Notas iniciais
Ana http://data.whicdn.com/images/30157728/tumblr_m5ahubFdJs1qfb5cjo1_500_large.png http://asset2.zankyou.com/images/mag-big/e92/5aab/650/600/-/br/wp-content/uploads/2012/06/EC_LB_05.hm_.jpg Rafaela http://data.whicdn.com/images/15416792/tumblr_lsc4s9phle1qep56go1_500_large.jpg http://muitagiro.com/wp-content/uploads/2014/07/2-C%C3%B3pia10-600x550.jpg

Não entre em pânico.

Não entre em pânico.

_ Tudo bem. Como saímos daqui sem sermos vistas? – Perguntei enquanto respirava fundo. Eu repetia a ladainha mentalmente inúmeras vezes, mas meu corpo insistia em tremer às portas de uma explosão convulsiva.

_ Certo. – Ana pensava freneticamente e eu quase podia ver seu cérebro funcionando a todo o vapor. – Já pagamos a conta então tecnicamente poderíamos escapulir sem problemas.

_ Poderíamos. O inglês está lá na mesa esperando nós duas voltarmos do banheiro.

_ E se sairmos e dermos uma desculpa amanhã?

_ Muito suspeito. Ele com certeza vai espalhar antes de chegarmos na festa. E não precisamos de Lucca Martini sabendo que estivemos aqui.

_ Tudo bem. Você pode colocar o capuz e sair rápido. Eu saio logo atrás de você dizendo que não se sente bem por causa da chuva e que nos vemos na festa. O Martini não me conhece pessoalmente. Ou conhece?

_ Não. Talvez por uma foto qualquer, mas ele não vai ligar uma coisa à outra. – Dei de ombros. – O problema vai ser se Bran quiser nos apresentar. – Revirei os olhos.

_ Não vai se você for rápida. Saia daqui e vá direto para o carro. Espere-me lá enquanto dou as explicações. – Concordei. Coloquei o capuz vermelho e escondi meu cabelo comprido o máximo possível. Baixei a cabeça e abri a porta.

Tentei andar até a saída com passadas entre devagar e rápido, sem parecer disposta a conversar e nem tentando sair sem ser vista. Suspirei aliviada quando abri a porta e senti o vento frio no meu rosto, o cheiro doce e amadeirado para trás. Andei sob o toldo afim de não me molhar muito, porque mamãe me mataria se recebesse de volta o carro ensopado.

Olhei de relance para a sorveteria e vi Ana seguindo o plano. Tremi e prendi a respiração quando vi a sobrancelha do idiota se erguendo levemente, quase como se a reconhecesse. Ana também pareceu notar porque tentou esconder o rosto o máximo possível na condição em que se encontrava. Ela sorriu sem olhar o garoto e se despediu às pressas, andando a passos largos até a porta dando a desculpa de que precisava se apressar para ver se eu estava bem.

Ativei a ignição no momento em que ouvi a porta do passageiro se fechando. Os vidros eram esfumados, mas instintivamente baixei a cabeça quando tive de olhar na direção da vitrine iluminada. A adrenalina corria solta no meu corpo. Era a primeira vez em que via Lucca depois do acontecido e minha coragem para a festa do dia seguinte tinha simplesmente evaporado. Percebi imediatamente a falha no plano: Martini tinha visto minha prima e a reconheceria no momento em que entrasse na festa, de modo que saberia que a garota supostamente doente era eu, uma vez que estaria ao seu lado.

Tentei afastar da minha mente o pensamento perturbador. Esperava que nosso reencontro fosse banhado de muita indiferença da minha parte e faria de tudo para que assim fosse. Talvez conseguisse passar por cima do momento constrangedor na sorveteria se tivesse uma boa performance na festa de logo mais.

_ Acha que ele percebeu? – Me atrevi a perguntar quando já estávamos a algumas quadras do estabelecimento onde o desastra acontecera.

_ Depende do ponto de vista. Com certeza me reconheceu, por mais que em minha opinião, não saiba de onde. – Ponderou.

_ Certo. – Respirei aliviada. Tantas opções sinistras passaram pela minha cabeça que eu quase esperava que os dois rapazes fossem até o carro ver se eu precisava de ajuda. Na ocasião o pensamento me fez encolher no banco do motorista e desejar veemente que me fundisse ao tecido quadriculado.

_ Já pensou que isso pode ser o destino? – Riu-se, me provocando.

_ Então eu não acredito em destino.

_ Só por causa disso? – Ergueu a sobrancelha.

_ É que a meu ver isso não seria uma coisa boa. Destino na essência é uma programação divina para a vida das pessoas e Deus é bom. Portanto não poderia criar um destino ruim para ninguém no mundo. – Expliquei.

_ Pode guardar tudo isso para a competição? Obrigada. – Revirou os olhos.

_ Não mesmo. Pretendo salvar vidar nessa hora. – Sorri.

_ Rafa. – Olhei-a da melhor forma que pude levando em consideração que estava no volante. – Já parou para pensar que talvez ele não seja uma pessoa ruim? – Prestei atenção. – Tudo bem. Com certeza não foi nem um pouco cavalheiro quando te deixou sozinha naquelas condições, mas uma pessoa ruim não escolheria salvar vidas como profissão.

_ Nunca disse que ele era ruim. Só que esperava mais bondade da parte dele. – Suspirei. – Isso não quer dizer que ela não exista.

_ Pode ter se arrependido.

_ Claro. Mas ele vai ter que entender se esse for o caso que arrependimento não faz as coisas serem da forma que seriam se ele fosse justo desde o início.

_ Tem razão. — Olhou para a janela. – Mas apesar de tudo ele vai trabalhar com você então se não quer superar, pelo menos terá que conviver com ele.

_ Nunca disse que não iria. Já disse: estou nesse desde o momento em que escreveram meu nome naquela lista. – Ela pareceu satisfeita. – Agora pode me deixar dirigir? Sabe, nunca perdoaria você se eu morresse antes da iniciação dos internos. – Sorri e ela se rendeu.

Entrei em casa sendo saudada pelo cheiro delicioso de pizza em plena madrugada. Depois de tanto desespero eu quase podia implorar por um pedaço quente no forno. Ana pareceu pensar a mesma coisa, pois saiu saltitando casa adentro até a cozinha.

_ Como foi na sorveteria? – mamãe perguntou, alheia aos acontecimentos recentes e pouco convidativos.

_ Conturbado. – Respondi depois de pensar um pouco. – Alguns dos aprovados pareceram ter pensado a mesma coisa e a sorveteria estava um pouco mais cheia do que esperava. – dei de ombros. – De qualquer forma, resolvemos sair sem sermos vistas.

_ Entendo. Mas porque não ficaram? Poderiam ter feito amigos já que vão trabalhar juntos por tanto tempo. – Ponderou.

_ Podemos conhecê-los amanhã. Festa privada de iniciantes. – Sorri. Mamãe pareceu satisfeita. Lá no fundo eu era um pouco antissocial desde o final da minha adolescência quando tudo aconteceu, mas agora, com vinte e um anos, no meio da faculdade de medicina e com a oportunidade de acabar o curso mais cedo, eu estava bem mais entrosada.

_ Nesse caso, divirtam-se. – Piscou e apontou a caixa de pizza, que atacamos logo em seguida.

Tentei não exagerar porque realmente queria muito caber no meu vestido no dia seguinte. De qualquer forma, coloquei na minha cabeça que por mais que o traidor soubesse quem era eu não saberia que estava tão bem em relação há alguns anos antes. Eu tinha certeza absoluta de que o garoto via uma mulher gorda e esgotada quando me imaginava, se é que era capaz de tal feito. Em minha opinião, se tivesse feito o que ele fez, com certeza teria vergonha de me atrever a lembrar-me da pessoa que tanto prejudiquei.

Eu me senti um pouco mal quando percebi que muito das minhas expectativas referentes à festividade estavam relacionadas a ele. Enquanto a tarde seguinte passava, provei inúmeras vezes o vestido preto temendo dar errado na ultima hora, mas tudo parecia perfeito para a noite que viria. Ana revirava os olhos todas as vezes que eu entrava em meu quarto sabendo com certeza os meus objetivos. A garota insistia irritada que eu acabaria estragando a peça de roupa por colocá-la e tirá-la tantas vezes em um só dia e quase brigamos quando tentei fazer isso pela sexta vez.

Eu entendia seu ponto de vista, mas minha intenção não se privava em dar uma de Narciso e ficar me espiando de cima abaixo em frente ao espelho do meu closet. De qualquer forma, a maratona de retirar a roupa, colocar o vestido, olhar-me no espelho, retirá-lo, estendê-lo delicadamente na cama e vestir novamente a roupa antiga tomava meu tempo e fazia a tarde correr mais rápido de modo que eu quase não pensava no que teria de enfrentar quando a noite caísse.

Eu havia perdido a conta do número de vezes em que trombara na penteadeira e saíra saltitando até a cama, meu dedinho seriamente danificado. Em certo momento percebi que deveria mudar imediatamente o esquema porque se tudo continuasse como estava com certeza meus pés não caberiam nos saltos. Portanto resolvi afastar a cama e deixar a passagem até o espelho o mais livre possível.

Percebi nesse breve movimento que acabara de encontrar o passatempo ideal para passar o dia. Ana havia saído para comprar mais maquiagem e eu estava completamente sozinha naquela fortaleza que chamava de quarto, prestes a me enforcar com o próprio vestido para escapar do teste noturno.

Coloquei o vestido pela milésima vez sobre a cama e comecei a mudar os móveis de lugar. Não era má ideia afinal de contas. Há algum tempo estava começando a me entediar com a distribuição dos móveis do quarto e vi na situação uma ótima oportunidade para acabar com o problema. Estava disposta a mudar também a decoração, mas não tinha tempo suficiente então resolvi deixar para outra ocasião.

Graças ao meu novo hobbie não vi o tempo passar. Já estava quase cantarolando quando Ana voltou com as compras, gritando em alto som que não queria me ver novamente com o maldito vestido. Revirei os olhos enquanto admirava o novo padrão do meu quarto, satisfeita com o trabalho apesar de estar toda suada.

_ O que você fez? – Ana deixou a sacola cair sobre a cama, graças aos céus longe do meu vestido.

_ Arranjei outra coisa para fazer além de ficar experimentando o vestido. – Pisquei quando ela sorriu aprovando. – Já estava um pouco irritada com tudo sempre igual por aqui. – Expliquei.

_ Ficou legal. Mas agora precisamos nos arrumar se você quer mesmo fazer uma surpresa positiva e esmagadora para o Lucca. – Piscou, jogando o que estava dentro da sacola sobre a colcha. Percebi naquele momento que Ana com certeza não me daria descanso até estarmos a caminho do evento. Ela tinha separado, como já previra, mas esperava que estivesse errada, muito tempo para cuidar da minha beleza. – Agora, vá tomar banho enquanto separo o que preciso.

Suspirei e segui seu concelho, consciente de que não tinha outra opção. Demorei-me o máximo possível no, rezando para que ela ficasse brava e fizesse o básico de interferências no meu rosto, mas como também já esperava, não foi esse o caso. Cheguei a receber elogios por ter caprichado no banho e sentei-me cabisbaixa na banqueta onde com toda a certeza passaria grande parte da tarde. Olhei no relógio e senti-me quase enjoada quando percebi que ainda não eram três horas.

Ali, naquele marasmo era quase impossível controlar meus pensamentos como fizeram arrumando o quarto. Mas por outro lado era melhor assim. Era bem mais preferível dar crise agora do que na frente dos outros selecionados, ponderei. Percebi que tinha concluído a tarefa com sucesso quando me olhei no espelho, e apesar de linda e com cada detalhe do meu corpo esculpido com cuidado, a expressão preocupada me denunciava. Resolvi então deixar de frescura e tratei de começar a fazer o mesmo com minha prima satisfeita.

Senti-me mais calma quando terminei. Tinha feito tudo certo e estava realmente surpreendente, nada doente e com a autoestima bem mais elevada, o que com certeza favorecia meu rosto, que agora, no lugar das bochechas esverdeadas, assumira uma cor própria e rosada.

Vesti-me pela última vez com cuidado, sabendo que estava pronta. Abotoei as presilhas do salto alto da mesma cor do vestido e saí noite adentro, em direção ao carro.

Eu podia ver as luzes coloridas se emaranhando com as estrelas já longe do salão. Com certeza todos estavam ansiosos para conhecer os selecionados para o programa e a ocasião seria amplamente divulgada. Esperava sentir um nó no estômago quando visse os rastros da festa, mas não foi o que aconteceu. Por algum milagre, estava muito ansiosa para sentir qualquer resquício de medo.

Sorri quando deixei o carro no estacionamento e segui a passos largos e elegantes até a portaria onde alguns seguranças seguravam uma lista de nomes dos aprovados e suas respectivas fotos. Passei sem problemas. Meu coração quase vinha à garganta enquanto percorria um longo corredor cheio de fotógrafos até a porta de entrada, ao meu lado uma Ana atordoada e cega pelos flashes. Eu sabia que estaria magnífica nas fotos e com alguma sorte, com os olhos abertos.

Talvez a porta no final do corredor tenha sido colocada justamente para causar impacto na chegada dos internos e não reclamei: era justamente a sensação que queria passar agora, não só para impressionar Martini, mas porque eu não estava de brincadeira, e esperava ansiosamente ver isso no rosto dos outros selecionados.

Com um movimento ensaiado e glamoroso abri as portas de mogno escuro talhadas e entrei cm um sorriso no rosto que não me representava, mas que era digno da ocasião. Era quase verdadeiro, mas eu estava muito preocupada em manter meu olhar parado e não sair procurando como uma louca pelo rapaz que eu sabia estar ali.

_ Podemos tentar passar despercebidas se você quiser. – Ana provocou, mesmo sabendo que era o que eu menos queria agora.

_ Não mesmo. – Minha voz estava mais firme e corajosa do que eu esperava e por fim aceitei finalmente que eu talvez estivesse tão confiante e superior como tentava parecer estar.

Bran Muniz chamou-nos do outro lado do recinto. Eu soube quem estava com ele antes mesmo de olhar, mas não me importei. Caminhei decidida na direção do garoto da selfie talvez mais confiante que a própria Ana e parei delicada e perigosa na sua frente enquanto minha prima admirava o feito. Não pude deixar de vibrar com a surprese que causei no tão conhecido rapaz ao seu lado, mas como uma dama, não deixei transparecer nada.

_ Rafaela. – Saudou, enquanto sorria para Ana. – Melhor?

_ Muito. – Respondi decidida. – Não passou de um contratempo.

_ É. Ela já superou. – Deveria me lembrar de agradecer minha prima por ter dito isso. Bran sorriu, satisfeito. Ele começou a apresentar-nos os participantes que já haviam chegado e eu cumprimentei todos. Sabia o que me esperava e a briga que havia comprado, mas eu deveria parar de me surpreender por ficar impassível.

_ E esse é Lucca. – Apresentou, alheio a todos os acontecimentos passados, e eu esperava que assim permanecesse.

_ Rafaela. Muito prazer. – Anunciei e estendi a mão, sorrindo tão irônica quanto era possível sorrir.