Sonhos Escritos
13 Eu e você, o nosso fim do mundo.
Notas iniciais
Aeroporto internacional de Maceió – Zumbi dos Palmares
Dezesseis horas e cinquenta e cinco minutos. Ainda possuía algum tempo antes de finalmente sair de Mcz, o único problema, era pelo curto intervalo de tempo, estar deixando ele para trás. Voo agendado para ás dezessete e quarenta.
Hotel la plaza – Catorze horas e vinte minutos.
– Diego, sou eu.
– Já chegou ao hotel?
– Claro. Daqui a pouco já estou jogando todas as minhas roupas dentro da mala.
– Compreendo. Vê se não se esquece de nada.
– Com certeza não esquecerei.
– Então...
– Ah, sim. Eu quero que você me encontre no centro, daqui a alguns minutos pode ser? Ou no aeroporto mesmo...
– Sim, te encontrarei no aeroporto antes de você partir, pode ser?
– Sempre...
Aeroporto internacional de Maceió – Zumbi dos Palmares – Dezesseis horas e quarenta e dois minutos.
Nas minhas costas, uma mochila antiga, já havia sobrevivido ao tempo por tempo demais. Começava a demonstrar alguns pequenos rasgões laterais, mas o que eu poderia fazer? Era a minha vida, não importava para onde fosse sempre carregava uma mochila com um caderno e algumas coisas, nunca deixava de andar sem ela.
No chão a minha antiga mala, trazendo as roupas que na mochila não suportou. E claro, é uma simples mochila não um portal para caber tanta roupa. Em minha mente as palavras que deixei de pronunciar com o tempo se tornavam cada vez mais fortes, ressoam como a própria vida, com uma voz própria, com uma canção nova.
Avenida do Hotel la plaza – Quinze horas.
Havia acabado de descer do hotel e fui até a papelaria mais próxima. Andei cerca de cinco quadras. Já estava começando a suar. Decidi pegar o ônibus e ir direto para o aeroporto, lá seria mais fácil de arrumar o que eu queria.
O ônibus estava vazio, não estava habituado a isso, sempre me lembrava das constantes batalhas travadas para conseguir se manter em pé, agarrado até mesmo na pessoa que estava ao seu lado que conseguiu melhor apoio que você. Não que o sistema fosse totalmente desajustado, apenas que certa parte, em um determinado horário, não funcionava como devia. Embora nesse momento o trânsito parecesse livre.
Coloquei meus fones de ouvido, deixei que a música tomasse conta da maior parte do percurso.
Quando cheguei ao aeroporto, busquei a primeira livraria, não pelos livros. Mas sim pelo embrulho, comprei um básico, dourado e envolvi o presente de despedida. Passei uma fita com dificuldade e consegui a perfeição. Na verdade estou mentindo, a moça da recepção viu a dificuldade que estava sentindo com a fita, meio metro jogado fora. Mesmo assim decidiu me ajudar, fez um arranjo e logo estava saindo da loja mais do que satisfeito. E claro, comprei dois livros para que eu pudesse passar a viagem tranquilamente.
...
– Quase que eu já estava de saída...
Esbocei um sorriso inocente.
– Ora, ainda falta meia hora. Como já estava de saída?
– Ia para o outro lado.
– Idiota.
Abracei-o e atravessamos a área até um estabelecimento de fast food, geralmente não tenho o costume de notar, contudo deveria ser o McDonalds. Sentamo-nos na primeira fileira de cadeiras, já para facilitar a saída, quanto mais rápido melhor. Não queria perder o voo.
– Não está curioso sobre o motivo que eu te chamei aqui?
– Um pouco.
Retirei o pequeno embrulho de dentro da mochila, e o entreguei. Ele olhou por alguns instantes e quando estava para abrir o impedi.
– Ainda não. Siga o costume japonês...
– Qual?
– De não abrir o presente enquanto eu não me for.
– Aquilo que quem recebe deve depois dar um presente em outra ocasião e que ao receber não deve abrir por respeito?
– É exatamente isso, mas não acho que consigo achar melhores palavras para explicar.
Rimos sem saber o motivo, apenas estando entregues ao momento de descontração. Mas isso não seria o bastante não é mesmo. O pequeno embrulho em minha mão, o sorriso que vez ou outra parecia triste.
– Você não vai demorar tanto tempo,
– Quem dera eu pudesse fazer isso... Demorar o tempo que desejasse.
– Torne-se rico antes de voltar, ai você poderá fazer isso até morrer.
– Claro, assaltarei o banco de outro estado!
– Menos, comece com um posto de gasolina.
Escutamos um breve e familiar som, preferia poder ignorar, mas a chamada era inevitável. No painel aparecia o nome do voo, e o horário a quase um pulo do qual estávamos.
– Então...
– Então...
Eu o abracei mais uma vez, senti seu corpo tocar o meu, sua respiração leve no meu peito. Afaguei seus cabelos. Afastei-me e coloquei a mão em seu rosto. Não o beijei, pois não sabia o que os olhos atentos do mundo podiam preparar para ele momentos depois. Apenas desejei que ele voltasse tranquilamente.
Distanciamo-nos um do outro e permanecemos em nossas vidas como se nada tivesse sido alterado, mas o que seria, se eu apenas o conhecia há poucos dias e ele, nem sabia direito a quem estava esperando voltar de um voo. Será que, ele se apaixonaria nesse período em que estaríamos distantes?
Não sei ao certo, mas acho que comecei a abandonar qualquer expectativa sobre os outros para me focar apenas em uma única pessoa. E infelizmente, não saberei por quanto tempo irá durar...
Olhei para trás e acenei, ele estava parado na janela, segurando o pequeno pacote, será que ele iria gostar? Dentro de poucos minutos, já estaria fora da vista dele, e dentro de poucas horas, aterrissando.
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