Sonhando com Malfoy
2 Capítulo 1 | Fazendo amigos para a vida toda.
Quando Hermione entrou no Expresso de Hogwarts pela primeira vez, um pânico súbito tomou conta dela. Sentia como se não pertencesse àquele lugar, como se estivesse invadindo um espaço que não era seu ou fazendo algo impróprio. Sentia-se deslocada, confusa. Afinal, ela era uma trouxa.
A visita do diretor Dumbledore à sua casa trouxe algum alívio. Ele havia segurado sua mão com gentileza e, com uma expressão tranquilizadora, dissera:
— Você não é louca, senhorita Granger. Apenas está confusa, mas eu vou ajudá-la.
Ele conversou longamente com seus pais, que já sabiam sobre o parentesco distante e compreendiam a peculiaridade de ela enxergar fantasmas o tempo todo. Eles observavam há tempos Hermione se sentir estranha e adoecer frequentemente, incapazes de encontrar uma explicação no mundo trouxa. Dumbledore esclareceu que seu corpo estava processando a vida não mágica de forma inadequada. Caso permanecesse naquele ambiente, seu estado de saúde poderia se deteriorar até um ponto irreversível.
Havia algo de inquietante no que Dumbledore explicou: bruxos nascidos trouxas eram vistos como almas amaldiçoadas, ao menos por aqueles que ainda cultivavam preconceitos arcaicos.
Era essencial que Hermione frequentasse Hogwarts para aprender a se proteger e entender seu lugar no mundo mágico. No entanto, o retorno ao mundo trouxa seria inevitável, pois, há mais de uma década, casamentos entre bruxos e trouxas estavam proibidos.
A rejeição aos mestiços era feroz e violenta, alimentada pelo medo de que a magia desaparecesse diante da diluição das linhagens puras. Era essa ameaça que alimentava o comportamento cruel de muitos bruxos de sangue puro em relação aos nascidos trouxas.
Quando Hermione foi escolhida para a Grifinória, o chapéu seletor fez um discurso intrigante, ressaltando sua inteligência e coragem, antes de finalmente anunciá-la como uma leal integrante da casa dos leões.
Logo fez amigos inseparáveis: Harry Potter e Rony Weasley. A amizade entre eles floresceu desde o primeiro jantar em Hogwarts, quando se sentaram juntos na mesa da Grifinória.
O último aluno a ser chamado pelo chapéu seletor naquela noite era ninguém menos que Draco Malfoy.
Mesmo tão jovem, ele já parecia brilhar como uma entidade superior. Seus cabelos loiros quase prateados e os olhos cinzentos, profundos como o oceano, conferiam-lhe uma beleza etérea. Não era uma aparência humana comum, e Hermione, aos seus 11 anos, pôde perceber imediatamente a grandeza que o nome Malfoy carregava.
Draco foi recebido calorosamente pelos colegas da Sonserina, e logo se tornou inalcançável para qualquer outro aluno. Até mesmo Harry, com toda a sua fama e história poderosa, parecia pequeno diante do jovem Malfoy.
Os sonserinos, no entanto, ignoravam Hermione por completo. Apesar dos avisos de Dumbledore sobre possíveis provocações e bullying, eles preferiam agir como se ela não existisse. Eram altivos, como se acreditassem realmente ser superiores.
Ainda assim, Hermione não conseguia evitar observá-lo. Draco raramente dirigia a palavra a alguém, mesmo cercado por seus colegas. Havia uma aura de solidão nele que Hermione sentia, ainda que não pudesse explicar por quê.
Numa manhã fria de inverno, em um fim de semana em que Hermione decidira não acompanhar Harry e Rony até Hogsmeade, foi chamada pela professora Minerva McGonagall.
Já havia se passado um semestre desde que chegara a Hogwarts. Nesse tempo, além de Harry e Rony, fizera outra grande amiga: Luna Lovegood, da Corvinal. Apesar de pertencentes a casas diferentes, Luna aproximou-se de Hermione por pura curiosidade e gentileza. As duas se conectaram ao dividirem uma tarde de estudos na biblioteca, em que uma conversa espontânea se transformou em risadas e confidências.
Na sala da professora McGonagall, Hermione sentou-se na cadeira à frente da mesa, como solicitado. A diretora da Grifinória a observava com atenção, enquanto Hermione esperava, ansiosa, pelo motivo daquele encontro inesperado.
A sala de Minerva McGonagall era tão grande quanto a de Dumbledore, imponente e austera. Hermione sentiu-se pequena ao entrar, o ar carregado pela seriedade da professora.
— Tem algo errado? — perguntou, com um nó na garganta, tentando manter a compostura.
Minerva suspirou, olhando-a com um misto de preocupação e pesar.
— Você demonstra medo deles — começou, com um tom grave. — Logo eles vão perceber isso, e é aí que o problema começa. Aqueles garotos vão crescer, Hermione. Vão crescer acreditando que você está à margem, que é inferior. E, quando isso acontecer, vão tratá-la pior do que tratam uma barata.
Hermione arregalou os olhos, tentando absorver aquelas palavras tão duras, mas McGonagall continuou:
— Não os meninos de sua casa, mas os outros. Eles não te tratam assim hoje, mas em alguns anos vão querer drenar o que chamam de sua "maldade". E você será o alvo mais fácil. Vão te culpar se algum bruxo de sangue puro mostrar interesse em você. É assim que eles pensam. Você precisa tomar as rédeas dessa situação agora, antes que seja tarde demais. Entendeu?
Hermione não respondeu. Não porque não quisesse, mas porque não entendia totalmente. Tinha apenas 11 anos e não conseguia processar todas aquelas implicações. No entanto, suas lágrimas começaram a cair livremente. Ela sentia falta de casa, das amigas trouxas que sempre a tratavam com carinho, do irmão mais velho que perdera aos 15 anos para uma doença incurável.
Lembrava-se de como sua família foi devastada por aquela perda, do sofrimento diário que testemunhava nos pais e do espírito do irmão vagando pela casa, preso em sua negação.
Agora, ali em Hogwarts, mesmo com toda a dor, ela sabia que não era louca. Mas o peso da responsabilidade que carregava parecia insuportável.
Quando as aulas recomeçaram na segunda-feira, Hermione decidiu mudar sua postura. Gradualmente, começou a projetar uma imagem diferente. Criou para si a narrativa de que vinha de uma família trouxa extremamente rica. Seu pai, dizia, era um renomado neurocirurgião, e sua mãe, uma pintora famosa.
Passou a se vestir com os melhores tecidos trouxas, a usar sapatos impecáveis e a transformar o dormitório em um espaço equipado com a mais alta tecnologia trouxa que conseguiu trazer.
Ela começou a se destacar, não apenas por sua inteligência, mas por pequenos gestos que chamavam atenção. Quando Harry decidiu entrar no time de quadribol, Hermione comprou para ele a melhor vassoura disponível, um presente que o deixou sem palavras.
Ao retornar das férias, no terceiro ano, trouxe iPhones para seus três melhores amigos: Harry, Rony e Luna. Eles não precisavam dos aparelhos no mundo mágico, mas adoraram a ideia de poderem se comunicar como os trouxas, mesmo que utilizassem outros meios mágicos.
Com o tempo, aquela postura de confiança, que no início era apenas fachada, começou a se tornar parte dela. Contudo, Hermione detestava agir daquela forma — vazia e elitista. Fazia isso apenas por sobrevivência, para deixar claro que estava ali apenas para aprender e que, assim que fosse seguro, partiria de volta ao mundo trouxa.
Esse posicionamento pareceu surtir efeito, e os outros alunos começaram a respeitá-la.
No fim daquele ano, Hermione ficou em segundo lugar entre os alunos do seu ano, perdendo apenas para Draco Malfoy por uma diferença mínima de meio ponto. Por sugestão de Dumbledore, ambos foram homenageados.
Durante a cerimônia, o diretor sugeriu que os dois apertassem as mãos, em um gesto simbólico de respeito mútuo.
Hermione subiu ao palco, com as mãos trêmulas, mas Draco, sem sequer olhá-la, desceu imediatamente. Vestia um trench coat impecável adornado com um broche da Sonserina, sua postura altiva reforçando o distanciamento.
Ela observou de relance seu perfil sério, o rosto de um menino de 13 anos que já parecia um príncipe. Ele era mais alto do que qualquer outro garoto da série, e sua presença dominava o ambiente.
Quando Hermione desceu do palco, Gregory Goyle, o amigo mais próximo de Draco, aproximou-se dela.
— Nunca mais se dirija a ele de qualquer forma — declarou, a voz carregada de desdém. — Draco Malfoy jamais apertaria sua mão ou olharia para você. E, sinceramente, eu mesmo não quero olhar para você desde este dia.
O olhar de nojo que Goyle lançou a ela ficou gravado em sua mente, como uma ferida que demoraria a cicatrizar.
Draco estava junto à sua família, aparentemente alheio à movimentação ao redor. Seu olhar sério estava fixo em um iPhone.
Hermione franziu o cenho, surpresa. Não esperava que ele ou qualquer outro aluno da Sonserina usasse tecnologia trouxa, especialmente algo que ela mesma havia introduzido em Hogwarts.
A visão de Draco segurando o aparelho despertou nela uma sensação inesperada. Apesar da humilhação que enfrentara nas mãos de Goyle, ela sentiu um lampejo de satisfação ao perceber que algo que começara tinha sido adotado por outros, mesmo aqueles que sempre a trataram com desprezo.
"O que isso quer dizer?" — perguntou-se, enquanto suspirava.
Embora soubesse que era impossível Draco gostar dela, aquele pequeno gesto trouxe uma ponta de animação. Hermione afastou os pensamentos rapidamente, correndo para se juntar aos seus melhores amigos e aos membros de sua casa. Ali estavam Thiago e Lílian, que sempre a faziam sentir-se parte de algo maior.
Perto deles, Hermione não precisava manter a fachada de uma garota elitista. Ela podia ser apenas Granger, uma jovem trouxa que enfrentara seus próprios demônios no mundo trouxa e que encontrara refúgio no apoio de Alvo Dumbledore. Naquele ambiente, era simplesmente ela mesma, sem pretensões, sem artifícios.
O que ninguém sabia era que seus pais, apesar do sucesso, tinham origens humildes e nunca ostentaram sua fortuna. Eles a ensinaram que a humildade era a maior virtude, algo que Hermione se esforçava para proteger naquele ambiente competitivo.
O tempo passou, e quando os alunos chegaram aos 17 anos, concluíram seus estudos em Hogwarts. O próximo passo seria a universidade, localizada em outra dimensão dentro do próprio castelo, acessível através de uma transição mágica que mostrava as complexidades do mundo bruxo para os que prestavam atenção.
Hermione, no entanto, já tinha outros planos. Prometera a seus pais que voltaria a Londres, não apenas para as férias, mas para viver definitivamente no mundo trouxa. Tinha sido aceita na universidade onde seus pais haviam estudado e decidido que cursaria medicina, uma escolha que parecia natural para ela.
O que ela não sabia era como se despedir de seus amigos. Nunca mencionara que iria embora para sempre. Adiou aquela conversa por anos, acreditando que seria menos doloroso no futuro. Agora, porém, entendia que o adiamento só tornara tudo mais difícil.
Não havia um momento certo para dizer a amigos de uma vida inteira que ela deixaria o mundo mágico. E, uma vez de volta ao mundo trouxa, sua rotina estaria tomada pelos estudos e, mais tarde, pela especialização.
Hermione sabia que, com o tempo, seria esmagada pela realidade de ter de deixar essas amizades para trás. Mesmo assim, não tinha outra escolha senão seguir adiante, carregando o peso de sua decisão.
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