Sonhando com Malfoy
3 Capítulo 2 | Uma breve despedida...
Notas iniciais
A cerimônia de formatura havia sido breve. O baile começou logo em seguida, e Hermione vestiu um Valentino vintage que comprara por uma pequena fortuna. Ela sabia que queria encerrar aquele ciclo com chave de ouro.
Sentia, no entanto, a ausência dos pais naquele momento tão especial.
Ao chegar ao salão, encontrou seus amigos. Harry sorria enquanto acenava para ela, ao lado de sua quase namorada, e Ron exibia sua habitual expressão desanimada diante de qualquer festa. Luna, mesmo relutante, estava junto aos membros de sua casa.
No fundo, Hermione acreditava que, de algum modo, todos sabiam que ela não continuaria ali.
Ela não havia se inscrito em nenhum curso da universidade de magia nem feito planos para depois daquele baile.
Ao se aproximar, abraçou Harry com toda a força que conseguiu. Seria difícil soltá-lo.
O que deveria ser um abraço breve acabou se prolongando mais do que ela previra.
— Eu estou aqui... Nada pode acontecer a você. — Ele murmurou, acariciando seus cabelos enquanto o abraço se estendia. — Eu estou aqui. — Repetiu num sussurro reconfortante.
Quando finalmente o soltou, forçou um sorriso e abraçou os outros amigos de Grifinória, dessa vez de forma mais breve.
Ela sabia que teria de contar a eles naquela noite, mesmo que de um jeito estranho e desajeitado.
Hermione decidiu que o faria no final do baile, quando todos estivessem indo para o dormitório. Diria da forma mais animada que conseguisse.
Enquanto isso, dançou o mais animadamente que podia. Contudo, seu olhar vagava pelo salão, à procura de Draco. Sempre que não estava conversando com seus amigos, tentava encontrá-lo. Sem sucesso.
Foi Luna quem mencionou que ele estava nas salas superiores, os chamados "Camarotes". De lá, observava os alunos dançando no salão principal. Aqueles aposentos haviam sido reservados exclusivamente para Draco, que exigira expressamente não estar entre os demais.
E Hermione, de repente, lamentou não poder vê-lo uma última vez.
No fim da noite, caminhava com seus amigos pelos corredores rumo aos aposentos da Grifinória. Eles conversavam animadamente, mas Hermione subitamente parou.
Luna, sempre atenta, percebeu primeiro e também estacou. Em seguida, Harry e Ron pararam, confusos.
— Eu tenho algo a dizer, mas acho que vocês já sabem... — Hermione começou, hesitante. — Eu... Eu preciso voltar para a minha vida trouxa.
Era o melhor que conseguia dizer naquele momento. Nervosa e triste, as palavras pareciam não vir como gostaria. Lamentava não conseguir se expressar melhor. Mas, sendo uma Grifinória nata, ela não era de fazer rodeios.
Luna, de natureza gentil, já sabia que, inevitavelmente, sua amiga teria de partir. Mesmo assim, seus olhos se encheram de lágrimas.
Harry parecia letárgico, como se ainda processasse a informação. Já Ron reagiu como Hermione esperava: seu rosto assumiu uma carranca de dor.
— Eu... Eu sinto muito por não ter avisado antes. — Hermione tentou suavizar. — Mas, para compensar, só irei embora na segunda-feira. Isso nos dá mais três dias juntos. Vamos todos para a Toca, como planejamos. Não é maravilhoso?
Luna deixou as lágrimas deslizarem pelo rosto.
— Só três dias? — Perguntou, com a voz trêmula de tristeza.
Luna foi acolhida ali de um jeito que nunca fora pela sua própria casa. Ela carregava estranhezas que pareciam parte de sua essência. Luna via coisas que ninguém mais via, frequentemente vivia em seu próprio mundo e tinha uma preocupação constante em fazer com que as pessoas ao seu redor se sentissem bem.
Ela não se importava com o fato de que muitos tinham pensamentos cruéis sobre ela. Mas as ações maldosas, como esconder suas coisas ou lhe dar apelidos depreciativos, nunca prosperavam porque Hermione, Harry e Ron não permitiam. Eles a protegiam, mesmo quando Luna minimizava os atos, dizendo que "não fazia mal" ou que "eram apenas brincadeiras".
Hermione sempre admirou a aura de bondade de Luna e sua fortaleza ao lidar com a maldade dos outros.
Mas, ao vê-la chorar agora, percebeu que sua ausência seria a fraqueza de Luna.
Era algo que ela temia que os outros descobrissem, pois poderiam usar aquilo contra sua amiga, transformando sua vida universitária num verdadeiro inferno.
Na manhã seguinte, Hermione, Harry e Ron seguiram juntos até a estação de trem rumo à casa dos Weasley. Ron continuava triste, e Hermione podia perceber isso em cada gesto, mas ele não dizia nada.
Harry, por outro lado, permanecia letárgico. Falava sobre o clima, sorria sem motivo aparente — claramente, uma tentativa de não intensificar o sofrimento de Hermione e de seu amigo.
Já Luna estava mais calada do que o habitual.
Hermione segurou sua mão durante todo o caminho, tentando acalmar o espírito da amiga gentil, que parecia aflita com sua partida.
Hermione não havia previsto aquilo. Luna sempre fora tão forte, sempre parecia estar alguns passos à frente daqueles que a provocavam. Perdoava com facilidade e costumava rir das "travessuras" dos colegas que, para ela, não passavam de "coisas de criança".
Ao chegarem à Toca, foram recebidos por um almoço maravilhoso. A grande família Weasley, com sua bondade e simplicidade, oferecia um acolhimento único. Hermione os amava.
Os gêmeos, sempre animados, conduziam uma conversa empolgante sobre a universidade. Hermione ouvia atentamente, mas percebeu que a "quase" namorada de Harry ainda não havia chegado.
— Harry, onde está Ginevra? — Perguntou Hermione, num sussurro, ao se aproximar.
— Foi à cidade com as amigas. — Ele respondeu no mesmo tom.
Hermione sentiu-se um pouco menos culpada por não ter pensado em Gina até aquele momento, já na companhia da família dela.
O final de semana passou rapidamente. Durante esse tempo, Hermione ensinou a todos como usar um celular para que pudessem contatá-la sem depender de magia. Afinal, ela estaria cercada por trouxas durante sua estadia em Oxford.
No momento da despedida, até Molly Weasley, para surpresa de Hermione, chorou.
Ron ainda parecia arrasado. Por mais que ela tentasse conversar, ele a evitava, insistindo que estava bem e que isso passaria, pois sabia que o momento chegaria.
Na segunda-feira, Hermione retornou a Hogwarts para buscar suas coisas. Ao entrar em seu quarto, encontrou Alvo Dumbledore sentado em sua escrivaninha.
— Diretor! — Exclamou, fazendo uma reverência.
— Olá, senhorita Granger. Que prazer em vê-la. — Cumprimentou-o, estendendo sua mão enrugada.
Hermione apertou-a com um sorriso caloroso.
— Venho parabenizá-la, senhorita Granger, por ter sido aceita na Universidade de Oxford para o curso de Medicina. Suspeito que durante estas férias você vá conhecer o campus e se ambientar ao funcionamento do curso.
Hermione sorriu, emocionada:
— Suspeito que ser aceita em Oxford não tenha sido totalmente mérito meu, diretor. Sua carta de recomendação foi tão linda que poderia fazer qualquer um chorar de emoção.
Seus olhos já estavam marejados quando terminou a frase.
Dumbledore sorriu serenamente.
— Apenas escrevi a verdade sobre você, senhorita Granger. — Ele disse com simplicidade. — E como foi a despedida de seus amigos?
— Ah... — Hermione sentou-se na ponta da cama, refletindo sobre a pergunta de Dumbledore. — Foi triste.
Ela suspirou, tentando afastar os pensamentos do que a esperava. Era apenas uma nascida trouxa, com uma ascendência bruxa tão distante que o despertar mágico deveria ter sido apenas uma possibilidade remota.
Por um breve instante, desejou nunca ter despertado. Talvez fosse mais fácil viver uma vida simples, sem saber sobre o mundo bruxo. Agora, tinha que ir embora para nunca mais voltar. Uma vez que embarcasse no Expresso de Hogwarts para a plataforma 9¾, seria definitivo.
— Entrei em contato com a universidade pedindo para adiar sua entrada até o meio do ano. Assim, você poderá cursar um semestre em Hogwarts, escolhendo qualquer disciplina que desejar, e terá mais tempo para se despedir dos seus amigos. — Alvo Dumbledore sorria serenamente. — Bem-vinda à Universidade de Hogwarts, senhorita Granger.
Ele levantou-se com certa dificuldade, sua fragilidade física evidente. Mas a mente, como sempre, era brilhante.
— Diretor… — Hermione sentiu os olhos marejados. — Posso abraçá-lo?
Dumbledore abriu os braços, e Hermione se aproximou para abraçá-lo com carinho.
— Vá ver sua família — disse ele, em tom gentil. — Quando voltar, suas coisas já estarão nas novas instalações. E, por enquanto, não conte a ninguém. Faça uma surpresa. Será um alívio para seus amigos.
Como ele sabia de tudo?
Após a partida de Dumbledore, Hermione ficou reflexiva em seu quarto. Como explicaria isso para as outras pessoas?
Os sangues-puros certamente ficariam ainda mais incomodados com sua presença prolongada. Muitos deviam ter assumido que ela estaria fora de Hogwarts logo. Revelar a verdade poderia ser arriscado.
Quando voltou para casa naquele ano, estava ansiosa para entrar no quarto de seu irmão. Queria vê-lo, observar como ele estava e fingir, como sempre fazia, que não o via.
Mas, ao entrar no quarto, ele não estava lá.
Hermione procurou embaixo da cama, no banheiro, e então percorreu a mansão inteira. Apesar de ser grande, ela conhecia todos os lugares onde ele poderia estar. O porão parecia mais escuro do que se lembrava, mas também estava vazio.
Daniel havia sumido.
Seu coração se apertou.
Subindo as escadas de volta, decidiu preparar um jantar especial para quando seus pais chegassem.
Quando seu pai chegou, tinha um brilho nos olhos que Hermione não via há anos. Ele a pegou no colo, rodopiando-a com alegria, exibindo uma felicidade autêntica.
— Minha menina! — exclamou ele, enquanto sua mãe dava gritinhos de alegria ao vê-la.
A tristeza que costumava pairar sobre eles parecia ter desaparecido.
Desaparecido junto com Daniel.
Hermione não acreditava em coincidências. O sumiço de Daniel parecia ter dado aos pais uma nova chance de viver uma vida mais leve, algo que, de alguma forma, sua presença constante não permitia.
Daniel tinha apenas 15 anos quando morreu.
E agora, aos 17, Hermione havia vivido mais do que ele.
Ela abraçou os pais com força, prometendo a si mesma que estaria mais presente a partir de agora. Seria a melhor filha que poderia ser.
Ainda assim, não podia deixar de lamentar. Não teve a chance de se despedir do irmão, e a preocupação sobre onde ele poderia estar a consumia.
Mais tarde, Hermione contou aos pais que passaria os últimos seis meses em Hogwarts e que, em breve, apresentaria seus três melhores amigos a eles.
E, pela primeira vez, falou sobre Harry, Ron e Luna.
Ela descreveu cada um deles com tanto carinho e detalhes que os pais ficaram encantados. Finalmente, entenderam a profundidade das conexões que ela havia feito e a complexidade de ter que se despedir.
Hermione contou aos pais sobre o preconceito que enfrentou em Hogwarts. Pela primeira vez, falou sobre ser uma nascida trouxa e as dificuldades que isso trouxe. Eram coisas que jamais havia compartilhado antes.
Falou de como o apoio de Harry, Ron e Luna foi essencial para que ela superasse aquele período. Seus pais ficaram emocionados, finalmente compreendendo por que Hermione precisava de mais tempo com aqueles amigos.
— Filha, eu preferia que você não fosse neurocirurgiã como eu — disse o pai, com um sorriso gentil. — Você pode escolher outra especialização, algo que permita ter mais tempo para engravidar e criar seus filhos. Esse trabalho é exaustivo demais…
— Não, pai. — Hermione o interrompeu com firmeza. — Eu não vou ter filhos biológicos. Não vou arriscar trazer ao mundo outro bruxo nascido trouxa, para sofrer o que eu sofri. É enlouquecedor pensar nisso.
Ela estava decidida.
— Mas, filha… — o pai começou, hesitante.
— Ainda posso adotar — respondeu Hermione, suavizando o tom. — Posso adotar um adolescente, alguém que foi deixado para trás e nunca encontrou uma família. Isso é algo que sei que posso fazer… no futuro.
O senhor Granger assentiu, compreendendo, ainda que triste. Não tinha argumentos para contrariá-la.
— Detesto ser um trouxa no seu mundo — disse ele, com uma dose de humor, tentando aliviar o clima.
Hermione riu.
— Eles são super arcaicos, pai. Nem sequer usam computadores lá. Acho que, na verdade, os trouxas são eles.
Os dois riram juntos.
— Tenho uma surpresa para você…
O pai de Hermione a levou para fora e revelou um Porsche Taycan 4S elétrico. Sabia que ela amava carros, uma paixão que compartilhava com o irmão desde pequena. Eles colecionavam revistas automobilísticas e passavam horas discutindo modelos e motores.
Hermione abraçou os pais com toda a força, mas a ausência de Daniel apertou seu coração mais uma vez.
Para sempre faltaria alguém ali. Com eles.
A tarde passou rapidamente. Assistiram a filmes juntos, deram uma volta no carro novo de Hermione e jantaram em seu restaurante favorito.
Hermione pensou que não sentiria falta da comida bruxa ou da cerveja amanteigada, com aquele sabor terrível. Mas jamais contaria isso aos amigos.
Ela se forçava a tomar aquele líquido enjoativo só para não desapontá-los. Afinal, os momentos no pub da cidade eram íntimos e especiais para eles. Ron e Harry frequentavam o lugar única e exclusivamente por causa daquela bebida.
Hermione tomou um gole mentalmente ao lembrar, franzindo o nariz.
Quando chegou ao quarto, viu o celular vibrar com uma mensagem de Harry:
Harry: "Tudo bem se eu aparecer agora? Precisava conversar."Hermione franziu o cenho, confusa.
— Aparecer como? — murmurou para si mesma.
Sem pensar muito, respondeu:
Hermione: "Claro. Tudo bem."Meio segundo após enviar a mensagem, Harry aparatou bem diante dos seus olhos.
Hermione arregalou os olhos, surpresa.
— Você… — começou a perguntar, mas foi interrompida.
— Aparatou? Sim. — Harry respondeu com um sorriso travesso. — Vou fazer isso sempre. Não consigo ficar longe de você.
Hermione mal conseguiu processar o que Harry havia dito antes de levar a mão à boca, tomada por preocupação.
— Harry… — Ela tocou o rosto dele, como se precisasse confirmar que ele estava realmente ali. — Por Deus, Potter, você está bem? Está inteiro? — Seus olhos brilhavam com lágrimas de puro medo e apreensão.
Aparatar era uma arte perigosa, que exigia habilidade e experiência. Para Hermione, como uma nascida trouxa, era algo que jamais teria a confiança de tentar.
— Ei, Granger, desde quando você virou uma medrosa, hein? — Ele sorriu, tentando aliviar o clima.
Aos 17 anos, Harry era alto e musculoso, resultado dos esportes que praticava. Os óculos ainda estavam lá, assim como os olhos verdes intensos e a cicatriz em forma de raio na testa. Mas, exceto por esses detalhes, ele já não lembrava o garoto magricela que Hermione conhecera anos atrás.
— Posso dormir aqui? — ele perguntou. — Aparatar é complicado, preciso descansar antes de tentar de novo.
— Claro! Claro que pode dormir aqui, seu doido! — Hermione exclamou, ainda incrédula com o que ele havia feito. Ela deu um tapa no braço dele, incapaz de se conter.
— Ai! — Harry reclamou, fingindo dor enquanto massageava o local. — Você está mais forte, Granger.
— Isso é perigoso, Harry! — Hermione disse, em um tom de reprovação.
Harry não parecia disposto a discutir. Ele queria apenas a companhia de Hermione, e ela entendia isso. Ele só tinha a ela e Ron como seus pilares mais próximos. Sempre foi reservado, às vezes tímido demais.
Ainda assim, havia rumores sobre ele e Ginevra, algo que tanto Hermione quanto Luna estavam curiosas para confirmar. Mas não pressionariam; esperariam que ele contasse quando estivesse pronto.
Os dois passaram a noite jogando videogame juntos, como costumavam fazer. Mais tarde, deitaram na cama grande de Hermione. Não era a primeira vez que dormiam juntos. Quando crianças, Harry frequentemente a abraçava para ajudá-la a superar os terrores noturnos que a assombravam.
Mas eles não eram mais crianças.
Quando Harry a abraçou por trás, Hermione sentiu os músculos dos braços e do peito dele contra suas costas magras.
— Meu Deus, Harry! Quando foi que você ficou tão forte? — perguntou, em tom de crítica, que o fez rir.
— Eu sou um atleta, sua doida. Agora dorme.
Ele apoiou o rosto no cabelo de Hermione, deixando o sono tomá-lo.
E naquela noite, tudo parecia em paz.
Tudo estava onde deveria estar.
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