Somos programados para cair
5 St. Thomas
Notas iniciais
Lucca não faz nada para me impedir de sair de seus braços. Abriu um sorriso que não chegava aos olhos, mas que pareceu convencer os outros internos e virou as costas descontraidamente, enquanto eu voltava a passos largos para a mesma onde estavam Hanna e Bran, agora me olhando maliciosamente.
_ Sem comentários. – Intervi enquanto a garota fazia menção de abrir a boca, que foi fechada rapidamente sem produzir som algum. – Beba isso logo e pare de me olhar como se fosse uma das sete maravilhas do mundo, Muniz. – Revirei os olhos. Ruborizado, o loiro milionário escondeu o rosto dentro do copo, mas não se conteve e de tempos em tempos acabava me lançando olhares comprometedores.
_ Olá. – Ana apareceu uns quinze minutos depois, radiante de felicidade. Mitchell havia se sentado em uma mesma mais afastada sorrindo de orelha a orelha, isento dos problemas do garoto ao seu lado. Lucca não olhava para a nossa direção, mas era óbvio que estava pensando no ocorrido, o rosto mais amargo do que em qualquer outro momento daquela festa idiota.
_ Oi. – Todos cumprimentaram sem fazer muita questão de perguntar sobre seu paradeiro. Pareciam muito ocupados em contar minha aventura na pista de dança para minha prima atordoada. Teria achado muito engraçada a cara da garota se o momento não fosse assim tão crítico.
_ Não podem estar falando sério. – Ela conseguiu não sei como parecer amistosa, mas o brilho dos seus olhos se extinguiram quase instantaneamente. – Vocês dançaram? – Acusou-me.
_ Não é como se eu tivesse outra escolha. – Brinquei, no que os outros integrantes da mesa riram, entendendo o contexto de forma equivocada. Ana sentou-se ao meu lado e não saiu dali durante o resto da festa, nem mesmo quando foi convidada para dançar. Disse que estava um pouco cansada e acabou por dispensar Mitchell, não sem antes marcar de encontrá-lo em um teatro da cidade.
Lá pelas duas da manhã, quando eu havia começado ame divertir novamente, percebemos que já poderíamos sair sem levantar suspeitas e escorregamos para a porta sem sermos vistas por Lucca. Eu sabia que ele não tentaria mias nada por mais que o garoto não fosse muito fácil de decifrar. O caminho e o tempo que levei para ir das portes de mogno até o carro pareceram um borrão para mim. Eu quase não reparei na presença dos fotógrafos nos corredores e nem me dei ao trabalho de fingir um sorriso divertido. Ana não parecia muito divertida e me apressou quando avistou a saída. Bem, não poderíamos dizer que fora ua festa chata pelo menos.
_ Agora explique. – Ela parecia ter segurado a ordem durante todo o caminho até o automóvel e por mais que não quisesse falar sobre isso achei que ela merecia uma resposta, então comecei a narrar a novela mexicana.
_ Ele te chamou de assassina? – Ergueu a sobrancelha, descrente.
_ Sim. – Afirmei.
_ Você andou fazendo alguma coisa que eu não saiba? – Pareceu fazer graça, mas quando percebeu que eu não rira, começou a levar a sério de verdade. – Bom, eu realmente não consigo entender por que ele diria isso.
_ Ele acha que eu abortei, Ana. – Sussurrei, os olhos fixos na estrada.
_ Mas como ele pode supor isso se foi embora antes de supostamente ter acontecido?
_ Não sei. Acho que ele não esperava que eu tivesse passado na faculdade e nem continuasse magra. A maioria das mulheres grávidas carregam marcas permanentes.
_ Você não fez isso. Disse a ele?
_ Disse. Só que ele não me ouviu. – Suspirei. Eu me sentia um pouco culpada no fim das contas. Por mais que não tivesse feito nada disso, havia considerado a hipótese.
_ E então pararam de dançar. – Adivinhou.
_ Sim. – Sussurrei.
_ Não podemos dizer que ele esteja certo por tirar satisfações com você, Rafa. Veja bem, ele foi embora e não te deixou escolha a não ser decidir sozinha. Se não tivesse mantido a calma, teria seguido o caminho errado e a culpa não seria só sua.
_ Eu sei. – Concordei ainda sem expressão. Pensar no bebê fez minha garganta dar um nó dolorido.
_ Você se arrepende de ter mandado ela para adoção, não é? – Questionou. Eu não pude responder. À época parecia uma boa opção visto que eu estava desesperada, mas agora ficava pensando em como seria se tivesse sido diferente. Ana apertou minha mão.
_ Não foi errado. Você só tinha dezessete. Fez a coisa certa por mais que se arrependa. – Completou firme. Entrei derrapando na garagem. Fiquei preocupada quando vi as luzes acesas: Nessa hora da madrugada meus pais já deveriam estar dormindo há tempos.
Com as sobrancelhas erguidas caminhei até a porta girei a maçaneta. Como previa, estava aberta. Minha mãe encontrava-se sentada no sofá, esperando pela nossa volta. A mulher parecia muito ansiosa, porque batucava na mesinha de centro e contava os segundo enquanto piscava centenas de vezes por minuto.
_ Rafaela. – Ela parecia preocupada e ao mesmo tempo contendo a vontade de me jogar alguma coisa. – O que foi aquilo, garota? Perdeu a noção? – Olhei para Ana, que parecia tão surpresa quanto eu. – Aquela festa apareceu na televisão em tempo real. – Explodiu. – E depois de tudo você resolve dançar com ele, é isso mesmo?
_ Eu não tive escolha, mãe. – Suspirei enquanto minha prima procurava o vídeo da festa. Encontrou-o no Youtube com milhões de visualizações e olhou-me quase risonha. – O que foi?
_ Estão do lado de vocês. Criaram até um nome, Rafa. Vocês fizeram mais sucesso que Mitchell e eu. – Começou a rir. – Ao que parece não conseguiram ouvir a conversa de vocês para colocar na gravação, então deixaram a música como plano de fundo. Disseram que especialistas em leitura labial afirmaram que você e Lucca estavam fazendo juras de amor e agora alguns espectadores disseram acreditar em amor à primeira vista.
_ Não acredito. – Comecei a rir da minha desgraça. Mamãe batia o pé esquerdo com raiva e não entendia nada.
_ É verdade, Rafaela? – questionou ao mesmo tempo curiosa e não querendo saber a resposta.
_ É claro que não, mãe. Estávamos brigando. – Expliquei, no que ela ficou um pouco mais aliviada. – Ele me chamou para dançar porque queria conversar e eu não tinha como falar não. – Revirei os olhos. – Não pôde pensar que eu fosse tão idiota.
_ O que eu poderia fazer, garota? Você está sendo conhecida como a garota que provou que amor à primeira vista é real.
_ Ei. – Ana chamou, com um traço de malícia na voz. – Por que não se preocupou em tirar a mão dele da sua bunda? – Caiu na risada.
_ Nem reparei em onde a mão dele estava, sua demente. – Olhei-a, ciente de que estava rubra da cabeça aos pés. Ana riu da minha cara mesmo sabendo que eu a mataria quando tivesse oportunidade. – Agora, se vocês puderem parar de rir de mim, quero dormir um pouco já que os organizadores não pensaram que seria muito chato marcar o dia da iniciação no hospital para a manhã depois da festa. Mas não se preocupem. Podem começar de novo quando eu desparecer pela porta.
_ Vou com você. – Ana se engasgou com a própria risada enquanto me seguida. Pensei por um momento de soltar alguma coisa sobre ela e Mitchell, mas a estrela da noite, para o bem ou para o mal, havia realmente sido eu.
Deitei-me na minha cama depois de me despedir de uma prima também cansada e abracei o travesseiro. Eu não sabia como deveria reagir no dia seguinte. Agora estava mais perdida do que no caminho para a festa e sabia que deveria tomar alguma providência quanto àquilo. Era óbvio que toda aquela palhaçada não poderia continuar, mas eu não conseguiria simplesmente seguir em frente depois de tudo o que passei com Lucca, e pelo visto, o garoto achava que eu era uma assassina abortiva, então fazer as pazes não era realmente uma opção válida.
Eu não sabia como lidar com todo aquele turbilhão. Havia escolhido medicina porque me sentia mais segura trabalhando com fatos concretos e como consequência dessa escolha, os sentimentos sempre eram mais inalcançáveis na minha cabeça. Eu não sabia o que sentia: uma parte de mim queria esmurrar cada milímetro daquele rosto bonito e a outra estava impressionada por uma vez na vida ele ter ficado preocupado com o destino da filha que havia abandonado. Ele não era ruim, e eu sabia disso. Era o que mais me preocupava.
_ Como se sente? – Ana saudou-me na mesa do café enquanto abotoava a camisa de seda. Dei-lhe uma grande caneca de café quente esperando que o produto acabasse com a dor de cabeça dela como acabou com a minha. Devorei alguns bolinhos decorados e corri ao banheiro, pretendendo escovar os dentes.
Meu celular tocou no momento em que coloquei pasta de dente na escova. Normalmente não atenderia, mas eu estava começando em um emprego novo então fiquei com medo de ser alguma notícia importante.
_ Rafaela. – Anunciei, a escova de dentes batucando nervosamente na pia do banheiro.
_ Olá, Maluca da Chuva.
_ O que foi Bran? – Revirei os olhos enquanto sorria. – Como conseguiu meu número?
_ Tenho meus contatos. – Eu quase o imaginava piscando. – Enfim, pode me dar carona? – Questionou quase implorando.
_ Achei que fosse milionário. – Ergui a sobrancelha.
_ Ah, cale a boca. Não quero depender do dinheiro do meu pai para isso. Vai, são só duas esquinas.
_ Tudo bem. Me passe o endereço que eu te pego.
Escovei os dentes com o telefone no ouvido.
_ Ah. Vai ter que levar o Lucca também.
_ Nem pensar, Bran. – Quase gritei.
_ Olha, deu para ver que você não gosta muito dele, mas eu não pude fazer nada, gata. Ele estava ficando muito bêbado e eu tive que trazê-lo para a minha casa. Por favor.
_ Certo. Certo. – Concordei relutante. Despedi-me e desliguei o telefone. Odiei-me por me olhar no espelho mais vezes do que o necessário naquela manhã e saí correndo em direção ao carro quando vi que já estava quase atrasada. Ana embarcou no banco do passageiro já ciente da nossa pequena aventura até as dependências do hospital, um sorriso zombeteiro no canto dos lábios me irritando profundamente. Coloquei os óculos de sol no momento em que estacionei na porta do riquinho.
_ Nossa. – Exclamou o que estava preso na minha garganta. Como aquele infeliz não podia ter um carro morando em uma mansão gigante como aquela? De verdade, quase o imaginei vestindo um roupão com as iniciais BM bordadas na frente. Ana estava com a boca aberta em um perfeito “O” e eu não a julgava. Tive de me abaixar para ver o teto daquela monstruosidade.
_ Senhoritas. – Bran parecia impassível enquanto saía do seu castelo particular, entregando um remédio para dor de cabeça e um saco de gelo a Lucca. O garoto espremeu a bolsa fria nas têmporas e arquejou de alívio. Quase senti pena dele. Acelerei o carro ainda olhando as janelas de vidro perfeitamente limpas e a piscina maior que minha sala de estar.
Os dois garotos haviam se acomodado no banco traseiro e pareciam muito mais detonados do que imaginei. Bran estava com imensas olheiras sob os olhos, mas firme. Lucca, porém, apesar de um pouco melhor graças à eficácia do remédio, ainda parecia bem mal.
_ Como se sente? – Ana fez a pergunta enquanto os dois estavam ocupados conversando sobre o modelo do meu carro. Vai entender.
_ Fazendo a boa ação do dia. – Sorri irônica.
Suspirei quando vi Lucca olhando para baixo, quase como se não aguentasse ficar ereto. Entreguei minha caneta térmica cheia de café a Bran enquanto revirava os olhos e deva as instruções.
_ Faça-o beber isso e coloque a cabeça dele para fora da janela. O vento frio deve ajudar.
_ Obrigado. – Ele não olhou para mim enquanto bebia grandes goles do líquido escuro. Revirei os olhos. Bran estava me devendo duas agora. E eu ia cobrar.
_ Vai ter que comer bem no almoço e de preferência tomar outro copo desse. – Instruí.
_ Eu sei. – Respondeu seco. – Também fiz medicina, Rafaela.
_ É mesmo? Esqueceu da parte de que beber muito destrói o fígado? – Ele fez uma careta.
_ Eu bebi para não lembrar. – Fingi não escutar. Tentei afastar o pensamento de que essa frase era minha. – Mas não funcionou. – Sussurrou.
Avistei primeiro as cores mal pensadas de verde na frente do hospital. Como previa, amei-as instantaneamente. Estacionei meu carro em uma das vagas do St. Thomas e desci do carro, sendo acompanhada pelos três internos, Lucca já bem melhor.
Andamos a passos largos até a entrada, onde nos entregaram quatro jalecos e os crachás de identificação. Deram-nos instruções para nos dirigirmos ao segundo andar, onde descobriríamos nossa área de atuação e foi o que fizemos.
O andar já estava apinhado com seis pessoas nervosas. Cada um dos participantes havia se sentado em uma das cadeiras da sala de espera e agora conversavam com o colega do lado, sem prestar verdadeira atenção no assunto. Acenei para Hanna, que suspirou satisfeita por encontrar as únicas pessoas com quem havia conversado na festa. Ana sentara-se ao lado de Mitchell, que discretamente reservara um lugar ao seu lado, mas me olhava preocupada, enquanto Bran e Martini recostavam-se na pilastra logo atrás de mim.
_ Rafa. – Hanna cumprimentou. – Pensei que não viriam. A maioria de nós chegou uma hora mais cedo por medo de errar o horário. – Despejou rápido.
_ Tive de buscar Bran e Lucca. – Expliquei enquanto procurava pelo responsável por aquele programa.
_ Vão anunciar onde cada um vai ficar. Mas ainda não chegaram. – Reclamou nervosa. No mesmo momento em que começou a roer as unhas, um homem de jaleco entrou na sala cumprimentando os participantes e aconchegou-se na área reservada para a recepcionista. Imaginei que falaria alguma coisa sobre a importância da medicina como era comum nesses casos, mas se contentou a sorrir.
_ Analisamos sua personalidade nas redes sociais e na forma como se comportaram na festa de ontem e então separamos o grupo em locais de influência. Vocês trabalharão em setores diferentes, mas sempre estarão juntos nas reuniões gerais, então é importante que tentem se dar bem, já que na medicina ninguém trabalha isolado. – O senhor grisalho havia pegado uma caderneta azul e agora chamava cauda um dos participantes e informava sua área de atuação.
Acabei ficando com Diagnóstico e Investigação de Doenças no sexto andar, e Ana estava no terceiro, trabalhando com neurocirurgia. Ela havia ficado perto o bastante do senhor grisalho para saber o que cada um faria e não tardou a me contar tudo quando entramos no elevador vazio a fim de seguir para os andares superiores.
_ Mitchell está na psiquiatria, Hanna na infectologia, Bran na oncologia, Alana no laboratório, Caio na geriatria, Jake na cirurgia geral, Jamile na radiologia e Lucca na UTI pediátrica.
_ UTI pediátrica? – Olhei-a.
_ É. Pagando por todos os pecados dele. – Concordou.
_ Ele tem sorte por não ser neonatal. – Pensei na catástrofe e não tive como deixar de rir.
_ Exato. Mas você foi a melhor. Vai praticamente estar em todas as áreas.
_ Estou rezando para que as crianças estejam saudáveis este ano. – Desci do elevador antes que Ana. O corredor parecia bastante aconchegante. Era bem mais calmo para falar a verdade, cheio de salas espaçosas e ocupadas por médicos debatendo possíveis causas e sintomas. Segui para a última sala onde me foi ordenado e entrei.
Quatro médicos já esperavam por mim, pastas sobre a mesa e sorrisos no rosto. Valentina, a mais velha, já uma senhora, cumprimentou-me primeiro. Depois veio Manuela, Bruna e por fim Téo, o único garoto da equipe.
Por fim, escolhemos aleatoriamente uma das pastas, sentamo-nos na mesa circular e começamos a trabalhar.
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