A Graça de bastos cabelos castanhos, tez viçosa, e olhos avelãs estava absorta em pensamentos. Encostada numa coluna com os braços envoltos na cintura, pensava no que teria que fazer de agora em diante. Uma voz vinha em sua cabeça e dizia: É fácil; aceite. Mas outra dizia: Recuse e lute.

Deveria lutar. Sua mãe havia lhe ensinado isso. Mas pensando bem, a graça via que a mãe não lutará, na verdade. Talvez nunca tenha lutado. Havia sido traída, perdido seu posto de rainha e agora vivia exilada.

Vou me prejudicar, respondia para a voz em sua cabeça.

Contudo, se aceitasse iria para longe de suas irmãs, viver onde jamais pensou em pôr os pés e… ficar longe de Hera. Deu um sorriso debochado. Ao menos tinha um lado positivo; viver longe de Hera.

Mas havia a outra parte que ela tinha esquecido, mas que agora recordara. Casar-se com o deus do sono poria um fim na guerra, faria os olimpíanos se reunirem novamente e traria esperança aos mortais.

Pense nos mortais que você tanto ama, Pasí… Hera havia lhe dito, tentando convencê-la. Você e eu poderemos pôr um fim nessa guerra

Isso até convencera Pasí por um instante, mas ela conhecia bem o pai que tinha. Se Zeus soubesse do plano de Hera não só castigaria a própria esposa, como as duas filhas também. Aglaia, a graça do adorno e Pasitea, a graça do relaxamento, estavam enroladas juntos na teia da deusa.

Hera casara Aglaia com o Hefesto para que o filho ferreiro ajudasse em seu plano. E agora era à vez Pasítea.

— Senhorita — chamou Alécia, a ama da Graça. — Tem visita.

— Quem é? — perguntou levantando-se, indo até a ama.

— Seu noivo, senhorita.

A graça bufou.

— Ele não é meu noivo.

Alécia acompanhou até uma das salas do palácio da deusa do matrimônio, onde as Graças residiam. Alécia abriu a porta de bronze grande e a anunciou-a para o deus. Hipnos, que estava de costas, sorriu ao ver a graça.

— Lady Pasítea… — A reverenciou. — É prazer vê-la.

— Senhor Hypnos — cumprimentou com um meneio de cabeça. — Eu.. Quero que saiba que Hera me contou tudo.

— Ah sim? Então minha intenção de cortejá-la falhou, eu creio.

A graça respirou fundo e empertigou as costas. Pasí não tinha nada contra o deus do sono, afinal fora um dos primeiros deuses que conhecera ao chegar ao Olimpo. Ainda lembrava quão bem ele tocava flauta e que, naquela época, adormecera no ombro dele.

— Se quiser, pode desistir, eu não vou me ofender.

— E por que eu faria isso? — soergueu uma das sobrancelhas.

—Ora, é óbvio! Se meu pai souber disso, o senhor será aniquilado e eu, castigada. É melhor para ambos deixarmos Hera pra lá.

Ele deu um sorriso de canto.

— E perder tudo? — Ele caminhou até a graça. — Hera me deu a oportunidade de poder me aproximar de você.

— Poderia fazer isso sem ela! — retrucou.

— Não seria assim tão fácil… — comentou ele, lembrando-se da mãe, a deusa Nix. — Se quer saber, eu realmente tenho medo que Zeus saiba desta loucura. E mais medo ainda de que isso funcione, Zeus descubra e eu seja condenado a jamais vê-la.

— Você está pensando em você mesmo! — disse ela. — Mas e a mim? Sou a filha dele e o estou enganado.

— E a esposa dele também!

Ele tentou segurar as mãos dela, mas a graça desvencilhou com brusquidão e se afastou do deus.

— Estou sendo rude — suspirou. — Não lhe perguntei o que acha de tudo isso?

— Uma loucura! — respondeu ela. —Além do mais, não vou me afastar de minhas irmãs.

— E eu não quero que faça isso. — disse. — Pasítea, quero que saiba o quanto aprecio você. — De sua vestimenta retirou uma caixa prata cinzelada. Pasí a olhou o objeto por longos segundos antes de pegar.

Ao abrir encontrou um broche cabochão de safira, cercado de fileiras de diamantes com um pingente de pérola. Era lindo e refugiante. Mas ela fechou a caixa logo em seguida.

Pasí sabia o que aquilo significava; era um presente formal de noivado.

— Me prometa que irá fazer o que Hera pediu. — seu tom de voz era sério. —Dê um ponto final nessa guerra.

O deus de olhos e cabelos dourados aquiesceu.

—Farei o que me pede, minha senhora. — Então a beijou.

Pasítea mal teve tempo de reagir. Sentiu apenas a mão dele puxando-a para perto e a pressão morna de sua boca.

Ele se afastou.

— Não deveria… — disse a graça, espantada. — Isso…

Naquele instante, houve uma batida na porta e Alécia, que até então mantinha-se atrás da porta, entrou.

— Perdoe minha intromissão, mas a grande Hera requisita vossa presença, senhor Hypnos.

Ele deu um suspiro.

— Obrigado. — Pôs a mão sobre a caixa que a graça segurava. — Ficarei feliz se o usasse no casamento. — E saiu.

— Ele lhe deu isso, senhorita? — perguntou Alécia, olhando sobre o ombro de Pasítea. — É tão lindo! Uma joia invejável.

Pasítea a invejava a empolgação de sua ama. Ela não conseguia esboçar um sorriso sequer. Agora entendia o que Aglaia passara ao se casar com Hefesto.

Sentiu a mão da ama sobre seu ombro

— Senhorita, me dói muito vê-la triste desse jeito. Por que não comemorar com suas irmãs? Logo, logo ira se casar e..

— E me mudar para o Submundo. Não há motivo para comemorações nisso, ´Lécia. — disse, chamando a ama pelo apelido carinhosamente dado. — Eu nem sei como serão as coisas direito por lá. — suspirou. — Nem se um dia me acostumarei…

— Mas terá a companhia de Lady Cora, senhorita! — disse Alécia. — Ou melhor, Lady Perséfone. A imperatriz do Submundo também é uma filha de Zeus e, se quiser, poderá considerá-la sua irmã.

A graça virou nos calcanhares e seguiu para a porta. Contudo, antes de sair virou-se para a ama.

— Esse é meu destino agora… — murmurou.