Sonho Febril
2 Trêmula Tempestade
Notas iniciais
Os olhos de Jaskier se mexiam por entre as pálpebras, inquietos, e ao notar seu corpo tenso e as sobrancelhas franzidas, Geralt concluiu que ele estava sonhando novamente. Por mais que tivesse vontade de aliviar o desconforto do outro, o bruxo não se mexeu, observando-o com um pouco de curiosidade.
Um filete de luz do sol da janela pousou sobre o rosto de Jaskier, que fez uma careta, recusando-se a acordar, e soltou um suspiro que mais parecia o nome de Geralt em seus lábios.
— Geralt... — murmurou de novo, a voz sonolenta, e se o bruxo não estivesse tão perto dele naquele instante, poderia não ter escutado. Geralt queria mais do que tudo saber o que se passava na cabeça de Jaskier. Se estava sonhando com ele, era um pesadelo? Mais que provável.
As bochechas rubras do outro estavam ainda mais pronunciadas, talvez fosse pela febre ou o sol, que destacava sua pele lisa e pálida. Geralt controlou seu nervosismo e passou delicadamente uma mão na testa dele, que queimava com o toque. Ainda estava com febre, mas felizmente não tinha piorado com o passar da noite.
Foi quando Jaskier estremeceu da cabeça aos pés, arrepios correndo por seu corpo, que Geralt decidiu voltar à realidade.
—
— Eu mandei preparar um banho enquanto você ainda dormia. — Geralt explicou enquanto contava as moedas do contrato de ontem. Jaskier comia o café da manhã e observava os movimentos do bruxo.
— Café da manhã na cama, banho no quarto... Sinto como se hoje fosse minha lua de mel. — disse Jaskier depois de engolir o último pedaço de torrada. Estava de bom humor, o completo oposto de Geralt, que embora tivesse conseguido dormir na noite anterior, não gostava de ter alguém dependendo dele.
— Não se acostume.
— Você também precisa de um banho também, viu? — comentou o bardo enquanto tirava suas roupas, ainda tremendo da cabeça aos pés por causa da febre. — Chegou cheirando a sangue de afogardos e dormiu na cama, agora tudo fede.
— Vou mergulhar sua cabeça na água se não entrar agora.
— É uma promessa? — Jaskier piscou para ele, flertando sem hesitação, e entrou na banheira em um movimento rápido. — Santa Melitele!
Geralt escondeu um sorriso.
— Acho que alguém se esqueceu de esquentar a água. — O bardo comentou e dirigiu um olhar acusador para o bruxo, como se ele fosse o responsável por todo o seu sofrimento.
— A água fria vai abaixar sua febre. — Geralt se aproximou e empurrou os ombros de Jaskier para a água, junto com um sabão que a dona da taverna tinha lhe proporcionado.
— Ergh, você me paga por isso, bruxo... — Jaskier gaguejava enquanto usava o sabão contra seu corpo.
— Hm. — Geralt observava os movimentos do outro num transe, como se estivesse hipnotizado. A água acentuava a forma esbelta e pálida de Jaskier. Não havia nenhuma cicatriz no corpo dele, um forte contraste com seu próprio.
Sua pele estava arrepiada por causa do frio e Geralt quis tocá-la, traçar seus dedos como o bardo dedilhava as linhas de seu alaúde. Brevemente se perguntou se Jaskier cantaria em seus braços, melodias de suspiros e gemidos, como em um dos sonhos que o outro sofria pela noite, mas dessa vez seria uma realidade, corpos colados à flor da pele.
— Geralt? — A voz confusa de Jaskier interrompeu seus pensamentos, e foi quando Geralt percebeu que sua mão havia tocado as costas do bardo, fria pela água e quente pela febre.
— Desculp—
— Se você está se oferecendo para ajudar, poderia lavar meu cabelo, hm? — Jaskier continuou antes que Geralt recuasse o toque e ofereceu o sabão para ele, que hesitou por alguns segundos antes de obedecer.
E então Geralt descobriu porque Jaskier adorava lavar o cabelo do bruxo. Não era uma sensação desagradável. As mechas desfilavam por entre seus dedos e depois de um tempo o bruxo estranhou o silêncio do bardo, que estava com os olhos fechados e aproveitando o momento. Algo floresceu no peito de Geralt ao saber que estava proporcionando aquela sensação para o outro. Nunca tinha recebido oportunidade para satisfazer Jaskier de alguma maneira, e agora queria ficar lá para sempre.
— Não pare. — Jaskier murmurou quando Geralt tinha terminado de lavar seu cabelo, e o bruxo apenas sentiu seu coração acelerar, embora não soubesse o motivo.
Disposto a agradá-lo, Geralt desceu suas mãos ainda ensaboadas para as costas lisas do outro. Jaskier arqueou com o toque, permitindo mais espaço a Geralt, e estremeceu com o contato da pele fria do bruxo. Seu corpo ainda estava quente, mas estava começando a esfriar graças a água gelada do banho. Estranhamente, Geralt sentiu sua própria temperatura aumentar, assim como a tensão do quarto, tensa e quase palpável.
E provavelmente Geralt se perdeu em pensamentos por alguns momentos, pois quando se deu por si, Jaskier virou-se para ele, observando-o com olhos quase cerrados, suas íris agora adotando um tom azul escuro, escondidos da luz da manhã.
— Bruxos não ficam doentes, não é? — Jaskier quis saber, seus cabelos ainda molhados e cheios de sabão, e a situação poderia ser cômica se Geralt não estivesse com a respiração presa na garganta.
— Não. — Geralt disse.
— Okay, então não tem problema. — respondeu, decidido, e levantou o rosto para roçar seus lábios nos dele.
Geralt recuou, mais de susto do que qualquer coisa, e seu peito apertou ao ver a expressão surpresa e machucada do outro.
— Geralt...? — Jaskier disse em um sussurro fraco, o que era estranho, pois o bardo nunca escondia sua voz. — Me desculpa, eu... Eu pensei que você queria, posso ter interpretado errado. Só pensei que... Bom, você nunca foi muito sutil com seu jeito brusco de ser, o que eu não te culpo, pois sei como você é constipado emocionalmente. Me pergunto se todos os bruxos são assim, na verdade--
— Jaskier, tem certeza que você quer isso? — Geralt interrompeu, apreensivo. Jaskier tagarelava muito quando estava nervoso, e o bruxo queria ouvir a verdade.
— Se eu quero-- Geralt! — Jaskier soou indignado. — Desde a primeira vez que eu te vi, naquela taverna em Pousada, estive esperando--
Ele parou, seus lábios crispados, e Geralt nunca tinha o visto sem palavras antes.
— O que você quer? — O trovador perguntou, adotando um semblante estranhamente sério.
Eu quero você, Geralt pensou sem hesitar, seu toque, seu beijo, sua voz, tudo. Mas ele era um bruxo, não poderia ter tudo o que queria. Nada era tão fácil. Estava tudo acontecendo tão rápido que tinha medo de piscar e acordar como se fosse um sonho.
Jaskier suspirou.
— Você não se feriu caçando os afogardos, né? – perguntou, mudando de assunto, enquanto enxaguava o sabão de seu corpo.
Geralt não respondeu, ainda estupefato por causa do beijo. Jaskier parou e lançou um olhar raivoso para ele.
— Você foi dormir com feridas no corpo, não é? — disse, irritado, e Geralt não ousou retrucar. — Pelos deuses, Geralt, entre na banheira.
— ...Depois que você terminar, eu entro.
— Há espaço suficiente para nós dois, seu bruxo teimoso. — falou antes de agarrar a camisa do outro. — Vamos, tire suas roupas. Não é como se isso fosse a primeira vez, já tomamos banho juntos antes.
O coração de Geralt acelerou novamente, e decidiu obedecer o amigo apenas para ignorar as emoções que faziam tempestade em sua mente. Jaskier nunca o deixava em paz, ambos em realidade e em pensamentos.
A água gelada da banheira não o afetou tanto quanto Jaskier, mas ainda sentiu um arrepio correr por sua pele.
— Olha isso, você está todo roxo. — Jaskier reclamou ao passar seus dedos finos nos hematomas do bruxo, que tentou ao máximo não se aproximar dele. Seu corpo sempre procurava o de Jaskier involuntariamente, como um ímã irritante.
— Não é nada que não vá desaparecer amanhã. — Bruxos tinham uma incrível recuperação graças ao metabolismo rápido, afinal.
Jaskier crispou os lábios.
— "Não é nada", ele diz, — murmurava Jaskier, rabugento, enquanto esfregava o braço de Geralt com força, como se fosse capaz de limpar os hematomas e qualquer sofrimento do outro com o sabão. — Só porque vai desaparecer amanhã não quer dizer que não dói, não é?
Geralt não soube responder, mas agarrou gentilmente o pulso do bardo.
— Se você me esfregar desse jeito, aí que vai doer — brincou, mas Jaskier pareceu ainda mais frustrado. — ...Jask?
— Precisa tomar mais cuidado. Você é bruxo, não imortal. — Jaskier mordeu o lábio, como se quisesse falar mais, porém se conteve. Havia algo pesado nos olhos dele, e Geralt sabia que era algo que estava o corroendo por dentro há algum tempo.
O bruxo assentiu, tentando transmitir o mesmo peso da situação para ele. Era difícil se acostumar com alguém se preocupando com ele, mas talvez compreendesse o desejo de Jaskier de proteger o amigo, pois Geralt sentia o mesmo.
O trovador sorriu e continuou esfregando o sabão na pele de Geralt, dessa vez com menos veemência. Lá fora, a poucos quilômetros de distância, o bruxo foi capaz de ouvir um trovão ecoando pelo céu acinzentado. Havia uma tempestade se aproximando.
—
— Você sabe sobre o que eu estava sonhando? — Jaskier continuou, interrompendo seus pensamentos. Ambos já estavam limpos e secos, e Geralt limpava sua armadura com um pano úmido. A febre de Jaskier tinha começado a abaixar.
— O quê?
— Hoje de manhã, e ontem à noite, — respondeu, aproximando-se dele e encarando-o com intensidade. — Você me perguntou com o que eu estava sonhando, e era com você.
Geralt hesitou.
— E era um sonho muito agradável. Excitante, até, — Jaskier continuou e inclinou seu corpo para mais perto. — Gostaria muito de te mostrar como foi, mas eu não vou fazer isso se você não quiser. Então lhe pergunto, o que você quer?
Parece bom demais pra ser verdade, pensou. Há tempos sonhando com futuros incertos e afeições que nunca se tornariam realidade, e cá estava Jaskier, seus olhos brilhando como o as chamas da vela de ontem à noite, declarando para Geralt tudo o que este queria ouvir.
Jaskier tirou a armadura dos braços do bruxo e lançou-lhe um sorriso. Geralt conseguia sentir o calor ainda emanando do outro, as bochechas coradas e respiração ofegante, e pensou que dessa vez não fosse o efeito da febre. Fosse sonho ou realidade, Geralt decidiu arriscar sua chance e o beijou.
Algumas gotas de chuva molhavam a janela do quarto, acompanhadas de mais trovoadas pelo céu afora. Teriam que ficar mais um dia na taverna se quisessem evitar a chuva mais uma vez. A noite seria longa.
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