Sonhando com a Califórnia
2 Sonhando com uma carteira assinada
Notas iniciais

PATRICIA MARIA DE LA ROSA entrou na sala do grêmio de mãos dadas com o namorado, Dez, fazendo Ally olhar para os dois com expectativa. Porém, a amiga logo fez uma expressão triste.
— Me perdoa, Ally… O Dez tentou usar os melhores argumentos dele, mas não conseguiu convencer o diretor Benson a não expulsar o Richard Bassett.
— De verdade, eu tentei mesmo — explicou Dez. — Usei minha melhor lábia, sabe? Falei que não é porque um aluno exemplar comete um pequeno deslize que ele merece ser expulso. Que só porque fuma uma “verdinha” às vezes — Fez aspas no ar. —, não quer dizer que não possa cursar medicina… Mas aí eu descobri que ele não estava apenas fumando, ele estava traficando aqui dentro! Um esquema bem organizado, inclusive. Parece que a fortuna da família dele veio disso… Aí, fiquei sem argumentos.
— Que droga…! — Ally suspirou profundamente, desanimando. — O Richard não vale nada, mas a família dele era a que mais fazia doações para os eventos do grêmio. Agora, com o pai dele preso e o Richard expulso, não temos dinheiro suficiente para fazer melhorias no departamento de artes. Acho que eu realmente sou uma péssima presidente do grêmio estudantil… — disse, encarando a própria marmita: um grain bowl de brócolis e salada reforçada com frango, fígado, salmão, rúcula e arroz branco.
— Calma, amiga. Tenho certeza de que vamos encontrar outra solução — disse Trish, aproximando-se e tocando as costas da amiga.
— Tipo, o quê? A maioria dos pais dos alunos acha que o instituto de arte não tem o mesmo valor que os outros cursos. Por isso, a gente vive sem recursos. É difícil conseguir doações e, além disso, as inscrições nos cursos ligados às artes vêm caindo cada vez mais. No último semestre, por exemplo, nem abriram turma para artes cênicas e música. Assim, os próprios alunos não conseguem arrecadar o dinheiro necessário para investimentos. E, quando chegam doações para a universidade, elas acabam sendo direcionadas para áreas como TI, medicina e engenharias. Sinceramente, estamos de mãos atadas. — Ally tampou a marmita em cima da mesa. — Até perdi a fome agora…
Trish olhou para a amiga cabisbaixa e depois voltou o olhar para o namorado, que demorou um pouco para entender aquele olhar de “diz alguma coisa”.
— Bom… talvez ainda exista alguma esperança… — começou Dez. — Sabe, o pessoal dos cursos de artes são bem criativos e talentosos. Talvez… sei lá… a gente pudesse usar isso ao nosso favor… tipo…
— Fazer um show de talentos! — Trish completou, entusiasmada. — Você é um gênio, Dez!
— Valeu, amor, eu sei disso! — Gabou-se o ruivo, ajeitando a gola branca de sua camisa de forma elegante.
— Tá, é uma boa ideia, mas... — Ally começou. — Com que dinheiro? E se não der certo? E se ninguém vier?! Aí teremos mais uma dívida!
— Não sabemos se vamos fracassar ou não, se não tentarmos. — disse Dez. — Para de colocar obstáculos, garota, e só curte! — Deu uma piscadinha.
— É, vou ter que concordar com o meu água de salsicha, amiga. Temos que tentar, ainda mais agora que estamos no tudo ou nada.
— Eu ouvi isso, hein! — Dez resmungou. Trish riu.
— Tá, ok, isso pode dar certo, vai chamar a atenção, mas, pra isso, temos que divulgar e não temos verba para pagar uma equipe para isso. — ressaltou Ally. — E tenho certeza que os estagiários de marketing da UCLA não vão querer divulgar esse evento de graça.
— Talvez, nem precisemos deles. — pensou Dez. — Acho que tenho a pessoa perfeita que vai amar essa ideia e vai divulgar de graça isso.
— Sério, quem? — questionou Ally.
— O meu grande amigo, com mais de 500 mil seguidores no Instagram, cheio de contatos, superpopular aqui na UCLA e até cantor, cuja música “Opalite” explodiu no Spotify nos últimos cinco anos, Austin Moon! — anunciou ele, transbordando entusiasmo. Trish soltou um animado “Uhuuul!”, mas a expressão desanimada de Ally foi tão imediata que fez o ruivo perder o brilho no mesmo instante.
— Certo… pela sua cara, imagino que você odiou a ideia, né? Esquece. Foi péssima.
— Não, a ideia é excelente, é só que... Austin Moon? — Ally perguntou, pausadamente, comprimindo os lábios.
— Sim, — O ruivo deu de ombros. — Algum problema?
— Não teria como ser outra pessoa? Tenho certeza que a escola está cheia de digital influencier.
— Sim, mas não com a mesma popularidade e alcance que nem ele. — justificou Dez.
— É que a Ally e o Austin não têm exatamente um bom histórico juntos — explicou Trish, saindo em defesa da amiga. — Digamos que ele não era o cara mais legal do ensino médio.
— Ele foi idiota com você?? — perguntou Dez, franzindo a testa. — Não dá pra resolver isso de um jeito amigável?
— Tem coisas que não são tão simples assim, Dez — repreendeu Trish, em tom de sermão.
— Tá, talvez. Mas ele ainda é meu melhor amigo — continuou ele, dando de ombros. — E, se você quiser, eu posso ir tirar satisfação com ele. Às vezes, tem horas que o Austin não pensa muito no que diz e tem um ego enorme. Uma combinação péssima! Ele já me irritou várias vezes, mesmo sendo muito próximo dele. Mas, no fundo, acho que é só o jeito dele. Ele não é uma pessoa ruim. Talvez ele nem percebeu que te fez mal, é uma possibilidade.
— É… você não entenderia, Dez. Ele realmente fez algo que me magoou muito e, sinceramente, eu não queria ter que olhar para a cara dele agora, mas… — suspirou fundo. — é pelo bem do departamento de artes. Acho que vou sobreviver.
— Tem certeza? — perguntou Trish. — Talvez, ele tenha que começar a fazer parte do grêmio, para estar mais inteirado com as informações ou até sugerir algo, para atrair mais gente.
— Sim, tudo bem, eu consigo agir feito profissional. Não pode deixar sentimentos tão antigos continuarem me abalando assim. Talvez seja até bom, para eu amadurecer espiritualmente.
— Adoro o seu complexo de Pollyanna. — Admitiu Dez.
Trish o encarou feio, o que fez o namorado se encolher entre os ombros.
— Não, tudo bem, de verdade. — Ally forçou um sorriso fraco. — Acho que a culpa é minha por não conseguir deixar o passado pra trás… Fico revivendo isso todos os dias.
— Amiga, tá tudo bem não estar bem — disse Trish, com gentileza. — Ele te machucou muito.
— Eu sei, mas… se for pelo bem do nosso departamento e do show de talentos… ele é a nossa melhor aposta como garoto-propaganda, né? — suspirou fundo.
— Infelizmente, é.
— Então podemos seguir em frente? — perguntou Dez.
Ally assentiu de leve.
— Acho que o jeito mais fácil de convencer o Austin é chamar ele pra participar do grêmio, ele vai adorar ter uma cadeira. Do jeito convencido que ele é, vai adorar pensar que teve um papel muito mais importante do que só ser o garoto-propaganda.
— Bom, já que eu oficialmente salvei o dia… posso comer o resto da sua marmita? — perguntou Dez, apontando sugestivamente para o recipiente. — Você mal tocou nela, e eu tô morrendo de fome. Aposto que as marmitas do restaurante da sua mãe no refeitório já acabaram faz tempo.
— Claro — concordou Ally, finalmente soltando uma risada fraca.
— Você é realmente um saco sem fundo — provocou Trish, revirando os olhos enquanto ria.
— Mas você me ama mesmo assim! — retrucou Wade.
— Amo mesmo! — respondeu Trish, dando-lhe um rápido selinho.
— Vocês são tão fofos que fazem minha glicemia ir para as alturas. — brincou Ally, assim que Dez saiu da sala para mandar mensagem de áudio para Austin, já degustando da marmita.
— Vou considerar como um grande elogio. — Piscou. — Mas falando sério, você realmente está bem com isso, amiga?
— Eu... não sei... — Umedeceu os lábios. — Mas, é só uma parceria temporária, finjo que o aturo por um tempo e depois volto a ignorá-lo como se nunca tivesse existido. Acho que vou sobreviver.
— É claro que vai, não existe ninguém nessa faculdade que seja mais forte do que você.
Ally sorriu para a amiga, mas, cerca de dez minutos depois, quando Austin entrou na sala — animado, agradecendo ao grêmio pela oportunidade —, ela já não tinha mais tanta certeza disso.
— Oi, Ally. — A cumprimentou, com um aceno de mão.
— Oi... — respondeu, desviando rapidamente o olhar.
— Então, vocês precisam da minha ajuda? Quero que saibam que é uma honra poder ajudar a minha amada UCLA. Vou fazer essa competição lotar tanto que vão até querer transmitir os shows na TV.
— Querido, também não é pra tanto. — disse Dez, dando um tapinha de leve no ombro do loiro.
— Certo, como vai ser? Já têm a data e o local? Quem serão os jurados?
— Então, é justamente por isso que queremos a sua ajuda. — Trish explicou, forçando um sorriso. — Você parece ser a pessoa mais habilitada para promover um show aqui em Los Angeles. Já tem bastante experiência.
— E aquele seu hit, “Opalite”, com a Kira Starr... Minha mãe canta até hoje, em alto e bom som, quando vai tomar banho. — Dez confessou. — O que é um pouco constrangedor.
— É, essa música é muito boa mesmo... — Austin murmurou, desviando o olhar. Ally suspirou fundo e cruzou os braços.
— Não pediríamos se realmente não precisássemos de ajuda. — A mulher confessou.
Austin demorou o olhar sobre ela antes de responder.
— Tudo bem. Me contem o plano de vocês.
Os três membros do grêmio trocaram olhares.
— Bom, acabamos de pensar nisso agora, então, não espere algo muito elaborado. — Trish confessou.
— A ideia é fazer uma grande competição de talentos aberta para todo mundo. Música, dança, mágica, stand-up, poesia... qualquer apresentação artística será bem-vinda. — Ally começou a explicar. — A inscrição será totalmente gratuita, porque queremos dar oportunidade para qualquer estudante participar.
— Mas a entrada para assistir ao evento será de cem dólares por pessoa. — Trish completou. — Eu sei que parece um preço salgado, mas queremos fazer uma experiência inesquecível. Boa estrutura, iluminação profissional, palco de verdade, atrações especiais... As pessoas vão sentir que valeu cada centavo.
Austin arqueou uma sobrancelha.
— Cem dólares é um valor considerável. Vocês vão precisar convencer muita gente.
— É por isso que precisamos de você. — Dez respondeu imediatamente. — Você sabe vender um espetáculo melhor do que qualquer um.
Austin sorriu de canto.
— Continuem. — Ele ajeitou a gola da camisa, de forma elegante e convencida.
— Todo o dinheiro arrecadado será destinado ao departamento de artes da UCLA. — Ally explicou. — Eles estão sofrendo com cortes de verba e, se não conseguirem mais recursos e patrocinadores, alguns programas podem até ser encerrados. Queremos mostrar que existe interesse pela arte e arrecadar dinheiro suficiente para dar um novo fôlego ao departamento.
— Além disso... — Trish abriu um sorriso orgulhoso. — Eu já consegui o prêmio principal.
Ela tirou uma foto do celular e mostrou para Austin.
— Um violão autografado pela Chappell Roan em 2023! Comprei de um colecionador na internet. Custou uma pequena fortuna, até achei que era golpe, mas o cara estava desesperado porque havia hipotecado a casa, enfim, acho que vai chamar bastante atenção.
Austin observou a fotografia por alguns segundos.
— Nada mal... Isso realmente pode atrair muita gente. Ela é uma das principais pop stars da atualidade.
— E ainda tem outra ideia. — Dez apontou para ele. — Você.
— Eu?
— Você ainda mantém contato com a Kira Starr, não mantém?
Austin soltou uma breve risada.
— Bom, diminuiu muito nosso contato depois do fim do nosso relacionamento de três anos, mas sim, ainda conversamos de vez em quando.
— Ela continua em alta! — Ally comentou. — Se ela aceitasse apresentar o evento ou fazer uma participação especial, seria uma divulgação gigantesca. Tenho certeza de que muita gente compraria ingresso só para vê-la. Ela é perfeita...
Austin cruzou os braços, pensativo.
— Não posso prometer nada. A agenda dela costuma ser uma loucura. Mas posso ligar, explicar o projeto e ver se consigo convencê-la. Apelar para o carinho imenso que ela ainda tem por mim.
— Carinho? — questionou Dez.
— Sabe como é. Ser amigo das minhas ex-namoradas e ficantes é o meu superpoder. Ela já pediu para nos reencontrarmos várias vezes, mas sempre tivemos conflitos de agenda. — Deu uma piscadela, e Ally revirou os olhos mais uma vez. — Enfim, se ela topar, isso pode atrair patrocinadores e aumentar muito o alcance da competição. E mais seguidores para mim, óbvio. Só vejo vantagens.
Os três praticamente prenderam a respiração.
— Então... você aceita? — Trish perguntou, ansiosa.
Austin abriu um sorriso confiante, aquele mesmo sorriso que Ally se recordava que o havia transformado em um dos maiores nomes do pop anos atrás. E aquilo a trouxe uma sensação estranha de déjà vu.
— Acho que está na hora de fazermos o departamento de artes da UCLA voltar aos holofotes. E, se vamos fazer isso... vamos fazer do jeito certo!
Trish vibrou de forma espontânea. Dez abraçou o amigo, quase o sufocando, já começando a imaginar o teatro completamente lotado. E Ally sorriu, mas... não sabia dizer ao certo se estava feliz. Quer dizer, estava feliz pelo evento, e seria interessante socializar e ajudar o departamento, mas... ainda não tinha certeza de como seria para o seu psicológico passar tanto tempo assim com Austin Moon.
— Sabia que ele ia aceitar! — disse, dando um soquinho no ar. — E de graça ainda. Você é uma lenda.
Austin riu.
— Na verdade, não vai sair totalmente de graça assim.
— Sabia que estava muito bom para ser verdade... — Ally murmurou.
— Espera. — Austin voltou a falar. — Não vou pedir dinheiro, óbvio, mas queria um favor em troca. Quer dizer... que você me fizesse um favor, Ally. Afinal, uma mão lava a outra.
— Eu? — Apontou para si mesma, com o cenho franzido.
— Sim.
— Mas eu não tenho nada para oferecer. Não sou famosa, não tenho seguidores nem nada do tipo.
— Garota, você daria uma ótima digital influencer e cantora! Você tem muito carisma e talento. — observou Trish. — Leva jeito para isso.
— Obrigada.
— Na verdade, não é nada de tão grande ou desrespeitoso. — Austin se defendeu. — É simples, juro.
— Certo... O que você quer? — Ela endireitou a postura e manteve o olhar firme.
— A sua mãe é dona do Moonlight Diner, não é?
— É, sim. Por quê?
— Vocês precisam de um garçom?
— Por quê? Está precisando de uma grana extra? — Dez interveio. — Não sabia que o império estava com problemas.
— Não é para mim, e sim para o meu primo, Freddie Benson. Ele é novo na cidade e ainda está se adaptando. Perdeu a avó recentemente, então acredito que queira espairecer. Além disso, não quer me deixar pagar o aluguel e a mensalidade da faculdade sozinho. Ele é a pessoa mais responsável que já conheci na vida, e tenho certeza de que sua mãe não vai se arrepender de contratá-lo. Colocaria a minha mão no fogo por ele.
— É um bom acordo. — Dez observou.
— Eu aceitaria o acordo. — Trish complementou.
Ally respirou fundo e o encarou. Mordeu o lábio inferior e sorriu.
— Ok, tudo bem. Só vou precisar do currículo dele e do telefone. Vou enviar as informações para a minha mãe. — Ela pegou o celular.
— Claro. Vou enviar agora para o Dez, e ele repassa para você.
— Ok, tudo certo. — Ally assentiu. — Ele tem disponibilidade para começar hoje?
— Vou confirmar com ele, mas acredito que sim.
— Ok. Ele pode começar o período de experiência de três meses hoje. O horário será das 13h às 21h, com uma hora de intervalo e duas folgas por semana.
— Muitíssimo obrigado! Você não vai se arrepender.
— Assim espero. Na última vez que confiei em você, as coisas não saíram muito bem. — Ela confessou, e, pela primeira vez em meses, Dez percebeu que Austin ficou sem palavras, sem comentários sarcásticos ou piadas sem graça, apenas em silêncio.
A sala permaneceu em silêncio por alguns segundos, até que Ally se levantou e pegou sua bolsa.
— Bom, tenho aula agora e também um compromisso, mas muito obrigada, Austin, de verdade. Você nos fez um bem enorme hoje. — agradeceu.
— À disposição. — Sorriu de volta.
Ally apenas assentiu e saiu da sala.
Austin coçou a garganta e logo se recompôs.
— Agora só espero que vocês estejam preparados, porque, quando eu organizo um evento, ele deixa de ser apenas uma competição. — Fez uma breve pausa antes de completar, com um brilho divertido nos olhos: — Ele vira um espetáculo!
— Estou contando com isso, irmão. — disse Dez.
— Acho que agora é a minha deixa também. Vou contar para o Freddie as boas novas. Até mais, gente. — disse, também saindo da sala.
— Espero que realmente seja um sucesso. — Dez foi até a mesa e voltou sua atenção para a marmita dada por Ally. — Porque estamos apostando nossas últimas fichas nisso.
— Pois é. E que clima pesado. — A namorada respondeu. — Espero que eles não se matem até o final do evento.
— Afinal, meu bem, o que aconteceu entre eles?
— Longa história.
— Eu tenho tempo e quanto mais tempo passo com você, melhor. — Mandou-lhe um beijo no ar e Trish corou com as bochechas.
— Sabe a música “Opalite”, o primeiro grande sucesso dele com a Kira Starr? Foi ela que fez os dois ganharem um Grammy como prodígios, com apenas dezoito anos.
O namorado assentiu.
— Então, segure bem na cadeira porque aí vem a reviravolta. Foi a Ally quem a compôs e criou a melodia com ele, na época do ensino médio! Ele roubou a música dela, deixando-a sem nenhum crédito pelos direitos autorais. Aquela era a maior chance de ela lançar a carreira solo. Ela confiou nele, e ele a decepcionou.
— Mentira!
— E essa ainda foi a coisa mais leve que ele fez...
— Conte-me tudo!
[...]
Freddie ainda estava abismado, mas de uma forma positiva, com a rapidez com que Austin havia conseguido um emprego para ele. De fato, o primo tinha lábia e contatos de sobra. Quando queria abrir uma porta, parecia que ela simplesmente se escancarava.
Tomou um banho demorado, caprichou na higiene, penteou os cabelos, passou muito perfume e vestiu uma camisa social azul-clara, acompanhada de uma calça jeans escura. Queria causar uma boa impressão logo no primeiro dia.
Antes de sair, tomou um café da manhã reforçado: duas torradas — que Austin deixou passar do ponto e quase carbonizou — e um omelete de queijo que, sinceramente, parecia mais uma gororoba de ovos mexidos. Outra obra-prima culinária de Austin Moon.
— Você devia agradecer por eu cozinhar pra você! — O primo loiro reclamou, ofendido.
— Eu agradeceria mais se você não tentasse me matar intoxicado.
— Ei! Eu consegui um emprego pra você, se esqueceu?
— Nunca, e irei te agradecer mais uma vez. Valeu, Moon!
Austin apenas deu de ombros e deu uma risada abafada, melhorando a postura. Definitivamente, o maior exibido que conhecia!
Pouco depois, Freddie caminhou, a pé, para o trabalho, que ficava há algumas quadras dali, duas ruas atrás da faculdade.
O Moonlight Diner era maior do que imaginava. Apesar do nome remeter a um restaurante tradicional, o ambiente era elegante, aconchegante e muito bem decorado, com um toque moderno que o diferenciava da maioria dos diners da cidade.
A proprietária, Penny Dawson, era uma mulher — alta, de longos cabelos castanhos ondulados, olhos castanhos e um sorriso marcante, usando um vestido social preto, brincos grandes de argolas douradas, um marcante batom vermelho e uma jaqueta cinza por cima — tão excêntrica quanto simpática. Falava pelos cotovelos, ria alto e fazia questão de conhecer todos os funcionários pelo nome. Desde o primeiro minuto, fez Freddie se sentir bem-vindo.
Além disso, a comida era excelente! Ele já a havia degustado no intervalo das aulas daquela manhã e a aprovou de imediato. Era o típico prato de comida caseira, que remetia ao lar e à infância, lembrando as refeições que sua saudosa avó preparava com talento e carinho, sempre muito elogiada por ele e pela família Benson…
O início do expediente, porém, foi um pequeno caos.
Eram comandas para um lado, pedidos especiais para o outro, mesas chegando e saindo sem parar. Por alguns minutos, Freddie teve a impressão de que jamais conseguiria decorar a organização do salão.
Felizmente, Penny parecia ter uma paciência infinita.
Sempre que ele se confundia, ela aparecia sorrindo, explicava novamente e o incentivava a continuar. Depois de quase duas horas de trabalho, tudo começou a fazer sentido. Os pedidos passaram a fluir naturalmente, e Freddie finalmente encontrou seu ritmo.
— Eu sabia que Ally não estava exagerando. — Penny sorriu, satisfeita. — Ela falou que seu primo misterioso, que é colega do grêmio estudantil dela, falou muito bem de você. Disse que eu estaria contratando o rapaz mais responsável que ele conhecia.
Freddie sorriu, um pouco sem jeito.
Era estranho ouvir Austin elogiá-lo daquela forma para outras pessoas. Mas também era reconfortante.
Às seis da tarde, Penny o liberou para suas duas horas de intervalo.
Com a barriga roncando, Freddie pediu um clássico e simples: cheeseburger com batatas fritas crocantes e um copo generoso de refrigerante de cola, sentando-se próximo à enorme janela de vidro que dava para a rua.
Enquanto desembrulhava o lanche, observava distraidamente o movimento do lado de fora, através da grande janela da frente do estabelecimento.
Foi então que ouviu o ronco grave de um motor.
Uma Harley-Davidson vermelha parou em frente ao restaurante.
A motociclista desceu com agilidade, retirando o capacete enquanto caminhava em direção à entrada. Longos cabelos loiros imediatamente foram libertados, dançando com a brisa fria do fim da tarde.
Freddie parou de mastigar. Seu coração acelerou de forma completamente involuntária. Era ela. Era Sam Puckett.
Sam entrou no restaurante como se fosse dona do lugar. Cumprimentou dois cozinheiros, acenou para Penny com um sorriso e, antes mesmo de pegar seu jantar, avistou Freddie sentado próximo à janela.
Um sorriso divertido surgiu em seu rosto.
Ela caminhou até a mesa dele e apoiou uma das mãos no encosto da cadeira.
— Ei, Wichita! Não me diga que até aqui você tá me perseguindo?
Freddie ergueu os olhos do cheeseburger e soltou uma breve risada.
— Um dia não é tempo suficiente para concluir que alguém está te perseguindo. Além disso, a gente só se conhece há um dia.
Sam fez uma careta teatral.
— Cadê o seu senso de humor?
— Acho que ficou no Kansas. Esqueci de colocar na minha mala pra vir pra Califórnia.
Ela riu.
— Então... você é meu novo colega de trabalho. Fico feliz. Você parece ser alguém legal e responsável. A Penny falou muito bem de você.
— Valeu. As notícias parecem correr rápido mesmo por aqui.
— Sem brincadeira, o começo pode ser complicado. — Sam apoiou os cotovelos na mesa. — Ainda mais quando a pessoa vem de uma cidade do interior, onde entregam pizza a cavalo em vez de moto.
Freddie arqueou uma sobrancelha.
— Nossa... piadas com estereótipos já não eram tão legais nem antes de 2026.
Sam levou uma das mãos ao peito, fingindo indignação.
— Nossa, desculpa. Vou atualizar meu repertório.
Os dois riram.
Ela então apontou para o corredor que levava ao balcão.
— Enfim, se precisar de alguma ajuda... ou de uma carona para ir embora, pode contar comigo.
Antes que Freddie pudesse responder, Sam esticou a mão, pegou uma batata frita do prato dele e a levou à boca.
— Ei!
— Taxa pela carona que te dei hoje de manhã. O petróleo é uma fonte de energia não renovável, capiche? Acho super justo.
— Isso se chama roubo!
— Eu prefiro chamar de imposto! — Deu de ombros, sorrindo. Aquele belo sorriso o faria bufar, como um protagonista bobo e apaixonado de alguma comédia romântica. Mas aquela era a vida real, e ele se arrependeu mentalmente por estar pensando e idealizando tudo de uma forma tão emocionada.
Freddie balançou a cabeça, derrotado.
— Você é impossível.
— E você vai se acostumar. — Sam deu outra piscadela antes de finalmente ir buscar sua comida.
Poucos minutos depois, voltou carregando uma bandeja com um prato de mac and cheese, tiras de frango empanadas e um copo enorme de refrigerante.
— Posso?
Ela já estava puxando a cadeira antes mesmo de terminar a pergunta.
Freddie apenas sorriu.
— Claro.
Os dois passaram o restante do intervalo conversando.
Falaram sobre a faculdade, os professores mais exigentes, o caos dos primeiros dias de aula e, inevitavelmente, sobre o prédio onde moravam.
Descobriram que dividiam o mesmo azar com vizinhos inconvenientes.
— O senhor Moretz do apartamento ao lado assiste televisão no volume máximo às seis da manhã. — Freddie suspirou.
— Isso porque você não conhece a dona Mildred, do meu corredor. Ela reclama até do barulho da chuva! Semana passada, implicou porque eu fechei a porta “com energia demais”. Que piada! A vida me estressa, e eu nem tenho o direito de extravasar mais. Achei que a América fosse o país da liberdade!
Freddie riu alto.
— Ela tem super audição. Temos que admitir que isso é um talento.
— Ela tem vários. Outro dia reclamou que minha moto respirava muito alto. Tipo, mulher, qual é a sua?!
— Sua moto... respirava?
— Exatamente! Esquizofrênica demais! Nem a Cat, minha colega de quarto, a suporta. E olha que a Cat gosta de todo mundo.
A conversa fluía com uma naturalidade surpreendente.
Não havia esforço, nem silêncios constrangedores. Apenas duas pessoas rindo das mesmas coisas, compartilhando pequenas histórias do dia a dia como se fossem amigas havia muito mais tempo do que menos de vinte e quatro horas.
E aquela química assustou Freddie.
Fazia muito tempo que não se sentia tão à vontade na presença de alguém — a última vez fora duas semanas antes da vovó Stephanie falecer…
Mas, com alguém da sua idade, fazia muito tempo mesmo! Talvez desde antes de toda a bagunça que sua vida havia se tornado.
Por um instante, ele se pegou olhando para Sam enquanto ela gesticulava animadamente no meio de alguma história absurda sobre uma entrega que terminara com um cachorro perseguindo sua moto.
Sorriu sem perceber.
E, pela primeira vez desde que chegara à cidade, teve a estranha sensação de que talvez estivesse exatamente onde precisava estar.
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