Sonhando com Malfoy
10 Capítulo 7 | Chegada ao Paraíso
Notas iniciais
Quando Hermione voltou para casa naquele dia, estava exausta demais até para cumprimentar Bichento. Depois de comprar tudo o que precisava para o casamento de sua melhor amiga, jogou-se no grande sofá no centro de sua sala — um espaço que mais parecia uma biblioteca — e fechou os olhos por um instante. Ainda precisava de um banho relaxante antes de se entregar ao cansaço.
Mas não conseguiu.
Adormeceu ali, envolta pelo calor do sofá e cercada pelas sacolas de roupas que antecipavam a primavera.
Saídas de praia, vestidos leves e, entre eles, um deslumbrante vestido de madrinha, ainda embrulhado. Ela havia passado por diversas de suas lojas favoritas, apressando-se para estar pronta a tempo.
Pronta para quando Dobby chegasse para buscá-la.
O elfo doméstico dos Malfoy.
Antes que o sono a dominasse por completo, as dúvidas a assombraram.
Como aquilo era possível?
A volta no tempo era perigosa… E vórtices temporais não passavam de lendas.
Jamais haviam sido criados. Apenas teorias, especulações de alquimistas curiosos, transformadas em contos por romancistas bruxos fascinados pela ideia. Pela magia que aquilo simbolizava.
Aberturas no tempo — portais suspensos entre o passado e o futuro. Lugares onde alguém poderia viver eternamente. Sem envelhecer. Sem morrer.
Sem consequências.
Totalmente reversível.
Mas a complexidade necessária para criá-los era assombrosa. Não havia feitiço, ritual ou encantamento que fosse capaz de tal feito. Apenas uma teoria vaga, narrada por um vidente de pouco prestígio há três mil anos.
Hermione despertou com esses pensamentos ainda girando em sua mente.
Percebeu que muitas horas haviam se passado desde que se entregara ao sono. Estava exausta. E talvez fosse por isso que sonhara com ele mais uma vez.
A ideia de um vórtice temporal, forjado por um poder soberano, inundava seus pensamentos. E, inevitavelmente, levava sua mente até ele.
O tipo de magia insana que poderia criar um espaço eterno no tempo e no espaço. Um lugar onde ele e seus amigos poderiam existir indefinidamente. Um refúgio que mais parecia um paraíso.
Essas imagens vinham de lembranças… Ou seriam apenas sonhos?
Fragmentos de conhecimento mágico absorvidos anos atrás, em Hogwarts.
Informações armazenadas tão profundamente que pareciam inacessíveis — até que surgiam como flashes, como uma página de um livro folheado em sua mente.
Como a fotografia dele no anuário.
Sempre sonhava com isso. Abria o livro exatamente onde ele estava. E ali, na imagem, ele a encarava de volta, com aquele misto de desinteresse e poder que apenas ele possuía.
"Para sempre primavera…"
A lembrança veio repentina.
Por que ele criaria um vórtice justamente em uma estação que desprezava?
A dúvida tomou conta de sua mente.
E se ele não tivesse criado aquele lugar?
E se ele apenas o tivesse encontrado?
Mas, então, quem abandonaria um paraíso assim?
A noite avançava ao seu redor, enquanto Hermione tentava encontrar respostas para perguntas que talvez nunca tivessem sido feitas.
Hermione tomou um banho longo.
Ao fechar os olhos dentro da banheira, um pensamento a atingiu: depois de tantos anos, ela o veria novamente.
Ele estaria no casamento de seu “melhor amigo”, não estaria?
Mas… seriam mesmo amigos? Ou Goyle era apenas mais um de seus muitos seguidores? Um servo, alguém útil para ele?
Ainda assim, ele teria emprestado um lugar como aquele para um subordinado?
Goyle, Hermione concluiu, devia ter algum valor para ele. O suficiente para receber tal concessão — um lugar onde nenhuma lei impediria sua presença, permitindo que Hermione participasse de um evento íntimo.
Um desejo do coração de Luna.
Ele se importava o bastante com Gregory para atender ao desejo de sua futura esposa.
Hermione jamais esquecera da autorização.
Afinal, quem a concedera? Teria sido ele… ou Dumbledore?
Não podia ter sido Malfoy. Não quando os dementadores patrulhavam os territórios mágicos, prontos para exterminar nascidos trouxas que ousassem se aventurar por ali.
Mas então, como Dumbledore conseguiu burlar um ser capaz de manipular um vórtice no tempo?
Como o enganou a ponto de criar uma autorização sem que ele percebesse?
Só havia uma explicação: Malfoy devia um favor a Dumbledore. Um favor grande o bastante para permitir que uma "sangue-ruim" como ela circulasse livremente.
Ela, uma trouxa com uma permissão especial para andar pelas terras mágicas, quando ele mesmo decretara que qualquer um de sua origem deveria ser exterminado.
Quanto mais pensava nisso, mais confusa ficava.
Ele a odiava.
Ou… será que ela havia superestimado sua importância?
Por que ele se daria ao trabalho de odiá-la, afinal? Ela não passava de um grão de areia no mundo dele. Irrelevante.
E então, um pensamento ainda mais incômodo a atingiu.
E se ele não sentisse nada por ela?
O ódio era uma emoção forte. Mas a indiferença… a completa ausência de sentimento… isso, sim, a aterrorizava.
Hermione emergiu da banheira, determinada a não pensar mais nele.
Decidiu aceitar que, para ele, ela não passava de um incômodo insignificante. Uma nascida trouxa, uma inferior.
E ela faria de tudo para não ser um problema. Se manteria longe de seu caminho, evitaria qualquer contato, não lhe daria motivos para se arrepender de atender ao desejo de Luna.
Porque, no fundo, Hermione sabia que aquilo contrariava todas as suas crenças.
Mas, mesmo assim…
Mesmo assim, ele fizera.
Desconfiança se instalou em seu peito.
E se fosse uma armadilha?
E se ele quisesse matá-la?
Hermione vestiu seu pijama mais quente e se deitou. Não havia comido nada o dia inteiro.
Mas, apesar do medo, decidiu ir.
Ela levaria Bichento. Ele encontraria uma forma de avisar seus pais e amigos caso algo acontecesse.
Ela precisava estar preparada para o pior. Mas, por mais irracional que fosse… não conseguia sufocar a esperança.
Esperança de que tudo aquilo fosse verdade.
Pela primeira vez naquele dia, pensou em Harry. E seu coração se acalmou.
Seu melhor amigo sempre a acalmava, mesmo à distância. Pensar nele fazia tudo parecer menos assustador.
Imaginou os três juntos, ela, Harry e Rony, mergulhando no mar. Vendo as ondas se quebrarem na areia, sentindo a água fria pela primeira vez.
E, com esse pensamento, adormeceu.
Ela queria acreditar.
Queria acreditar que veria Luna se casar.
Que Luna estaria ali, compartilhando aquele momento único ao lado deles.
E, talvez…
Talvez ele também estivesse.
Quando Hermione despertou na manhã seguinte, antes mesmo de abrir os olhos, desejou ver Dobby ali, esperando por ela.
Queria partir o mais rápido possível para reencontrar seus amigos.
E, no fundo, para vê-lo.
Era ridículo, inquietante.
Hermione suspirou, frustrada consigo mesma.
Ela precisava de terapia.
Precisava superar essa obsessão.
Precisava superar aquele rapaz.
Aquele homem.
Ele já não era mais um garoto. Agora era um homem.
Um homem poderoso.
Um homem que gostava de se considerar um filantropo.
Mas por que ele fizera aquilo?
Pena de Luna? De Goyle?
Luna, que sempre fora vista como uma esquisita pelos elitistas…
Aquele casamento, aquele lugar, aquele convite — tudo estava envolto em mistério.
Hermione se levantou e se preparou para ir ao hospital.
Ela teria que enfrentar tudo isso enquanto aguardava a chegada de um elfo doméstico que a arrancaria desta realidade por um minuto.
Um minuto.
Era tudo o que levaria.
Ela sumiria por um minuto.
Hermione queria acreditar que aquilo era real.
Mas não conseguia ignorar as limitações. As regras do tempo, da magia, da lógica.
Colocou suas malas no porta-malas do carro. Estava pronta para o que fosse.
Ao chegar ao hospital e vestir o uniforme, sua mente se ocupou com os pacientes.
Ali, no meio da rotina exaustiva, não havia espaço para pensamentos sobre Malfoy, vórtices temporais ou casamentos envoltos em mistério.
Ela se dedicou àquilo como sempre fazia: com todo o coração.
E, quando o dia finalmente terminou, deitou-se no beliche dos plantonistas, rendida pelo cansaço.
Dobby não viria hoje.
Ao menos, não mais.
Talvez no amanhecer do dia seguinte.
Mas então, antes que pudesse fechar os olhos, ele apareceu.
Dobby surgiu diante dela.
Hermione se iluminou.
Aquela hora não poderia ser melhor.
Estava em um intervalo.
Ninguém entraria ali.
— Senhorita Granger. — Ele estendeu a mão.
Vestia preto.
Um terno bem ajustado a seu pequeno corpo.
— Estará de volta em um minuto.
E sorriu.
Doce.
Hermione sentiu um nó na garganta.
— Olá, Dobby.
Apertou a mão dele.
E, em um instante, tudo desapareceu.
Ela quis dizer que precisava pegar Bichento, mas não houve tempo.
Quis perguntar sobre suas coisas, mas não houve tempo.
— Minhas coisas… — começou a dizer, quando surgiu em meio a um jardim esplêndido.
A noite estava fresca.
O ar carregava o perfume de lilases e rosas brancas.
Diante dela, um castelo magnífico, de torres altas e estrutura imponente.
A lua cheia lançava um brilho prateado sobre a paisagem.
Ela jamais vira uma noite tão bonita.
— Estão em seus aposentos, senhorita Granger. — A voz de Dobby a trouxe de volta à realidade. — Mas antes… preciso elucidar algumas regras de convivência com o senhor Malfoy.
Hermione o encarou.
— Ele é o dono do lugar — Dobby continuou. — E fez algumas exigências… Espero que não sejam um incômodo para a senhorita.
Ela ponderou por alguns segundos.
E então, respirou fundo.
— Tudo bem. Pode dizer.
Ela estaria pronta.
Para qualquer coisa.
Dobby prosseguiu com sua explicação:
— Todos que não fazem parte de sua cúpula pessoal devem manter uma distância mínima de dez metros. Eles não poderão lhe dirigir a palavra sob nenhuma circunstância. A existência deste lugar não deve ser mencionada a ninguém, seja bruxo ou trouxa. Todos os presentes precisarão concordar com um voto perpétuo. Se está aqui, significa que terá de fazê-lo. Caso se recuse, será obliviada e retornará imediatamente, sem qualquer chance de prosseguir.
Hermione sentiu o peso daquelas palavras, mas o que veio a seguir fez seu estômago revirar.
— A senhorita será o par dele, uma vez que será madrinha e ele, padrinho. Vocês entrarão juntos no cortejo. No entanto, espera-se que a senhorita mantenha pelo menos três passos de distância, conforme dita a etiqueta bruxa. Afinal… — Dobby hesitou, como se escolhesse suas palavras com cautela. — Uma dama de sua origem não pode se comparar a uma criatura… tão superior.
Hermione respirou fundo, controlando a tensão em seus ombros.
— Certo. Concordo com tudo. — Sua voz saiu trêmula. Era pior do que imaginava.
A ideia de que Draco ainda a desprezava voltou à sua mente como uma sombra persistente. Mas seria injusto culpá-lo por aquela posição; ele não havia escolhido ser padrinho, e as etiquetas aristocráticas existiam muito antes de ambos nascerem.
Dobby parecia desconfortável.
— Sinto muito, senhorita Granger.
— Está tudo bem. — Ela ergueu o queixo. — Para mim, está perfeito.
Ela podia lidar com isso. Podia lidar com Draco a ignorando, desprezando seus cumprimentos, rebaixando-a sem sequer precisar dizer uma palavra. Ele fazia isso desde que se conheciam. Já deveria estar acostumada.
Sem mais demora, seguiu Dobby para dentro da construção. Por dentro, o castelo era ainda mais deslumbrante. As paredes claras eram adornadas por delicadas pinturas florais, uma verdadeira obra de arte. Os móveis antigos, com um design único, sustentavam candelabros que espalhavam uma luz quente e dourada pelo ambiente.
No hall, Dobby apontou para um corredor vasto e iluminado:
— A ala oeste pertence ao senhor Malfoy. É proibida.
Hermione apenas assentiu. Havia muitas entradas, mas eles seguiram para a ala sul.
O teto era imponente, os arcos das portas majestosos. A madeira escura e nobre revelava a idade ancestral daquele lugar. Hermione sentiu um calafrio. Uma construção assim, preservada por séculos… Como?
Ela queria fazer perguntas, mas sabia que não devia. Tudo o que podia fazer era observar.
Dobby conduziu-a até um grande salão, abrindo as portas de madeira maciça.
Lá dentro, seus amigos a esperavam.
Os três se abraçaram ao mesmo tempo. Rony vestia um terno simples, com camisa branca sob o paletó preto. Harry usava jeans e um suéter bege, que combinava perfeitamente com ele. Luna trajava um vestido romântico rosa-chá, que acentuava seus cabelos loiros e lhe dava um ar etéreo.
— Acabaram de chegar? — Hermione perguntou.
— Harry e Rony sim. — Luna sorriu.
Hermione retribuiu o sorriso.
— Mal posso esperar para explorar a ilha!
— Nós também. — Rony respondeu animado.
Hermione notou que ele estava diferente, mais leve do que três anos atrás.
— Todos os outros já jantaram, mas estão preparando uma refeição para vocês três. — Luna informou, guiando-os até uma pequena mesa.
O salão era vasto, mas acolhedor. No canto, sofás espaçosos ladeavam uma lareira acesa. As janelas altas e encortinadas deixavam apenas um vislumbre da noite do lado de fora. No teto, um lustre de cristal projetava uma luz suave e dourada, complementada pelo brilho bruxuleante dos candelabros.
Hermione estava fascinada. O castelo parecia saído de um conto de fadas.
— Mal posso esperar para ver a biblioteca deste lugar. — comentou, já imaginando as prateleiras repletas de volumes raros.
Luna hesitou antes de responder:
— A biblioteca fica… na ala oeste.
— A ala do babaca do Malfoy. — Rony resmungou.
— Não o chame assim, Rony Weasley. — Luna o repreendeu com delicadeza. — Vamos fingir que ele não é um babaca, pelo menos até o casamento.
Ela suspirou e desviou o olhar.
— E quando será exatamente? — Hermione perguntou, sentindo a ansiedade se infiltrar em sua voz.
Antes que Luna pudesse responder, uma batida soou à porta.
Uma elfa doméstica carrancuda entrou carregando uma bandeja. Usava um uniforme negro e possuía um semblante austero. Atrás dela, outro elfo servia vinho nas taças.
Luna só retomou a conversa quando eles saíram.
— Em três dias. — Ela sorriu. — Estou tão feliz que esteja aqui comigo. Eu não poderia fazer isso sem você.
Hermione segurou a mão da amiga e a beijou, sentindo uma onda de carinho por ela.
Mas sua curiosidade a impeliu a perguntar:
— E este lugar? Como é possível?
Luna suspirou.
— Não sei. Malfoy contou a Greg, mas sob voto perpétuo. E Greg… nunca me contou nada.
Hermione ficou pasma.
O lugar mais fascinante que já vira… e era um segredo de Draco Malfoy.
E a biblioteca… ficava na ala proibida.
Ela não queria vê-lo. Não queria ter que cruzar seu caminho. Mas, ao mesmo tempo, a ideia de estar tão próxima de um mistério daqueles… a deixava inquieta.
— Ele fez muitas exigências para permitir isso. — Luna confessou, agora com um olhar mais triste. — Nunca falei com ele, nem me aproximei o suficiente para cumprimentá-lo. Nunca ouvi sua voz.
Ela hesitou antes de continuar:
— Desconfio que ele seja um telepata. Sei que ele fala com Greg dentro da mente dele. De perto ou de longe. E não é legilimência… É algo mais forte. Não existe técnica contra. É natural. Como se essa fosse sua forma real de se comunicar.
Hermione sentiu um arrepio.
— E nas reuniões do Ministério? Como ele se comunica?
— Greg é seu porta-voz. E é tão rápido… É como se Draco estivesse falando dentro da mente dele. Mas ele fala. Sei que fala, porque Greg disse que sua voz é como a de um dragão. — Luna encarou Hermione. — O que me faz pensar que falar, para ele, é um esforço inútil.
O silêncio caiu sobre a mesa.
— Isso só pode ser consequência do uso indiscriminado das artes das trevas. — Rony murmurou, desconfiado.
Luna discordou.
— Ele é assim desde criança. Nunca ouvimos sua voz. Sempre se comunicou com Greg desse jeito.
— Ou talvez ele só nos mantenha longe o bastante para que não sintamos a energia podre que emana. — Harry comentou, sombrio.
Hermione ponderou.
— Se ele precisa recorrer a esse tipo de magia… talvez seja apenas uma alma infeliz.
— Ele certamente é um infeliz. — Rony zombou.
Luna suspirou, exasperada.
— Devíamos demonstrar mais respeito. Afinal, Harry, o projeto de direitos das criaturas mágicas que você defende foi aprovado por Malfoy.
Hermione se virou para Harry, sorrindo.
— Estou tão orgulhosa de você.
Os meninos ainda pareciam incomodados com o assunto, mas Hermione não queria mais pensar em Draco Malfoy naquela noite.
Aquela era a noite de Luna.
E assim, entre risadas e histórias, jantaram como a família que sempre foram.
Quando Dobby a levou ao quarto, Hermione se encantou com cada detalhe romântico da decoração.
E naquela noite, sob o céu estrelado, dormiu rapidamente.
Sem saber que o mistério ao seu redor apenas começava.
Na manhã seguinte, Hermione despertou mais cedo do que pretendia. Aproveitou o tempo extra para caprichar no visual: cabelo e maquiagem impecáveis.
Escolheu um vestido verde apple, de alças finas e decote em formato de coração.
Quando desceu para a grande sala de jantar, onde o café da manhã seria servido a todos os convidados, notou duas mesas: uma menor e outra consideravelmente maior.
Havia uma distância entre elas.
Dez metros. Hermione concluiu.
A maioria dos convidados já estava acomodada. Não demorou a perceber que havia muito mais pessoas do lado de Goyle do que de Luna.
Luna convidara seu pai e alguns amigos próximos. Dumbledore também fora chamado, mas só chegaria no dia do casamento.
O restante dos presentes era, em sua maioria, convidados de Goyle. Entre eles, Astoria Greengrass e suas amigas, toda a família dele e, é claro, a cúpula de Malfoy. Seus subordinados.
Hermione refletiu sobre aquilo. Esse segredo seria compartilhado com muitas pessoas.
Ao se aproximar, avistou Harry e Rony sentados lado a lado. Do outro lado de Harry estava sua noiva, a quem Hermione cumprimentou com dois beijos e um abraço. Depois, acomodou-se no assento entre Rony e um dos amigos de Goyle.
Ficava exatamente de frente para a outra mesa.
Ele ainda não havia chegado.
Hermione conversou livremente com Rony. Falavam baixo e riam do jeito como algumas pessoas lançavam olhares tortos para ela.
Rony parecia se divertir imensamente.
Então, as portas duplas do outro lado do salão se abriram — sozinhas.
Ele entrou.
Caminhava muitos passos à frente de sua cúpula, e seu olhar foi diretamente para Hermione.
Ela desviou rapidamente.
Estava vestido inteiramente de preto. Um terno completo, com um colete que acentuava seu torso forte. Mais forte do que Hermione se lembrava.
Muito mais bonito.
E parecia muitas vezes mais perigoso.
Mais alto também. Não sabia como, nem se isso era possível.
O cabelo, penteado para o lado, estava maior do que no habitual corte que ele usava em Hogwarts. Um estilo elegante, quase digno de um príncipe da Disney, que suavizava seu rosto de vilão.
Um maxilar quadrado e bem definido, sem qualquer vestígio de barba.
A boca rosada, perfeitamente desenhada, estava cerrada.
Talvez o mau humor matinal fosse sua sina. Ele sempre fora assim, todas as manhãs que Hermione se lembrava.
"Só pode ter sido uma impressão…" Hermione tentou se convencer.
Mas, quando voltou a olhar para ele, sentado à extremidade da mesa, percebeu que ele ainda estava olhando em sua direção.
Ela não queria pensar que aquele olhar era para ela.
Mas, por um instante, seus olhos se encontraram.
Foi quando ele desviou e chamou Dobby.
Sussurrou algo para o elfo, que assentiu antes de se afastar.
Hermione observou tudo através da visão periférica.
Ele precisava falar.
"Não entra na mente de Dobby," Hermione concluiu. Então oclumência pode funcionar contra ele. Luna pode estar errada.
Forçou-se a continuar prestando atenção no que Rony dizia sobre nadar no mar, mas sentia uma energia estranha ao seu redor.
Talvez fosse o poder desmedido de Malfoy.
Talvez Harry estivesse certo.
E então, quando não conseguiu mais segurar, olhou novamente para ele.
E sentiu que ele sabia.
Sabia que ela estava olhando.
Mas não retribuiu.
Ele apenas segurou sua xícara de café, os olhos fixos no líquido escuro, e sorriu.
Um sorriso lento, quase distraído.
Como se estivesse perdido em pensamentos.
Todos à sua mesa estavam em silêncio. Ninguém lhe dirigia a palavra.
Hermione notou a disposição dos lugares.
Todos ao redor dele eram, de certa forma, uma escolta.
Goyle estava ao seu lado, partilhando a refeição em absoluto silêncio.
E ainda assim, ele sorrira.
Um sorriso que fez Hermione desviar o olhar.
Um sorriso que a arrepiou.
Ela estava definitivamente assustada com a magnitude do poder que ele emanava.
Luna conversava animadamente com o pai, alheia à tensão que tomava conta de Hermione.
E Hermione…
Ela não sabia nomear o que estava sentindo.
Mas assustava-se com a profundidade dos sentimentos que surgiram no instante em que o viu.
Respirou fundo.
Estava sem prática.
Já conseguira evitar olhá-lo diretamente.
Mas era mais fácil antes, quando ele sempre estava de costas para ela.
Porque sua visão constante era a nuca dele.
A nuca mais bonita que já vira.
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