Somos programados para cair
4 Dançando
Eu não esperava que fosse correspondida para falar a verdade. Não esperava nada além de surpresa, mas como sempre, me enganei.
Lucca Martini pareceu entender muito bem o meu jogo e não deixou por menos. Em um teatro não programado, simplesmente agiu como se não me conhecesse e apertou minha mão, talvez mais forte que o necessário. Senti Ana suspirar atrás de mim: com certeza estava pensando o mesmo que eu. Senti medo que o garoto me puxasse para alguma conversa fictícia e começasse a me lançar indiretas veladas. Ou pior: ele poderia, como nos filmes, fingir um abraço e sussurrar alguma coisa constrangedora no meu ouvido que com toda a certeza me desarmaria.
Mas ele não o fez. Pareceu estar esperando um momento mais apropriado, o que era muito pior. Martini nunca ficava por baixo e tentaria revidar meu ataque com algo pior em uma hora pior.
Soltei-me o mais rápido possível com o pensamento de que manteria distância dali para frente. Mas é claro que minha sorte não mudaria assim, da água para o vinho. O inglês, Bran, resolveu que deveríamos nos juntar como um grupo de amigos realmente próximos que haviam se reencontrado e propôs uma rodada de bebidas, o que não era nem um pouco recomendável especificamente para a minha pessoa. Sou muito fraca com qualquer tipo de substância alcoólica, e o garoto risonho, que parecia ter recebido um presente de Natal adiantado quando viu que eu não teria escapatória, sabia muito bem disso.
Ana também entendeu a gravidade da situação e começou a querer me ajudar, mas eu já estava decidida. Não pretendia mostrar nenhum lado daquela garota que um dia eu fora, a que Lucca Martini tão mal conhecia. Minha prima suspirou quando não me mexi, prevendo a tragédia, mas eu pouco ligava agora. Pedi a primeira coisa do cardápio e esperei: todos os pedidos eram exatamente a mesma coisa a meu ver.
Sentei-me em uma das mesas ao lado de uma garota risonha de cabelos ruivos obviamente pintados. Tentei admirar a decoração das mesas, um vaso de violetas coloridas: normalmente acharia tudo muito lindo, mas estava mais ocupada em obrigar meu subconsciente a manter-se sóbrio até o final da noite.
Recebi minha bebida e mirei o copo cheio, depositando ali toda a minha raiva, mas sinceramente, eu não sabia bem do quê. Levei a bebida aos lábios ao mesmo tempo em que vi de relance um sorriso divertido esperando a catástrofe certa. Tinha planejado beber apenas um gole a fim de me acostumar com o sabor particular, mas virei tudo de uma vez sem querer. Tentei não demonstrar o erro e pareci obter sucesso exceto para dois pares de olhos da roda: Ana e Lucca, que segurava o riso como se a vida dependesse daquilo.
_ Rafa? – Ana chamou timidamente. Olhei-a de canto e esperei que continuasse, esperando que falasse baixo a ponto de não sermos ouvidas por ninguém.
_ Pare de beber. Sério. – Revirou os olhos. Ri internamente e tratei de não pedir mais nada. Apenas esperei que o interesse repentino dos outros de destruir o fígado passasse e pudéssemos passar para outra atividade, menos comprometedora, talvez.
_ Certo. – A garota ao meu lado anunciou, com a visão um pouco mais desfocada do que o normal. Todos a olharam com um interesse repentino: parecia ser a mais tímida do grupo e agora estava a ponto de sugerir alguma atividade ou sei lá mais o que. – Podemos dançar? – Ergueu as sobrancelhas. Admito que considerei a pergunta por um momento e confesso que não achei a opção nada má.
_ Apoio. – Um garoto moreno concordou animadamente. Eu não sabia o nome dele muito bem. Alguma coisa parecida com Mitchell, mas não confiava na minha capacidade mental enquanto estava embriagada.
_ Claro. – Ana parecia muito mais despreocupada agora, os olhos grudados no tal Mitchell. Sorri. Com certeza não era de se jogar fora.
_ Rafaela? – Lucca chamou. Admirei-me, mas meu juízo havia sumido junto com a segunda taça de bebida que havia prometido não consumir.
_ Topo. – Pisquei, não especificamente para ele. Ana pareceu um pouco preocupada, mas logo foi para a pista com o moreno e me deixou sozinha em frente ao perigo.
Levantei-me sem cambalear e acompanhei Bran e a garota ruiva. Mesmo estando um pouco fora do meu normal com certeza sabia identificar bem quem eram as pessoas perto de mim. Comecei a dançar quando aumentaram o som e fiquei muito feliz quando percebi que a música era a minha favorita. A tal menina ruiva, que mais tarde descobrir se chamar Hanna parecia estar satisfeita com a seleção musical tanto quanto eu e juntas acabamos fazendo uma dupla realmente boa.
Mas é claro que Lucca era muito vingativo. Ele parecia ter encontrado a oportunidade perfeita para revidar meu golpe de mais cedo. O garoto chegara atrás de mim quando menos esperava, já tomando a terceira dose de bebida e me assustou como se tivesse alguma intimidade para isso. bem, não imagino que essa tenha sido sua real intenção mas acabei por cuspir todo o líquido no meio da pista de dança.
_ Você não dançava assim tão bem quando nos conhecemos. – Sussurrou no meu ouvido.
_ E por acaso você pensou por apenas um segundo que eu era a mesma garota que você abandonou naquele dia? – Perguntei quando consegui me recuperar do choque.
Martini não pareceu ter resposta. Agradeci aos céus quando o infeliz saiu da minha cola e me deixou novamente com meus novos amigos enquanto dançava, agora já não tão concentrada no ritmo da música.
Sentei-me então em um dos bancos na frente do bar. Com toda a certeza Lucca não tentaria me fazer companhia, mas eu já não tinha certeza de mais nada. Enquanto isso, Ana desaparecera com o tal moreno Mitchell e me deixara sozinha ali no meio do ninho de cobras. Revirei os olhos quando não a encontrei, mas no fundo estava bem feliz com seu desaparecimento repentino: em primeiro lugar não receberia um sermão sobre como deveria me divertir e não deixar que Martini afetasse meu ego recém-inflado e em segundo, como sua prima, confidente e melhor amiga, ficava feliz por ela estar se divertindo, por mais que fosse com um desconhecido. Pensando por outro lado, porém, eles se encontrariam muito dali em diante e por isso não seria uma completa perda de tempo.
O cara do bar apareceu ao meu auxílio. Fiquei pensando em como seria pela primeira vez na vida revelar toda a minha história para uma pessoa qualquer, sem ser alguém da minha família. Lembrei-me dos filmes dramáticos e nada convencionais em que as barangas principais despejavam suas mágoas nos coitados dos barmen e comecei a imaginar o quão ruim seria fazer o mesmo. Não só para mim mas porque ninguém era obrigado a ouvir os problemas de ninguém, principalmente de uma garota que tivera a sorte grande e que insistia em reviver fatos passados.
_ Quer alguma coisa, senhorita?
_ O mais forte que você tiver. – Suspirei. Era isso ou despejar tudo no coitado do homem na minha frente. Pelo bem maior, tanto meu quanto dele, resolvi sofrer sozinha.
A coisa, seja lá o que for, ardia barbaramente quando atingia minha garganta, e o barmen esperava do outro lado da adega olhando-me interessado. Sorri quando ele pareceu querer perguntar se eu estava bem e levantei-me um pouco zonza, mas ainda firme e me dirigi novamente ao centro da pista.
Ana voltara e consigo trouxera Mitchell. Sinalizei para que me acompanhasse e tentei não pensar na ironia de me esconder no banheiro pela segunda vez na mesma semana por causa da mesma pessoa. Contei toda a história para a garota na minha frente, que parecia dividida entre escutar tudo com calma e voltar para a companhia do “amigo” novo.
_ Ele não fez isso. – Finalizou.
_ Fez, Ana. – Lamentei.
_ Bem, pelo menos sabemos que ele revidou e provavelmente não vai fazer mais nada no tempo que nos resta. – Ponderou.
_ Provavelmente. Eu também achava que provavelmente ele não iria me incomodar enquanto estava dançando com Hanna. – Revirei os olhos.
_ Quer ir? – Eu quase podia ver minha prima implorando pela negação.
_ Não. – Suspirei. – Vá se divertir. Ficarei bem. – Sorri.
_ Tem certeza? – Olhou-me preocupada.
_ Claro. Não ficarei longe dos outros o bastante para que ele possa me provocar de novo.
_ O que há? – Bran ergueu as sobrancelhas enquanto passava seus dois braços livres pelos nossos pescoços. – Fetiche por banheiros?
_ Mulheres nunca vão ao banheiro sozinhas, idiota. – Inventei a desculpa.
_ Deve ser realmente muito lindo dentro do banheiro feminino. – Suspirou já bastante bêbado.
_ Vamos, Bran. Pego um copo de água para você. – Puxei-o pelo braço quando Mitchell alcançou novamente minha prima, agora ruborizada.
_ Estou bem. – Reclamou quando o levei para o bar e fiz o pedido.
_ É claro que está. – Revirei os olhos, agradecendo o barman e colocando o copo na sua frente. Tratei de esperar que bebesse tudo antes que saíssemos de lá e então fomos para a mesa, onde Hanna agora se sentava e brincava com os enfeites de mesa.
_ O que foi? – Ergueu a sobrancelha quando joguei Bran na cadeira ao meu lado com certa força, já que o garoto teimava em pedir mais bebida ao garçom que passava por ali.
_ Bebeu muito. Nada de mais. – Revirei os olhos e mantive Muniz devidamente sentado.
_ Ah. – Riu-se. – Não esperava que fosse do tipo dele sair bebendo todas.
_ Eu também não. – Concordei. O garçom havia chegado com mais uma taça e comecei a beber aqui mesmo com os arquejos de decepção de Bran.
_ Olá, garotas. – Suspirei e tentei esconder meu rosto dentro do copo, mas era tarde demais. Lucca Martini estava disposto a me infernizar naquela noite. – O que foi Bran? – Perguntou ao garoto que me olhava ameaçador.
_ Rafa roubou minha bebida. – Explodiu.
_ Não roubei nada. – Revirei os olhos. – Por acaso você pagou por ela? – Questionei. O garoto não pareceu encontrar resposta e simplesmente se limitou a pedir uma nova dose ao garçom. Dessa vez não o interrompi. Tratei de beber tudo logo e comecei a pensar em uma desculpa para sair daquela mesa, já que Martini agora estava sentado entre nós.
_ Você sempre bebe muito? – perguntou, acusatoriamente.
_ Nem sempre. Só quando quero não lembrar. – Bran e Hanna estavam agora absortos em uma conversa sobre alguma coisa que não era do meu interesse e não deram a mínima atenção à minha espinhosa resposta.
_ Certo. – Concordou. Alguma coisa no seu tom de voz me preocupou. Até aquele momento, Lucca não havia retrucado minhas respostas mal-educadas. – Mas e então? Quer dançar? – Quase cuspi tudo.
_ O que?
_ Você pode beber bastante depois disso. – Agora Hanna e Bran estavam muito centrados na nossa conversa e eu quase não via razões para dizer não sem englobar outros fatos resguardados. – Além do mais, — Fingiu tocar meu cabelo. – Preciso falar com você. – Completou.
_ Não acho que meu equilíbrio esteja favorável. – Dei a desculpa quase implorando para que fosse aceita.
_ Não se preocupe. Não bebi muito. Posso segurar você se preciso for. – Piscou. – E você não tem mais desculpas. – Completou apenas mexendo os lábios.
_ Você não sabe disso. – Sussurrei.
_ Sei. Porque você é exatamente a mesma garota. – Completou enquanto me estendia a mão. Hesitei um pouco, mas por fim, como ele mesmo disse, eu não tive escolha. Levantei-me com todos os olhares nos seguindo. Por mais que algumas pessoas tivessem se envolvido ali como no caso de Mitchell e Ana, uma dança era muito mais concreta.
Era uma sensação estranha. Ao mesmo tempo em que pensava freneticamente em como poderia me livrar daquilo, uma parte de mim sentia-se radiante pela atenção. Revirei os olhos. Eu não deveria ser a mesma garota. Lucca me levou ao centro da pista e ali segurou minha mão no alto, o que resultou em um gracioso rodopio. Não pude impedir a proximidade que veio a seguir e eu tinha certeza de que era planejada.
_ Sinto muito. – Sussurrou quase sem mover os lábios. Ele sabia que eu iria retrucar e perder a compostura no momento em que me virei bruscamente em sua direção e por isso, comandando os movimentos, afastou-me novamente para depois puxar-me, já sem possibilidade de falar nada.
_ É muito fácil falar agora. – Sussurrei no mesmo tom que ele enquanto dançávamos no rito da música.
_ Sabe que faria o mesmo que eu.
_ Não. – Rodopiei por conta própria, dessa vez tentando desesperadamente fugir do seu perfume que me embriagava tanto quanto a bebida.
_ Você fez pior. – Rodopiei novamente. Eu decididamente não entendia do que ele estava falando. Com certeza ele não sabia o que eu tinha feito porque simplesmente não estava lá.
_ Não, não fiz. – Sussurrei, enquanto tomávamos a pista toda, dançando aos olhos de todos os participantes. Comecei a implorar que Ana voltasse logo com alguma desculpa, mas ela nunca veio.
_ Você não o abandonou. – Sussurrou frio, como se eu fosse a vilã da história. – Você o matou. – Completou quando volte e colei meu peito ao seu sem perceber. Eu nunca matara ninguém e agora começava a duvidar da sua sanidade.
_ Não sou uma assassina. – Olhei-o nos olhos agora. Ele não acreditava. Decididamente estava me confundindo com outra pessoa ou simplesmente queria me provocar mais um pouco. Ele sabia que podia. Eu não poderia fazer nada contra isso a não ser seguir seus passos e continuar ouvindo cada palavra.
_ Então onde está? – Perguntou depois de um tempo, durante o qual dançamos apenas, cada um absorto com seus próprios pensamentos.
_ Seguro. – Completei, finalmente entendendo o que Lucca queria dizer, mas ele não me ouvira. Agora olhava para o nada enquanto me jogava de um lado para o outro no salão. Eu não havia reparado o quanto ele apertara meu pulso desde o início da conversa.
_ Acha que recompensa a vida dele salvando outras? – Dessa vez ele quase se perdera. – Nunca vai ser a mesma coisa.
Eu simplesmente não conseguia retrucar. Tinha uma ideia do que ele estava falando, mas com certeza o garoto estava com um ideia equivocada sobre tudo e senti a raiva borbulhando no fundo do meu estômago.
_ Era uma menina. – Sussurrei sem perceber. Ele parou os passos de dança, incapaz de continuar, as máscaras caídas e nossos olhos focados um no outro, sem saber mais o que dizer.
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