Sonhos De Luna

7 O início da tempestade


“Estamos compartilhando o quê?” perguntou Gabriel desnorteando, “Gabriel, tente manter a calma!”, “vou tentar te explicar tudo, preste atenção, pois não temos muito tempo”, disse Clarisse enquanto se sentava na borda da cama do rapaz. Gabriel um pouco mais calmo parecia consentir a intenção de Clarisse ao olhá-la com extrema curiosidade, no entanto, dentro de si ele parecia não acreditar no qual surreal era esse momento que estava vivendo. Clarisse se preparava para iniciar seu relato, seu olhar mudou totalmente, parecia buscar forças dentro de si, “Um ano atrás, estávamos Luna e Eu, voltando de uma festa, no meu carro, eu havia bebido bastante, porém me recusava a voltar de táxi. Luna suplicou para que eu não dirigisse, porque eu não estava em condições e que daquele jeito ela não voltaria para casa comigo. Porém eu não a ouvi e ainda impliquei com ela, chamando-a de medrosa, de certinha da mamãe, de nerd, e que o pouco de vida social que ela tinha era graças a mim, ainda joguei na cara dela que ela só estava naquela festa por que eu a convenci a vir comigo, mesmo sabendo que ela pouco ligava para lugares assim, só estava ali para me agradar, sabia que ela não estava se divertindo, apesar de ensaiar alguns sorrisos e dizer que a música não era tão ruim... Nossa, que péssima irmã eu sou, como eu me arrependo, essas memórias são uma tormenta em minha vida, foi por minha causa que ela concordou em entrar no carro, mesmo me vendo caindo de embriagada. Naquela noite eu estava muito alegre, havia ficado com um carinha que há muito tempo estava a fim, ouvia música alta no carro, e estava em alta velocidade. Chegamos na grande Avenida, uma reta de quase dois quilômetros, pisei fundo no acelerador, Luna pediu para que eu diminuísse, pois o sinal do próximo cruzamento estava em atenção, mais uma vez não a ouvi, e disse que daria tempo de atravessarmos o cruzamento... Não deu tempo, o sinal ficou vermelho quando faltava poucos metros, não consegui frear a tempo, um carro que vinha pela esquerda, atingiu a lateral de nosso carro, exatamente no lado da minha irmã. Eu quase não sofri nada com a colisão, mas a minha irmã...” Nesse momento Clarisse não consegue segurar as lágrimas, que eram eminentes desde o início do relato, Gabriel não sabia o que fazer ou dizer, onde tudo aquilo iria dar, se perguntava o jovem. “Por favor, continue! O que aconteceu com a sua irmã?” perguntou Gabriel. “Luna se machucou muito, mas felizmente sobreviveu, porém...” Nesse momento Clarisse olha para janela do quarto de Gabriel, parecia procurar algo, sua voz demonstra preocupação, mas ela continuou com a narrativa. “Ela está em coma desde então, os médicos dizem que fisicamente ela está bem, que pode despertar a qualquer momento, porém ela não acorda, e eles não conseguem explicar o porquê, mas eu sei por que ela não desperta...” Mais uma vez Clarisse interrompe o relato, dessa vez ela parecia ainda mais impaciente, o seu olhar agora estava fixo na janela, as cortinas balançavam com força, “Droga! a tempestade está chegando” disse Clarisse quase que sussurrando. “E por que ela não desperta?” perguntou Gabriel, fazendo com que Clarisse tirasse os olhos da janela e voltasse-os para ele. “Ela não acorda por que está presa neste mundo” respondeu Clarisse. “Esse mundo a que você se refere são os sonhos, ela está presa em um sonho?” perguntou Gabriel. “Isso não é apenas um sonho rapaz, esse mundo é tão real quanto àquele em que vivemos, onde estão nossos corpos, a única diferença e que aqui não precisamos do nosso corpo físico, mas somente da nossa essência, da nossa alma, você ainda não percebeu o tão real que é esse lugar?”. “Então isso aqui não é apenas um dos meus sonhos, mas você disse que estávamos compartilhando um mesmo sonho, ou algo assim?” afirmou Gabriel. “É difícil explicar, este mundo não é feito apenas de sonhos, estamos compartilhando mais do que isso, logo você irá compreender, por ora, o que posso te dizer é que esse mundo é paralelo ao nosso, é como se fosse um reflexo de um espelho mágico, que devolve uma imagem distorcida e inversa do objeto espelhado, tudo aqui é inconstante, muda de forma e lugar a todo o momento, como num sonho mesmo, mas é diferente do sonho, que acontece dentro da nossa mente, esse mundo é externo a nós, aqui somos estrangeiros e não é qualquer pessoa que consegue chegar...” Clarisse hesita nesse instante, o quarto começou a tremer, interrompendo-a. “O que esta acontecendo?” perguntou Gabriel assustado. “É a tempestade, ela está chegando, nosso tempo está terminando, eu tenho que ir”. “Espere, não vá ainda!” disse Gabriel um pouco confuso, parecia tomado por algo que o incomodava desde o relato do acidente com Luna, alguma coisa naquela história não se encaixava, ele sentia que deixara escapar algo óbvio e de suma importância. Foi quando finalmente teve um momento de iluminação, como não havia o percebido antes. “Clarisse, se a Luna está em coma há um ano, com quem eu venho trocando mensagens durante esses meses recentes?” pergunta Gabriel perturbado com a questão que acabara de levantar. Clarisse lança um olhar melancólico para Gabriel, o quarto tremeu com força, a tempestade parecia estar acompanhada de um terremoto, coisa que Gabriel jamais presenciara em sua vida. Subitamente, a janela do quarto foi arrancada tamanha era a força do vento, Gabriel olhava aquilo sem acreditar, pelo enorme buraco que ficou aberto na parede ele via um tornado gigante, acompanhado de nuvens sombrias, o céu estava completamente negro, somente os raios incessantes, e violentos, traziam alguma luz para tempestade. Tudo aquilo era surreal para o rapaz, ainda assim, ele lançou um olhar inquisitório para Clarisse, que parecia estar sendo arrastada pela tempestade, a cena era aterrorizante, mas Gabriel estava tomado pelo enigma “Clarisse, responda, com quem eu tenho me comunicado todo esse tempo? Perguntou Gabriel com extrema rispidez “Gabriel , perdoe-me, você tem se comunicado comigo e não com a minha irmã” respondeu Clarisse aflita, pois estava sendo arrastada para o buraco da parede. Nesse momento, o telhado da casa é arrancado pela tormenta, Clarisse é sugada pelo tornado, Gabriel ainda tenta segurá-la pelo braço, mas é atingido pela estante de livros que tomba sobre ele, o jovem cai, e finalmente desperta...