Somos programados para cair
9 Escuridão sem fim
O abismo estava tão perto. Perto o bastante para que eu sentisse a terra lá embaixo me puxando ao seu encontro. Não deveria correr, não deveria resistir. Mas era mais forte do que eu.
De alguma forma eu sabia que cada movimento meu, por mias que tentasse chegar ao lado oposto, me levaria ao vazio. Não conseguia ver o que tinha no patamar inferior. A curiosidade não era suficientemente forte para que eu chegasse mais perto da borda a fim de satisfazê-la.
Eu não tinha ideia se a queda seria séria. A paisagem além parecia longe, mas em uma rocha há vários patamares e eu poderia ter sorte de cair em um próximo. O problema é que havia alguma coisa maligna que emanava uma aura poderosa: a mesma que me arrastava até a queda e que fazia meu coração bater mais forte. Mas eu parecia não ter escolha. Não tinha como fugir.
_ Socorro! – Tentei gritar, mas minha voz não era minha voz. Lembrava mais um rosnado baixo e ninguém poderia me ouvir, mesmo se algum andarilho perdido passasse por ali naquele momento, por mais que fosse uma chance em um milhão.
Estava se aproximando. A borda ficava cada vez mais próxima e agora eu podia ver o solo dali. Pequenas conchas brilhantes ofuscavam meus olhos, cada qual mais pontiaguda que a outra. Mas não havia nada lá. Seja o que for que estivera vivo naquele material fossilizado já partira há muito tempo. Agora apenas uma grossa camada de restos mortais do que antes fora vida tapava a terra batida que me arrastava cada vez mais para baixo.
E de repente não havia nada lá no fundo.
Eu esperava qualquer coisa: cactos cheios de espinhos, areia do deserto, um rio caudaloso cheio de enguias elétricas mortas de fome e alguma cidade abandonada entregue às traças. Mas só havia vazio. Escuro e claro ao mesmo tempo. Sem fundo e sem destino.
Era para lá que a terra me arrastava, e agora minha teoria gravitacional não se aplicava a mais nada. Era outra coisa. Eu não sabia bem o quê, mas me dava mais medo do que jamais senti por qualquer coisa na vida.
Vida. É tão fácil pensar como se estivesse viva. Eu sabia que poderia não ser verdade. Os faróis fortes foram as últimas coisa que eu vira e uma parte lá no fundo do meu ser estava feliz com a escuridão. Tão diferente das cores fortes daquela luz que ferira meus olhos, tão diferente de tudo. Não era como a escuridão durante a noite. Não havia estrelas, postes iluminados ou abajures no final do corredor. Simplesmente não era nada.
E talvez fosse muita coisa. Depende muito do ponto de vista. Aquela escuridão sem fim podia mudar tudo. Um abismo sem fim que botava fim a todas as coisas que você já fora um dia. Eu não sabia onde dava, mas os arrepios vinham enquanto pensava que aquilo me levaria sempre para baixo e não para cima. Talvez fosse algum tipo de buraco negro invertido e eu fosse parar em alguma sala de julgamento cheia de anjos. Talvez eu não merecesse clemência. Talvez esse fosse meu destino final. Vazio e escuro.
De repente, já com metade dos pés indo em direção do vácuo, eu percebi que nunca tivera medo do escuro. Quando era criança, meus pais não liam para mim antes de dormir, não cantavam canções de ninar. Eles só me diziam boa noite enquanto eu subia as escadas correndo.
Mas eu tinha. Mais medo do que podia esperar. E não pela falta de luz, mas o que podia estar dentro dela.
Eu pensava que seria diferente. Quando me imaginei morrendo, e foram muito poucas vezes, achei que ouviria os sons do outro lado me chamando e quando estivesse no meio do caminho, tudo ficando tão nítido: os sons da ambulância e o choro alheio ressonando nos meus tímpanos como forma de despedida e uma vã tentativa de guardar na memória algo digno de não ser esquecido. Mas era tudo tão silencioso, tão melodramático.
De repente me senti vazia. Queria ouvir tudo de novo, ver um filme da minha vida enquanto caía, sentir tudo uma última vez. Eu ainda não havia visitado as sete maravilhas do mundo. Não havia escalado a maior montanha do planeta, não tinha feito uma canção de ninar tarde da noite, não tivera mais amigos de verdade que todos os meus dedos juntos e nem lera todos os livros de aventura. O que eu havia feito além de chorar por algo que eu não poderia ter?
Agora meus calcanhares se equilibravam rebeldemente na última coisa sólida que eu sentira na vida. Era ridículo que um “calcanhar de Aquiles” fosse à última coisa a me mantar em contado com o mundo. Tentei fincar os pés nas conchas, me solidificar ali de qualquer maneira até que alguém viesse me buscar.
Mas ninguém viria. Eu sabia que não. Estava sozinha e precisava me salvar sem ajuda. Eu não sabia do que tinha medo. Talvez a escuridão me fizesse bem. Talvez não fosse tudo tão escuro depois de um tempo. Talvez houvesse chance se eu me entregasse.
Com um lamento surdo, me deixei cair no vazio.
A agulha era grossa o bastante para me fazer arrepiar. Meu sangue, grosso demais para ser puxado em grande quantidade por um tubinho pequeno. Então me arranjaram uma bolsa de plástico reforçado.
Sentei-me em uma das poltronas confortáveis da sala de doação. Eu não sabia ao certo porque elas eram tão macias: não havia muitos motivos para relaxar ali. Nunca estivera tão tenso e o suor se acumulava na base das minhas costas. Eu era tão horrível por ter hesitado?
Talvez fosse. Então tentei me redimir correndo até aquele hospital no meio da madrugada, ainda de pijamas, a carta amassada na minha mão livre. Fechei os olhos. Duas semanas atrás eu estaria dormindo com alguma garota de alguma festa, mas agora era tão estranho ter todas elas. O que eu estava fazendo ali, doando litros de sangue a uma criança que eu não tinha certeza se era minha?
Mas eu sabia. Desde o momento em que Rafaela correu desesperada até seu leito pequeno, as mãos no peito e as lágrimas vazando livremente. Eu também senti um aperto ali. Não era nenhum tipo de extinto paterno ou algo parecido. Eu não tinha o direito de sentir nada parecido. Suspirei.
Era ela.
Era ela chorando pela primeira vez desde que eu voltara. Aquela mesma garota em prantos havia sido forte por muito tempo e agora estava desbando em lágrimas. E tudo por causa de uma criancinha moribunda.
Eu sabia que não era qualquer uma no momento em que vi a garota ali, parada ao lado do berço, desesperada e congelada de medo. E então a menininha precisou de aparelhos. Ainda tinha esperanças de que tudo aquilo não tivesse passado apenas de uma afeição súbita, mas bem lá no fundo já sabia da verdade.
Corri atrás dela naquela noite. Corri mesmo. Mas eram muitos os protocolos a serem preenchidos antes de deixar aquele quarto, o que me atrasou bons dez minutos. Saí desabalado pelo hospital, mas Rafaela não parecia estar em lugar nenhum do prédio esterilizado. Perguntei então se Ana havia visto a prima e ela disse que sim.
Fiquei nervoso porque a garota não correra atrás de Rafa, mas o que poderia fazer além de seguir até a porta da frente? Eu bem que a entendia. Ana estava atendendo um dos pacientes graves da ala da emergência e com certeza não poderia ter se dado ao luxo de sair correndo atrás da prima. Mas a raiva era mais forte que a razão como sempre fora, e eu agora estava sozinho e pronto para procurar Rafaela por todos os cantos da cidade.
Havia uma coisa boa nisso tudo. O Rio nunca se apagava. Imagens de satélites sempre mostravam os pontos luminosos ali mesmo durante a noite. Os carros não pareciam ter hora para sair da garagem e isso meio que ajudava. Pelo menos eu teria iluminação. Não estaríamos entregues às tochas medievais. Revirei os olhos. Para onde eu iria se a situação fosse invertida?
Ver pessoas doentes me lembrava de entes mortos. Talvez um cemitério. Mas Rafaela não parecia ser tão gótica. Corri os olhos para a placa com o mapa da cidade fincada na grama na frente do hospital, mas não tive ideias. Igreja? Casa? Praia?
Isso. Praia. Muito previsível da parte dela, mas isso só me fazia sentir mais idiota. Como não havia pensando nisso antes, meu Deus? Pelo menos agora ela estria segura se chegasse lá. E por mais que tivesse voltado para a cidade há pouco tempo, a praia não era muito difícil de encontrar. Chamei um táxi e dei as coordenadas.
O trânsito estava ruim naquela noite. Parece que algum maluco resolveu dirigir bêbado, não viu um dos cones de sinalização da faixa de ciclovia e causara um bom alvoroço bem no coração do Rio de Janeiro. Respirei fundo, xingando mentalmente todos os cidadãos daquele lugar. Mas que tipo de prefeitura colocava um cone de sinalização no meio da rua, pensando por outro lado? Ninguém andava de bicicleta no meio da noite e marcas no asfalto eram bem mais funcionais durante o dia.
Apertei as têmporas. Esperei décadas até que chegássemos à praia. Paguei uma fortuna ao motorista, plenamente ciente de que era injusto que tivesse sido cobrado pelo tempo em que ficamos parados no congestionamento, visto que aquilo não fora minha culpa. Mas não tinha tempo para reclamações agora. A areia era fina e me causava arrepios. Eu nunca havia gostado de flocos minúsculos de rochas destroçadas. Teria algum sentido aguentar tudo aquilo se a menina estivesse lá. Mas ela simplesmente não estava.
Então fiquei tentado a voltar para o hospital. A praia era a opção mais digna e agora eu não tinha muito onde procurar. Talvez Ana tivesse alguma informação sobre a prima que eu não conhecia. Leguei para ela e contei tudo. A garota me disse que a encontrasse na sala de espera do prédio e não hesitei em chamar outro taxi.
Quando cheguei ao lugar marcado, no entendo, Ana não estava lá. Fiquei surpreso de verdade. Pro mais que não a conhecesse bem, não parecia de o seu feitio deixar os outros esperando, principalmente quando estavam preocupados. Eu sabia que ela também estava e foi isso o que me deixou mais inseguro.
Talvez Ana ainda não tivesse acabado com o paciente grave. Cogitei descer até a ala de emergência e ver se precisavam de ajuda, então me lembrei de que eu era responsável pela ala pediátrica, e durante o dia. Mas fui mesmo assim. Precisava de respostas e se a garota estivesse apenas ministrando medicamentos, com certeza podia falar comigo e cumprir a tarefa ao mesmo tempo.
Teria caminhado mais rápido se soubesse que quem estava lá no andar de baixo era Rafaela. Aos prantos, Ana me contou que a garota havia se metido em um acidente, o mesmo que eu havia amaldiçoado no meio do caminho até a praia. Fiquei desesperado. Eu havia passado por aquele carro, e pode acreditar em mim, não apostava na vida de ninguém envolvido naquilo.
Suspirei apenas por saber que Rafa estava viva. Em coma, mas viva.
Não dormi naquela noite. Sentei-me na beirada da cama dela e pela primeira vez em muito tempo a observei.
Rafaela não parecia tão forte como tentara mostrar naquela festa. Não era mais tão jovem apesar de ainda ser radiante. Eu sempre me perguntara como ela conseguia emanar aquela aura para todos ao seu redor. Mas talvez não houvesse aura nenhuma: eu era um garoto perdido e ela cheia de oportunidades, e isso, apesar de me ofuscar na maior parte do tempo era sempre um ato heroico me salvar.
A verdade era que nenhum de nós permanecera como antes. Eu também estava diferente, mas com ela tinha um algo a mais. Não era o tempo. Não era a loucura do dia-a-dia da faculdade de medicina. Era o sentimento guardado por tanto tempo. Quantas vezes desde o dia em que fui embora sem avisar ela não havia me amaldiçoado em segredo? Quantas vezes tinha ido até o portão esperar por alguém que ela sabia que não voltaria? Quantas vezes tinha se arrependido por entregar seu bebê aos pais adotivos que trouxeram presentes? De repente eu me vi imaginando como Rafaela estava sozinha enquanto olhava a partida da filha pela janelinha da porta do quarto de enferma, enquanto o bebê brincando com o novo ursinho. A menina teria jogado os bracinhos para o alto e olhara para trás? Teria apontado para a porta do quarto que até aquele momento fora seu e se perguntado o que estava fazendo nos braços de estranhos?
Tentei me consolar. Crianças recém-nascidas não tinham tanta capacidade de raciocínio e provavelmente estava dormindo quando foi levada. Mas acordara em um lugar que não era o seu, com uma mãe que não era a sua e com um homem que se dizia pai. Ela nunca tivera um. Deve ter sido demais para uma mente tão nova.
Afastei os pensamentos mais uma vez. Continuei bombeando a bolinha com a mão, na esperança de que aquela tortura acabasse logo e aquela agulha gigante fosse retirada do meu braço. Era o mínimo que eu podia fazer pelas duas, mas custava tanto!
Eu sabia que aquele sangue não era apenas sangue. Não era uma paciente qualquer que receberia uma transfusão minha e me livraria da responsabilidade depois. Só o fato de ter aceitado assumir a doação já me fazia ser o pai dela de verdade, para mim, para Ana e para quem mais quisesse saber por que meu sangue estava na beirada da cama da menina durante a cirurgia.
Também implicava em deixar a cabeceira da cama de Rafaela durante um período de tempo considerável. Eu não suportaria que a garota acordasse do coma e se visse sozinha novamente pela milésima vez na vida. Talvez não fosse tão literal quanto antes e as enfermeiras estaria a postos assim que ela pensasse em abrir os olhos, mas era importante que ela me visse ali, no meio da madrugada. Aquele havia sido o primeiro dia em que eu decidira dormir na minha própria casa depois do acidente, mas era muito estranho estar em outra ala do hospital senão ao seu lado.
_ Pronto. – Uma das enfermeiras noturnas removeu a agulha. Ela piscou para mim e disse que esperasse um pouco, mas eu não estava interessado em nada que uma garota bonita da minha idade e com um belo par de peitos poderia me oferecer no momento. Colei o esparadrapo no furo do braço, anotei as informações básicas na bolsa de sangue e saí de cena antes que a tal enfermeira voltasse.
Ela continuava dormindo. Os olhos fechados e a cabeça um pouco virada da mesma forma que eu havia deixado antes de ir para casa. Os cabelos bagunçados pareciam gritar que Rafaela acordaria a qualquer momento, mas eu já passara por isso antes. Não aconteceria. Apoiei o braço inchado na poltrona ao lado da cama e fechei os olhos.
Mas eu quase podia sentir como se Rafaela apertasse meus dedos contra os seus. Bobagem. Naquele momento ninguém sabia tão bem quanto eu que doar tanto sangue podia causar tantas alucinações.
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