Sono & Relaxamento
7 Capitulo 7
Notas iniciais
Não haveria viagem de lua de mel. Afinal, tudo ocorrera muito rápido para que fosse planejado. Contudo, Pasítea tinha a esperança de que passaria algum tempo no Olimpo. Mas em vez disso, partiria definitivamente para o Elíseos.
O novo casal deixou o palácio de Zeus em meio a cumprimentos e abraços. Abraçou suas irmãs e ama Alécia. Beijou o rosto do pai, e fez uma breve mesura a Hera sem sequer olhá-la.
Uma carruagem puxada por dois corcéis pretos, controlada por um espectro os esperava. A Graça aceitou a ajuda de Hypnos para subir e acenou uma última vez para a família.
— Algo lhe incomoda, minha senhora? — indagou Hypnos assim que a carruagem passou a sacolejar.
A graça estava quieta. Sequer a intimidade da noite de núpcias pareceu surtir algum efeito na Graça. Havia um considerável constrangimento.
— O que vai acontecer lá? — ela perguntou, séria.
— Breves apresentações. — respondeu ele. — Vai gostar de lá.
— E se eu odiar?
O deus refastelou no assento da carruagem.
— Sei que não vai.
Ela olhou pela janela, observando a mudança das paisagens. De repente a carruagem parou num solavanco, e Hypnos desceu. Pasítea olhou curiosa esperando que ele voltasse. Ainda estavam longe do destino.
Ele voltou, abriu a porta do lado de Pasítea, pegou a mão dela e a ajudou a descer.
— Onde estamos? — perguntou ela desconfiada.
Estavam numa região de mato denso, longe o suficiente dos mortais. Estavam diante de uma caverna profunda e escura. Hypnos sorria enquanto Pasítea encarava o local com estranheza.
— Estranho, não é mesmo? Por aqui será mais fácil de chegarmos. Há uma surpresa esperando por você.
— Surpresa, é? — Ela arqueou as sobrancelhas, duvidando.
Adentraram na caverna. Era totalmente escuro e a luz do sol não atingia aquele local. Hypnos segurava a mão na graça e a guiava pelos caminhos íngremes e de pedregulho.
A mudança de um mundo para outro pegou Pasítea de surpresa. Suas pernas pesaram, o vento deixou de soprar e teve a sensação de que olhos cruéis a observavam.
— Aguenta mais um pouco? — perguntou ele. A graça já andava devagar. — Já estamos chegando.
Ela aquiesceu.
Um pouco mais à frente, chegaram a um rio de coloração escura. O local era frio e perturbadoramente silencioso. Na margem do rio estava um barco parado e ao lado dele, um espectro.
— Lorde Hypnos — pronunciou o espectro, o reverenciando. — Lady Pasítea.
— Vamos de barco? — perguntou a graça.
O rio não era bonito, dava a impressão de estar poluído. E o cenário ao redor era pior ainda. De qualquer forma, Pasítea não queria subir na embarcação.
— Não precisa ficar com medo. Venha, eu lhe ajudo. — a deusa hesitou, mas aceitou a ajuda dele.
Dentro do barco, Hypnos sentou ao lado da graça. Pasítea olhava curiosa para água turva e para o espectro que a conduzia. Estava tudo tão quieto e sombrio que lhe dava arrepios. Olhou para Hypnos – agora seu marido. Ele parecia familiarizado com aquela região e com o fato de que a luz do sol não atingia aquele lugar, era sempre um céu vermelho de nuvens escuras.
Ela estremeceu.
— Está com frio? — Hypnos perguntou.
— Só um pouco. Não precisa ser preo…
Não esperou que ela terminasse de responder, Hypnos tirou seu manto e o enrolou ao redor dela. Ela estava gelada e puxou-a para mais perto. A graça tentou desvencilhar, mas o braço do deus do sono era mais forte.
— Sabe, — começou ele. — poucos tiveram privilégios de virem por esse caminho.
— Por isso é tão estranho?
O deus do sono riu.
— É, aqui realmente não é nada comparado ao que se esconde além dessas águas escuras. De todos os espectros, Caronte é o único que chegou a ver os campos Elíseos.
O espectro virou-se para eles e aquiesceu. Sua aparência era incomum com os caninos protuberantes. Sua armadura também ajudava em sua aparência estranha.
— Milênios atrás pude ver o paraíso. Meu soberano me permitiu tal visão ao levar sua adorável esposa por estas águas até os Elíseos. Achei que nunca mais veria novamente, mas aqui estou levando-os pelo caminho que só o senhor Hades usa.
—O imperador Hades permitiu que usasse esse caminho. — disse Hypnos. — Na verdade, Lady Perséfone insistiu para que ele deixasse.
— Ela é gentil. — murmurou Pasítea. — Tem uma coisa ali.
Ela esticou o pescoço para ver melhor. Na quietude e mansidão do rio, a graça ficara surpresa com um rápido movimento na água lamacenta. Não demorou para que bolhas subissem na superfície da água.
Assim que a graça se precipitou para a margem, Hypnos a puxou para perto, apertando sua mão ao redor dela. Então a graça compreendeu.
Não havia peixes ou algo semelhante como pensara, mas cadáveres que subiam à superfície. De alguma forma, os mortos passaram a gritar. Era um som horrendo numa mistura de agonia extrema e clemência. Pasí olhou aterrorizada para aquilo e escondeu o rosto em suas mãos trêmulas.
A Graça tinha certeza de que jamais se esqueceria daquilo.
Hypnos a puxou para seu peito, e a embalou suavemente, alisando os cabelos e as costas de Pasítea. Chorou amargamente tendo noção do lugar onde realmente estava: o inferno. Era para aquele lugar em que os mortais iam. Para o eterno sofrimento.
— É admirável que chore por eles, minha senhora — dizia Hypnos. — Ma são meros mortais. Fadados ao sono eterno. O Elísios é a única esperança deles.
Aos poucos a graça começou a se acalmar, enquanto Hypnos murmurava palavras em seu ouvido e a acariciava afetuosamente. Por fim, seus soluços diminuíram e passou a serenar.
Quando abriu os olhos, Pasítea se surpreendeu com a intensa claridade. Acima de sua cabeça o céu era uma imensidão azul sem nuvens. De repente, uma borboleta amarela sobrevoou e Pasítea sentiu que estava de volta em casa.
Estava deitada no barco enrolada com o manto de Hypnos. Se apoiou nos cotovelos para poder sentar e encontrou o deus do sono em pé sobre uns degraus de pedra branca. Atrás dele parecia as ruínas de um templo.
— Onde estamos?
Ele estendeu a mão, ajudando-a a sair do barco.
— Nos Campos Elíseos.
Ela olhou tudo encantada. Não parecia que Os Elíseos faziam parte do Submundo, tampouco que fosse a moradia do imperador Hades. Tudo parecia ter mais vida, mais cor.
Olhou para trás e o barco havia sumido assim como seu condutor. Contudo, o rio ali era cristalino e refletia o céu, diferente daquele que haviam atravessado.
Ainda de mão dada do deus do sono, entraram no que seria as ruínas de um templo e logo de início o cheiro de flores invadiu o nariz da graça.
— Lady Pasítea — chamou uma ninfa prostrada no chão, atrás dela havia mais quatro respeitosamente prostrada. As ninfas estavam belamente trajadas e enfeitadas de joias, e todas tinham um buquê nas mãos. — Seja bem-vinda! — disseram em uníssono.
Pasítea enrubesceu pelo tamanho respeito dirigido a ela.
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