Somos programados para cair
2 Madrugada chuvosa
Depois de nos desculparmos pelo mal entendido, dispensando os policiais com biscoitos e toalhas secas, sentamo-nos no sofá ao lado da porta e rimos como malucas pela milésima vez na noite. Ana Abraçava tia Jessie e deitava a cabeça em seu ombro, enquanto mostrava orgulhosa seu nome na lista xerocada que era nossa prova concreta.
Meu pai havia seguido os policiais até a delegacia a fim de explicar todo o ocorrido, mas eu estava tranquila quanto a isso. No geral, eu seria duramente repreendida, mas agora, com uma aprovação daquelas e com um sorriso daqueles estampado no rosto do homem, era mais fácil ganhar alguma coisa como recompensa.
_ Vamos pedir pizza. – Mamãe afirmou orgulhosa. – íamos comer biscoitos caseiros mas dei-os todos aos policiais. – Explicou enquanto ia até o telefone sendo seguida pela cunhada alegre.
Parecíamos duas abobadas sentadas no sofá olhando uma para a outra sem acreditar em nada.
_ E o que mais tem nessa lista afinal de contas? – Ergui a sobrancelha. Até o memento eu não tivera curiosidade de saber nada além do meu nome.
_ Nomes dos outros participantes e um lembrete da iniciação amanhã. – Leu atenta. – Poderíamos pesquisar os passados dos concorrentes. – Olhou-me maliciosa. Quando nos matriculamos no teste, nossa maior ideia era saber tudo sobre os outros antes de entrarmos para o clube dos internos.
_ É uma boa. – Sorri junto com ela. A pizza iria demorar e nossas mães estavam chorando de emoção na sala de cima então escapamos para o meu quarto e ligamos o computador, sempre conspiradoras. – Qual o primeiro nome?
_ Alana McClarck. – Sorriu maldosa. Digitei o nome no buscador do google e agitei-me de antecipação.
A tal Alana era uma garota normal por assim dizer: fizeram o Ensino Médio em uma escola pública do Leste dos Estados Unidos e agora passara no teste aqui no Brasil. Estava sozinha no país, mas pelo visto sabia bem a língua, pois não parava de postar letras de músicas em português nas redes sociais. Nossa segunda vítima, Bran Muniz era nacional do Brasil e contava com uma herança bilionária de um pai político, mas com seus cabelos loiros e cacheados, sempre com um sorriso cafajeste, me parecia muito mimado.
_ Qual é o próximo? – Questionei depois de muitas gargalhadas. Era realmente incrível pensar que todas aquelas pessoas estariam juntas em poucos dias e que muitas delas seriam minha amigas.
Ana se engasgou com uma risada, mas desdobrou o papel afim de ler o próximo nome, mas dessa vez a reação foi um pouco diferente, havíamos rido de todos os nomes até aquele momento, sem exceção, mas alguma coisa parecia estar muito errada agora: minha prima ficara paralisada, com a boca aberta e os olhos despejando terror.
_ O que foi? – Perguntei, tentando arrancar o papel das mãos dela.
_ Quantas pessoas você conhece com a letra L? – Ergui a sobrancelha. O que estava acontecendo afinal?
_ Eu não sei. Alguns milhões. Posso olhar no catálogo telefônico se você quiser.
_ Quantas vagas tinham?
_ O que?
_ No teste. Quantas vagas tinham?
_ Dez. Por quê? – Eu já estava começando a me preocupar.
_ Só podem estar brincando com a sua cara.
_ Com a minha? Mas é você quem está desesperada. Ana, o que aconteceu?
_ Lucca Martini. Ele aconteceu. – Tentei passar como quem não se importa, mas fiz uma força imensa para engolir a bile que queimava minha garganta.
_ O que tem ele? – Eu mais do que nunca temia a resposta. Havia imaginado minhas mãos esganando aquele pescoço bonito por muitas noites, mas agora que o momento do reencontro poderia finalmente chegar, sentia mais medo do que qualquer outra coisa.
_ Pense pelo lado positivo. Talvez seja algum sinal divino de que vocês devem tentar se acertar. As coisas terminaram tão tensas não foi? – Ela sorriu amarelo.
_ Tensas? Ana! Eu não tive tempo de defesa! O infeliz fugiu sem me desejar nem ao menos boa sorte! Ele não passou, passou? – A última frase oscilou mais do que eu pretendia. Não queria parecer covarde.
_ Bem, sim. – Deu de ombros. – Mas você soube disso no momento em que eu disse o nome dele então, por favor, não fique tão pálida! – Revirou os olhos, correndo até a cozinha em busca de água.
Sentei-me na banqueta, desolada. Não era justo que a chance da minha vida viesse com um ônus tão grande. Eu não podia mais chorar por um homem como ele, mas sabia que as lágrimas viriam no momento em que o visse. A verdade é que eu havia gostado dele de verdade e um pouco daquilo ficara, por mais que eu negasse veementemente.
_ Você não vai desistir por isso, certo? – Dei um gole do líquido refrescante, mas quase cuspi tudo quando ouvi a pergunta.
_ Está louca? Estou nessa desde que o meu nome foi impresso nessa lista idiota. – Revirei os olhos, bem em tempo de ver minha prima sorrindo, satisfeita.
_ Mas amanhã tem a festa de iniciação. – Afirmou incerta.
_ Mais um motivo para usar o vestido justo. Eu não engordei por mais que isso fosse aceitável. – Pisquei. Ana sorriu, virando a cabeça de um lado para o outro. É. Eu podia ouvir sua mente pensando que eu não tinha mesmo concerto.
_ Então é bom que mostre isso. Todos os meses de academia têm de servir para alguma coisa, afinal.
_ Meninas! – Pela segunda vez na noite quase cuspi a água que bebia. Estava tão preocupada em arrasar na festa do dia seguinte que me esqueci da mamãe pedindo pizza na sala de cima. – Querem qual sabor?
_ Qualquer um. – Tossi. Ela pareceu aceitar a resposta, pois logo ouvi a porta se fechando novamente.
_ O que vamos fazer? Amanhã pode ser uma tragédia. – Ana suspirou. Eu entendia seu ponto de vista, mas não deixei de sentir certa irritação pelo problema proposto. Como prima e melhor amiga, ela deveria me convencer de que não havia nenhum porém na minha ida à festa, com meus olhos faiscantes de ódio e o scarpin pronto para furar a garganta de qualquer pessoa indesejável que chegasse muito perto da minha pessoa.
_ Não para nós. Só quero ver o transtorno nos olhos dele quando me vir passando por aquela porta. – Gargalhei de animação. Eu tinha mudado muito desde que fui deixada sem mais nem menos por aquele infeliz.
_ Certo. – Tranquilizou-se. De qualquer modo, por mais que o odiasse, não poderia expressar aquilo no meio de uma festa para internos iniciantes. Não era minha vida pessoal que estava em jogo e não pretendia ser julgada no primeiro segundo em que pusesse oficialmente os pés no programa. Tinha dado duro demais e feito muitas escolhas para ser lembrada como a “maníaca que atacou um colega no meio da festa de boas-vidas”. Definitivamente não era uma escolha.
Só uma coisa me preocupava agora. Mesmo que passasse ilesa pela festa do dia seguinte, com toda a certeza teria de suportar sua companhia irritante durante muito tempo. Menos que conseguisse ficar no setor oposto do hospital, ele estaria lá e eu seria incapaz de correr o risco de pegar o mesmo elevador que Lucca. Com certeza parecia cômico imaginar a cena agora, mas eu borbulharia de raiva e ressentimento caso viesse a acontecer.
Tentei manter a calma. Existiam muitas especificações dentro de um hospital e seria muito azar que ficássemos no mesmo bloco, que dirá no mesmo andar. Mas pensando por outro lado, era um absurdo que tenhamos sido selecionados para o treinamento no mesmo hospital que dispunha da prova de internos mias difícil do país. Era estranho pensar que tínhamos até mesmo a profissão em comum! Revirei os olhos. Era contra a producente deixar que esses pensamentos me dominassem quando deveria estar comemorando.
_ Sorvete? – Perguntei de uma hora para outra. Doces sempre me deixavam mais feliz, e tive a impressão de que as comemorações seriam muito mais proveitosas com um sorriso no rosto. Eu não precisava pensar no passado, pelo menos não por enquanto.
_ É uma boa. – Ana concordou. – Devemos esperar a pizza? – Ergueu a sobrancelha.
_ Nesse temporal? Vai demorar muito. Podemos pegar o carro e ir para uma sorveteria qualquer. Estaremos de volta em menos de uma hora. – Ponderei.
_ Certo. – Concordou, levantando-se. – Vamos trocar essas roupas encharcadas e pegar alguns casacos quentes.
Olhei-me. A afobação do momento fizera com que o frio e a água pingando no carpete do meu quarto fossem esquecidos. Com toda a certeza não queria aparecer gripada e com o rosto abatido na festa do dia seguinte, então tratei de tomar um banho quente e pegar uma toca além do casaco vermelho. Pensei por um momento que o sorvete era também potencialmente perigoso para a minha saúde nesse clima, mas dei de ombros.
_ Estamos saindo, mãe. Vamos levar o carro. – Expliquei que voltaríamos a tempo de comer a pizza e dando um beijo na sua bochecha me despedi.
No banco do motorista, comandando as rédeas do automóvel eu me distraía um pouco. Dirigi até uma rua perto da praia e agradeci por morar em uma cidade 24h: tinha me esquecido de que a madrugada reinava.
_ Aí estão as duas lunáticas! – O garoto da selfie gritou no momento em que passamos pelo batente e o sino tocou, avisando sobre a nossa chegada. Sorri e cumprimentei-o, mas o garoto não se deu por vencido: insistiu para que nos sentássemos em sua mesa, que pelo visto já dividia com alguém. Sentamo-nos lado a lado e seguramos o riso. Pelo visto ele também nos achava muito cômicas e dignas de risadas.
_ Imagino que tenha passado. – Ana sorriu e recebeu um brinde em sua homenagem, deixando bem claro que o menino não cabia em si de tanta felicidade. – Não imaginei que as pessoas vinham aqui a essa hora.
_ Não vêm. – Deu de ombros. – Mas pensei que um caminhão de sorvete deixaria meu dia mais perfeito do que já estava. – Piscou. – Vocês parecem ter pensado o mesmo e o grandalhão que acabou de ir ao banheiro também.
_ É mais ou menos isso. – Respondi, sorridente. – Tem sorvete de uva aqui? – Olhei em direção ao balcão. A vendedora parecia surpresa pelo movimento durante a madrugada.
_ Imagino que sim. – Gargalharam. – A propósito, meu nome é Bran Muniz. – Ergui a sobrancelha. Definitivamente não era a resposta que esperava.
_ Sério? – Perguntei enquanto me servia de um pouco de sorvete e pagava a conta. Bran afirmou movimentando a cabeça e pareceu realmente surpreso pela pergunta. — É que você me pareceu bastante mimado e impertinente pela descrição no seu perfil. – Não esperei pela pergunta. Ela viria de qualquer forma então resolvi me antecipar.
_ Tomara que tenha sido só impressão. – Gargalhou. – Meu pai me deixou quando tinha cinco anos. Provavelmente não conseguiu me contaminar por mais que tenha se esforçado. – Olhei-o. Pela primeira vez sua história chamou minha atenção. Sorri ao perceber que o garoto era muito indiferente em relação ao pai. Na verdade tinha encerrado o assunto como se não fosse muito interessante.
Voltei à mesa e olhei Ana. Ela parecia ter percebido o que eu estava pensando e sorriu de canto.
_ Suponho que não seja daqui. – Puxou assunto. – Seria muita coincidência que um morador do Rio tenha passado numa prova nacional daqui mesmo.
_ Não. Sou inglês.
_ Mesmo? Mas e toda aquela pompa e aquela coisa de chá das seis? – Perguntei enquanto tirava a colher da boca e mergulhava-a novamente no pote.
_ Tive mérito em não ter muito sotaque, mas não são seis horas ainda. Caso me encontre nesse horário, com certeza me verá tomando chá com o dedinho levantado. Mas por hora pelo menos ficarei com o sorvete. É muito mais juvenil e delicioso. – Caímos na gargalhada.
_ Sotaque inglês é bonito. – Lamentei a perda. Ele sorriu e revirou os olhos. Então começou a falar como se fosse um viajante definitivamente inglês.
_ Então você resolveu vir até o meio do nada e tomar um pouco de sorvete no meio da noite. – Ironizei.
_ Uma situação muito parecida com a sua, diga-se de passagem. Mas sim. Foi mais ou menos isso. Encontrei vocês e o garoto do banheiro, que por sinal está demorando muito e estou começando a pensar que fugiu pela janela e me deixou a conta de presente. – Riu.
_ Muito cavalheiro. – Admiti quando Bran terminou.
_ Parece o tipo de garoto que as mulheres acham atraente, na verdade. – Tomou mais um pouco de sorvete enquanto minha prima e eu o olhávamos desconfiadas. – Não que eu o ache. – Defendeu-se. – A vendedora deu a anteder. – Explicou rápido.
_ Certo. – Concluí segurando o riso.
Mas pela segunda vez na noite Ana estava pálida.
_ Banheiro? – Perguntou olhando no fundo dos meus olhos e puxando-me antes de ter uma resposta concreta.
Entramos no cubículo no momento exato em que o tal garoto grandalhão saiu do banheiro masculino e caminhou a passos largos e despreocupados até a mesa do inglês.
Mas o estrago já havia sido proclamado: era impossível não reconhecer o cheiro do perfume dele.
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