Sonho Febril
1 Queimando por você
Notas iniciais
A chuva caía como uma cortina fria pela noite, e Geralt e Jaskier não conseguiram se abrigar a tempo, acabando ensopados da cabeça aos pés quando chegaram em uma taverna qualquer. O bardo negou qualquer proposta de um banho quente, cansado demais para ficar em pé, muito menos para se banhar.
— Vou acabar dormindo na banheira, — Jaskier explicou enquanto colocava seu alaúde delicadamente no canto do quarto e tirava suas roupas. Geralt observou a ação e lambeu os lábios involuntariamente. — Se quiser você pode ir.
O bruxo balançou a cabeça em negação. Também estava exausto, mesmo que não fosse tanto como Jaskier, e só queria deitar em lençóis macios e dormir o mais rápido possível. Depois que tirou suas vestimentas, viu Jaskier cair na cama e sucumbir ao sono logo depois, seus cabelos ainda molhados e um de seus pés para fora do colchão. Geralt limitou uma risada e o cobriu com a coberta. Jaskier roncou em resposta, o rosto abafado pelo travesseiro.
O bruxo afastou algumas mechas castanhas de Jaskier para não cobrir seus olhos, que estavam fechados e tranquilos. Geralt raramente se permitia toques íntimos como aquele, não resistindo à tentação quando estava com Jaskier, mas tomou coragem quando viu a postura relaxada do outro, sua respiração calma em um sono profundo. Talvez fosse o cansaço que nublava sua mente, mas se imaginou passando os dedos naqueles lábios vermelhos e úmidos, como seria a sensação de tocá-los com os seus. Jaskier iria arregalar os olhos em surpresa, levantar da cama e rejeitá-lo? Ou iria apenas suspirar e trazê-lo para mais perto, ansiando por mais?
Geralt parou, segurando suas emoções, e foi em direção à outra cama do outro lado do quarto, deitando no colchão e fechando os olhos. Não conseguiu dormir.
—
A manhã nasceu demorada e o sol apareceu tímido por entre as cortinas da janela. Geralt levantou sem pressa e calçou suas botas depois de amarrar seu cabelo, deixando-o um pouco mais apresentável quando fosse para a frente da taverna a procura de comida. Observou o bardo ainda dormindo, os feixes de sol cobrindo sua forma como um sonho iluminado, perfeito demais e fora de seu alcance.
— Jaskier, — chamou, sua voz ainda rouca de sono, e se aproximou. Jaskier tinha um leve cheiro de lavanda, um de seus perfumes usuais, além de orvalho e terra molhada, resultado da aventura de ontem. Sua respiração continuava regular, coberta por inconsciência. — Jaskier.
O bardo franziu as sobrancelhas e virou-se para o outro lado, puxando a coberta e dando as costas para ele. Geralt rolou os olhos com a atitude e decidiu deixá-lo por enquanto, saindo do quarto em direção ao balcão da taverna.
Depois de pagar uma refeição para ele e Jaskier, que com certeza levantaria com a proposta de comida, Geralt foi à procura de contrato. A própria dona da taverna reclamou de monstros pela redondeza que atacavam viajantes perto do rio. A cidade sofria com a falta de turistas, o que prometeu uma possível grande recompensa quando terminasse o trabalho. Satisfeito, voltou para o quarto com um prato de café da manhã nas mãos e percebeu Jaskier ainda na cama, seus cabelos mais embaraçados do que ontem.
— Jaskier, trouxe comida, — O bruxo disse e depositou o prato na pequena mesa perto da cama. Segundos se passaram e, quando o bardo não respondeu, algo dentro de Geralt se revirou em apreensão. — ...Jaskier?
Puxou a coberta para observá-lo mais de perto e notou as bochechas coradas de Jaskier, seus ombros levemente trêmulos e olhos ainda fechados, porém inquietos por trás das pálpebras. Tinha a impressão de estar em um sonho febril.
Geralt colocou a mão na testa para confirmar o inevitável: estava com febre. Jaskier pareceu despertar com o toque e encarou o bruxo com olhos pesados.
— Geralt, — Jaskier suspirou o nome dele com a voz rouca e fraca, um sorriso inesperado decorando seu rosto ao vê-lo. Geralt se viu brevemente sem fôlego. — Bom dia. Será que você pode fechar a janela? Está frio...
— Isso é porque você está com febre. — Geralt resmungou e não mexeu um músculo. Não sairia de perto dele de jeito nenhum, ainda mais agora que o outro estava doente e vulnerável.
— Estou? — perguntou e posicionou uma mão em sua testa, roçando os dedos de Geralt no processo. O bruxo ainda estava tocando sua pele e nem tinha percebido. Recuou sua mão rapidamente, uma onda de vergonha tomando conta dele. Jaskier não lhe deu atenção e suspirou.
— Você ainda precisa comer. — Geralt comentou e assentiu para o prato de comida na mesa. Jaskier fez uma cara de desgosto, suas sobrancelhas franzidas e lábios crispados em uma expressão cômica.
— Não, obrigado.
— Jaskier. — Geralt não sabia como cuidar de alguém doente, mas seu breve conhecimento sobre humanos o assegurava que comer era um passo importante para boa saúde. Provavelmente.
— Será que foi por causa da chuva de ontem? — Jaskier disse, desviando do assunto. O bruxo bufou.
— Você sente mais alguma coisa além de frio? — Geralt quis saber, caso aquilo não fosse apenas uma gripe comum. — Dor no corpo? Fraqueza? Você estava tendo um pesadelo agora há pouco. Era com algo em específico?
Geralt foi pego de surpresa quando o rosto inteiro do bardo enrubesceu e os olhos dele arregalaram.
— Não era... Ah, — Ele se remexeu no colchão, claramente desconfortável. — Não era um pesadelo. Muito pelo contrário.
— Era sobre o quê, então?
Jaskier levantou-se da cama em um pulo, suas bochechas ainda mais vermelhas.
— Não é nada importante, — Balançou a cabeça repetidamente e começou a vestir seu casaco. — Nada com o que se preocupar.
— E onde você pensa que está indo? — Geralt deixou frustração envolver seu tom de voz. Jaskier deu de ombros.
— Sair. Você tem que ir atrás de trabalho, não é? Um contrato.
— Eu já achei um. E você não vai a lugar algum.
Jaskier o encarou com uma careta, e o bruxo apenas devolveu o olhar.
— Você vai comer alguma coisa e ficar aqui deitado até eu voltar. — Geralt proclamou e não deixou nenhuma deixa para discussão em seu tom. Jaskier, o idiota sem filtro, o ignorou.
— Isso não é nada, Geralt, — reclamou ele, começando a ficar impaciente — Eu já estive em condições piores, e você sabe. Lembra daquela vez com aquele grifo na montanha? E o fiasco do Djinn?
Geralt fechou os olhos ao lembrar do Djinn, a memória doía como uma ferida ainda não cicatrizada. Tinham-se passado meses, mas o bruxo ainda não conseguia tirar a imagem do bardo sufocado e ensanguentado em sua mente. Depois que conseguiu salvá-lo, Geralt fez uma promessa para si mesmo de proteger Jaskier a todo custo. Estava tão acostumado a viajar sozinho que não pensava nas consequências de seu trabalho, mas agora tinha algo a perder. O bardo tinha se tornado sua responsabilidade, e Geralt não conseguia suportar a ideia de Jaskier em algum tipo de perigo como aquele novamente.
— ...Geralt? — Jaskier chamou preocupado, notando o silêncio dele. — Aconteceu alguma coisa?
O bruxo abriu os olhos para encará-lo, agora mais determinado do que antes. Não importava quantas vezes Jaskier implorava para correr de frente ao perigo, dependente só do bruxo ou do destino para salvá-lo. Tudo o que tinha sobrado para Geralt depois do incidente com o Djinn foi o instinto de proteger.
— Você fica. — Ele rosnou, um peso em sua voz deixando o outro sem palavras. Geralt bruscamente colocou sua armadura e preparou suas poções para a caçada, o silêncio cortando o quarto durante todo o processo. Jaskier não se atreveu a responder, até que o bruxo abriu a porta do quarto para sair e viu a expressão inquieta do outro.
— Geralt, — Jaskier disse em um tom baixo e hesitou, parecendo incerto. — Quando você volta?
Algo naquela pergunta pegou Geralt de surpresa. Talvez fosse porque Jaskier nunca tinha perguntado aquilo antes, como se estivesse ansioso ou inseguro. Havia uma vulnerabilidade em seu olhar, algo que pedia que ele ficasse.
— Volto antes do entardecer. — respondeu, engolindo em seco, e fechou a porta ao sair. Ouviu o bardo suspirar do outro lado, soando cansado, e Geralt fechou os punhos e decidiu terminar o trabalho o mais rápido possível.
A sorte não estava ao seu lado. O sol já tinha se posto há tempos e Geralt ainda não tinha voltado. As estrelas brilhavam no céu, indicando o ápice da madrugada, e o bruxo finalmente distribuiu o último golpe no afogardo restante, cortando a criatura ao meio com a espada. Estava ofegante, suas roupas sujas de lama e água de rio. Ele esperava um grupo de no máximo três, mas acabou encontrando o ninho, onde foi forçado a combater dezenas de afogardos com os joelhos embaixo d’água.
Geralt odiava monstros aquáticos.
Tinha deixado a Plotka no estábulo do outro lado do vilarejo, então teve que voltar para a taverna a pé, esgotado e sujo, mas a promessa de encontrar Jaskier esperando por ele o motivou a continuar, apressando seus passos.
— Bruxo! Aí está você, — A dona da taverna proclamou quando o viu entrando no lugar com a respiração levemente ofegante e com cheiro de sangue de monstros. Era raro alguém interagir com ele por vontade própria, então Geralt se aproximou, curioso.
A senhora depositou um saco de moedas na mesa, recompensa pelo seu trabalho. Geralt recolheu o pagamento sem contar as moedas. Estava cansado demais.
— Seu bardo apareceu aqui hoje à noite, — Ela continuou, tentando lembrar-se dos acontecimentos de ontem. Parecia cansada. Geralt levantou a cabeça com a menção de Jaskier. — Tentou tocar alguma coisa, mas estava tremendo como uma folha seca. Perguntou de você, acho que estava preocupado. Não sabia que vocês bruxos demoravam tanto.
— Hm. — Queria fazer dezenas de perguntas, mas nada saiu de sua boca. Apenas a ignorou e foi em direção ao seu quarto o mais depressa que pôde.
Abriu a porta e viu Jaskier deitado na cama debaixo da coberta, seus cabelos bagunçados de suor e olhos fechados e inquietos. Havia uma vela em um pequeno castiçal na mesa ao lado, iluminando vagamente a figura do bardo e não deixando o quarto em completa escuridão. Geralt se aproximou, apreensivo, e notou as bochechas vermelhas do outro, efeito da febre.
— Jaskier, — murmurou o nome dele para acordá-lo, mas o bardo não se mexeu. Balançou levemente os ombros dele, mas não surtiu efeito. — Jask...?
Estava dormindo, e sofrendo o que parecia ser outro sonho desagradável, mas algo em sua expressão fez o bruxo hesitar. Estava mais quente que antes, seu corpo trêmulo ao lutar contra a febre.
A respiração dele estava fraca.
— Jaskier, — Havia um tom frio e cortante na voz de Geralt agora, algo apertando em seu peito. Tirou as cobertas de cima do outro e pegou mais firme nos ombros dele, tentando despertá-lo. Rangeu os dentes ao sentir a preocupação subir pelo seu corpo até sufocá-lo, limitando uma onda de pânico.
Em um movimento rápido e brusco, levantou o tronco de Jaskier e sacudiu seu corpo, a cabeça pesada do outro balançando com a ação, e a visão de Geralt começou a ficar embaçada. Sentiu seu coração bater mais rápido, dominando sua razão. Será que tinha chegado tarde demais? Não deveria ter ido caçar monstros hoje. E se Jaskier nunca mais fosse acordar?
Geralt era sempre assim. Não conseguia ter algo bom em sua vida que era tirado dele. Viajava sozinho justamente para essas coisas não acontecerem. Não importa o que fazia, tudo caía em seus ombros. Nunca valorizava o que tinha até transbordar pelos dedos, com a alma dolorida e o coração sangrando, e no final tudo o que lhe restava era a conformidade de que o destino não o permitia ser feliz, por mais que tentasse.
Era sua culpa, tudo aquilo. Humanos são fracos e delicados, e com Jaskier não era diferente. Sempre se esquecia desse fato. Jaskier caçoava do perigo, mas era frágil, e agora estava quebrando e Geralt não sabia o que fazer—
— ...Geralt? — A voz tímida do bardo interrompeu seus pensamentos, o puxando de volta à realidade. Jaskier estava lhe encarando com uma preocupação intensa estampada no rosto, seus olhos nublados de sono e febre, mas alertas e brilhando com a luz da vela. Geralt provavelmente o deixou preocupado, mas pouco se importou. Jaskier estava ali, acordado e vivo, e era tudo o que importava.
— Como você está? Comeu algo hoje? Me disseram que você foi a procura de mim, mas deveria ter ficado na cama. — O bruxo atropelou as palavras, sua voz pesada e sua mente um caos atrás do outro. Tentou medir a temperatura dele com a mão, mas percebeu que ainda estava de luvas, então as tirou rapidamente.
— Opa, opa! Calma, Geralt, — Jaskier disse, um pouco desnorteado, quando as mãos do outro apalpavam seu rosto em um frênesi ansioso. Gesticulou para acalmá-lo, mas não rejeitou o toque. Um pouco da tensão nos ombros de Geralt se esvaiu quando percebeu que ele estava mais lúcido, mesmo que a febre tivesse piorado. — Acho que você é quem deveria descansar. Nem tirou sua armadura ainda! Vem cá.
Jaskier deu alguns tapinhas no colchão ao seu lado, convidando-o para se aproximar. Geralt sentou-se na cama e o bardo pacientemente desfez as faixas de couro que segurava sua armadura, desfazendo os botões com movimentos lentos e habilidosos.
Era sempre uma tarefa demorada para tirar sua armadura depois de um trabalho, mas Jaskier começou a se oferecer para ajudá-lo e agora tinha se tornado uma rotina entre eles. Geralt já tinha se acostumado com a sensação das mãos ágeis do bardo passando por sua vestimenta, e frequentemente se perguntava como seria se a roupa não estivesse lá, se os dedos calejados do outro dedilhassem por suas cicatrizes, deixando arrepios e suspiros contidos no caminho.
— Pronto, muito melhor, — Jaskier declarou quando a armadura saiu de seu peito e ombros, aliviando um pouco a tensão em seu torso. Geralt rolou os ombros, aproveitando a sensação de alívio e flexibilidade — Está mais calmo agora?
O bruxo ainda estava com um nó na garganta, mas não sentia mais que seu mundo estava prestes a desabar. Jaskier sempre foi muito bom em acalmá-lo nos momentos difíceis.
— Hm.
— Bom, que bom que tivemos essa conversa, — Jaskier bufou, mas tentou esconder uma tosse logo depois. — O que fez você demorar tanto?
Geralt olhou para ele, observando as olheiras e a postura de cansaço do outro, trêmulo nas extremidades. Sua pele parecia ainda mais pálida pela luz da vela, que agora queimava menos intensamente, as chamas pequenas e fracas.
— Era um ninho. Tinha mais do que eu esperava, — Deu de ombros. — Mas nada muito fora do normal.
Não precisa se preocupar, seu tom de voz sugeria. Os olhos úmidos de Jaskier diziam o contrário. Ou talvez fosse a febre.
— Eu fui lá na frente pra perguntar de você, mas ninguém soube me dizer, — O bardo desviou os olhos, parecendo angustiado, mas não querendo demonstrar. Seus dedos entrelaçavam com os fios de algodão soltos da coberta, hábito nervoso que tinha quando estava aflito. — Eu pensei que você...
Não terminou a frase, algo em sua garganta o impedindo de falar, pois sofreu uma sequência de tosse que fez sua voz chiar secamente como um gato arriado.
— Você precisa comer alguma coisa. — Geralt repreendeu depois de ouvir o estômago do outro protestar. Jaskier tremia da cabeça aos pés, sua expressão virada em desgosto com a proposta de comida.
— Talvez mais tarde, — respondeu, deitando-se na cama novamente e puxando Geralt para mais perto de si. — Está tarde, e eu sei que você não dormiu bem ontem.
Geralt ficou em silêncio, surpreso pela percepção aguçada do bardo, que sempre notava quando algo o afligia. Jaskier abriu um sorriso gentil, provavelmente satisfeito por tê-lo pego de surpresa, e se aconchegou entre os lençóis. O bruxo decidiu deixá-lo à vontade e estava prestes a sair de perto quando o outro pegou sua mão.
— Fica... — Jaskier sussurrou, uma pequena confissão vulnerável que mexeu com as emoções de Geralt. Talvez fosse pela preocupação que o bardo sentiu quando ele demorou a voltar, ou a febre estivesse fazendo sua mente delirar, mas o bruxo nunca iria negar qualquer afeição que o outro estivesse disposto a lhe oferecer.
Geralt também se lembrou do pânico ilógico que sentiu quando pensou que Jaskier poderia não acordar, o mesmo desespero que sentiu quando viu sangue correr pelos lábios do outro no incidente com o Djinn. Deuses, estava delirando se pensava que uma simples febre poderia derrubar Jaskier.
Ao observar o bardo lentamente sucumbir ao sono, a vela agora totalmente apagada e acolhida pela escuridão, Geralt deitou-se junto com ele, seu corpo quase colado com o dele por causa do tamanho pequeno da cama, e dormiu com a respiração calma do outro em seu rosto.
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