— Se quer tanto se casar — começou Thanatos. — Por que não encontrar uma divindade do submundo pra isso.

Hypnos olhou de relance e deu um sorriso de canto.

— Oh, claro! Há tantas mulheres agradáveis no Submundo. As Erínias, por exemplo, são ótimas pretendentes.

Thanatos riu e sentou-se no assento em frente ao irmão. Ambos se encontravam numa das varandas do palácio do deus da morte, apreciando o cenário paradisíaco dos Elísios na companhia um do outro.

— Nix se alegraria muito com isso.

— Não duvido. Nossa mãe tem uma grande peculiaridade.

— Não diria peculiaridade — falou Thanatos. — Mas menosprezo por qualquer coisa vinda de Zeus, principalmente suas filhas.

Hypnos deu um suspiro e refastelou em seu assento.

— Por sorte tenho você para me apoiar.

— Não posso ir contra você e nem você contra mim. É o peso de sermos gêmeos. — O deus cruzou as pernas e encarou o azul do céu. — Mas ainda me indago de como pode está apaixonado pela filha de Zeus. Sinceramente, não há tantos atrativos nela.

Hypnos se inclinou para frente com olhar o sonhador.

— Isso é o que você acha. Pasítea é tão linda quanto Afrodite…

— Agindo feito um bobo — ele riu. — Agora tenho certeza que Cupido está brincando com você.

Hypnos deu de ombros.

— Pense o que quiser, quando chegar a sua vez também agira assim.

Subitamente, os deuses gêmeos puseram-se de pé. Não havia nada perceptível ao olho nu, mas eles sentiam a aproximação de uma cosmo energia poderosa, mas até então desconhecida no Submundo.

Sobre a balaustrada na varanda surgiu a pena de um pavão. Hypnos a pegou. Por alguns instantes o deus ficou em silêncio olhando para o objeto. Fechou em suamão com força e a pena desapareceu.

— Uma mensagem de Hera, não é? — observou Tânatos. — O que essa megera quer com você?

— Mais respeito pela rainha do Olimpo — pediu Hypnos. Ele ponderou sobre a perguntar de Thanatos. A deusa havia lhe transmitido uma mensagem dizendo que queria vê-lo, talvez Hera houvesse mudado de opinião. — Eu vou ver o que ela quer.

Tânatos arqueou as sobrancelhas.

— Sério mesmo? Se Nix souber que…

— Ela já sabe. — interveio ele.

Sua intuição o levou até uma floresta, numa região inexplorada pelos mortais, de mata densa e animais selvagens.

Encontrou-a sentada numa pedra. Não ostentava sua coroa e cobria-se com um manto de capuz marrom. Quando o viu, levantou-se e caminhou até ele.

Hypnos se perguntou quanto tempo passara desde que fora diante da deusa pedi a mão de Pasítea, pois a deusa estava mudada.

— Hera. — Cumprimentou-a.

— Soube que se mantém neutro sobre a guerra dos mortais. — ela disse.

Hypnos estranhara a observação da deusa.

— Sim… Mas o que isso tem a haver?

Para surpresa do deus, a deusa agarrou suas mãos com força.

— Hypnos, faça o que eu pedir, e todos os meus dias serão de gratidão para contigo! Faça Zeus dormir no estopim da guerra, eu imploro!— Dizia ela desesperada. — Os gregos estão sendo vencidos e precisam do meu auxílio. Hefesto e Poseidon estão ao meu lado, mas só com eles não vou conseguir aplaca a fúria de Zeus.

Hypnos sabia o quanto aquilo era insano. Ele suspirou.

— Eu a respeito profundamente, Hera, e não negaria nenhum pedido seu, embora eu sirva ao imperador Hades. Contudo, pôr Zeus para dormir e algo impensável, jamais faria isso a menos que ele mesmo me pedisse.

Ela apertou ainda mais as mãos do deus do sono. Sorriu debochado inclinando a cabeça.

— Por que você hesita, Hypnos? Quer mesmo que a guerra prossiga por infindáveis anos até exterminar tanto gregos como troianos? Nem os mortais e nem os imortais terão paz. — Dizia ela de modo teatral. —Eu lamento tanto pela Pasítea… ela apreciar tanto os mortais. Essa guerra a deixa tão infeliz e você já percebeu isso, não é?

— Não envolva Pasítea nisso, Hera!

— Então faça a feliz, Hypnos! — O deus a encarou curiosa. — Se fazer o que peço, lhe darei a mais nova das graças como sua noiva. Você, que desde o primeiro dia que a viu a amou tão profundamente.

Hypnos ficou surpreso, jamais negaria a chance de ter Pasítea como sua esposa. Contudo…

— Lembro-me bem que disse que não abriria a mão de “suas meninas”.

— Oh, por favor, Sono! — reclamou ela. — Faça apenas o que peço e terá o privilegio de se casar por amor. Esqueça o que eu lhe disse.

Hypnos ficou em silêncio por alguns segundos, instigando Hera. Queria acreditar nas palavras da deusa, por que, afinal das contas poderia ele estar agindo como o irmão dissera; um bobo influenciado pelo Cupido e agindo imprudentemente. Pensou no imperador do Submundo e isso clareou seus pensamentos.

— Jure então pelo estige, Grande Hera. — A deusa piscou atordoada. — Jure que você me dará a graça mais nova, aquela a quem todos os meus dias eu anseio.

Ultrajada, Hera trincou o maxilar e soltou a mão do deus. A deusa deu um profundo suspirou e aquiesceu, a contragosto.

Hypnos acompanhou a deusa até o rio Estige. O lugar era sombrio, chamado de pântano das trevas, e todavia era o lugar mais calmo do Submundo. O rio tinha aparência pegajosa e fria. Hera olhou tudo aquilo com asco.

— Espero que Pasí se dê bem aqui — comentou ela.

— Venha por aqui, por favor — pediu ele.

Chegaram a borda do rio. Hera sabia o que fazer, mas hesitou em pôr sua mão nas águas escuras.

— Quem é aquele? — indagou ela, apontando para uma jangada que se aproximava.

Hypnos estreitou os olhos.

— É Flégias, a estrela celeste do crime — respondeu Hypnos. — Um dos 108 espectros do imperador.

O espectro não chegou a se aproximar deles, talvez tivesse a intenção, mas quando reconheceu o cosmo da deusa do Olimpo fez uma breve mesura e mudou o curso da jangada.

— Flégias! — chamou Hypnos. A deusa o olhou curiosa. — Ele será uma das testemunhas de seu juramento. Se importa?

— Por que “uma das”?

— Porque a outra testemunha é ela. — Ele indicou os a cabeça para trás.

Hera olhou assustada para a nuvem negra que aparecera repentinamente atrás de Hypnos. Aos poucos a forma da deusa da noite, Nix ,surgiu diante deles.

Flégias saiu de sua jangada e os reverenciou mais uma vez.

— Por favor, Hera — disse ele indicando o rio com a mão.

Ela bufou e mergulhou a mão no rio, jurando pelos deuses ali presentes que, ao cumprir o pedido da deusa, Hypnos teria a mais nova das graças como sua noiva. Ela pôs-se de pé e limpou a mão em seu manto.

— Também quero que prometa que jamais contará a Zeus.

— Todos os segredos são guardados na noite, Hera — pronunciou Nix, pegando a deusa de surpresa. — Aguardou-a no casamento. Espero que esteja lá para abençoá-los.

Hera nada disse, apenas seguiu Hypnos para sair daquele lugar sombrio e frio. Quando por fim pôde ver a luz do sol, lamentou ter jurado dar a tão doce Pasítea a Hypnos, pois ela deixaria o lindo e ensolarado Olimpo para viver no sombrio e frio do Submundo.

— Então nos vemos daqui alguns dias, Grande Hera. — Fez uma breve mesura, despedindo-se da deusa.