Sono & Relaxamento
15 Capítulo 15
A barriga já se mostrava saliente. A deusa do Relaxamento acariciava com prazer, jubilosa com a vida que crescia em seu ventre. Seu primeiro filho. Estava cheia de expectativas, de planos e sonhos. De frente ao espelho o imaginava com suas características, principalmente se viesse a ser uma linda menina. Cabelos louros, olhos azuis com um sorriso meigo.
A presentaria para o pai e a mãe. Para as irmãs, é claro. E também para Hera, não podia esquecer.
— Milady — chamou uma ninfa. Pasithea saiu de seu estado absorto e a olhou com expectativas, ansiando por notícias de seu marido. — Lady Nix pede sua presença.
Não deixou de soltar um suspiro, frustrada. Não havia notícias, informações ou sinais. Sentia falta dele e se preocupava com sua segurança, embora soubesse da força dele. Desejava ser tal como Perséfone. Ela não se preocupava com Hades, apenas com seu trabalho na ausência dele. Sorria e era séria quando preciso, mas não mostrava, em nenhum momento, que a ausência dele lhe afetava.
— Lady Nix — A saudou, fazendo uma breve reverência. A deusa da noite estava sentada e, embora aquele fosse o palácio de Pasithea, Nix agia como se tudo, até o Céu do firmamento, fossem dela.
— Está linda, Pasi — Comentou. Levantou e andou até a Graça, pondo a mão em sua barriga e acariciando. — Queira ter aproveitado a gestação das minhas crianças assim, mas preferi pari-los logo. — encarou-a. — Por que não faz isso?
— Prefiro respeitar o tempo dele. — respondeu, colocando a mão de modo protetor na barriga. — E eu quero que Hypnos veja o nascimento.
— oh, que linda consideração… O primeiro filho é sempre o mais aguardado; os outros, se nascerem fortes servirão para alguma coisa. E o pai, bem, só vai se importar com as crianças quando crescerem, até lá será um trabalho solitário.
Pasithea franziu o cenho.
— Sei que Hypnos não será assim. — acariciou mais uma vez a barriga. — Sei que ele está feliz e ansioso com o bebê.
Nix revirou os olhos. Desgostava da inocência, das palavras cheias de esperança da Graça que ainda vivia apegada ao Olimpo. Deu um suspiro e a chamou:
— Venha comigo, Pasithea… Quero lhe mostrar uma coisa.
A deusa foi a frente. A Graça permaneceu alguns instantes paradas, receosa em seguir a sogra. Uma ninfa apareceu, trocou alguns olhares com ela e ela assentiu, vendo Pasithea sair.
Seguiu-a pelo jardim, até sair dos limites do palácio, e as ninfas que estavam no jardim pararam a Graça.
— Milady precisa de companhia? – indagou uma das ninfas. — Lady Perséfone foi sucinta em dizer que devemos acompanhá-la sempre.
— Ela está comigo. — disse Nix. — Não vê? Estamos indo ao palácio de Thanatos.
— Não se preocupem, meninas. — disse Pasithea as tranquilizando. — Qualquer coisa eu as chamo.
O grupo de ninfas aquiesceu. Pôs a mão na barriga. Sentindo seu pequeno rebento mexer se sentia segura seguindo a deusa da Noite. Vinha a sua mente que Nix não faria nada contra ela enquanto carregasse seu neto.
Nix a levou a um salão vazio do palácio. Havia no centro dele um pequeno chafariz e as duas foram até ele. Pasithea olhou minuciosamente o cômodo. Era a primeira vez que entrava no palácio de Thanatos e observava a discrepância na decoração comparada com a do irmão gêmeo.
— O que viemos fazer aqui, Lady Nix? — indagou.
— Algo para ajudá-la.
Pasithea soergueu uma das sobrancelhas.
— Não preciso de ajuda.
— É claro que precisa. Afinal, suas visões são o quê? Uma benção?!!
— As visões que tenho não me incomodam.
Nix colocou a mão na cintura e inclinou a cabeça.
— Sério? — arqueou as sobrancelhas. — Não é o que vem aparecendo. Sei que você sempre passa mal e acaba desfalecendo. Como sua sogra, tenho que cuidar de você.
— como sabe?
— As ninfas são ótimas conversadeiras. E Perséfone é exagerada em preocupação com você. Então como eu, Nix, não ia ficar sabendo? Agora observe.
Na água límpida e imóvel do chafariz, Nix tocou a superfície da água com a ponta de seu dedo, criando pequenas ondulações que se repetiam e repetiam, infinitamente.
— Olhe para a água e me diz o que ver.
Receosa, Pasithea fez o que lhe foi pedido. Inclinou sobre a bacia e mirou seu reflexo na água que mexia várias vezes. Sorriu inocentemente para sua imagem, admirando seu cabelo castanho. Mas concentrou-se apos ouvir Nix bufar
Demorou muito ou fora muito rápido. No centro, onde o dedo de Nix tocará, a água aos poucos tomou uma coloração escura, se tornando um espelho.
O que viu a fez prender a respiração. Olhos vermelhos rasgados e uma boca aberta repleta de dentes pontiagudos. Conseguia sentir um cheiro podrido vindo dele. Sentia que sua imagem a dominava, quase a sugando para dentro de sua boca.
— Então, Pasithea, o que vê?
Com a voz de Nix, a Graça saiu de seu transe, assustada.
— O que… O que foi isso? – com esforço perguntou.
A deusa da noite olhou a fixamente.
— O que habita sua mente. — respondeu. — Talvez o causador das suas visões.
— I… impossível– gaguejou, negaceando veemente. Algo tão assustador não dividiria o mesmo espaço com ela. — Impossível.…
Nix colocou a mão sobre os ombros dela.
— Acalme-se.
Calafrios percorriam toda sua espinha e começou a suar frio e tremer as mãos. Agachou-se no chão, apavorada. Sentiu a barriga endurecer.
Seu bebê também sentia medo.
A porta do salão foi aberta abruptamente e Perséfone adentrou apressada no recinto e atrás dela vinha suas ninfas. A visão que a deusa teve ao entrar era Pasithea no chão, agachada, e Nix a sua frente em pé, assistindo-a.
— Lady Perséfone — a deusa da noite a cumprimentou, com maneio da cabeça. — O que a traz aqui?
— Minha irmã está grávida, o que ela faz no chão?
— É apenas medo. Não se preocupe. O que a traz aqui? — voltou a perguntar, ignorando completamente a Graça — Notícias dos meus meninos?
Perséfone a ignorou e se agachou ao lado da Graça. Pôs a mão em seu ombro e em um simples toque pôde sentir que ela não estava bem.
— O que fez com ela? – indagou.
— Meu trabalho.— respondeu indiferente. — Ela está bem, não se preocupe.
Perséfone dardejou um olhar a deusa.
— Não é o que parece. — virou-se para as ninfas. — Meninas, levem Pasithea para meu palácio, cuidem dela. Irei transportá-la para lá.
Prontamente o grupo aquiesceu e saiu. Perséfone pôs a mão sobre a cabeça loira da irmã, fechou os olhos e imaginou seu quarto. O corpo da Graça brilhou e sumiu gradativamente.
Terminado, pôs-se pé encarou seriamente a deusa da noite.
— Me responda, Nix, o que você fez com Pasithea? Lembre-se que antes de qualquer vínculo com você, ela é minha irmã!
— Já disse, fiz apenas meu trabalho.
— Eu exijo saber! Coloquei você como minha conselheira na ausência de Hades e exijo que qualquer coisa que faça ou deixe de fazer passe por mim primeiro. O que fez com Pasithea?
Nix respirou fundo. A voz alterada de Perséfone lhe irritava.
— Protegendo-a. Ela vem passando mal, não é? Tenho minha desconfiança que Hypnos não deu uma romã para ela.
Perséfone ficou em silêncio, avaliando o que a deusa falara. Deu um suspiro e piscou algumas vezes, se acalmando.
— Desculpe-me Lady Nix por isso. Pasithea ficará comigo, tudo bem?
— Tudo bem.
Perséfone deu as costas, desaparecendo. A deusa da noite bufou. Se quisesse, em um simples estala de dedo, acabaria com ela. Olhou para o chafariz e franziu o cenho. Alguma coisa havia dado errado.
**
Perséfone observava a irmã dormir. Ainda não a sentia bem, sua cosmo energia estava estranha. Pôs a mão na barriga, mas era incapaz de sentir o bebê.
— Milady, se quiser podemos ficar aqui e a senhora descansa. — ofereceu uma ninfa.
Perséfone sorriu com a gentileza.
— Obrigada… Mas quero apenas que cuidem dos palácios, eu ficarei aqui. Avisem-me caso Nix queira ver Pasithea.
— Sim, Milady.
Assim que ficou a sós, olhou com surpresa para a meia-irmã que, mesmo em seu sono, chorava. Segurou a mão dela.
— Está tudo bem, Pasi... Eu estou aqui.
— Mamãe…
Deu um sorriso solidário e acariciou os cabelos castanhos da Graça. Pasithea podia ser forte, mas ainda era uma criança em comparação a outros deuses, principalmente ali no Submundo. E podia sentir em seu corpo frágil que ainda pertencia ao Olímpio.
— O que realmente quis com isso, Hypnos, matar sua esposa? – indagou sozinha. Então suspirou. – Ela é ainda uma menina carregando algo muito pesado.
**
Acordou a noite, cansada, reconhecendo que não estava em seu quarto. Tentou sentar, mas só de levantar a cabeça ficou tonta. Refastelou a cabeça de volta no travesseiro e suspirou.
O que foi aquilo, pensou, ainda assustada com a visão. Fechou os olhos negando o que Nix havia lhe dito, que tal coisa estava em sua mente. Impossível. Impossível.
Afastou os lençóis, e pôs-se de pé. Caminhou até a janela, abrindo-a e olhando o céu noturno. Estava lindo, com todas as estrelas brilhando e a lua cheia esplendorosa.
Volte logo Hypnos, rezou, ao fechar os olhos e imaginar o marido. Levou a mão a barriga. Não estamos bem.
Seu ventre continuava duro, dando uma sensação estranha, e algo lhe dizia que seu bebê não estava bem. Nix havia feito alguma coisa.
Voltou para cama e cobriu a cabeça ao se deitar. Fechou os olhos e deixou uma lágrima cair.
Quero voltar pra casa.
**
— Não a encontramos, Milady – disse um espectro, ajoelhado diante de Perséfone. A deusa aquiesceu.
Havia dois dias que Nix não comparecia a sua presença, mesmo quando requisitada. Não sentia seu cosmo por perto, em nenhuma das regiões do Elísios, mas conhecia bem a deusa para saber que ela podia muito bem oculta seu cosmo.
— Pode ir.
O espectro desapareceu e Perséfone pôde continuar seu caminho. Seguia ao quarto que cederá a Pasithea. Ao entrar encontrou a irmã rodeada pelas ninfas, enquanto ela acariciava o barrigão. Mais alguns dias e o bebê nasceria, mas sentia, assim como a Graça também, que ele não ia bem.
As ninfas a reverenciou e Pasithea se apoiou nos cotovelos para se sentar.
— Notícias?
— Não é com isso que deveria se preocupar. Como está seu bebê?
— Duro. Não o sinto mexer. Nix fez alguma coisa, tenho certeza.
Perséfone se sentou na beira da cama e com um movimento da mão dispensou as ninfas. Quando ficaram a sós disse:
— Naquele dia eu perguntei a ela o que havia feito, respondeu que era para te proteger, mas duvido. Ela está ausente, peço a ela para vir falar comigo, mas se recusa.
— Ela não pode fazer isso!
— Ela pode fazer isso. É a deusa da noite. Não há ninguém capaz de controlá-la. Se ela veio para cá não foi para jurar obediência a Hades.
— Mas… Pelo menos respeito ela deveria ter.
— E ela tem, disso não há dúvidas. Mas Nix é misteriosa tal como uma noite sem lua. Ela irá me responder o que fez. Se ela machucou teu filho, ela não ficará impune.
Pasithea deu um suspiro, e acariciou mais uma vez a barriga.
— Cora... Se eu disser que estou cansada daqui você ficaria irritada?
— Eu lhe entendo perfeitamente, Pasi e não a condeno.
— Você já pensou em voltar?
— Mas eu volto, não volto? — respondeu.
— Digo para sempre. Ficar no Olimpo e não voltar jamais pra cá.
— Isso é algo impensável pra mim, Pasi. Em sua mente provavelmente vê que está condenada a este lugar, mas não é bem assim. Eu e você temos um dever. – Perséfone pegou a mão da Graça e apertou. – Fomos escolhidas para um dever, não é?
A Graça engoliu em seco. O fim da guerra de Tróia aconteceu pela promessa de Hera a Hypnos.
Engoliu em seco e aquiesceu.
De repente sua visão embaçou, Perséfone sumiu de seu campo de visão e deu lugar a um breu total. Sabia que estava tendo uma daquelas visões, mas não queria ver e nem ouvir o que estava por vir.
— Aquilo não foi suficiente, mulher inútil! — uma voz grossa e assustadora gritou, vibrando toda a escuridão.
— Inútil, seu estúpido?! Lembre-se quem o pôs aí e quem irá tirá-lo. E quê você fez?!
A resposta que veio causou arrepio em Pasithea.
— Nada…
Seu ventre contraiu, sentiu suas pernas molhadas e ao olhar para o chão negro viu colorido com seu sangue. Gritou.
Os olhos negros de Ker dilatou. Levou a mão no peito, apreensiva.
— Algum problema, Ker? — indagou Thanatos a olhando pelo canto do olho.
Os deuses gêmeos estavam sentados diante a uma lareira, conversando até então sobre o prosseguimento da missão.
— Algo está errado… — Disse. — Hypnos, volte pra casa! — declarou ela, virando de súbito para o irmão dourado. — Por um momento eu o senti forte.
— Erebus? — indagou a morte.
Ela aquiesceu.
— Vamos vê-lo então.
A deusa negaceou.
— Não… Não podemos. Não agora. — encarou os olhos dourados do irmão. — Seu filho não está bem. Pasithea não está bem.
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