Sonhos Distorcidos - Original

3 02 - Exterminara de IMBECIS


Notas iniciais
Oh, quero agradeçer muito os dois comentarios que recebi. Fiquei muito feliz mesmo, espero ver essas duas leitoras aqui novamente.
Aqui esta o novo capítulo, espero que gostem.

Limpei a baba no canto da boca e me levantei do banco do ônibus, com o olhar fulminante do motorista me seguindo a cada movimento.

Peguei a minha mochila, colocando uma alça no ombro esquerdo e desci os degraus do veículo.

Encarei o ponto de ônibus vazio e acho que não deveria ter dormido a viagem toda, mas foi inevitável. Eu já estava ficando paranóica, pensando que todos estavam com os olhos pregados em mim e meu disfarce já era.

Mordi a parte de dentro da bochecha, nervosa. Encarei um lado e outro, sem saber para onde ir.

Virei para trás, o ônibus ainda estava ali, com a porta aberta e o motorista me encarava com um misto de irritação e curiosidade.

Pigarreio duas vezes para engrossar a voz e parecer mais masculina possível.

– Para onde devo ir? – pergunto.

O homem de rosto gordo e cheio de acne nada responde, apenas acena com a cabeça para atrás de mim. Olho para trás e vejo uma trilha que vai para dentro do bosque. Entendi aquilo como sendo o caminho que eu devo seguir e assim que voltei minha atenção para o motorista para agradecer, ele já tinha fechado a porta e já ia embora.

Dei de ombros. Se ele não quer que eu agradeça, não sou eu que vou sair gritando “obrigada” aos quatro ventos como uma imbecil.

Solto um suspiro pesado e aperto a alça da mochila, começando a andar em direção a trilha.

Os meus pés trituram as folhas mortas das árvores altas ao meu redor. O caminho é meio estreito, mas se segue por alguns quilômetros a frente. A cada segundo que eu ando meu coração parece que irá parar de bater.

– Eu não devia ter dado ouvidos a Mio – murmuro para o vento.

Eu realmente devo ser muito tapada para aceitar a ideia de virar o meu irmão gêmeo. Mas tempos de desespero pedem medidas retardadas como essa.

Passo a mão por meu novo cabelo, estranhando o comprimento curto e ele todo liso. Mas eu tenho que me lembrar que não sou mais uma menina e sim um garoto.

Andei pela trilha por quinze minutos, tendo apenas a companhia do barulho dos pássaros em algum lugar no bosque. A trilha me leva direto para uma escadaria, que vejo a alguns centímetros de distância e alguém está parado diante dela, encarando o topo.

Tentei fazer barulho algum que denunciasse que eu estou me aproximando da pessoa. Paro de frente para o primeiro degrau e encaro o topo da enorme escadaria em estilo de templo japonês antigo, com estacas em forma de um arco vermelho, que é bem provável que tenha mais de 350 degraus. Sem conseguir me conter, minha boca abre em um “uau” e não consego ver o final daquele monstro.

– Vou ter que subir isso mesmo? – pergunto, olhando pela primeira vez para o garoto ao meu lado.

Ele olha para mim, levanta uma sobrancelha espessa e bem desenhada e bufa. Sem dizer mais nada, começa a subir os degraus. Ignorando a minha existência.

Meu sangue começa a ferver e eu tenho que me conter para não enfiar a mão na cara daquele garoto oriental prepotente. Fecho minhas mãos em punhos, quase cravando as unhas nas palmas das mãos. Eu o encaro – bem, suas costas, na verdade –, enquanto ele sobe os degraus com um jeito tão gracioso que lembra um gato persa andando.

Sim. Ele é lindo. Isso eu não posso negar. Ele é irritante sim e mal-educado, mas eu não sou tão retardada ou cega, para não notar isso.

Em outra situação – uma em que eu não esteja vestida de homem e ele seja mais cavalheiro – é bem capaz que eu pudesse me derreter e até tentar flertar com ele. Até porque, eu tenho uma pequena queda – do tamanho de Tókio – por orientais; ainda mais se ele tiver o cabelo castanho-claro todo arrepiado, os olhos puxados castanho-avermelhado, rosto quadrado, corpo em forma... Ai, que merda! Agora eu estou descrevendo aquele mal-educado.

Com raiva, eu tento sair de meu estado de devaneio e olho para cima. Vejo, surpresa, que aquele idiota já subiu uma boa parte da escadaria, mas esta bem longe de ser a metade.

– Ei, tenho que subir isso mesmo para chegar a Academia Royal?! – grito para ele, que se vira para me encarar.

– A menos que você saiba voar, eu não sei como chegara lá – ele aponta para cima, onde imagino que seja o final da escadaria.

Depois que ele debocha da minha cara, ele dá as costas novamente e volta a subir os degraus, como se aquilo não fosse nada ou se fizesse isso sempre.

Balanço a cabeça, incrédula, com aquele suicídio a minha frente. Essa é a única definição que tenho para esse monstro de concreto: suicídio.

Eu vou te estrangular, assim que conseguir te alcançar, seu imbecil, penso, dando um olhar fulminante para ele.

Solto um suspiro irritada e começo a subir a escadaria, com o olhar de ódio e o meu objetivo de assassinato bem distante de mim.

O sol parece do Saara e eu não alcancei nem a metade da escadaria e o suor já desce pelo rosto, junto com minha roupa ensopada e colada ao corpo. Nesse ritmo vou morrer de insolação e desidratação, penso de forma dramática e desesperadora.

Eu não posso acreditar que para alcançar o meu sonho eu tenho que quase morrer para isso. Como podem construir uma monstruosidade dessas? Teste de resistência? Com certeza não.

Minha cabeça esta pulsando mais que meu próprio coração, me deixando um tanto tonta, a garganta esta seca, fazendo com que toda vez que inspiro parece estar enfiando uma faca goela abaixo e a saliva não existe mais, só o vestígio de algo parecido com areia.

– Chega. Eu não vou mais subir essa merda – declaro arfante.

Paro de andar e coloco as mãos nos joelhos, me inclinando para frente e tentando lembrar-me de como se manda ar para dos pulmões.

O garoto, que esta a apenas alguns degraus a minha frente, para aonde esta e se vira, olhando para mim, com um ar divertido estampando seu rosto.

– O problema é seu, não meu. Se você quer ficar aí e fritar como um ovo, bem, a escolha é sua. Só fique sabendo, eu não vou avisar ninguém que terá um cadáver meio incinerado aqui. Então, adeus – ele dá de ombros, claramente não ligando se uma pessoa poderá morrer e volta a subir.

Em nenhum segundo a elegância e a graça dele fora afetado pelo clima, mesmo ele estando com uma pesada calça jeans escura, uma camiseta preta com a estampa de uma caveira e uma camiseta vermelha xadrez por cima. Eu notei também que ele sequer esta suando ou ofegante. Como isso é possível? Ele por acaso é uma anomalia? Talvez um vampiro. Vou virar a Buffy e matá-lo, penso me alegrando na mesma hora.

Bem, claramente minha chantagem emocional não o afetou em nenhum segundo e nem posso contar que ele me carregara em suas costas. Então, muito a contra gosto, eu reúno o último resquício de força que me sobrou e volto a subir, arrastando os pés como um zumbi.

– Você poderia ser um pouco solidário e me ajudar, não acha? – pergunto.

– Ajudar a te chutar escada a baixo? Com todo prazer! – ele vira para me encarar com um sorriso meio maléfico e naquele instante eu percebo que ele realmente fará isso se eu não me calar.

E foi o que fiz. Para meu próprio bem. Como eu não respondi nada, o sorriso dele desapareceu e ele voltou a subir, sem dizer mais nenhuma palavra.

Pelo resto do percurso eu não ousei abrir mais minha boca, nem uma mosca seria capaz de entrar dentro de tão bem fechada que esta, mas eu estou curiosa – e morrendo de raiva – sobre esse imbecil, tipo, qual é o seu nome, o que quer fazer se passar, se ele realmente é assim com todo mundo ou só foi educado por macacos rabugentos e...

Eu interrompo os meus pensamentos balançando a cabeça. Eu não deveria me importar com ele, com a pessoa que quer me chutar escadaria a baixo e me ver incinerada pelo sol. Eu quero vê-lo morto, esturricado no chão, limpar meus pés na cara dele até...

– Não! Eu não tenho essa mente assassina! Eu não sou uma psicopata! – balanço a cabeça, tentado me repreender. – É tudo culpa dele – estreito os olhos, matando-o com meu raio lazer imaginário.

Obviamente ele não ouviu uma palavra que eu disse, até porque eu estou falando sozinha e não quero que ele se intrometa.

Não sei quanto tempo levei para subir aquele monstro de concreto, mas isso não importa, eu paguei todos os meus pecados com essa subida insana.

Como um sonho que esta em câmera lenta, meus pés alcançaram o último degrau e dei uma rápida olhada no cenário ao meu redor, na verdade foi mais um flash, já que minhas pernas vacilaram, me fazendo ir de encontro a uma calçada de concreto, que estranhamente esta fria.

– Mulherzinha – ouvi ele debochar da minha cara.

Me sentei no chão, encarando o garoto com cara de deboche e um sorriso cético.

– Você esta pedindo para mo... – me interrompi, quando ouvi um som estranho e olhei para o lado, vendo um cabo metálico e um... – Aquilo é um bondinho? – pergunto incrédula, apontando para o transporte que desce na mesma direção da que havíamos subido.

– É – ele responde seco, olhando para suas próprias unhas.

– Não acredito! Tem um bondinho aqui e eu não sabia. Poderia ter poupado pernas, esforço e tempo. Que desgraça! Por que viemos andando?

– Gosto de andar – deu de ombros. – Você não viu o mural ao lado do ponto de ônibus?

– Que mural? – pergunto, me levantando em um pulo.

– O mural que indica os três jeitos de subir. Um deles é a escadaria, tem o bondinho e a estrada de cascalho, mas esse é exclusivo para automóveis. Você realmente não viu? – ele ergue uma sobrancelha.

– Eu não vi essa droga quando desci. Por que você não me avisou quando perguntei?

– Eu não tenho culpa se você é tapado.

Ele coloca as mãos nos bolsos do jeans e dá as costas para mim, claramente se divertindo as minhas custas.

Eu não sei quem esse imbecil é, mas assim que descobrir irei exterminá-lo da face da Terra e ganhar uma medalha por meu mérito, prometo para mim mesma.

Notas finais
Me digam o que acharam? Plz