Era a primeira vez que eu conseguia mover os dedos desde o acidente. Foi um grande passo em meio à escuridão. Eu não sabia quem segurava minha mão, mas senti-me bem de poder confortar quem quer que fosse.

Meus olhos ainda estavam pesados. Os sons começavam a fazer sentido, e agora, içada a algo tão quente como aquela mão era muito mais fácil não ter medo do escuro.

Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo. Comecei a sentir meus olhos mais leves e meus pés se movimentando lentamente, como se nascesse de novo. Eu quase podia piscar, e se reunisse um pouco de força de vontade, certamente o faria. Mas eram tantos sentimentos ao mesmo tempo! De repente eu estava com frio por mais que sentisse a manta grossa sobre mim. De fato, a única coisa quente ali eram os dedos entrelaçados aos meus.

Imaginei que era noite. Mesmo com os olhos fechados a luz do dia criaria sombras que eu não poderia ignorar. Tentei regular minha respiração. Era bom demais estar de volta e eu estava começando a ficar muito agitada. Nesse ritmo nunca conseguiria abrir os olhos. Por mais estranho que parecesse, essa era a parte mais difícil. Cheguei até mesmo a me endireitar na cama, mas de alguma forma minhas pálpebras teimavam em não me obedecer.

Imaginei que a causa poderia ser o medo de ver o que havia acontecido. De quem era a mão? Onde eu estava? E por quanto tempo eu ficara no escuro?

Lentamente, quase como se temesse por minha vida pela milionésima vez somente nas últimas horas, espiei por entre os cílios. Eles haviam se pregado e eu levei mais tempo do que o normal para abrir os olhos. Mesmo assim, quando consegui cumprir com a tarefa, eu só conseguia enxergar tudo borrado. Com o tempo, depois do que me pareceram longos minutos, minha visão começou a entrar em foco de novo.

De repente descobri a resposta para a última pergunta. Sabendo o quanto a luz estava prejudicando meus olhos, eu com certeza não a via por muito tempo. Meu primeiro impulso foi olhar quem estava ao meu lado, mas isso levou bastante tempo. Ao que parecia meus movimentos ainda não estava coordenados o suficiente para que eu girasse a cabeça com facilidade.

De qualquer forma ali estava relativamente escuro e ironicamente eu só conseguia ver as cores mais claras. A tal pessoa estava com a cabeça virada para o outro lado e seus dedos continuavam entrelaçados aos meus. Consegui distinguir a sombra do braço escorado na cama e um esparadrapo chamou minha atenção no meio membro. Estava manchado de sangue.

Eu parecia precisar de tempo para focar minha visão cada vez que olhava para outro ponto, o que fez com que depois de um tempo eu percebesse alguns detalhes no rapaz. Estava pálido. Perdera muito sangue, com certeza.

Ele estivera no carro comigo? Não. O ferimento já teria cicatrizado e de qualquer maneira eu não me lembrava de companhia.

Não tentei olhar para outro lugar. Eu sabia que levaria tempo até distinguir os detalhes, então simplesmente me recostei no travesseiro alto em que estivera repousada momentos antes e continuei olhando a massa corporal sentada no que eu julgava ser uma poltrona escura. Graças aos céus eu conseguia distinguir as cores agora. Talvez fosse de um azul bem fechado porque com certeza não era preta.

Ele se mexia durante o sono. Sim, porque agora eu sabia que ele não estava acordado, quem quer que fosse. Aprendi com os minutos gastos que todas as vezes que ele respirava suas costas seguiam o movimento, para cima e para baixo. Eu quase sentia sono só por observar sua calma. Parecia ter vindo preparado para passar a noite naquele quarto. Estava de pijamas e me fez pensar que sabia qual era a posição ideal para ter uma boa noite dormindo naquela poltrona.

Então o rapaz começou a se mover. Já deveria ser quase de manhã porque a noite do outro lado da janela não estava mais tão densa. Eu quase podia ver o dia raiando dali a alguns minutos. Fiquei tensa de repente. Se aquela pouca luz do quarto já havia embaralhado minha visão, o que faria a luz do sol?

Voltei a atenção para o homem ao meu lado novamente. Eu não o reconhecia, principalmente porque ficara todo o tempo com o rosto virado para o outro lado, no entanto não me era estranho. Eu reconhecia as costas largas e o corte de cabelo torto na parte da nuca de algum lugar, mas não me lembrava de onde. E por que raios aquele esparadrapo manchado me incomodava tanto? Percebi que evitara olhar para o ponto branco no momento em que descobri o que era, e eu nem sabia por quê.

Mas todo o mistério estava para ser decifrado, afinal. O tal garoto parecia estar despertando e fiquei feliz de constatar por mim mesma. Os movimentos das costas que indicavam a respiração não estavam mais rítmicos. Não tinham mais uma sequencia estável como quando ele estava dormindo.

Então esperei. Ele se voltaria para mim uma hora ou outra e eu meio que estava feliz por ser tão importante para alguém a ponto de fazer a pessoa passar noites ao meu lado sem saber quando eu acordaria. Meus lábios se curvaram. Meus músculos ainda estavam meio pesados, o que não deixou o movimento mais gracioso. Tratei de deixar meu rosto livre de tentativas de sorrisos fracassados porque minha aparência com certeza já não era das melhores. Eu quase podia sentir os nós dos meus cabelos clamando por misericórdia. Pensei se conseguiria desfazê-los. Se não fosse o caso, cortaria tudo eu mesma. Não sabia ao certo por que, mas sempre fora bastante neurótica com o meu cabelo. Herança de família, tinha certeza.

Meu coração disparou quando o homem levantou a cabeça. Lucca.

Ele tentou esfregar os olhos, mas pelo visto não contava com nossos dedos entrelaçados. Quando baixou o olhar a fim de ver o que prendia sua mão pareceu levar um choque imenso. Olhou imediatamente para o meu rosto e viu minha cabeça apoiada no travesseiro alto, os olhos abertos e o rosto sem expressão. Eu não tivera muito êxito em fazer muitas caretas até o momento e não era muito fácil para falar a verdade. Eu só fazia piscar enquanto ele me encarava, não por não conseguir mexer o rosto rapidamente, mas porque simplesmente não parecia capaz de acreditar que eu tivesse mesmo acordado no meio da noite.

Quis fazer alguma expressão de desafio, mas falhei miseravelmente em erguer as sobrancelhas. Ele começou a gargalhar e eu não sabia se devia ficar ofendia ou rir junto.

_ Tantos momentos para acordar e você me resolve fazer isso justamente quando estou dormindo? – Revirou os olhos. – É muita crueldade. Não consegue falar? – Perguntou quando eu tentei fazer alguma gracinha, mas fosse o que fosse, meus lábios se abriram, mas não saiu som algum de lá. – Tudo bem. Você vai melhorando. – Sussurrou enquanto se sentava ao meu lado. – Sabe, o silêncio até que é bom. Nunca chegamos a ter uma conversa realmente produtiva porque você sempre resolvia ironizar tudo antes. – Me olhou desafiador.

Tentei virar o rosto, mas ele parou de zombar da minha cara quando comecei a cumprir a dura missão. Baixei os olhos para o esparadrapo, rezando para que ele entendesse a pergunta muda. Nossos dedos continuavam entrelaçados e por mais que dissesse a mim mesma que isso acontecia graças à minha incapacidade de movimentos, lá no fundo eu sabia que poderia muito bem soltá-los com algum esforço.

Ele seguiu meu olhar relutante, temendo que eu olhasse mesmo para aquele curativo. Lucca pousou a outra mão sobre o esparadrapo e balançou a cabeça como se aquilo fosse apenas uma lembrança.

_ Não é nada, linda. – Ele tinha me chamado de linda. Alguma coisa estava muito errada ali porque se eu bem me lembrava, ele guardava mágoas sem sentido contra mim desde o momento em que nos vimos novamente. Ele pareceu perceber a gafe, mas não fez nada para modificar as palavras. Na verdade, parecia muito satisfeito com o elogio. – Preciso ligar para a Ana. Ela vai vir correndo, tenho certeza. – Sorriu e olhou para nossas mãos entrelaçadas. Fez menção de se soltar por mais que relutasse, mas eu o apertei contra mim mais forte.

Eu não queria ficar sozinha e aquele aperto era o mais perto de alguém que eu chegara nos últimos vários dias. Não estava pronta para me livrar dele e alguma coisa me dizia que não era os dedos em si que me faziam relutar tanto. Eu não queria que ele fosse embora. Era a primeira vez desde o seu retorno que ele havia me tocado sem segundas intenções como aconteceu no baile. Lucca entendeu meu olhar e fiquei muito satisfeita por ter passado toda aquela informação sem ao menos poder falar.

Mesmo não estando acostumado, o menino pescou o celular no bolso do moletom e discou o número da minha prima, demorando mais do que o normal se usasse a outra mão. Eu não prestei atenção na conversa por mais que ele parecesse muito emocionado enquanto dava a notícia. Sempre tinha aprendido que ouvir conversa dos outros era falta de educação, além de que minha cabeça já havia começado a latejar depois de tantos acontecimentos recentes, em vista do marasmo dos últimos dias escuros.

Eu estava quase pegando no sono graças ao silêncio acolhedor e ao aperto aconchegante de Lucca quando o que me pareceu um furacão invadiu as instalações substituindo toda a calma instaurada nos últimos minutos.

_ Rafa! – A menina gritou. Parecia mais um borrão de cores destinado a instalar a luz do sol no quarto de tanto que corria. Eu não consegui distinguir quem era graças aos movimentos bruscos. Quando ela parou, alguns centímetros do meu rosto, percebi que se tratava na verdade de Ana, a sempre sem noção da minha prima. Lucca tentou acalmá-la enquanto explicava que meus sentidos estavam mais lentos que o normal e que ela estava me deixando estressada. – Como você está? – Perguntou com muito mais calma, quase me ofendendo de tanto que começara a pausar as palavras.

Ela não obteve resposta e começou a olhar de um lado para o outro, sem saber o que estava acontecendo ali. Onde diabos a médica estava escondida dentro daquele corpo saltitante?

_ Ela está surda? – Quase gritou no meu ouvido, mas eu sabia que não fora de propósito levando em consideração que há poucos segundos verbalizara sua preocupação com relação à minha audição.

_ Não, Ana. Só não consegue falar ainda. – Lucca parecia tentar conter a risada que se formava. Não o culpei. Ana parecia uma daquelas mães que nós sempre zoávamos depois de consultar as criancinhas.

_ E você já testou?

_ Não. Mas ela parecia entender muito bem o que eu estava falando. Até olhava para mim quando eu começava a falar. – Revirou os olhos e colocou a mão na cabeça.

_ Ah bom. Nesse caso tudo bem. Não aguentaria uma prima surda, entende? Eu gosto de falar muito e preciso que as pessoas me escutem. – Sim, eu sabia muito bem disso. Temi os momentos em que Ana se sentaria onde minutos atrás estivera um silencioso Lucca e começaria a falar sem restrições já que estava incapacitada de mandá-la parar. O pensamento me atormentava mais do que seria capaz de admitir. – Mas o que houve? Achei que você dormiria em casa hoje. Eu teria vindo, mas achei melhor não deixar meus tios sozinhos. Eles ficaram bem atormentados quando souberam do acidente e não seria nada melhor se os dois se metessem em outra confusão enquanto tentassem fugir de casa e vir para cá no meio da noite.

_ Eu ia. Mas resolvi dar uma passada. Graças a Deus, porque não ia suportar vê-la acordando sozinha aqui. – Suspirou, mas minha prima não estava mais dando atenção à suas palavras. Observava hipnotizada o esparadrapo em seu braço do mesmo modo que eu fizera alguns momentos antes.

_ Você doou! – Deu pulinhos enquanto corria para se jogar em seus braços. Lucca se assustou de verdade e não teve tempo de soltar minha mão. A garota quase se jogou em cima de mim e errou por muito pouco para falar a verdade. Lucca a afastou gentilmente e sorriu forçado.

_ Conversamos sobre isso depois. – Ele parecia mais impassível do que se sorriso falso admitia. Ela pareceu entender, mas do nada resolveu que tinha muitas coisas para fazer fora daquele quarto, o que eu achava muito descaramento, já que ela só aparecera graças à ligação do Lucca e com certeza não tinha trabalho às seis da manhã.

Olhei o garoto no momento em que minha prima cruzava a soleira da porta. Ele coçava a cabeça como se não acreditasse no comportamento da visitante, e dando uma risada amarela, voltou sua atenção para mim novamente.

_ Eu doei sangue para uma cirurgia. – Admitiu enquanto levava as mãos aos cabelos. Ele sempre fazia aquilo quando estava nervoso. – Ana deve estar indo agendar tudo. — Dei-me por satisfeita e tentei sorrir. Meus músculos estavam começando a se movimentar melhor agora, o que fez com que o movimento fosse muito mais bonito do que antes. Assim eu achei, porque Lucca abriu um sorriso de orelha a orelha e se recostou novamente na poltrona enquanto eu fechava os olhos. O cansaço me dominava e pela primeira vez na vida tive a resposta que sempre me intrigara. Não. Estar em coma não supria as minhas necessidades de sono. Mas eu parecia estar me esquecendo de alguma coisa. Uma coisa muito importante. Eu quase achava que tinha algo a ver com o acidente.

De qualquer forma era muito suspeito que Lucca tivesse resolvido doar sangue de uma hora para a outra. Eu sabia que ele era uma pessoa boa, mas não do tipo que ajuda os outros de uma forma tão profunda. Dei de ombros. Nada parecia fazer muito sentido depois de ter acordado de um coma longo.

Segurei seu pulso que portava um relógio. Esperei que ele entendesse.

_ Ah. Mais de um mês. – Sussurrou e apertou mais forte seus dedos contra os meus quando percebeu minha inquietação. – Sinto muito. Mas se você quer saber, depois da segunda semana, ninguém mais achava que você acordaria. Então devia ficar feliz por ter aberto os olhos. – Ponderou. Fiz um leve movimento com a cabeça em sinal de entendimento e fiquei feliz por Lucca não ter dito mais nada. Por mais que eu tivesse pedido a informação, não esperava que o tempo fosse tão longo. Um mês não era quase nada, mas em cima de uma cama de hospital parecia uma vida.

As memórias começaram a me metralhar depois de alguns minutos. Memórias nítidas e mais importantes que os faróis. Imaginei que meu cérebro estivesse processando tudo de novo depois de tanto tempo sem funcionar normalmente. Preferia que ele não o tivesse feito. Lucca parecia preocupado e eu não sabia por que até o momento. Provavelmente estava esperando que eu me lembrasse do pior e não pudesse fazer nada quanto a isso.

Havia um casal pouco antes do acidente. Eu os reconhecia, mas ainda não me lembrava de onde. Mas era importante me lembrar de outra pessoa que também estava ali. A lembrança era borrada, mas não me impediu de saltitar junto comigo mesma até o berço. Era estranho estar me seguido, mas não me importei. Lucca também estava lá, agora dentro do elevador clicando nos botões avidamente na esperança de que as portas se escancarassem mais cedo.

Ficou claro então. A criança era Ariana. Meu bebê desaparecido. Por isso o acidente. Eu havia me desesperado e não conseguira suportar a imagem dela respirando por aparelhos. Peguei o carro e saí sem rumo pela cidade. Então vieram os faróis.

Puxei sua camisa com força e eu sabia que meus olhos aparentavam tanta preocupação quanto eu sentia de verdade. Ele sabia o que estava acontecendo. Suspirou e se sentou na cama, sempre olhando nos meus olhos.

_ Ela está bem. Mas vai precisar de cirurgia. – Minha cabeça funcionava a todo o vapor agora. Olhei o esparadrapo e de novo para seus olhos inquietos. – Sim. Era para ela. – Sorriu de canto. – Por que não me disse a verdade? Eu fiquei pensando que você havia abortado e você não fez nada para desmentir. – Sussurrou enquanto mexia no meu cabelo, sempre reconfortante.

Seria tão bom conseguir falar. Eu explicaria que lá no fundo aquele era o castigo dele. Pensar que a filha estava condenada mesmo que me chamasse de assassina me fazia sentir com se tivesse dado a volta por cima, sem me importar com suas acusações. Ele parecia entender tudo isso no meu olhar, o que me apavorava um pouco. Ele me conhecia tão bem.

_ Tudo bem, princesa. Conversamos sobre isso depois. Não se preocupe. Ana vai fazer a cirurgia e depois vamos poder tirá-la dos aparelhos. – Sussurrou enquanto acariciava minhas bochechas com os polegares.

Assenti levemente, ainda pensando no esparadrapo de Lucca. Essa era uma atitude de pai, não era? Então porque todo esse sentimentalismo não se fez presente antes?

_ Me desculpe por ter fugido. Eu já disse isso e sei que você não vai aceitar de novo, mas eu vou me desculpar até que consiga me perdoar. – Abaixou a cabeça.

Talvez Ana estivesse certa afinal, e as pessoas boas se sujeitam à maldade para fugir do medo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.