Sonhando com a Califórnia
3 Sonhando com uma melodia há tempos perdida
Notas iniciais

ALLY AINDA SE SENTIA MUITO incomodada e sem saber ao certo como deveria se sentir com toda aquela situação de ter Austin Moon de volta à sua vida. Era por uma boa causa, ela sabia, mas ainda sentia seu coração arder e uma onda de energia ruim passar por seu corpo só de lembrar que teria que se acostumar a vê-lo todos os dias, de novo...
Sua mãe havia acabado de sair de seu quarto. Havia encerrado o expediente do dia e disse que aquele Freddie, que “o tal amigo misterioso” recomendou, era tão bom que ele deveria indicar mais funcionários como aquele, porque era uma mina de ouro. — Ela ficaria tão brava ao descobrir que havia permitido que Austin retornara para sua vida!
Ally apenas riu e voltou a atenção aos livros abertos enquanto estudava para uma prova da semana seguinte. Assim que a mãe saiu do quarto, suspirou. Seu coração estava tão desesperado no peito que ela não conseguia focar. Havia apenas uma tempestade de memórias — memórias boas, de antes do caos com Austin, antes de ele lhe dar aquela rasteira.
Como na vez em que ela disse:
[...]
— Você sabia que era para o Nicolas Cage ser o Superman nos anos 80? — comentou, curiosa. Eles estavam no auditório da escola, sentados nos bancos em frente ao palco, esperando a professora de teatro aparecer, junto dos demais alunos. Ela nem se lembrava ao certo sobre o que estavam conversando antes, nem de como aquilo os guiou para aquela conversa.
— Siiiiiim, eu sabia! O Superman é meu herói favorito. — Austin confessou, com aquele sorriso iluminado no rosto.
— Eu também gosto bastante do Superman. — admitiu.
— Eu e ele temos uma história.
— Não creio que você foi amante do Clark Kent. Como puderam fazer isso com a Lois? — Fez a piada, rindo, e Austin logo a acompanhou. Ela tocou seu ombro. — Me desculpa. É brincadeira, ok? Mas, falando sério, qual é a sua história com o Superman? Era o seu desenho ou filme de conforto?
— Ele foi minha figura paterna. Quando eu me sentia triste e sozinho, ele era meu melhor amigo.
— Isso é muito fofo, sério! Combina com você.
— Obrigado. Você também é uma fofa. A garota mais doce que já conheci.
[...]
— Que grande mentiroso! Tá mais pra Brandon Breyer do que Clark Kent! — Ally bufou no presente e fechou os olhos com força, sentindo-se tão burra por ainda ficar melosa com aquelas palavras e por não ter visto os sinais ruins dele antes.
Fechou os livros e pegou seu caderninho de poemas e canções na última gaveta de sua escrivaninha, junto de sua caneta cor de rosa.
“E estamos aqui mais uma vez!
Com suas palavras ressoando em minha cabeça…
.
Você confundindo a minha realidade,
distorcendo a minha verdade,
fazendo da minha sensibilidade
um motivo de vergonha, uma fatalidade.
.
E eu vou continuar te odiando por isso.
.
Não importa quantas voltas o relógio dê,
quantos meses o calendário venha a perder,
eu ainda vou permanecer.
.
Presa naquele restaurante,
com a poeira cobrindo meus cabelos, lentamente.
Respirando o inverno por dentro, me corroendo ardentemente,
enquanto os fantasmas do passado, encontraram em mim alento,
fazem da minha memória seu apartamento.
.
Por muito tempo eu neguei.
Menti para mim mesma.
Eu estava acuada, com minha defesa abaixada
E você me pegou, por erros passados, sozinha e desolada.
.
Disse que estava tudo bem.
Que o tempo pisaria na dor
e me faria ir além.
.
Mas nenhuma mentira dura para sempre.
Você foi o maior arrependimento da minha vida.
E, ironicamente,
também a maior saudade que ela abriga.
.
Eles dizem:
“Se você não sangrar, você nunca vai crescer.”
Mas eu estou sangrando há quase cinco anos.
Mas, por quanto tempo mais vou ter que sofrer?
Você fez isso.
Você parecia ser o cara certo.
.
Aquele que pisaria no cinza
e pintaria meu mundo de cores.
.
Mas era só mais um oportunista.
.
Bebeu do meu talento,
da minha confiança,
dos meus sonhos.
Como um vampiro escondido na escuridão,
esperando o instante perfeito
para afundar os dentes no meu coração.
.
E eu...
Inocente.
Resiliente.
Confidente.
Caí no encanto.
.
Confundi fome com afeto,
silêncio com conforto,
mentira com amor.
.
Agora só me resta uma pergunta:
Será que tudo teria sido diferente...
Se a gente se encontrasse hoje?”
Ally se afastou e releu o texto várias vezes. Apenas tinha deixado seus sentimentos tomarem conta, sem se importar muito com a rima ou a forma. Sabia que aquele poema ainda precisaria de aprimoramentos, mas se sentiu aliviada por conseguir colocar um pouco de toda aquela culpa e confusão em duas folhas de papel.
— Vai ficar tudo bem, Ally. Vai ficar tudo bem. Você vai conseguir ajudar a faculdade, vai fazer com que esse evento seja um sucesso, vai poder usá-lo como tema do seu TCC e se formar com honras. Talvez até ganhe o prêmio de melhor TCC e encontre um emprego ótimo, que vai te levar para o mais longe possível dessa cidade e de Austin Moon. Você vai ficar bem. Você é...
— Incrível! Você é demais, é a melhor, Ally! — fora o que Austin lhe dissera assim que terminaram de gravar a primeira demo de “Opalite” na voz dela.
Ela sentiu uma vontade intensa de chorar mais uma vez. Colocou as duas mãos na cabeça e deixou o cabelo cair para a frente. Sentiu as lágrimas rolarem por suas bochechas rosadas e permaneceu assim por algum tempo. Talvez cinco minutos, talvez dez.
Então, escutou o som de uma notificação vindo do celular. Foi pegá-lo e viu que era uma solicitação de Austin Moon para segui-la no Instagram. Revirou os olhos. Pensou várias vezes e quase clicou no botão de recusar, mas logo se lembrou do evento que iriam promover juntos, no grêmio, e de como diálogo e colaboração eram essenciais. Assim, aceitou, dando a ele acesso ao seu perfil privado. Abriu o perfil dele.
@heyitsaustinmoon ✔️
Austin Moon ☀️
🎤 Singer | Songwriter
📍 Los Angeles, CA
💛 Fazendo música e criando memórias.
👇 Música nova disponível!
3,1 milhões de seguidores • 1.012 seguindo • 741 publicações
A foto de perfil era dele, sorrindo, com a praia ao fundo, usando um óculos de sol que refletia as ondas do mar e as demais pessoas na praia de Long Beach. Vestia uma camisa regata laranja.
Nem se deu ao trabalho de abrir seus stories ou ver suas últimas postagens. Não quis presenciar sua felicidade, pois sabia que, no fundo, aquilo a faria sangrar.
Austin era digital influencer, uma subcelebridade e pseudo-cantor, e seu perfil, obviamente, era aberto e cheio de seguidores. Apesar disso, ela nunca passava tempo stalkeando seu perfil ou vendo seus stories. Pelo contrário, sempre evitava, porque aquilo lhe dava gatilho. Por muito tempo, abrir a página de notícias do Google ou revistas de fofoca foi um gatilho enorme, uma área proibida em seu celular, porque ver os nomes Kira Starr e Austin Moon na mesma frase fazia seu coração doer.
E então, para sua surpresa, o sem-noção mandou uma mensagem. Ela demorou um pouco para abri-la. Sentiu seu coração vacilar as batidas no peito.
[@heyitsaustinmoon] Oiiiii, Ally, boa noite
[@heyitsaustinmoon] Mais uma vez, quero dizer que me sinto honrado por terem me chamado para ajudar no grêmio estudantil
[@heyitsaustinmoon] Espero que esteja tudo bem entre nós. Sobre... o que aconteceu no ensino médio. Já te pedi desculpas várias vezes. Eu não sabia que a Kira iria fazer aquilo. Fiquei tão surpreso quanto você, mas espero que você me perdoe pelo babaca que eu fui
Ela revirou os olhos e sentiu algo como um soco no estômago. Queria gritar. Queria jogar o celular na parede. Queria escrever um textão, como fez da última vez.
Mas Austin, cinco anos atrás, apenas leu por cima suas mensagens, assumiu a culpa e disse para ela não se preocupar. Que tudo acabaria bem no fim. Que estava tudo bem.
Não. As coisas não ficaram bem. E ela carregou o trauma de frases vazias como aquelas por muito tempo. Viver parecia ser um grande gatilho.
Escreveu e digitou a mesma frase várias vezes, por, no mínimo, cinco minutos, antes de suspirar fundo e enviar a mensagem mais adequada — e filtrada — para o rapaz.
[@allyinpages] Tá tudo bem, Austin. Tudo o que tínhamos conversado foi resolvido de forma pessoal e judicial no passado. Tudo pela UCLA e pelo departamento.
[@heyitsaustinmoon] Ufa, é um alívio ler isso, Ally
[@heyitsaustinmoon] O Dez me adicionou ao grupo do grêmio no WhatsApp. Nesta semana, já podemos preparar o projeto para apresentar e obter a aprovação do diretor para o nosso evento
[@allyinpages] Isso é bom. Vai dar tudo certo. Até mais, Austin.
[@heyitsaustinmoon] Boa noite, Ally
— Que sujeitinho mais cara de pau! Puta merda! — Ally praguejou, estendendo a cabeça para trás e encarando o teto estrelado e escuro do seu quarto. A janela estava aberta, o que permitia que uma ventania fraca e fria adentrasse o cômodo e a abraçasse.
Num movimento brusco, endireitou-se e encarou a lua cheia no céu, grande e branca. Era um satélite natural bonito e deslumbrante; a Terra tinha sorte de tê-la orbitando ao seu redor. Uma pena ela ter que “compartilhar o sobrenome” com alguém tão pequeno e medíocre quanto Austin Moon.
Pegou o celular e abriu a câmera, esperando o melhor momento para fotografá-la. Então, abriu o Instagram e a seção de stories, onde escreveu a legenda:
“Linda noite velada pela lua cheia.
Como pode ser tão linda e, ao mesmo tempo, tão má e inalcançável?”
E postou. Adicionando-o rapidamente no seu destaque de “photographs ♡”
Depois, ficou rolando o próprio feed e dando curtas risadas com alguns reels, perdendo preciosos minutos da própria vida stalkeando a vida “perfeita” de pessoas que “conhecia” apenas pela tela do celular, quando recebeu uma notificação.
Alguém havia curtido seu story e respondido a ele.
Um tal de:
@sun.frames
Abriu o perfil e se deparou com uma biografia minimalista. Ela o havia seguido havia poucas semanas, pois compartilhavam o mesmo hobby: fotografia. Além disso, quem quer que estivesse por trás daquele perfil tirava fotos belíssimas de paisagens.
Bio: apenas sun. fotografando o especial que passa despercebido no cotidiano.
Então, abriu a mensagem:
[@sun.frames] A lua sempre foi bonita e inalcançável. Por isso, prefiro fotografar o sol. Muitos se incomodam com sua verdadeira face, porque é difícil encará-lo fixamente, ao contrário da lua, que é uma musa esplendorosa, de tamanha beleza, para todo mundo ver. O sol é ele mesmo, enquanto a lua esconde uma segunda face, escura, na lua nova, quando passa despercebida pela maioria das pessoas
[@sun.frames] Foi mal, filosofei total agora ksksksksk. E, modéstia à parte, o sol tem minha total atenção
[@allyinpages] É, isso foi um pouco estranho e aleatório mesmo ksksksksk
[@allyinpages] Mas você parece inspirado! Daria uma bela poesia
[@sun.frames] Vindo de você, isso é um elogio
[@sun.frames] Digo isso porque vi alguns covers e algumas músicas autorais que você posta no perfil. É inspirador.
[@sun.frames] Não sou um cara maluco, ok? ksksksks Não se preocupe
[@allyinpages] Então, você é um cara
[@sun.frames] Isso é um problema?
[@allyinpages] Bom, espero que não
[@allyinpages] E obrigada! Eu também acho as fotografias que você tira muito bonitas
[@allyinpages] Mas por que o sol tem sua total atenção?
[@sun.frames] Porque nós dois compartilhamos o mesmo nome. Sun é “sol” em inglês
[@allyinpages] Bem poético. Não tenho muita afinidade com a luz, por assim dizer. Então, concordo que a nossa estrela é a melhor
[@sun.frames] O que a lua te fez? Perdão a pergunta
[@allyinpages] Muitas coisas, para ser sincera... ksksksks
[@sun.frames] Lamento ler isso. Você parece ser alguém muito legal. Poderíamos tentar ser amigos? Na verdade, faz dias que tô tentando conversar com você
[@allyinpages] Isso soou bem prepotente da sua parte
[@sun.frames] Espero não estar sendo inconveniente. Meus amigos sempre me disseram que eu sou muito direto. E você estuda na UCLA, né? Estou estudando muito para conseguir fazer Veterinária lá, no semestre que vem
[@allyinpages] É uma boa faculdade. Super recomendo!
[@sun.frames] Então... tá tudo bem? Como foi seu dia?
[@allyinpages] Está tudo ótimo e foi ok
[@sun.frames] Desculpa, mas não senti muita firmeza nesse “ok” ksksksk
[@allyinpages] Olha, me desculpa, mas... as coisas não estão muito bem, na verdade
[@sun.frames]Aconteceu alguma coisa?
[@allyinpages] Só... tô tendo que reviver fantasmas do passado, e isso não está sendo nada saudável para mim, mesmo sendo por “um bem maior”
[@sun.frames] Entendo. Espero que você se sinta melhor logo
Ally leu aquilo e alisou a própria capinha do iPhone. Quando viu, pela janela, a mãe apagar a luz do quarto, olhou para o horário: era quase meia-noite, 23h33min. Então, voltou à conversa com Sun.
[@allyinpages] Mas eu vou ficar bem. Não se preocupe. Eu vou ter que ir dormir agora, mas podemos continuar conversando amanhã. Você parece ser alguém legal, Sun, mesmo não tendo nenhuma foto sua de perfil. Só espero que você não me faça aparecer num episódio estranho de Catfish algum dia ksksksksks
[@sun.frames] Bom, se nossa amizade der certo, podemos nos encontrar pessoalmente algum dia
[@sun.frames] Boa noite, Ally!
[@allyinpages] Boa noite, Sun!
Ally, então, colocou o celular para carregar. A bateria estava em 17% e ela já havia recebido duas notificações de bateria fraca. Deixou o aparelho sobre a mesinha de cabeceira.
Seus olhos estavam ardendo, então pingou um colírio. Vestiu uma roupa leve para dormir, soltou o cabelo, que até então estava preso em um rabo de cavalo alto, fechou a janela e se cobriu até o pescoço. Deixou apenas a luz do abajur acesa, que fazia as corações luminosos iluminarem o teto quando ligados. Eles apenas se somavam aos adesivos brilhantes e pequenos e, agora desgastados, de estrelas decorativas que havia colocado junto com a mãe, quando criança, para enfeitar o quarto.
Então, começou a pensar consigo mesma em como aquele dia havia sido totalmente fora do comum. Retomar o contato com Austin, elaborar um evento, empregar o primo dele no restaurante da mãe e conhecer um novo amigo, com o mesmo hobby de fotografia, definitivamente não estavam no seu bingo para aquele semestre da faculdade.
Mas tudo ficaria bem, e ela conseguiria superar aquilo, todas aquelas tempestades emocionais. Acolheu-se ainda mais ao cobertor para se livrar do frio e ficou pensando nas palavras que havia escrito em seu poema, até conseguir dormir.
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