Notas iniciais
E demorou, saiu e é festa!!!

Ao chegar em casa nunca imaginaria o cansaço que estaria sentindo. Tudo isso pelo simples motivo de ter ido correndo para o terminal que ficava a seis quarteirões daqui. Acredito ter ficado um pouco sedentário nessa última viagem. Amanhã, bem cedo, ao raiar do sol, volto a correr. Olhei para o relógio assim que entrei em casa. Marcava às vinte horas.

Coloquei o embrulho dourado sobre a mesa.

Tinha curiosidade em abrir o mesmo desde que me entregou, mas agora, estando em casa, sinto uma vontade de dormir e não de surpresas. Afinal de contas amanhã é sábado e tenho o dia todo para ficar em casa.

Sábado...

Poderia ir à praia. Assistir alguma série na televisão. Ficar lendo no sofá da sala. Deitar na cama e topar a música no aparelho de som até algum vizinho pedir para abaixar. Era o dia em que podia ser feliz

Decidi dormir. Poderia ser que ficasse o dia todo dormindo. Tirei os sapatos. Deixei o corpo cair no colchão quente e macio. Por um breve segundo senti o cheiro dele. Virei-me para o telhado. Abri os dois braços sobre a cama. Fechei os olhos. Lembrava perfeitamente do breve momento que passamos por aqui.

Acabei rindo por alguns segundos. Poderia ter tirado proveito da situação com a camisa, ou no banho...

Deixei o ar-condicionado fazer o seu trabalho e resfriar o local. Palavras e mais palavras corriam pela minha mente repleta de sensações.

Os manuscritos.

Lembrei por fim, talvez até de má vontade. Não posso dizer que esqueci, Oscar esteve aqui nessa manhã para avisar. Depois que Will embarcou no avião, não existia muito motivo para prosseguir com os mesmos.

O dia todo para ficar em casa caiu como uma jaca madura e se espatifou em um milhão de pedaços irregulares. Certo, sem muito drama. Afinal nem sabia o que queria fazer amanhã mesmo. E tinha tanta pouca coisa escrita...

Passei mais tempo pensando nele do que realmente escrevendo.

Estava esperando tomar coragem para começar a escrever novamente. Poderia deixar para o outro dia, só que isso acarretaria em um rascunho sem edição e com muito pouco conteúdo.

Fui até a cozinha, comecei a acender todas as luzes do corredor.

Sou eu que pago mesmo.

Pensei tão friamente que nada fazia mai sentido em acender e desligar. Não estava preocupado em saber quem pagava, apenas o fato de ter algo para mexer durante o caminho até a cozinha era agradável. Deveria comprar um anel e parar de brincar com os interruptores.

Ao chegar na cozinha peguei um copo e coloquei água no mesmo. Iria preparar algum café. Despejei a água dentro da cafeteira. Peguei seis fatias de pão integral. O outro parecia mais apetitoso, estou decidido a cortar algumas coisas. Passei manteiga em uma das bandas. Coloquei-as dentro de uma forma. Joguei dentro do forno.

Só iria ligar para finalmente deixar tudo pronto apenas quando voltasse do banho.

Voltei desligando todas as luzes que continuavam acessas. Daqui a pouco estaria correndo com medo que o maligno puxasse meu pé do jeito que as coisas estavam indo. Peguei uma roupa limpa e coloquei em cima da cama. Um CD aleatório de músicas aleatórias baixadas não aleatoriamente do meu computador.

Joguei a camisa em cima do box, a bermuda foi ao chão. A noite não estava fria, o quarto era que estava totalmente frio.

Vou desligar o ar-condicionado e colocar um casaco pelo visto.

A água morna escorreu pelo meu corpo. As lembranças vivas começaram a tomar conta dos meus pensamentos. Não era a primeira vez que me permitia se entregar aos momentos passageiros. Era por esse mesmo motivo que o tempo passava tão despreocupadamente ao meu redor. A imagem de seu sorriso, do seu calor, do seu beijo. A emoção e a alegria percorriam o meu corpo como um calafrio no verão, tão inesperadamente.

Sai do banheiro e me envolvi na toalha.

Voltei a cozinha, pingando um pouco, depois passaria o pano para enxugar esse chão. Se me lembrasse claro. Liguei o forno. Dentro de alguns minutos já estaria pronto. Liguei a cafeteira. Voltei para o quarto, vesti uma bermuda simples, daquelas que usamos para praticar algum esporte, ou simplesmente correr na praia ás cinco da manhã. Vesti com uma regata por cima. Peguei o casaco para quando começasse a sentir frio.

Peguei o pequeno tapete do banheiro, fui secando o piso até a cozinha. Coloquei o café no copo, as fatias no prato. Tive que me abaixar para pegar o tapete e jogar no balde para lavar depois.

Levantei-me, fui em direção a sala.

Meu trabalho começava agora. Coloquei o CD para tocar.

A música lenta tomava conta da sala. Preenchendo completamente o ambiente. Joguei o casaco ao lado da mesa sobre uma cadeira encostada a parede.

Peguei a pasta que estava dentro do birô. Vi entre os curtos rascunhos e pensamentos diferentes onde havia começado e o plano de continuação. Queria ver se existia algum outro rascunho que poderia complementar essa história, contudo não adiantaria espalhar os demais papéis sobre a mesa da sala e procurar desesperadamente como se aquilo pudesse me trazer a salvação.

Observei cada folha enquanto comia. Eram poucas, não passavam de vinte e uma. Algumas pequenas, outras de caderno, impressas ou notas fiscais rabiscadas.

A cada segundo me perdia em um pensamento diferente sobre o rumo que deveria tomar daquele ponto. Gostaria de dizer os meus pensamentos, embora embaralhados em um mar de cartas, podia separar cada um. Cada ideia ao seu naipe. E cada naipe seguia sua própria linha de raciocínio. Digamos que a confusão era boa, estava me sentindo um pouco mais vivo, preparado, especial. Deveria permitir que isso fluísse para fora.

Comecei a digitar despreocupadamente quando notei que o meu pão havia acabado. Comi tão rápido assim? Não é tão importante para escrever um pensamento completo sobre isso.

As linhas demoravam para ficar completas. Tentei buscar o auxílio de enciclopédias e palavras novas na própria internet reduzindo minha busca pelo livro antigo. Parecia que a cada música que passava o meu ritmo diminuía. Em pouco tempo, tendo toda a certeza disso, o CD pararia de tocar. Deveria ter apenas mais quatro no máximo.

O meu único problema era não conseguir direcionar essa história.

O título já havia sido decidido. O enredo também. Desenvolver era o meu pecado. Parei por um momento, direcionei a vista para o teto. Senti os olhos pesarem. A respiração ficar lenta. Consegui notar algo que não me foi possível antes. Leve e repetidos pingos distantes caiam sem pressa.

Percebi que estava chovendo, não ferozmente e sim ritmados e tranquilos, acompanhavam o ritmo desacelerado de um Jazz que desconhecia o nome. Parecia que não tinha nada a perder. Não existia fim ou começo. Apenas o atual momento do nada se unir ao tudo.

Onde uma frase nunca termina, e a outra começa do zero...

Há um sorriso no meu rosto. E ainda não entendo o motivo. Talvez, apenas talvez, lembrar dos poucos momento que passamos juntos seja a minha luz.

Percebi que ainda continuava, mesmo inconsciente do que estava colocando a escrever. Comecei a ler desde onde tinha parado. A história havia se alterado ligeiramente do clima horror e sombrio para algo mais iluminado e lindo de se ver. Esse era um detalhe que não gostava muito nas histórias. Nada é muito perfeito ou dura muitos anos se ambos os lados não estão dedicados para isso.

Quando prossegui era usando novamente os rascunhos, adicionando sempre o que precisava de um ajuste simples. Ligando, arrumando, ajustando e tentando completar tudo. Organizei o formato do texto, fonte e tamanho. Coisas básicas. Salvei o documento.

O ponteiro do relógio parecia ter parado, embora ainda conseguisse escutar o leve tic que ele sempre fazia. Lembrei do bom tempo nesta manhã que passei com o Will, nas palavras, no meu vacilo estragando o momento... Tudo parecia distante quando o cansaço começava a me consumir. Os textos ficariam de lado, já havia terminado mesmo. Amanhã imprimirei e levarei para o Oscar.

Pensei em seu sorriso. Notei que meu coração disparava apenas em lembrar. O que realmente seria daqui para frente? Fechei o notebook, guardei os papéis na pasta. Coloquei ambos sobre a mesa. Fui para o quarto. Retirei a regata. Senti meu corpo estremecer ao vento frio. Em nenhum momento coloquei o casaco, não será agora que irei pôr. Deitei. A luz permanecia apagada.

A chuva continuava a se estender fora das paredes daquela casa. E eu só queria descansar. Não me importaria agora com nenhum som, estava entregue aos pensamentos, nada me faria esquecer de quem eu amo... Em pouco tempo, adormeci.

Notas finais
E espero que fiquem tão ansiosos quanto eu para a segunda parte *---*