Pasítea pensou que era como estar no Olimpo de volta, mas sem os suntuosos palácios e as irmãs. Os Campos Elíseos era um lugar maravilhoso, feérico, totalmente diferente do que a graça imaginara.

Acompanhados pelas ninfas, Hypnos e Pasítea chegaram a um palácio de pedras brancas com uma imponente escada que levava ao seu interior.

— Este é o templo do Sono — Hypnos disse e sorriu para a graça: — Nossa casa.

Pasítea olhou do deus do sono para o imponente palácio a sua frente. Aquele lugar era dela e dele. Contudo, algo em seu interior lhe dizia para não se agradar com tudo aquilo.

Mas Pasítea havia gostado.

Hypnos ofereceu seu braço para que a graça lhe acompanhasse.

Dentro do palácio, Pasítea pôde conhecer mais o local. As salas eram amplas e decoradas com ouro. Um extenso jardim com estátuas de mármores e fontanário. Era tudo magnífico. Jamais imaginara que Hypnos pudesse viver em tal lugar, e que agora fosse seu também.

Andavam por uma das galerias do palácio. Pasítea observava o jardim enquanto Hypnos lhe explicava onde cada corredor e porta dava.

— Então essa é a filha de Zeus? — uma voz grave, porém feminina indagou.

No final do corredor vinha a deusa da noite com o sorriso adorável no rosto e sendo logo seguida por seu filho, Thanatos.

— Nix — saudou Hypnos, a reverenciando com a mão no peito.

Levara um tempo para raciocinar que a mulher a sua frente era a deusa da noite. Muita ouvira dela, mas jamais imaginara que fosse jovem e peculiarmente bonita.

— Lady Nix. — Fez uma profunda reverência. — É um prazer.

A deusa da noite pôs a mão sobre os cabelos castanhos da graça e sorriu.

— Não precisa se curvar, menininha. Agora somos da mesma família.

Pasí empertigou as costas. Nix olhou-a minuciosamente, segurou seu queixo e a analisou.

— Até que lembra um pouco a sua mãe… Mas os olhos são os de Zeus, com certeza. — comentou ela com um sorriso de canto.

Thanatos se aproximou com uma reverência elegante, deixando Pasítea encantada com a cortesia. O deus era uma bela e graciosa cópia do irmão. Se não fosse pela diferença de tons de cabelos e olhos, os dois seriam facilmente confundidos.

— Devo chamá-la de minha nova irmã? — ele deu um sorriso encantador. — Desejo-lhe felicidades em seu casamento. Meu irmão é um homem de sorte.

As bochechas de Pasí ficaram rosadas e faz uma cortesia agradecendo as palavras do deus da morte. Seu novo irmão.

— Sei que querem descansar, mas tenho uma surpresinha pra você, Pasítea.

A Graça olhou curiosa para a deusa e depois para Hypnos. Mas assim como ela, o deus do sono parecia não saber qual era a intenção da genitora.

Seguiram a deusa até um amplo salão, com um tapete de brocado dourado que levava a um trono. Nix se adiantou e segurou um cálice posto sobre uma mesa redonda de canto..

— Você já explicou pra ela? — perguntou ao deus do sono. — Cada minuto perdido é precioso. — estendeu o cálice para a graça. — Beba, querida.

Pasítea olhou curiosa para seu interior. O cálice estava cheio de um líquido negro e de forte cheiro, semelhante aos vinhos de Dionísio. Ao pegá-lo das mãos de Nix, Hypnos imediatamente tirou-o de suas mãos.

— Agradeço, milady mãe — disse. — Mas Pasítea precisa descansar. A viagem foi tensa pra ela. — Ele a olhou profundamente em seus olhos, hipnotizando-a. — Não é mesmo, minha senhora.

A graça nada respondeu, apenas fez um breve maneio com a cabeça, impossibilitada de desviar os olhos do de Hypnos.

A deusa da noite não pareceu satisfeita.

— É mesmo? — soergueu uma das sobrancelhas. — Mas de qualquer forma isso não a impede beber do cálice, certo? Não seria bom que os primeiros dias a nossa adorável graça ficasse debilitada.

— Debilitada? — indagou ela ao desviar dos olhos do deus. — Por que?

— Oh, meu filho não lhe explicou? — Nix demonstrou uma falsa surpresa. — Não é tão fácil para quem nasceu no Olimpo viver no Submundo…

— Não precisa se preocupar, querida. — Assegurou Hypnos, devolvendo o cálice a deusa da noite. — Beber isso só lhe faria passar mal. Pasítea já é uma deusa do Submundo, milady mãe, e não precisa provar isso pra ninguém!

A deusa da noite olhou para o líquido escuro dentro do cálice, o mexeu e pôs novamente sobre a mesa.

— Eu espero mesmo que seja, Hypnos. — disse ela. — Não espere que só porque eu concordei com isso que fiquei boa. Eu ainda sou a mesma!

Num piscar de olhos a deusa tinha desaparecido, deixando os filhos e a nora a sós.

— Incrível — comentou Thanatos. — Conseguiu enfurecê-la.

Ele deu de ombros e virou-se para a esposa.

— Vou levá-la pro quarto.

Era um espaçoso aposento de tons neutros, bem ornamento e com uma lareira de mármore. Mas o que chamou a atenção de Pasítea, foi a alcova. Uma cortina bege separava-a do restante do aposento. A cama de dossel adamascado vermelho ficava ao centro como um local sagrado.

— As flores estão aqui! — observou Pasítea. Sobre a mesa de centro estavam os buques dados pelas ninfas. — Hmm, senhor Hypnos, o que era aquele cálice?

Ele fechou a porta atrás de si e sentou no recoimer.

— Nada — respondeu breve.

Ainda era estranho para a graça vê-lo como marido, mas se era obrigada a passar a eternidade com ele, então que não houvesse mentira.

— Não era o que parecia pra lady Nix. — ela se sentou num banco próximo a ele. — Eu me tornei uma divindade do Submundo?

Ele suspirou.

— Ainda é cedo para se preocupar com essas coisas — disse ele. — E sobre Nix, ela é exagerada. Por que não vai descansar um pouco? Sei que a viagem não foi uma das melhores.

— Senhor…

— Hypnos — interveio ele. — Me chame apenas pelo meu nome.

— Claro, sem… Hypnos. Você nasceu aqui?

Ela olhou longamente.

— Não. Eu não nasci aqui. Vir pra cá ainda pequeno com Thanatos. — ele se inclinou. — Mas por que a pergunta?

Ela deu de ombros.

—Eu não sei nada sobre você.

Ele arqueou as sobrancelhas e aquiesceu.

— Bem, isso é verdade. Quer que eu conte um pouco sobre eu mesmo?

Pasítea aquiesceu. O que sabia sobre o deus do sono era apenas superficial, e isso lhe incomodava. Mas se Perséfone havia dito que o deus era apaixonado por ela, então por que ela também não poderia tentar gostar mais dele.

Bateu de leve no assento ao seu lado.

— Hum… sente aqui. — pediu, retraída.

Ele se sentou perto o suficiente da graça, que se afastou constrangida com a proximidade.

— O que quer saber? — perguntou ele, cruzando os tornozelos. Ele parecia tão espontâneo.

— Como era sua infância? O que gostava? Tudo o que conseguir contar.

Ele aquiesceu.

— Cresci com minha mãe e meus irmãos. Meu pai havia sido aprisionado antes que eu e Thanatos nascêssemos, então não o conhecemos de fato. Sabe quem é meu pai?

A Graça negaceou.

Sabia dos outros irmãos de Hypnos além de Thanatos, mas sobre seu progenitor nada sabia.

— Érebos é meu pai. — respondeu. —O considerado inimigo de todos, forte o suficiente para tirar a imortalidade dos deuses. Nix, Zeus e o imperador Hades o prenderam no Tártaro.

— Lady Nix prendeu o próprio marido? — espantou Pasítea.

— Creio que Nix nunca o viu como marido, nem ele a ela como esposa. Estavam juntos por conveniência, necessidade… não sei. Mas de qualquer forma eles tiveram o que queriam desde o início: gerar filhos. Contudo, com o passar do tempo, Érebos desejou mais do que tinha e foi aprisionado.

— Nunca tinha ouvido falar sobre ele… Desculpa.

Hypnos deu de ombros.

— É óbvio que no Olimpo ele não seria mencionado. Foi um grande inimigo de Zeus

Ficaram em silêncio por um tempo, sem assunto e sem se encararem.

— Sabe, — começou Pasítea. — Se não fosse por Hera eu não me casaria com você.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. — disse ela, surpreendo-o. — Se chegasse em meu pai pedido minha mão ele recusaria, tenho certeza. Não por servir a Hades, mas por ser filho de Érebos.

Hypnos ponderou e logo aquiesceu.

— Talvez tenha razão. — Ele olhou pro teto, decorando com a imagem do cupido. — Que bom que Hera nos fez um favor.