Sonhando com Malfoy
9 Capítulo 6 | Surpresas
E no momento em que Hermione confirmou sua identidade, Luna desmaiou.
Desfaleceu bem diante dela.
O susto percorreu o corpo de Hermione como um choque elétrico. Ela olhou para o portão fechado e, com uma velocidade assustadora, percebeu que havia algo errado. Sua mente sabia que aquele obstáculo era simples, mas, por algum motivo, ela não conseguia lembrar como usar magia para abri-lo.
Como se todas as suas lembranças estivessem... inacessíveis.
O desespero cresceu dentro dela. Instintivamente, Hermione estendeu a consciência para tocar as memórias bloqueadas. E, então, percebeu que conseguia alcançá-las através de Legilimência.
Naquele instante, recordou-se: enquanto Snape lhe retirava as memórias, ela acordou.
E um processo como aquele não poderia ser interrompido. Se alguém despertasse no meio da extração, as lembranças voltariam. De uma forma ou de outra. Mas para que isso acontecesse, era necessário um gatilho.
Ela se viu de volta naquele momento, dentro da mente de sua versão adormecida. Lembrava-se de ter mantido os olhos fechados, forçando a respiração a se manter calma, fingindo que ainda estava em sono profundo. Sabia que o sucesso do feitiço dependia disso.
Mas algo deu errado.
Mesmo sem que percebesse, suas memórias não haviam sido apagadas de uma só vez. Em vez disso, sumiram gradativamente, à medida que sua própria mente começava a rejeitar a ideia de que era uma bruxa. Cada pensamento foi moldado com precisão cirúrgica, empurrando-a para longe da magia sem que ela notasse.
Um mecanismo perfeito. Um esquecimento que não parecia um esquecimento.
Respirando fundo, Hermione estendeu a mão e, sem precisar da varinha, murmurou um feitiço mental simples. O portão se abriu com um clique. Ela se ajoelhou ao lado de Luna e pegou um pequeno frasco de álcool 70 dentro da bolsa. Com delicadeza, aproximou-o do nariz da amiga.
Luna despertou quase imediatamente.
— Hermione… — sua voz saiu fraca, como um sussurro.
— Sou eu, minha amiga — respondeu Hermione, sorrindo com carinho. — Precisamos ir para algum lugar antes que eu morra de frio.
Ainda deitada na neve, Luna sorriu, lágrimas escapando dos cantos de seus olhos.
— Claro. Vamos à casa de Harry... talvez ele desmaie também. — Ela riu baixinho, sentando-se com um pouco de dificuldade. — Prepare-se.
Antes que Hermione pudesse responder, Luna a puxou para um abraço apertado e, juntas, aparataram.
O frio continuava cortante quando chegaram ao novo destino. Mas, dessa vez, estavam diante de uma casa pequena, envolta pela neve.
A residência tinha cores pastéis de amarelo e uma chaminé que soltava um fio de fumaça. Seu formato clássico lembrava as casas aconchegantes do interior da Europa. Um pequeno portão de ferro adornava a entrada, cercado por um jardim coberto pelo gelo do inverno.
Hermione seguiu Luna até a varanda e observou enquanto a amiga batia na porta. Nenhuma resposta.
— Ele não está em casa — murmurou Hermione.
Luna suspirou.
— É compreensível. Harry trabalha bastante.
Ela hesitou por um instante, depois olhou para Hermione com seriedade.
— As cidades mágicas estão sendo patrulhadas por Dementadores. Vou te levar para um lugar seguro.
Hermione mal teve tempo de reagir.
Mais uma vez, o mundo girou ao seu redor.
Quando abriu os olhos, estavam em meio a uma floresta congelada. O vento cortante fez seus ossos estremecerem. O cenário era ainda mais frio do que os lugares onde estivera há poucos segundos. Mas o que realmente chamou sua atenção foi a construção à sua frente.
Uma cabana grande e envidraçada, com dois andares e um design triangular que se destacava entre as árvores cobertas de neve. As madeiras escuras davam um ar sofisticado, quase gótico. Do lado de fora, havia uma fogueira pronta para ser acesa, mesas e cadeiras rústicas, uma churrasqueira e até uma hidromassagem climatizada.
Era luxuoso e rústico ao mesmo tempo.
E, de alguma forma, Hermione sentiu que aquele lugar guardava mais segredos do que poderia imaginar.
Hermione caminhou com dificuldade até a porta. Seu corpo ainda estava fraco do frio.
— Aqui é o lugar mais seguro para se estar até Harry chegar — disse Luna, abrindo a porta.
Assim que Hermione entrou, foi envolvida por uma onda de calor acolhedora. O ambiente estava aquecido, certamente por um encantamento que mantinha a temperatura confortável.
— Nossa! — exclamou Hermione, afundando-se no sofá em frente à lareira. — Isso está perfeito.
Lá fora, o frio era cruel. E não era exagero dizer que ela estava, de fato, morrendo congelada.
Fechou os olhos por um instante, aproveitando a sensação de calor, até que a voz de Luna quebrou o silêncio:
— Você não devia se lembrar de como chegar até minha casa. E, a essa altura, depois de quatro anos... você devia se lembrar bem pouco de mim, de Harry e de Ron. — Luna sentou-se ao lado dela, a expressão confusa. — E, apesar de estar feliz em te ver, eu não consigo entender.
Hermione ficou em silêncio, reunindo os pensamentos antes de responder.
— Quando te vi, me lembrei de tudo. Mas algumas coisas realmente desapareceram ao longo desses anos… — Ela respirou fundo. — Eu acordei enquanto o professor Snape estava no processo de apagar minhas memórias. Tive que me manter imóvel para não denunciar meu despertar.
Fez uma pausa, as lembranças voltando em fragmentos.
— Voltei a dormir logo depois. Mas aquele curto momento em que estive desperta... foi o suficiente para desestabilizar o feitiço.
Se sua memória brilhante não estivesse falha, Hermione lembrava de ter aprendido no quinto ano que despertar no meio de um processo como aquele condenaria a Legilimência.
Luna, sem hesitar, puxou-a para um abraço apertado.
— Graças a Deus, você se lembra de tudo! — exclamou, radiante. O mais feliz que estivera em quatro anos.
Hermione sorriu e se afastou levemente.
— Inclusive e infelizmente, me lembro da minha paixão platônica por…
Antes que pudesse terminar a frase, Luna cobriu sua boca com a mão.
— Esqueci de te contar algo importante. — Luna olhou ao redor, como se certificando-se de que estavam sozinhas. — Estamos em uma ilha, nos limites do sul do Mar da Irlanda.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— E essa ilha…? — incentivou.
Luna hesitou.
— Essa ilha pertence a Draco Malfoy.
O choque percorreu Hermione como um raio. Ela se levantou de pronto.
— O quê?! O que diabos estamos fazendo na ilha dele? — Seus olhos correram pelo ambiente, como se buscassem algo que entregasse segundas intenções. — Malfoy é um extremista opressor! Ele e seus amigos me apelidaram de “Sangue-ruim” por anos!
Luna suspirou, mantendo a calma.
— Nós não sabemos se ele alguma vez te chamou assim — disse lentamente. — Pelo menos, nunca ouvimos ele dizer qualquer coisa.
Hermione cruzou os braços.
— Como se isso fizesse diferença…
Luna hesitou de novo, como se estivesse escolhendo bem suas próximas palavras.
— Mesmo depois que você foi embora, jamais o ouvi dizer qualquer coisa sobre você.
Hermione estreitou os olhos.
Luna respirou fundo antes de continuar.
— Eu sempre venho a esta cabana com Greg… — Sua voz saiu quase num sussurro.
Hermione piscou, confusa.
— Greg…?
Luna desviou o olhar, fixando-se na neve do lado de fora.
— Eu gosto muito de neve. E aqui… — Mordeu o lábio antes de continuar. — Essa ilha foi encantada para nevar o ano inteiro. Malfoy odeia a primavera e o verão.
Hermione estreitou os olhos ainda mais.
— Quando você diz Greg… — perguntou pausadamente, já temendo a resposta.
Luna soltou um suspiro resignado.
— Quero dizer Gregory Goyle.
Um silêncio pesado preencheu a sala. Hermione encarou a amiga como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais absurda de sua vida.
— Posso perguntar… exatamente o que diabos você faz com Gregory Goyle nessa cabana… deveras romântica?
Luna corou.
— Estou apaixonada por ele, Hermione.
Hermione ficou boquiaberta.
Luna suspirou de novo, desviando o olhar para a grande sacada envidraçada.
— Não sei se estou preparada para descrever o que acontece nessa cabana.
Hermione se aproximou lentamente e a abraçou por trás.
— Nem quero saber, pra ser sincera. — Fingiu um arrepio. — Me deixaria enjoada.
Fez um falso gesto de vômito, e Luna riu.
Elas riram juntas.
E, por um momento, o peso das últimas revelações pareceu mais leve.
Hermione não teve tempo para digerir aquela informação. Seu tempo ali era curto, e a única coisa que podia fazer era aceitar.
— Eu não acredito que você está aqui.
Luna voltou a chorar, segurando os braços de Hermione que ainda estavam ao seu redor.
— Por favor, não chore, ok? — Hermione secou as lágrimas da amiga assim que ficaram frente a frente. O cenário da floresta ao redor era deslumbrante. — Eu também não posso acreditar que estou na casa dos Malfoy.
As duas riram, como se a tensão precisasse de uma válvula de escape.
— Ah, essa não é a casa dele. — Luna a puxou pela mão. — É só uma cabana que ele construiu sozinho. A casa está ali.
Ela a conduziu até uma pequena janela lateral.
Hermione prendeu a respiração.
No horizonte, um castelo imenso e sombrio se erguia contra o céu nublado. O estilo gótico era imponente e, de alguma forma, aterrorizante. Mesmo de longe, era possível ver gárgulas esculpidas nas torres e vitrais que brilhavam fracamente sob a luz cinzenta.
E além do castelo, o mar.
A ilha.
O jardim ao redor era vasto e bem cuidado, com rosas vermelhas espalhadas em fileiras perfeitas.
Hermione estremeceu.
— Ele está lá? — perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.
Luna suspirou.
— Nessa época do ano, não. — Sua expressão ficou sombria. — Ele sempre fica incomunicável nessa época.
Hermione sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao se lembrar de algo importante.
— Os dementadores… — virou-se para Luna, séria. — O que eles estão procurando?
A amiga hesitou antes de responder.
— Estão se certificando de que não existem nascidos-trouxas desse lado.
Hermione sentiu o sangue gelar.
Luna se virou em direção ao castelo.
— Às ordens de Malfoy. — Sua voz era quase um sussurro. — Ele se tornou o ministro da magia mais jovem da história. O cargo não é remunerado… faz parte do seu trabalho filantrópico.
Ela soltou uma risada amarga.
— Dá para acreditar?
Hermione não respondeu.
Seus pensamentos foram inundados por memórias que até então pareciam intocadas.
Draco Malfoy.
Seu rosto. Seu cabelo. Seu corpo.
O sorriso raro, sempre carregado de malícia.
Os olhos frios e vazios, que a fitaram apenas uma vez.
O passado veio como um vendaval, trazendo consigo a lembrança dolorosa do desprezo.
— Sim, dá para acreditar. — murmurou, a voz fraca. — Que pena… Eu deveria odiá-lo.
— Esse certamente é um bom começo. — Luna disse de pronto.
O assunto não foi além.
A paixão que Hermione nutrira em segredo por Malfoy não foi mencionada entre elas naquela noite.
E talvez jamais fosse.
Quando finalmente recebeu notícias de Harry e Ron, Hermione não hesitou. Aparatou para buscá-los.
Ela se perguntou, naquele breve instante entre um destino e outro, até que ponto estar naquela ilha era realmente seguro.
Será que Malfoy realmente não sabia que ela estava ali?
Porque, se soubesse...
Ela tremeu.
Se soubesse, já teria vindo matá-la.
O pensamento a aterrorizou de um jeito que ela não quis explorar.
E então, os viu.
Harry, Ron e Luna estavam diante dela.
Luna sorria, observando a reação dos dois.
Harry foi o primeiro a se mover.
Os olhos se encheram de lágrimas antes que ele corresse para abraçá-la.
O impacto do abraço a fez perder o fôlego por um segundo.
— Você me prometeu que viria me ver, Harry Potter — murmurou contra seu ombro.
Sentiu o aperto aumentar.
Era ele.
Exatamente como se lembrava, e ao mesmo tempo… diferente.
Agora, Harry usava barba. O traço envelhecia um pouco seu rosto, mas combinava com seu visual clássico.
Ele vestia um terno em tons pastéis. A calça marrom e os sapatos Oxford lhe davam um ar distinto.
E ele cheirava diferente.
Hermione franziu a testa contra o tecido do paletó.
Harry nunca usara perfume antes.
— Eu tentei. — A voz dele estava embargada.
Ele afastou-se ligeiramente, tocando o rosto dela com cuidado.
— Juro que tentei.
Ron foi o próximo a abraçá-la.
Ele parecia diferente.
A expressão de sofrimento estava estampada em seu rosto, como se algo dentro dele doesse profundamente.
Vestia preto. Completamente preto.
O tom escuro contrastava com sua ruivisse intensa, tornando-o ainda mais pálido sob a luz fraca.
Ele não usava barba, e os cabelos estavam mais curtos do que Hermione se lembrava. As sardas espalhadas por seu rosto denunciavam que havia passado muito tempo ao sol.
Ron hesitou por um segundo antes de murmurar:
— Hermione… eu nem sei o que dizer.
Ela não deixou que ele terminasse.
O abraçou com força.
— Não precisa dizer nada, Ron. Eu estou aqui agora.
Era tudo o que importava.
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Hermione havia avisado sua mãe que não voltaria até a manhã de sábado. Disse que precisava ver Bichento, que andava se escondendo desde a visita de Mônica.
Era só uma desculpa, mas pelo menos garantiu que ele estava bem alimentado antes de partir.
Agora, ela podia aproveitar aquele momento sem pressa.
Harry e Ron não perguntaram onde estavam, mas o interesse estava nítido em seus olhares.
Provavelmente, Luna os fez jurar que não questionariam.
No entanto… nada disso importava.
Eles estavam juntos.
E era só isso que importava.
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Hermione preparou uma de suas receitas de família: um assado delicioso e uma torta de limão que derretia na boca.
Abriu o vinho que trouxera, e os três passaram a noite conversando.
Em algum momento, ficaram tão conectados que aparataram até outra cidade para comprar cerveja.
Quando voltaram, já estavam bêbados. Muito bêbados.
Harry anunciou que estava noivo de Ginevra.
Hermione piscou algumas vezes, absorvendo a informação.
— O quê? — Sua voz saiu um pouco mais alta do que esperava.
Harry riu, sem jeito, enquanto servia mais vinho para si mesmo.
Ron, no entanto, parecia distante.
Havia um peso em seu olhar, uma melancolia que Hermione não soube identificar de imediato.
Ele contou que estava tentando seguir carreira no jornalismo. Disse que o trabalho de Auror já não era o mesmo.
— Os Aurores não caçam mais bruxos das trevas — explicou, girando o copo na mão. — Agora, só fiscalizam. Certificam-se de que os bruxos das trevas não ferem nem perseguem ninguém.
Hermione franziu a testa.
— Mas eles ainda podem usar magia?
— Sim. — Ron deu um gole longo na cerveja. — Desde que seja em defesa própria.
Ela trocou um olhar com Harry.
Era estranho. Muito estranho.
Harry, por sua vez, trabalhava com o pai e estudava para se tornar professor de Alquimia.
O que, na opinião de Hermione, era perfeito para ele.
E Luna…
Bom, Luna era curandeira.
É claro.
Hermione sentiu o peito aquecer de orgulho.
Eles estavam seguindo seus caminhos, construindo suas vidas.
E ela?
— Bem, eu ainda estou estudando. — Suspirou, sentindo-se presa no tempo. — Isso é tão frustrante.
Harry sorriu para ela.
— Você está no tempo certo.
Seus olhos brilharam.
Por um instante, Hermione teve a impressão de que ele estava prestes a chorar novamente.
Talvez ainda não conseguisse acreditar que ela estava ali.
Que, depois de tanto tempo, eles estavam juntos de novo.
Luna, por outro lado, nunca havia ficado bêbada antes.
Mas naquela noite, ela se permitiu.
Porque aquele momento era especial.
Hermione guardaria para sempre aquela lembrança em seu coração.
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— Amo vocês.
As palavras saíram naturalmente, sem hesitação.
Hermione sorriu antes de levar as mãos ao próprio pescoço.
Com delicadeza, soltou o fecho do colar que usava e o retirou.
Então, segurou o pingente entre os dedos por um instante antes de entregá-lo a Luna.
— Comprei isso para você há três anos.
Luna arregalou os olhos ao reconhecê-lo.
Ela tocou o pequeno pingente com delicadeza, como se fosse algo precioso.
Seus lábios tremeram.
— Hermione…
E então, chorou de novo.
O tempo passou rápido demais.
Quando Hermione olhou o relógio, já eram sete da manhã.
Ela precisava sair antes do prazo final.
Se queria voltar um dia, não podia abusar da sorte.
Os quatro saíram da cabana e caminharam um pouco pela floresta antes de aparatarem para a estação.
Na plataforma, Hermione abraçou cada um deles o mais forte que pôde.
Não havia promessas.
Não havia planos concretos.
Eles apenas torciam para que aquele encontro se repetisse.
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Quando Hermione passou pelo portal de volta ao mundo trouxa, sentiu o impacto do silêncio ao seu redor.
Andou até seu carro.
Estava sóbria agora, mas ainda assim… preferiu chamar um Uber.
A noite inteira parecia um sonho distante.
Quase como se nunca tivesse acontecido.
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Ao entrar em seu apartamento, foi recebida por um miado longo e impaciente.
Bichento veio correndo em sua direção e saltou para seu colo, como se tivesse sentido sua falta.
Hermione sorriu, acariciando seu pelo macio.
Ela estava feliz.
Feliz de verdade.
Não havia promessas…
Não havia garantias…
Mas talvez, só talvez, aquele momento pudesse acontecer de novo.
Hermione tomou um banho e dormiu por algumas horas.
Quando acordou, retomou sua rotina.
Estudou até tarde.
Pediu para que suas amigas lhe enviassem os materiais daquele dia.
E não se perguntou muito sobre por que as coisas eram como eram agora.
Ou como aquilo estava acontecendo do outro lado.
Como eles podiam realmente estar aniquilando nascidos trouxas que ainda insistiam em viver como eram?
Era maldoso e mesquinho em níveis que Hermione nem conseguia imaginar.
Ela tentou não pensar muito naquilo. Afinal, o que poderia fazer? Não havia como mudar o que acontecia lá.
Mas agora que se lembrava, um impulso involuntário tomou conta dela.
Seus olhos procuraram pela foto que sabia ter sumido da última vez que buscara. Era impossível reprimir aquele desejo.
Ela ansiava por vê-lo. Seu rosto.
O livro onde guardava sua foto. O anuário, onde ele aparecia como destaque — um atleta excepcional, brilhante em todas as matérias.
Como ele podia ser tão bom em tudo?
Hermione sempre se perguntou.
Como podia parecer tão lindo e etéreo? Como a maldade podia ser vista através dele?
Ele não parecia estar vivo.
Sequer humano.
O sangue do dragão pulsando em suas veias.
A pele muito clara. Os cabelos platinados, sempre perfeitamente arrumados, como se a perfeição fosse obrigatória.
Hermione se perguntou como ele estava agora, agora que realmente era um homem.
Ron e Harry estavam diferentes até no jeito de andar.
E ele?
Será que ainda parecia um ser das trevas?
Será que se lembrava dela?
Hermione queria saber.
Ela daria qualquer coisa para vê-lo.
Apenas curiosidade, disse a si mesma.
Nada mais.
Ela garantiu a si mesma, encarando o próprio reflexo no espelho.
Seus cabelos estavam uma bagunça, rebeldes como sempre. Os cachos volumosos e definidos desciam até a cintura, mais longos do que em Hogwarts.
Mas apenas cabelos médios eram permitidos, lembrou-se subitamente. Para evitar acidentes… Para que fios soltos não caíssem dentro de poções.
Uma informação antiga, escondida em sua mente.
Tudo estava ali, o tempo todo.
Mas parecia fugir dela.
Se esgueirando em sua memória.
Hermione voltou a usar magia para absolutamente tudo — até mesmo para secar os cabelos.
O tempo extra lhe permitiu um bônus: voltar a correr em volta do lago.
O exercício a deixava revigorada.
Durante as férias, viajou para a Suíça para buscar seu colar.
Guardado em um dos cofres do calabouço de sua propriedade, esperava por ela.
Hermione colocou a relíquia em seu pescoço e decidiu que teria mais tempo para qualquer outra coisa que desejasse.
Quando voltou às aulas, era quase como antes.
Mas não exatamente.
Usava roupas de lã em um estilo romântico.
Amava vestidos vermelhos, rosas e lilases.
E vestidos verdes.
Antes, limitava-se a preto, tons pastéis, cinza e branco.
Agora, usava cetim e seda.
Jaquetas jeans.
Maquiagem delicada, cílios bem marcados.
Se antes chamava atenção, agora parecia brilhar.
Ela estava feliz.
Grata.
Grata por estar viva.
Grata por saber que seus amigos estavam bem.
Vivia feliz para que, quando se reencontrassem, eles pudessem sentir orgulho da mulher forte, feliz e confiante que se tornara.
Sem a habitual tristeza que outrora vestira.
Ela ainda se sentia incompleta.
Ainda sentia a falta deles.
Mas precisava ter esperança.
Não era como antes. Agora, ela se lembrava de quem era. Lembrava dos detalhes que moldaram sua personalidade.
Todos comentavam sobre as mudanças em sua forma de ser. Ela parecia brilhar.
E era exatamente assim que Hermione se sentia.
No controle.
Usava magia para abrir portas, janelas… às vezes, até para dirigir o carro enquanto resolvia detalhes importantes.
E, antes que pudesse se dar conta, estava se formando em Medicina.
A residência logo começaria. Um novo ciclo.
O hospital a esperava.
Ela estava finalmente ali.
Quando vestiu o uniforme pela primeira vez, lágrimas encheram seus olhos.
Mal podia acreditar que chegara até ali.
E ainda havia tanto caminho a percorrer…
Mas evitou pensar nisso.
Agora, era a "Doutora Granger".
Seu pai estava orgulhoso.
A formatura foi cheia de pompas — e Hermione odiava pompas.
Mas havia formalidades das quais simplesmente não podia fugir.
Ainda assim, o início da residência lhe trouxe uma sensação inesperada de alívio.
Era a mais jovem entre os residentes. Nunca mencionava isso, mas as pessoas sempre se surpreendiam. Ora por sua beleza, ora por sua jovialidade fresca e sorridente.
Ela era tão diferente do que fora nos primeiros anos…
Quase como se algo tivesse sido apagado.
Mas, no fundo, não podia negar:
Ela sonhava com ele.
Malfoy.
O sorriso diabólico dele ainda assombrava sua mente, fazendo seu coração acelerar.
Ela não podia evitar.
Nunca conhecera alguém mais bonito.
Parecia destinada a compará-lo com todos.
E, a essa altura…
A essa altura, ele já devia estar pensando em se casar.
Se já não estivesse casado.
Hermione sacudiu a cabeça, afastando o pensamento.
Saiu do banheiro do hospital e seguiu para um estudo dirigido. Precisava se concentrar. Finalmente poderia colocar tudo o que aprendeu em prática.
Precisava parar de sonhar acordada com aquele rapaz.
Jamais o veria de novo.
Mas, às vezes, a lembrança daqueles olhos… daquela aparência impecável…
Lembrava que, em algum lugar do mundo, havia uma criatura que ela desejava com todas as forças.
E se perguntava quando aquilo mudaria.
Se um dia mudaria.
Após mais um plantão de 48 horas, Hermione foi até suas plantas.
Ainda de uniforme, usou magia para ajudá-la, mas segurou a mangueira para regar suas flores favoritas com as próprias mãos.
Conversava com elas no processo.
Foi então que Bichento surgiu, carregando uma carta.
O envelope prateado era luxuoso, brilhante. O papel estruturado e pomposo indicava um convite.
Dois selos lacravam a aba.
Hermione reconheceu um deles de imediato.
Lovegood.
O outro, no entanto, exigiu um pouco mais de esforço.
O brasão era diferente. Repleto de sigilos mágicos.
Nada simples como o da família Lovegood.
O coração de Hermione disparou.
Não podia ser…
Abriu o envelope.
Confirmou suas suspeitas.
Sim.
Era o convite para o casamento de Luna Lovegood e Gregory Goyle.
Hermione sentiu o mundo girar. Tontura.
Estava exausta.
Três pacientes perdidos nas últimas 24 horas.
Seus olhos correram pelo pergaminho:
Hermione Granger,
É com imenso prazer e satisfação que convidamos você para testemunhar nossa união.
Você será um membro do cortejo, então espero que escolha um vestido que espelhe seu espírito alegre e gentil.
Nos casaremos em um lugar que não existe mais, nos limites do Triângulo das Bermudas, onde o clima é para sempre primavera.
A data?
Há mais de 1500 anos.
O clima perfeito vai animar você! Traga um traje de banho.
Não se preocupe, o portal que usará será bastante especial. Não importa quanto tempo fique na ilha, apenas um minuto terá se passado em sua realidade habitual.
É seguro.
Não podemos revelar aqui o dia exato, por sua segurança.
Esteja pronta.
A partir do momento que abrir esta carta, pode acontecer a qualquer momento.
Dobby irá buscá-la.
Corra.
Assim que terminou de ler, a carta começou a queimar sozinha.
Uma chama azul brilhante tomou conta do pergaminho, consumindo-o em segundos.
Nenhuma cinza restou. Apenas um leve brilho residual, como se a magia ainda estivesse presente no ar.
As palavras haviam desaparecido, mas o peso delas ficou em seu peito.
Hermione sentiu as pernas fraquejarem.
Estava exausta.
Não tinha forças nem para sentir felicidade.
Ainda não havia processado aquilo direito.
Ela veria seus amigos.
Apenas três anos depois do último encontro.
Respirou fundo.
Precisava dormir.
Precisava se recuperar.
Mas, ao invés disso, tomou um banho e preparou uma poção que a manteria acordada.
Ainda havia uma missão a cumprir.
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