que aconteceu com ela?

— Eu ainda não sei, milady.

Perséfone olhava com apreensão. Estava comovida com a situação da meia-irmã, e assim que soube o que acontecera se dirigiu para o templo do Sono para vê-la.

— Sinto que ela não está bem. — A deusa pôs-se de pé e suspirou. — Thanatos, pode nos deixar a sós, por favor?

Ele fez uma mesura e saiu. Perséfone foi até Hypnos e o olhou longamente, séria.

— O que você fez? — indagou.

— Nada, milady. Por que acha que eu faria alguma coisa contra minha esposa?

— Eu não sei, por isso a pergunta. — disse, e virou-se para olhar a irmã deitada. — Ela não está bem, eu sinto isso. Só que o mais estranho é que o cosmo dela está fraquíssimo. — Dardejou um olhar. —Tal coisa seria impossível para uma divindade do Submundo!

— Há um tempo venho percebendo o cosmo dela fraco, mas achei que fosse por causa do Submundo.

— Não brinque comigo, Hypnos. — Avisou Perséfone, ríspida. — Eu vim do Olimpo, fiquei fraca quando vir pra cá e só melhorei quando comi uma romã. Pasítea não fez o mesmo, não é?

Hypnos olhou surpresa para deusa e suspirou.

— Talvez esteja certa.

— Talvez? Hypnos, ela está mal agora! Porque fez isso?

— Ela não está mal por causa disso, milady. — Ele respondeu. — Algo aconteceu com ela e vou descobrir, mas nada tem a haver com ter comido ou não uma romã.

— Como pode ter tanta certeza? Pasí está aqui há um bom tempo. Se algo acontecer a ela não vai ser só Zeus furioso com você.

Hypnos não teve tempo para responder, ouviu Pasítea resmungar e ela acordou. A Graça se sentia pesada e indisposta. Ela olhou para os dois e estendeu a mão ao marido.

— Hypnos...

Prontamente, o deus foi até ela e segurou sua mão.

— Como está se sentindo?

— ...Fraca.

— Você dormiu quase o dia todo, por isso. — Ele sorriu. —Vai se recuperar logo.

Ela olhou para o outro lado e tentou se erguer.

— Fique deitada, minha senhora.

— Mas lady Perséfone...

A deusa da primavera se aproximou da cama e deu um sorriso gentil à irmã.

— Vim aqui para ver como estava, Pasí. Deixou todos bem preocupados. — Ela se sentou na cama e segurou a mão da graça. — Lembra do que lhe aconteceu?

Ela olhou primeiro para Hypnos e depois para a irmã.

— Não sei bem — começou a dizer. — Foi muito de repente. Eu conseguir ouvir as vozes do Hypnos e do Thanatos, conseguir vê-los reunidos com alguma outra coisa ou alguém. Foi como uma visão. — Levou a mão à testa, sobre a estrela. — Minha cabeça doeu muito. Acho que nunca senti tanta dor. Quando passou eu me senti tonta e desmaiei.

Hypnos e Perséfone ficaram se encarando. Um querendo dizer que a irresponsabilidade causou aquilo na Graça, e outro tentando entender o que acontecera a ela.

— Vou pedir que tragam um pouco de ambrosia para você, Pasí. — disse Perséfone, pondo-se de pé e saindo do quarto.

Assim que a porta se fechou, Hypnos indagou:

— Você realmente conseguiu nos ver? — Ela aquiesceu. — Como?

— Eu não sei. — Ela mordeu os lábios. — Acho... não tenho certeza..., mas Nix me viu.

— Isso é impossível. — Ele disse. — Se ela tivesse a visto, eu também teria... Por hora, fique descansando. Teremos uma resposta pra isso amanhã.

Ele se inclinou e beijou seus lábios. Perséfone entrou no quarto trazendo um pouco de ambrosia a ela. Ao comer sentiu-se um pouco melhor, mas obedeceu Hypnos e não saiu da cama, preferindo descansar mais um pouco.

Quando os dois saíram, Pasitea logo adormeceu em um sono tranquilo.

Acordou horas depois, já de noite, com o quarto escuro e sozinha. Hypnos havia optado em ficar no quarto ao lado para não incomodar a Graça, e ela quase o amaldiçoou por isso. Ao virar-se na cama viu uma silhueta encostada na janela, olhando-a. Quis gritar mas a pessoa pediu silêncio ao levar o dedo aos lábios.

— Shhh. Por favor. — Pediu. Aquela voz era inconfundível, era a mesma de sua visão. — Eu falei pro meu irmão que não iria incomodá-la, mas está sendo tão difícil! Então faça silêncio, tá? Não quero que ele venha aqui e me veja.

Ela agia como uma criança, embora tivesse o corpo de uma mulher e Pasítea sentisse que estava diante de uma deusa antiga.

— Quem... quem é você? — indagou, sentando-se na cama.

Ela levou a mão ao peito e se curvou.

— Eu me chamo Ker. A deusa do infortúnio.

Pasí engoliu em seco.

— Ker...

— Você não me conhece? — arqueou as sobrancelhas surpresa. — Meus irmãos não falaram nada sobre mim?

— “Irmãos”? — repetiu Pasí. — Você é irmã do Hypnos?

— É claro! — exclamou. Então levou a mão na boca, percebendo que falava alto demais. — Espero que ele não tenha ouvido... Eu me pareço um pouco com Thanatos, sabe, mas eu queria ter os cabelos loiros do Hypnos. Aliás, eu sou a mais nova. Olha… amanhã de manhã vamos fingir nunca nos vimos, ‘ta bom. — Ela deu uma piscadela.

Ela caminhou até Pasítea, agachou-se em frente a cama e disse, bem baixinho:

— Eu só vim avisar que o bebê vai nascer sem poder, infelizmente. É triste, né, eu sei. Pelo menos vai ser muito amado.

— Bebê? — repetiu ela com o cenho franzido. — Que bebê?

Ker pôs-se de pé e, de costas, andou até a janela.

— Você vai saber. — respondeu. — Lembre-se, nunca nos vimos antes. — Dito isso, ela sumiu.

Pasí ficou um tempo olhando para janela esperando que Ker voltasse aparecer, mas nada aconteceu. Tocou sua barriga. Não tinha nada ali e saberia se estivesse grávida. Um bebê sem poder, pensou ao se deitar e alisar a barriga. Por que sem poder?


Notas finais
Bjss